






Sherrilyn Kenyon

Srie Dark Hunter (1)


     Uma antiga lenda grega.
    
    Possuidor de uma fora suprema e de um valor sem comparao, foi bento pelos deuses, amado pelos mortais e desejado por todas as mulheres que posavam os olhos 
nele. No conhecia a lei, e no acatava nenhuma.
    Sua habilidade na batalha, e seu intelecto superior rivalizavam com os do Aquiles, Ulises e Heracles. dele se escreveu que nem sequer o capitalista Ares em pessoa 
podia lhe derrotar na luta corpo a corpo.
    E, se por acaso o dom do poderoso deus da guerra no tivesse sido suficiente, tambm se dizia que a mesma deusa Afrodita lhe beijou a bochecha ao nascer, e se 
assegurou de que seu nome fosse sempre guardado na memria dos homens.
    Bento pelo divino toque da Afrodita, converteu-se em um homem ao que nenhuma mulher podia lhe negar o uso de seu corpo. Porque, chegados ao sublime Arte do Amor... 
no tinha igual. Sua resistncia ia alm da de qualquer mero mortal. Seus ardentes e selvagens desejos no podiam ser domados. 
    Nem negados.
    De cabelo e pele dourados, e com os olhos de um guerreiro, dele se comentava que sua s presena era suficiente para satisfazer s mulheres, e que com um solo 
roce de sua mo lhes proporcionava um inexprimvel prazer.
    Ningum podia resistir a seu encanto.
    E propenso como era a provocar cimes de outros, conseguiu que lhe amaldioaram. Uma maldio que jamais poderia romper-se.
    
    Como a do pobre Tntalo, sua condenao foi eterna: nunca encontraria a satisfao por mais que a buscasse; desejaria as carcias daquela que lhe invocasse, 
mas teria que lhe proporcionar um prazer delicioso e supremo.
    De lua a lua, jazeria junto a uma mulher e lhe faria o amor, at que fosse obrigado a abandonar o mundo.
    Mas se tem que ser precavida, porque uma vez se conhecem suas carcias, ficam impressas na memria. Nenhum outro homem ser capaz de deixar a essa mulher plenamente 
satisfeita. Porque nenhum varo mortal pode ser comparado a um homem de tal atitude. De tal paixo. De uma sensualidade to atrevida.
    te guarde do Maldito.
    Julin da Macednia.
    Sostenlo sobre o peito e pronuncia seu nome trs vezes a meia-noite, sob a luz da lua enche. Ele vir a ti e at a seguinte lua, seu corpo estar a sua disposio. 
    Seu nico objetivo ser te agradar, te servir.
    te saborear.
    Entre seus braos aprender o significado da palavra "paraso". 
    
    
    Captulo 1
    
    - Cu, necessita que lhe joguem um bom p.
    Grace Alexander se estremeceu ao escutar o grito da Selena em metade do pequeno caf de Nova Orlens, onde se encontravam apurando os restos do almoo, consistente 
em feijes vermelhos com arroz. Infelizmente para ela, a voz de seu amiga possua um encantador timbre agudo que podia fazer-se ouvir inclusive em metade de um furaco. 
    E que nesta ocasio, foi seguido de um repentino silncio no atestado local.
    Ao jogar uma olhada s mesas prximas, Grace percebeu que os homens deixavam de falar, e se giravam para as observar com muito mais interesse do que lhe gostaria. 
    Jesus! Aprender alguma vez Selena a falar em voz baixa? Ou pior ainda, o que ser quo prximo faa, tir-la roupa e danar nua sobre as mesas?
    Outra vez.
    Por ensima vez desde que se conheceram, Grace desejava que Selena pudesse sentir-se envergonhada. Mas sua vistosa, e freqentemente extravagante, amiga no 
conhecia o significado de sorte uma palavra. 
    tampou-se a cara com as mos e fez o que pde por ignorar aos curiosos olheiros. Um desejo irrefrevel de deslizar-se sob a mesa, acompanhado de uma urgncia 
ainda major de dar uma boa patada a Selena, consumiam-na.
    - por que no fala um poquito mais alto, Lanie? -murmurou-. Suponho que os homens do Canad no tero podido te escutar.
    - OH, no sei -disse o muito bonito garom moreno ao deter-se junto a sua mesa-. Certamente se dirigem para aqui enquanto falamos.
    Um calor abrasador tomou por assalto as bochechas do Grace ante o diablico sorriso que lhe dedicou o garom, obviamente em idade de ir  universidade. 
    - Posso lhes oferecer algo mais, senhoras? -perguntou, e depois olhou diretamente ao Grace-. Ou para ser mais exatos, h algo que possa fazer por voc, senhora?
    Que tal uma bolsa com a que me tampar a cabea e um pau para golpear ao Lanie?
    - Acredito que j acabamos -respondeu Grace com as bochechas ardendo. Definitivamente, mataria a Selena por isso-. S necessitamos a conta. 
    - Muito bem, ento -disse tirando a nota, e escrevendo algo na parte superior do papel. Colocou-a justo diante do Grace-. Pode me fazer uma llamadita se necessitar 
algo. 
    Uma vez o garom partiu, Grace se deu conta de que tinha cotado seu nome e seu telefone na parte superior do papel.
    Selena lhe jogou uma olhada e soltou uma gargalhada.
    - Espera e ver -lhe disse Grace, reprimindo um sorriso enquanto calculava a importncia da metade da conta com seu Palm Pilot-. Me pagar isso.
    Selena ignorou a ameaa e se dedicou a procurar o dinheiro em sua bolsa adornada com contas.
    - Sim, sim. Isso o diz agora. Se eu estivesse em seu lugar, marcaria esse nmero.  muito bonito o menino.
    - Jovencsimo -corrigiu Grace-. E acredito que vou passar. Quo ltimo preciso  que me encerrem por corrupo de menores.
    Selena passeou o olhar pelo preciso lugar onde o garom esperava, com um quadril apoiado na barra. 
    - Sim, mas dom Sou Igualito ao Brad Pitt, que est a em frente, bem o merece. Pergunto-me se ter algum irmo maior...
    - E eu me pergunto quanto estaria disposto a pagar Bill por saber que sua mulher se aconteceu todo o almoo comendo-se com os olhos a um guri. 
    Selena soprou enquanto deixava o dinheiro sobre a mesa.
    - No me estou comendo isso. Estou-o avaliando para ti. depois de tudo, era de sua vida sexual do que falvamos.
    - Bom, minha vida sexual  sensacional e no lhe interessa s pessoas que nos rodeia. -E detrs soltar o dinheiro na mesa, agarrou a ltima parte de queijo e 
se encaminhou para a porta.
    - No te zangue -lhe disse Selena enquanto saa atrs dela  rua, lotada de turistas e dos clientes habituais dos estabelecimentos do Jackson Square.
    As notas de jazz de um solitrio saxofone se escutavam por cima da cacofonia de vozes, cavalos e motores de automveis; uma quebra de onda de calor tpico de 
Louisiana as recebeu ao sair  rua.
    Tentado no fazer caso do ar, to espesso que dificultava a respirao, Grace se abriu caminho entre a multido e as bancas ambulantes, dispostos ao longo da 
cerca de ferro que rodeava Jackson Square.
    - Sabe que  certo -lhe disse Selena uma vez a alcanou-. Quero dizer, Meu deus, Grace!, quanto faz? Dois anos?
    - Quatro -respondeu ela com ar ausente-. Mas a quem lhe interessa levar a conta?
    - Quatro anos sem ter relaes sexuais? -repetiu Selena incrdula.
    Vrios olheiros se detiveram, curiosos, para observar alternativamente a Selena e ao Grace. 
    Alheia -como era habitual nela-  ateno que despertavam, Selena continuou sem deter-se.
    - No me diga que voc esqueceste que estamos em plena Era da Eletrnica. Ou seja, vamos ver, algum de seus pacientes sabe que leva tanto tempo sem jogar um 
p?
    Grace acabou de tragar a parte de queijo e dedicou a seu amiga um desagradvel e furioso olhar.  que a inteno da Selena era a de gritar a todo pulmo, em 
plena Vieux Carre, seus assuntos pessoais a tudo humano e cavalo que passasse pela zona?
    -Baixa a voz -lhe disse, e acrescentou com secura-, no acredito que seja da incumbncia de meus pacientes se for ou no a reencarnao da Virgem. E com respeito 
 Era da Eletrnica, no quero ter uma relao com algo que vem acompanhado de uma etiqueta com advertncias e umas pilhas. 
    Selena soltou um bufido.
    - Sim, vale, te ouvindo falar se diria que a maioria dos homens deveriam vir acompanhados de uma etiqueta com esta advertncia: -elevou as mos para emoldurar 
a seguinte afirmao- Ateno, por favor, Alerta Psquica. Eu, macho-man, sou propenso a sofrer horrveis mudanas de humor, e a pr caras largas, e possuo a habilidade 
de dizer a verdade a uma mulher sobre seu peso, sem prvio aviso.
    Grace soltou uma gargalhada. Tinha solto de carrinho de mo, em inumerveis ocasione, esse discursito sobre as etiquetas que deveriam levar os homens.
    - Ah, j o entendo, Doutora Amor -disse Selena imitando a voz da doutora Ruth-. Voc se limita a sentar-se e escutar como seus pacientes lhe largam todos os 
detalhes ntimos de seus encontros sexuais, enquanto voc vive como um membro vitalcio do "Clube das Calcinhas do Tefln". -baixando a voz, Selena acrescentou:- 
No posso acreditar que depois de tudo o que escutaste em suas sesses, nada tenha conseguido revolucionar seus hormnios.
    Grace lhe lanou um olhar divertido.
    - Bom, a ver, sou uma sexloga. No me beneficiaria muito que meus pacientes se dedicassem a me fazer experimentar a petit mort enquanto jogam fora todos seus 
problemas. Srio, Lanie, perderia o ttulo.
    - Pois no entendo como pode lhes aconselhar, quando nem sequer te aproxima de um homem.
    Fazendo uma careta, Grace comeou a caminhar para o lado oposto da praa, justo frente ao Escritrio de Informao Turstica, onde Selena tinha instalado seu 
puestecillo para jogar as cartas e ler as linhas das mos. Quando chegou  banca -uma mesa coberta com uma faldilla de cor arroxeado intenso-, suspirou.
    - Sabe que no me importaria ficar com um homem que se merecesse que me depilasse as pernas. Mas a maioria resulta ser uma perda de tempo to evidente que prefiro 
me sentar no sof e ver as reposies do Hee Haw.
    Selena lhe dedicou uma expresso irritada.
    - O que tinha de mau Gerry?
    - Mau flego.
    - E Jamie?
    - adorava pinar-se no nariz. Especialmente durante o jantar.
    - Tony?
    Grace olhou a Selena e esta elevou as mos.
    - Vale, possivelmente tivesse um pequeno problema com o das apostas. Mas  que todos precisamos nos distrair com algo.
    Grace a olhou furiosa.
    - N, Madam Selene, j retornaste que almoar? -perguntou-lhe Sunshine do puestecillo situado justo ao lado do dele, no que vendia objetos de loua e desenhos, 
feitos por ela.
    Uns anos mais jovem que elas, Sunshine tinha uma larga juba negra e sempre levava roupas que ao Grace faziam pensar que estava diante de uma fada. Sua vestimenta 
de hoje consistia em uma liviana saia branca, que tivesse resultado obscena de no ser pelos meias-calas rosados que levava debaixo, e uma preciosa camisa de estilo 
medieval.
    - Sim, j tornei -lhe respondeu Selena enquanto se ajoelhava para abrir a tampa do carrinho da compra que todas as manhs assegurava  grade de ferro com uma 
dessas cadeias que se usam para as bicicletas-. Algo interessante durante minha ausncia?
    - Um par de meninos agarraram um de seus cartes, e disseram que retornariam depois de comer.
    - Obrigado -disse Selena guardando o moedeiro no carro, tirou a caixa de puros azul onde guardava o dinheiro e as cartas de tarot -sempre envoltas em um leno 
de seda negra-, e um magro, mas gigantesco, libero com tampas de couro marrom que Grace no tinha visto nunca.
    Selena se colocou seu enorme chapu de palha de palha, deu-se a volta e ficou em p.
    - Seus artigos tm os preos marcados? -perguntou ao Sunshine.
    - Sim -lhe respondeu esta enquanto agarrava seu moedeiro-. Sigo dizendo que traz m sorte; mas ao menos, se algum quer saber o que valem quando no estou, pode 
averigu-lo. 
    Uma motocicleta de aspecto desastroso freou a certa distncia.
    - N, Sunshine! -gritou o condutor-. Move o culo. Tenho fome.
    A garota lhe saudou sem fazer caso  ordem.
    - No me curve ou comer voc s -lhe respondeu enquanto caminhava sem pressas para ele, e subia  parte traseira da moto. 
    Grace moveu a cabea enquanto lhes observava. Sunshine necessitava que algum lhe aconselhasse sobre suas entrevistas, muito mais que ela. Seguiu-lhes com o 
olhar enquanto passavam diante do Caf du Pode.
    - OH! Um beignet seria uma estupenda sobremesa.
    - A comida no pode substituir ao sexo -lhe disse Selena enquanto colocava as cartas e o livro sobre a mesa-. No  isso o que sempre diz...?
    - De acordo, o ponto  teu. Mas, Lanie, srio, a que vem este repentino interesse em minha vida sexual? Melhor dizendo, em minha falta dela.
    Selena agarrou o livro.
    - A que tenho uma idia.
    O calafrio que sentiu ante as palavras da Selena lhe chegou at os ossos, e isso que o calor era cansativo. E ela no se assustava facilmente. Bom, a no ser 
que seu amiga estivesse envolta com uma de suas idias tpicas de "mame galinha". 
    - No ser outra sesso de espiritismo?
    - No, isto  melhor.
    Em seu interior, Grace se encolheu e comeou a perguntar-se o que seria de sua vida nesses momentos se tivesse tido uma companheira de habitao normal o primeiro 
ano no Tulane, em lugar da Selena Quero Ser Uma Cigana Travessa. De algo estava segura: no estaria discutindo de sua vida sexual em meio de uma rua cheia de gente.
    Nesse momento, fixou-se em quo diferentes eram. Ela suportava o mido calor com um ligeiro vestido sem mangas de seda cor nata, do Ralph Lauren, e levava o 
cabelo escuro recolhido em um sofisticado coque. Em contraste, Selena levava uma larga e vaporosa saia negra com um apertado Top de suspensrios arroxeado que apenas 
lhe cobria seus generosos seios. O cabelo castanho e encaracolado, que chegava aos ombros, estava recolhido com um leno de seda negra, com bolinhas semelhantes 
s de um leopardo. O traje se completava com uns enormes pendentes de prata, em forma de lua enche, que penduravam virtualmente at os ombros. Sem mencionar a jazida 
de prata que se colocou em ambas as bonecas, em forma de cento e cinqenta braceletes. Braceletes que tilintavam cada vez que se movia.
    A gente sempre tinha reparado em suas diferenas fsicas, mas ela sabia que Selena escondia uma mente ardilosa e uma grande insegurana sob seu "extico" traje. 
por dentro, pareciam-se muito mais do que qualquer podia imaginar.
    Exceto na estranha crena que Selena tinha desenvolvido pelo ocultismo. 
    E em seu insacivel apetite sexual.
    Aproximando-se dela, Selena deixou o livro nas mos -pouco dispostas a agarrar o do Grace e comeou a passar folhas. As arrumou para no deix-lo cair. 
    E para no pr os olhos em branco pela exasperao que a invadia.
    - Encontrei isto o outro dia, nessa velha livraria que h junto ao Museu de Cera. Estava talher por uma montanha de p; tentava encontrar um livro sobre psicometra 
quando de repente vi este, Voil! -disse assinalando triunfalmente  pgina.
    Grace olhou o desenho e ficou com a boca aberta.
    Jamais tinha visto um pouco parecido.
    O homem do desenho era fascinante, e a pintura estava realizada com assombroso detalhe. Se no fosse pelas marcas deixadas na pgina ao ter sido impressa, diria-se 
que se tratava de uma fotografia atual de alguma antiga esttua grega.
    No, corrigiu-se a se mesma: de um deus grego. Estava claro que nenhum mortal podia jamais ter essa pinta to fantstica.
    Gloriosamente nu, o tipo exsudava poder, autoridade e uma lhe esmaguem e selvagem sexualidade. Embora sua pose parecesse ser casual, dava a sensao de estar 
contemplando um depredador preparado para ficar em ao em qualquer momento.
    As veias lhe marcavam naquele corpo perfeito que prometia possuir uma fora inigualvel, desenhada especificamente para proporcionar prazer a uma mulher.
    Com a boca seca, Grace observou os msculos, que tinham as propores adequadas para sua altura e seu peso. Contemplou a profunda fenda que separava os duros 
peitorais e baixou at o estmago -esculpido com forma de tablete de chocolate-, que suplicava ser acariciado por uma mo feminina.
    E ento chegou ao umbigo.
    E depois a...
    Bom, no lhes tinha ocorrido tampar aquilo com uma folha de parra. E por que deveriam hav-lo feito? Quem, em seu so julgamento, ia querer ocultar uns atributos 
masculinos to estupendos? E seguindo com aquela linha de pensamento, quem necessitaria um artefato com pilhas tendo aquilo em sua casa? 
    umedeceu-se os lbios e voltou para a cara.
    Enquanto contemplava os afiados e arrumados contornos do rosto, e os lbios -com um diablico sorriso logo que esboado-, assaltou-lhe a imagem de uma ligeira 
brisa agitando essas loiras mechas, esclarecidos pelo sol, que se encrespavam ao redor do pescoo, especialmente desenhado para cobrir o de midos beijos. E daqueles 
penetrantes olhos de cor azul metlica, enquanto elevava uma lana sobre a cabea, e gritava. 
    O sufocante ar que lhe rodeava se estremeceu ligeiramente de forma repentina, e lhe acariciou as partes de seu corpo expostas  brisa.
    Quase podia escutar o profundo timbre da voz do tipo, e sentir como aqueles musculosos braos a envolviam e a atraam para um peito duro como uma rocha, enquanto 
seu quente flego lhe roava a orelha.
    Percebia umas mos fortes e peritas que vagavam por seu corpo, e lhe proporcionavam um deleite delicioso, enquanto procuravam seus mais recnditos lugares.
    Um calafrio lhe percorreu as costas e o corpo comeou a lhe palpitar em zonas onde nunca tinha pensado que aquilo pudesse ocorrer. Sentia uma dor feroz e exigente 
que jamais tinha experiente. 
    Piscou e voltou a olhar a Selena, para ver se tambm ela se viu afetada do mesmo modo. Mas se assim era, no dava sinais disso.
    Devia estar alucinando. Exato! As especiarias dos feijes lhe tinham chegado ao crebro e o tinham convertido em mingau.
    - O que opina dele? -perguntou-lhe Selena, olhando-a por fim aos olhos.
    Grace se encolheu de ombros, em um esforo por esquecer a fogueira que abrasava seu corpo. Mas seus olhos voltaram a atrasar-se nas perfeitas formas do homem.
    - parece-se com um paciente que teve entrevista ontem.
    Bom, no era exatamente certo... o menino que tinha estado em sua consulta era medianamente atrativo, mas nada que ver com o homem do desenho.
    Jamais tinha visto algo assim em toda sua vida!
    - De verdade? -os olhos da Selena adquiriram um matiz escuro que prognosticava o comeo de seu sermo sobre as oportunidades de conseguir uma entrevista e a 
interveno do destino. 
    - Sim -disse cortando a Selena antes de que pudesse comear a falar-. Me disse que era uma lsbica apanhada no corpo de um homem.
    Selena abriu a boca, muda de assombro. Agarrou o livro, tirando-lhe ao Grace das mos, e o fechou com fora enquanto a olhava furiosa.
    - Sempre conhece as pessoas mais estranhas.
    Grace elevou uma sobrancelha.
    - Nem te ocorra diz-lo -disse Selena enquanto ocupava seu stio habitual depois da mesa. Colocou o livro a seu lado-. Lhe advirto isso; isto -disse, dando dois 
golpecitos ao livro-  o que est procurando.
    Grace olhou fixamente a seu amiga enquanto pensava no absolutamente convincente que parecia Madam Selene -autoproclamada Senhora da Lua-, sentada atrs de suas 
cartas de tarot, com aquela mesa morada, e o misterioso livro sob as mos. Nesse momento, quase podia acreditar que Selena era em realidade uma esotrica cigana. 
    Se acreditasse nessas coisas.
    - Vale -disse Grace dando-se por vencida-. Deixa de falar com rodeios e me diga o que tm que ver esse livro e esse desenho com minha vida sexual.
    O rosto da Selena adotou uma expresso bastante sria.
    - O tipo que te ensinei... Julin...  um escravo sexual grego que est obrigado a cumprir os desejos daquela que lhe invoque, e a ador-la.
    Grace riu com vontades. Sabia que estava sendo muito mal educada, mas no pde evit-lo. Como demnios ia acreditar Selena, uma licenciada em histria antiga 
e em fsica, premiada com a beca Rhodes, e com um doutorado em filosofia, em um pouco to ridculo, at com todas suas excentricidades?
    - No te ria. Digo-o a srio.
    - J sei, isso  o que me faz graa -se esclareceu garganta e se serenou-. Vale, o que tenho que fazer?, me tirar a roupa e danar nua no Pontchartrain a meia-noite? 
-um leve intento de sorriso curvou seus lbios, sem lhe importar que os olhos da Selena se obscurecessem a modo de aviso-. Tem razo, encarregarei-me de conseguir 
uma boa sesso de sexo, mas no acredito que seja com um esplndido escravo sexual grego.
    O livro caiu da mesa.
    Selena deu um grito, levantou-se de um salto e atirou a cadeira.
    Grace ofegou.
    - Empurrou-o com o cotovelo, verdade?
    Selena negou com a cabea muito devagar; tinha os olhos abertos como pratos.
    - Confessa-o, Lanie.
    - No fui eu -disse com uma expresso mortalmente sria-. Acredito que o ofendeu.
    Movendo a cabea ante aquela necedad, Grace tirou da bolsa os culos de sol e as chaves. Bem, estupendo, isto se parecia com a poca da faculdade, quando Lanie 
lhe falou de usar uma Ouija, e o forjou tudo para que lhe dissesse que ia se casar com um deus grego quando cumprisse os trinta anos, e que ia ter seis filhos com 
ele.
    At o dia de hoje, Selena se negava a admitir que tinha sido ela a que dirigisse o ponteiro.
    E, neste preciso momento, fazia muito calor sob o implacvel sol de agosto para discutir.
    - Olhe, preciso retornar ao despacho. Tenho uma entrevista s dois em ponto e no quero agarrar um entupo -lhe disse enquanto ficava as Ray-Ban-. Vir ento 
esta noite?
    - No me perderia isso por nada do mundo. Levarei o vinho.
    - Bem, vejo-te as oito. -E fez uma larga pausa para acrescentar:- lhe diga ao Bill que ol e que obrigado por te deixar me visitar por meu aniversrio.
    Selena a observou afastar-se e sorriu.
    - Espera a ver seu presente -sussurrou, e recolheu o livro do cho. Passou a mo pela suave tampa de couro esculpido, e tirou umas bolinhas de p.
    Voltou a abri-lo e observou de novo o maravilhoso desenho; aqueles olhos tinham sido desenhados com tinta negra, e mesmo assim, davam a impresso de ser de um 
profundo azul cobalto.
    Por uma s vez seu feitio ia funcionar. Estava segura.
    - Voc gostar de Grace, Julin -murmurou dirigindo-se ao homem enquanto percorria com os dedos seu corpo perfeito-. Mas devo te advertir algo: acabaria com 
a pacincia de um santo. E transpassar suas defesas vai resultar mais duro que abrir uma brecha na muralha da Troya. No obstante, se algum pode ajud-la, esse 
 voc.
    Sentiu que o livro desprendia uma sbita quebra de onda de calor sob sua mo, e soube instintivamente que era a forma que Julin escolhia para lhe dar a razo.
    Grace pensava que estava louca por causa de suas crenas, mas sendo a stima filha de uma stima filha, e com o sangue cigana que corria por suas veias, Selena 
sabia que havia certas coisas na vida que desafiavam qualquer explicao. Certas correntes de energia misteriosa que passavam desapercebidas, esperando que algum 
as canalizasse.
    E essa noite haveria lua enche.
    Devolveu o livro  segurana do carrinho da compra e o fechou com chave. Estava segura que tinha sido coisa do destino que o livro chegasse at ela. Havia sentido
sua chamada logo que se aproximou da estantera onde jazia.
    Posto que levava dois anos felizmente casada, soube que no estava destinado a ela. Usava-a para chegar onde o necessitavam.
    At o Grace.
    Seu sorriso se alargou. Como seria ter a este incrivelmente arrumado escravo sexual grego a sua disposio e dispor dele durante todo um ms...
    Sim. Este era, definitivamente, um presente de aniversrio que Grace recordaria durante o resto de sua vida. 
    Captulo 2
    
    
    Umas horas mais tarde, Grace suspirou ao abrir a porta de seu duplex e pr o p no estou acostumado a encerado do vestbulo. Deixou o monto de cartas que levava 
na mo sobre a antiga mesa de asas abatibles, que decorava o rinco adjacente  escada, e fechou a porta atrs dela, jogando o fecho. As chaves foram parar ao lado 
da correspondncia.
    Enquanto se tirava a puxes os sapatos negros de salto, o silncio lhe golpeou os ouvidos e lhe formou um n na garganta. Todas as noites a mesma rotina tranqila: 
entrar em um lar vazio, classificar o correio, ler um livro, chamar a Selena, comprovar a secretria eletrnica e ir-se  cama.
    Selena tinha razo, a vida do Grace era uma aborrecida e direta investigao sobre a monotonia.
    Aos vinte e nove anos, Grace estava muito cansada de sua vida.
    Demnios!, inclusive Jamie -o incansvel buscador de tesouros nasais- comeava a parecer atrativo.
    Bom, possivelmente Jamie no. E menos seu nariz, mas seguro que havia algum a fora, em algum lugar, que no era um cretino.
    Ou no?
    Enquanto subia as escadas, decidiu que viver de forma independente no era to espantoso. Ao menos, tinha muito tempo para dedicar a seus entretenimentos favoritos.
    Ou tambm poderia procurar novos passatempos, pensava enquanto caminhava pelo corredor que levava a seu dormitrio. Algum dia, encontraria um entretenimento 
divertido. 
    Cruzou a habitao e deixou cair os sapatos junto  cama. No demorou nada em trocar-se de roupa.
    Acabava de recolher o cabelo em um acrscimo quando soou o timbre.
    Baixou de novo as escadas para deixar passar a Selena.
    logo que abriu a porta, seu amiga lhe soltou zangada:
    - No irs pr te isso esta noite, verdade?
    Grace jogou uma olhada aos jeans cheios de buracos e depois se fixou em sua enorme camiseta de manga curta.
    - Desde quando se preocupa meu aspecto? -E ento o viu; na enorme cesta de vime que Selena utilizava para levar as compras-. Uf! No. Esse livro outra vez, no.
    Com uma expresso ligeiramente irritada, Selena lhe respondeu:
    - Sabe qual  seu problema, Gracie?
    Grace olhou ao teto, rogando aos cus um pouco de ajuda. Infelizmente, no a escutaram.
    - Qual? Que no me transtorna a luz da lua e que no arrojo meu gordo e sardento corpo sobre qualquer homem que conheo?
    - Que no tem nem idia de quo encantadora  em realidade. 
    Enquanto Grace ficava ali plantada, muda de assombro ante o pouco freqente comentrio, Selena levou o livro a salita de estar e o colocou sobre a mesita de 
caf. Tirou o vinho da cesta e se dirigiu  cozinha. 
    Grace no se incomodou em segui-la. Tinha encarregado uma pizza antes de sair do trabalho, e sabia que Selena estaria procurando umas taas.
    Empurrada por uma mola invisvel, Grace se aproximou da mesita onde estava o livro.
    Espontaneamente, estendeu a mo e tocou a suave coberta de couro. Poderia jurar que havia sentido uma carcia na bochecha.
    Que ridicularia.
    No crie neste lixo.
    Grace passou a mo pelo couro e notou que no havia ttulo, nem nenhuma outra inscrio. Abriu a tampa.
    Era o livro mais estranho que tinha visto em sua vida. As pginas pareciam ter formado parte, originariamente, de um cilindro de pergaminho, que mais tarde tinha 
sido transformado em um livro 
    O amarelado papel se enrugou baixos seus dedos ao passar a primeira pgina; nela havia um elaborado smbolo feito a mo, formado pela intercesso de trs tringulos 
e a atraente imagem de trs mulheres unidas por vrias espadas.
    Grace franziu o cenho esforando-se por recordar se aquilo podia ser uma espcie de antigo smbolo grego.
    Ainda mais intrigada que antes, passou umas quantas pginas e descobriu que estava completamente em branco, exceto aquelas trs folhas...
    Que estranho...
    Devia ter sido algum tipo de caderno de esboos de um pintor, ou de um escultor, decidiu. Isso seria quo nico explicasse que as pginas estivessem em branco. 
Algo teve que acontecer antes de que o artista tivesse oportunidade de acrescentar algo mais ao livro.
    Mas isso no acabava de explicar por que as pginas pareciam muito mais antigas que a encadernao...
    Retrocedeu at chegar ao desenho do homem, e observou com ateno a inscrio que havia sobre ele, mas no pde tirar nada em claro. Ao contrrio que Selena, 
ela evitou as classes de lnguas antigas na faculdade como se fossem veneno; e se no tivesse sido por seu amiga, jamais teria superado aquela parte fundamental 
em seu currculum.
    - Definitivamente, acredito que  grego -disse sem flego quando voltou a olhar ao homem.
    Era surpreendente. Absolutamente perfeito e incitante.
    Incrivelmente fascinante.
    Cativada por completo, perguntou-se quanto tempo se demoraria para fazer um desenho to perfeito. Algum devia ter acontecido anos dedicado  tarefa; porque 
aquele tipo parecia estar preparado para saltar do livro e meter-se em sua casa.
    Selena se deteve na entrada e observou como Grace olhava fixamente ao Julin. Nunca a tinha visto to extasiada desde que a conhecia. 
    Bem.
    Possivelmente Julin pudesse ajud-la.
    Quatro anos eram muito tempo.
    Mas Paul tinha sido um porco narcisista e desconsiderado. comportou-se de um modo to cruel com o Grace e com seus sentimentos, que inclusive a tinha feito chorar 
a noite que perdeu a virgindade.
    E nenhuma mulher merecia chorar. No quando estava com algum que tinha prometido cuidar dela.
    Julin seria definitivamente bom para o Grace. Um ms com ele e esqueceria todo o referente ao Paul. E, uma vez que descobrisse quo bem sabia o sexo compartilhado 
e real, liberaria-se da crueldade do Paul para sempre. 
    Mas, primeiro, tinha que conseguir que sua teimosa amiguita fosse um pouco mais obediente. 
    - encarregaste a pizza? -perguntou-lhe enquanto lhe oferecia uma taa de vinho.
    Grace a colheu com um gesto distrado. Por alguma razo, no podia apartar os olhos do desenho.
    - Grace?
    Piscou e se obrigou a olhar para cima.
    - Hum?
    - Pilhei-te olhando -brincou Selena.
    Grace se esclareceu garganta.
    - OH, por favor!, no  mais que um pequeno desenho em branco e negro.
    - Cu, nesse desenho no h nada pequeno.
    - Selena,  m.
    - Completamente certo. Mais vinho?
    E como se tivessem estado esperando o momento preciso, soou o timbre.
    - Eu vou -disse Selena, colocando o vinho na mesita do telefone para dirigir-se ao saguo.
    Uns minutos depois, voltou para a salita. At o Grace chegou o maravilhoso aroma da enorme pizza de pepperoni e seus pensamentos deixaram a um lado o livro. 
E ao homem cuja imagem parecia haver-se gravado em seu subconsciente.
    Mas no resultou fcil.
    De fato, cada minuto que passava parecia mais difcil.
    Que demnios lhe passava? Era a Rainha de Gelo. Nem sequer Brad Pitt ou Brendan Fraser despertavam seus desejos. E os via em cor.
    O que tinha que estranho naquele desenho?
    Nele?
    Mordiscou a pizza e se trocou de assento. acomodou-se em uma poltrona na outra ponta da sala, a modo desafio pessoal. Sim. Demonstraria a Selena e ao livro que 
ela dominava a situao.
    depois de quatro pores de pizza, dois pastelitos de chocolate, quatro taas de vinho e um filme, riam a mais no poder tombadas no cho sobre as almofadas 
do sof enquanto viam Dezesseis velas.
    - "Diz que  seu aniversrio" -comeou Selena a cantar, e ato seguido golpeou o cho como se de uns bongos se tratasse- "Tambm  o meu".
    Grace lhe golpeou a cabea com uma almofada e lhe deu a risada tola ao comprovar os efeitos do vinho.
    - Grace? -disse Selena zombadora-. Est achispada?
    Grace voltou a rir.
    - Mas bem, agradavelmente contente.  Maravilhosamente contente.
    Selena riu dela e lhe desfez o acrscimo.
    - Ento, est disposta a fazer um pequeno experimento?
    - No! -gritou Grace com nfase, sujeitando-os mechas de cabelo depois das orelhas-. No quero utilizar a Ouija, nem fazer o do pndulo e te juro que se vir 
uma s carta do Tarot ou uma runa, vomitarei-te em cima os pastelitos.
    Mordendo o lbio, Selena agarrou o livro e o abriu.
    As doze menos cinco.
    Sustentou o desenho para que Grace o observasse e assinalou aquele incrvel corpo.
    - O que opina dele?
    Grace o olhou e sorriu.
    - Est para lamber-se, verdade?
    Bom, definitivamente a coisa ia progredindo. No conseguia recordar a ltima vez que Grace lhe tinha dedicado um completo a um homem. Moveu juguetonamente o 
livro frente ao rosto de seu amiga.
    - Venha, Gracie. Admite-o. Deseja a este bombom.
    - Se te disser que no lhe deixaria sair de minha cama nem em troca de umas bolachas salgadas, deixaria-me em paz?
    - Pode. A que mais renunciaria por mant-lo em sua cama?
    Grace ps os olhos em branco e apoiou a cabea sobre uma almofada.
    - A comer miolos de macaco  prancha?
    - Agora sou eu a que vai vomitar.
    - No est emprestando ateno ao filme.
    - Farei-o se pronunciar este feitio to curto.
    Grace elevou as mos e suspirou. Sabia que no merecia a pena discutir com a Selena... tinha aquela expresso. No se deteria at sair-se com a sua, nem que 
casse um meteorito sobre elas nesse mesmo momento.
    Alm disso, o que tinha que mau? J fazia muito tempo que sabia que nenhum dos estpidos rituais e encantamentos da Selena funcionavam. 
    - Vale, se assim se sentir melhor, farei-o.
    - Sim! -gritou Selena e a agarrou por um brao para p-la em p-. Precisamos sair ao alpendre.
    - Muito bem, mas no vou cortar lhe o pescoo a um frango, nem vou beber nada asqueroso.
    Com a sensao de ser uma menina a que tinham deixado dormir em casa de uma amiga, e que acabava de perder no jogo de verdade-Atrevimento, deixou que Selena 
a precedesse atravs da porta trilho de cristal que dava ao alpendre. O ar mido encheu seus pulmes, escutou aos grilos cantar e descobriu milhares de estrelas 
brilhando sobre sua cabea. Grace sups que era uma noite perfeita para invocar a um escravo sexual.
    riu pelo baixo.
    - O que quer que faa? -perguntou a Selena-. Pedir um desejo a um planeta?
    Selena negou com a cabea e a colocou em metade de um raio de lua que penetrava entre as rvores e o beiral do telhado. Ofereceu-lhe o livro.
    - Apia-o no peito e abraa-o com fora.
    - OH, nen! -disse Grace com fingido desejo enquanto envolvia amorosamente o livro com seus braos e o aproximava de seu peito, como se de um amante se tratasse-. 
Me pe to brincalhona... No posso esperar a afundar meus dentes nesse maravilhoso corpo que tem.
    Selena riu.
    - Para. Isto  srio!
    - Srio? Por favor. Estou aqui fora em metade do alpendre, o dia de meu trigsimo aniversrio, descala, com uns jeans aos que minha me lhes prenderia fogo 
e abraando um estpido livro para invocar a um escravo sexual grego que est no mais  frente -olhou a Selena-. S conheo uma maneira de fazer que isto seja ainda 
mais ridculo...
    Sustentando o livro com uma s mo, estendeu os braos a ambos os lados, jogou a cabea para trs e comeou a rogar ao escuro cu:
    - OH! Fabuloso escravo sexual, me leve contigo e me faa todas as coisas escandalosas que saiba. Ordeno-te que te levante -disse, elevando as sobrancelhas.
    Selena soprou.
    - Assim no  como deve faz-lo. Tem que dizer seu nome trs vezes.
    Grace se endireitou.
    - Escravo sexual, escravo sexual, escravo sexual.
    Com os braos em jarras, Selena lhe lanou um furioso olhar.
    - Julin da Macednia.
    - OH! Sinto-o -disse Grace voltando a apertar o livro sobre o peito, e fechando os olhos-. Vem e alivia a dor que sinto em minhas partes baixas, OH! Grande 
Julin da Macednia, Julin da Macednia, Julin da Macednia -se girou para olhar a Selena-. Sabe? Isto  um pouco difcil de pronunciar trs vezes seguidas, e 
to rpido.
    Mas seu amiga no lhe emprestava a mais mnima ateno. Estava muito ocupada olhando por todos lados, esperando a apario de um arrumado estranho.
    Grace acabava de pr outra vez os olhos em branco, quando um ligeiro sopro de vento cruzou o ptio e um suave aroma a sndalo as envolveu. Voltou a inalar para 
recrear-se de novo no agradvel aroma antes de que se evaporasse, e ento a brisa desapareceu, deixando de novo o caloroso e mido abafado, tpico de uma noite de 
agosto.
    De repente, escutou-se um dbil som procedente do ptio traseiro, e as folhas dos arbustos se moveram.
    Arqueando uma sobrancelha, Grace contemplou como as novelo se balanavam. E ento, o fantasia de diabo que havia nela cobrou vida.
    - OH, Meu deus! -balbuciou e assinalou a um arbusto do ptio traseiro-. Selena, olhe ali!
    Selena se girou a toda pressa ante o nervosismo do Grace. Um enorme sebe se balanava como se houvesse algum detrs.
    - Julin? -chamou-lhe Selena, e deu um passo para diante.
    O arbusto se inclinou e, sbitamente, um vaio e um miau romperam o silncio, um segundo antes de que dois gatos cruzassem o ptio como uma exalao.
    - Olhe, Lanie.  o senhor Dom Gato que deve pr fim a meu celibato -sustentou o livro com um brao e se levou o dorso da mo  frente, em um simulacro de desmaio-. 
OH, me ajude Senhora da Lua! O que vou fazer com as cuidados de to desacertado pretendente? me ajude rpido, antes de que me mate por causa da alergia.
    - me d esse livro -lhe espetou Selena tirando-se o de um puxo. Retornou  casa enquanto passava as pginas-. Joder!, o que tenho feito mal?
    Grace abriu a porta para que Selena passasse ao afresco interior da sala.
    - No fez nada mal, cu. Isto  absurdo. Quantas vezes tenho que te dizer que h um viejecillo sentado na parte traseira de um armazm, escrevendo toda esta 
porcaria? Apostaria a que agora mesmo est partindo-se da risada por quo imbecis fomos. 
    - Possivelmente era necessrio fazer algo mais. Jogo-me o que seja a que h algo nos primeiros pargrafos que no posso interpretar. Deve ser isso.
    Grace fechou a porta de cristal e suplicou um pouco mais de pacincia.
    E me chama teimosa, a mim!
    O telefone soou nesse instante e, ao respond-lo, Grace escutou a voz do Bill perguntado pela Selena.
    -  para ti -disse lhe alargando o auricular.
    Selena o agarrou.
    - Sim? -manteve-se em silncio uns minutos. Grace podia escutar a voz nervosa do Bill. Pela repentina palidez do rosto de seu amiga, deduziu que algo tinha passado. 
    - Vale, vale. Chegarei em seguida. Est seguro de que te encontra bem? Vale, quero-te. Vou de caminho... no faa nada at que eu chegue.
    Grace sentiu um horrvel n no estmago. Uma e outra vez, voltava a ver a polcia na porta de seu dormitrio, e a escutar sua desapaixonada voz: Sinto muito 
lhe informar...
    - O que acontece? -perguntou Grace.
    - Bill se tem cansado jogando a basquete e se quebrado um brao.
    Deixou escapar o flego mais tranqila. Obrigado Senhor, no foi um acidente de carro.
    - encontra-se bem?
    - Diz que sim. Seus amigos lhe levaram a um mdico de guarda que lhe fez uma radiografia antes de que partissem. Disse-me que no me preocupasse, mas acredito 
que  melhor que volte para casa. 
    - Quer que te leve em meu carro?
    Selena negou com a cabea.
    - No, tomaste muito vinho; eu bebi menos. Alm disso, estou segura de que no  nada srio. Mas j sabe quo apreensiva sou. Fique aqui e desfruta do que fica 
de filme. Chamarei-te amanh pela manh.
    - Vale. me avise se for grave.
    Selena agarrou a bolsa e tirou as chaves. deteve-se metade de caminho e alargou o livro ao Grace.
    - Que demnios! Fique o Suponho que nos prximos dias te ajudar a rir a gargalhadas cada vez que te lembre de quo idiota sou. 
    - No  idiota. Simplesmente, um pouco excntrica.
    - Isso  o que diziam da Mary Todd Lincoln. At que a encerraram.
    Grace agarrou o livro, rendo-se a gargalhadas, e observou como Selena caminhava para seu carro.
    - Tome cuidado -gritou da porta-. E obrigado pelo presente, e pelo que esteja por vir.
    Selena lhe disse adeus com a mo antes de subir a seu Jipe Cherokee de cor vermelha brilhante e afastar-se.
    Com um suspiro de cansao, Grace fechou a porta, jogou o fecho e arrojou o livro ao sof.
    - No v a nenhum lado, escravo sexual.
    Grace riu de sua prpria estupidez. Acabaria alguma vez Selena com todas aquelas tolices?
    Apagou o televisor e levou os pratos sujos  pia. Enquanto lavava as taas, viu uma repentina chama.
    Durante um segundo, pensou que se tratava de um relmpago.
    At que se deu conta de que tinha sido dentro da casa.
    - Que dem...?
    Soltou a taa e foi para a salita de estar. Ao princpio no viu nada. Mas conforme se aproximava da porta, percebeu uma presena estranha. Algo que lhe ps 
a pele de galinha.
    Entrou na estadia com muito cuidado e viu uma figura alta, de p diante do sof. Era um homem. Um homem muito arrumado. Um homem nu!
    
    
    Captulo 3
    
    
    Grace fez o que qualquer mulher que se encontra a um homem nu em seu salita de estar tivesse feito: gritar.
    E depois, sair correndo para a porta.
    S que se esqueceu das almofadas que tinham amontoado no cho e que ainda estavam ali. tropeou-se com uns quantos e caiu de bruces.
    No! Gritou mentalmente enquanto aterrissava de forma pouco elegante e dolorosa. Tinha que fazer algo para proteger-se.
    Tremendo de pnico, abriu-se passo entre as almofadas enquanto procurava uma arma. Ao sentir algo duro sob a mo o agarrou, mas resultou ser uma de suas sapatilhas 
rosas com forma de coelho.
    Joder! Pela extremidade do olho viu a garrafa de vinho. Rodou para ela e a agarrou; ento se girou para enfrentar ao intruso.
    Mais rpido do que ela tivesse podido esperar, o homem fechou seus quentes dedos ao redor de sua boneca e a imobilizou com muito cuidado.
    - Tem-te feito mal? -perguntou-lhe.
    Santo Deus!, sua voz era profundamente masculina e tinha um melodioso e marcado acento que s podia descrever-se como musical. Ertico. E francamente estimulante.
    Com todos os sentidos embotados, Grace olhou para cima e...
    Bom...
    Para ser honestos, s viu uma coisa. E o que viu fez que as bochechas lhe ardessem mais que um gumbo cajn. depois de tudo, como no ia ver o se estava ao alcance 
de sua mo. E alm disso, com semelhante tamanho. 
    Ao momento, o tipo se ajoelhou a seu lado, com muita ternura lhe apartou o cabelo dos olhos e passou as mos por sua cabea em busca de uma possvel ferida.
    Grace se recreou com a viso de seu peito. Incapaz de mover-se nem de olhar outra coisa que no fosse aquela incrvel pele, sentiu a urgncia de gemer ante a 
intensa sensao que os dedos daquele tipo lhe estavam provocando no cabelo. Ardia-lhe todo o corpo.
    - Golpeaste-te a cabea? -perguntou-lhe ele.
    De novo, esse magnfico e estranho acento que reverberava atravs de seu corpo, como uma carcia clida e relaxante.
    Grace olhou com muita ateno aquela extenso de pele dourada pelo sol, que parecia lhe pedir a gritos a sua mo que a tocasse.
    O tipo virtualmente resplandecia!
    Fascinada, desejou lhe ver o rosto e comprovar por si mesmo que era to incrvel como o resto de seu corpo.
    Quando elevou o olhar alm dos esculturais msculos de seus ombros, ficou com a boca aberta. E a garrafa de vinho se deslizou entre seus adormecidos dedos.
    Era ele!
    No!, no podia ser.
    Isto no podia estar lhe acontecendo a ela, e ele no podia estar nu em sua sala de estar com as mos enterradas em seu cabelo. Este tipo de coisas no passavam 
na vida real. Especialmente s pessoas equilibradas como ela.
    Mas mesmo assim...
    - Julin? -perguntou sem flego.
    Tinha a capitalista e definida constituio de um ginasta. Seus msculos eram duros, proeminentes e magnficos, e muito bem definidos; tinha msculos at em 
lugares onde nem sequer sabia que se podiam ter. Nos ombros, os bceps, nos antebraos; no peito, nas costas. E do pescoo at as pernas.
    Qualquer msculo que lhe desejasse muito, avultava-se com uma fora arruda e totalmente masculina.
    At aquilo tinha comeado a avultar-se.
    O cabelo lhe caa  boa de Deus em uma juba ondulada, e lhe emoldurava um rosto sem rastro de barba, que parecia ter sido esculpido em granito. Incrivelmente 
bonito e cativante, seus rasgos no resultavam femininos nem delicados. Mas definitivamente, roubavam o flego.
    Os sensuais lbios se curvavam em um leve sorriso que deixava  vista um par de covinhas com forma de meia lua, em cada uma de suas bronzeadas bochechas. 
    E seus olhos.
    meu deus!
    Tinham o celestial azul claro de um perfeito dia do vero, rodeados de um bordo azul escuro que ressaltava sua ris. Resultavam abrasadores de to intensos, 
e refletiam inteligncia. Grace tinha a sensao de que aqueles olhos podiam realmente resultar letais. 
    Ou ao menos, devastadores.
    E ela se sentia realmente devastada nesses momentos. Cativada por um homem muito perfeito para ser real.
    Vacilante, estendeu a mo para coloc-la sobre seu brao. surpreendeu-se muito quando no se evaporou, demonstrando que no era uma alucinao etlica.
    No, esse brao era real. Real, duro, e quente. Baixo aquela pele que sua mo tocava, um poderoso msculo se flexionou, e o movimento fez que seu corao comeasse 
a martillearle com fora.
    Atnita, no podia fazer outra coisa que olh-lo.
    Julin elevou uma sobrancelha, intrigado. Nunca antes uma mulher tinha sado fugindo dele. Nem o tinha deixado de lado depois de hav-lo invocado.
    Todas as demais tinham esperado ansiosas a que ele tomasse forma e se lanaram diretamente a seus braos, lhe exigindo que as agradasse.
    Mas esta no...
    Era distinta.
    Em seus lbios fazia ccegas um sorriso enquanto deslizava os olhos pelo corpo daquela mulher. Uma abundante juba negra lhe caa at a metade das costas, e seus 
olhos tinham a cor cinza plida do mar justo antes de uma tormenta, com motitas de cor prata e verde que brilhavam com calidez e inteligncia.
    A plida e suave pele estava coberta de pequenas sardas. Era to adorvel como sua suave e insinuante voz.
    No  que isso importasse muito.
    Sem ter em conta qual fosse sua aparncia, ele estava ali para servi-la sexualmente. Para perder-se ao saborear aquele corpo, e tinha toda a inteno de fazer 
precisamente isso.
    - Vamos -disse sujeitando-a pelos ombros-. me Deixe te ajudar.
    - Est nu -murmurou Grace lhe olhando de cima abaixo, totalmente perplexa, enquanto ficavam em p-. Est muito nu.
    Lhe colocou uns quantos mechas escuras depois das orelhas.
    - Sei. 
    - Est nu!
    - Sim, acredito que j o deixamos claro.
    - Est to contente, e nu.
    Confundido, Julin franziu o cenho.
    - O que?
    Ela olhou sua ereo.
    - Est contente -lhe disse com um intencionado olhar-. E est nu.
    Assim lhe chamavam ento neste sculo. Deveria record-lo.
    - E isso te faz sentir incmoda? -perguntou-lhe, assombrado pelo fato de que a uma mulher preocupasse sua nudez, coisa que jamais tinha acontecido anteriormente.
    - Bingo!
    - Bom, conheo um remdio -disse Julin, baixando o timbre de sua voz enquanto olhava a camisa do Grace e os endurecidos mamilos que se marcavam atravs do tecido. 
No podia esperar mais para ver esses mamilos.
    Para sabore-los.
    aproximou-se para toc-la.
    Grace se afastou um passo com o corao desbocado. Isto no era real. No podia s-lo. Estava bbada e tinha alucinaes. Ou possivelmente se golpeou a cabea 
com a mesita do sof e estava sangrando-se, morrendo pouco a pouco.
    Sim, isso era! Isso tinha sentido.
    Pelo menos, tinha mais sentido que aquele palpitante estremecimento que fazia que seu corpo ardesse. Um estremecimento que lhe pedia que se lanasse ao pescoo 
daquele tipo.
    E de justos era dizer que tinha um bonito pescoo.
    Quando tiver uma fantasia, moa,  que definitivamente est esgotada. Certamente ter estado trabalhando mais da conta, e est comeando a te levar a casa os 
sonhos de seus pacientes.
    Julin se aproximou dela e lhe encerrou o rosto entre suas fortes mos. Grace no podia mover-se. limitou-se a deixar que lhe elevasse a cabea at que pde 
olhar de frente aqueles penetrantes olhos, que com toda segurana poderiam lhe ler a alma. Hipnotizavam-na como os de um mortfero depredador sossegando a sua presa.
    Grace se estremeceu sob seu abrao.
    E ento, uns ardentes e exigentes lbios cobriram os seus. Grace gemeu em resposta. Tinha escutado falar toda sua vida de beijos que faziam fraquejar os joelhos 
das mulheres, mas esta era a primeira vez que acontecia a ela.
    OH! Aquele homem cheirava estupendamente, dava gosto lhe tocar e, alm disso, sabia muitssimo melhor.
    Por prpria iniciativa, seus braos envolveram aqueles amplos e fortes ombros. O calor do peito do homem se introduziu em seu corpo, incitando-a com a ertica 
e sensual promessa do que viria a seguir. E enquanto isso, ele se dedicava a encant-la com seus lbios com tanta mestria como um vikingo com a inteno de arras-lo 
tudo a seu passo. 
    Cada centmetro de seu magnfico corpo estava intimamente pego ao dele, acariciando-a com a inteno de despertar todos seus instintos femininos. OH Deus! Sua 
presena a estimulava como nenhum outro homem o tinha feito jamais. Deslizou a mo pelos esculturais msculos de suas costas e suspirou quando sentiu que se moviam 
sob sua mo.
    Grace decidiu naquele preciso instante que se era um sonho, definitivamente no queria que soasse o despertador.
    Nem o telefone
    Nem...
    As mos do Julin acariciaram suas costas antes de agarr-la pelas ndegas e aproximar mais seus quadris, enquanto sua lngua seguia danando em sua boca. O 
aroma a sndalo alagava seus sentidos. 
    Com o corpo derretido, explorou os duros e firmes msculos de suas costas nua, enquanto as largas mechas de lhe roavam as mos em uma ertica carcia.
    Julin sentiu que sua cabea dava voltas com o quente roce do Grace, com a sensao de seus braos envolvendo-o enquanto suas prprias mos percorriam sua suave 
e sardenta pele, um deleite para o faminto.
    Como gostava dos sons inarticulados com os que ela provocativamente lhe respondia. Mmm, estava desejando ouvi-la gritar de prazer. Ver como sua cabea caa para 
trs enquanto seu corpo se convulsionava espasmo detrs espasmo envolvendo seu membro.
    Fazia muitssimo tempo que no sentia as carcias de uma mulher. Muito tempo desde que no gozava do mais mnimo contato humano.
    Sentia um desejo candente que lhe percorria todo o corpo; se esta fosse sua primeira vez, devoraria ao Grace como a uma parte de chocolate. Tombaria-a e gozaria 
dela como um faminto convidado a um banquete.
    Mas tinha que esperar a que se acostumasse um pouco a ele.
    Muitos sculos atrs, tinha aprendido que as mulheres sempre se desvaneciam atrs de sua primeira unio. Definitivamente, no queria que esta se deprimisse.
    Ao menos ainda.
    No obstante, no podia esperar um minuto mais para possui-la.
    Tomou em braos e se encaminhou para a escada.
    Em um princpio, Grace no reagiu, perdida como estava na sensao daqueles fortes braos que a rodeavam com paixo; sua mente estava totalmente centrada no 
fato de que um homem a tivesse levantado do cho e no tivesse grunhido pelo esforo. Mas ao passar junto  enorme abacaxi que decorava o passamanes da escada, saiu 
de seu ensimismamento com um sobressalto. 
    - N, tio! -soltou-lhe agarrando-se  abacaxi de mogno esculpida como se se tratasse de um salva-vidas-. Onde crie que me leva?
    Ele se deteve e a olhou com curiosidade. Nesse momento, Grace foi consciente de que um homem to alto e poderoso como aquele, poderia fazer o que gostasse de 
com ela e seria intil tentar det-lo. 
    Um estremecimento de terror a sacudiu.
    Entretanto, por muito perigosa que a situao fosse, uma parte dela no estava assustada. Algo em seu interior lhe dizia que esse homem jamais lhe faria mal 
intencionadamente.
    - Levo-te a seu dormitrio, onde podemos acabar o que comeamos -disse sinceramente, como se estivessem falando do tempo.
    - Parece-me que no.
    Ele encolheu aqueles ombros, maravilhosamente amplos.
    - Prefere as escadas ento?, ou possivelmente o sof? -deteve-se e jogou uma olhada ao redor de sua casa, como se estivesse considerando as opes-. No  m 
idia, em realidade. Faz muito que no possuo a uma mulher em um...
    - No, no, no! O nico stio onde vais possuir me  em seus sonhos. E agora me deixe no cho antes de que me zangue de verdade.
    Para seu assombro, ele obedeceu.
    Comeou a sentir-se um pouco melhor uma vez que seus ps tocaram terra firme e subiu dois degraus.
    Agora estavam frente a frente, e quase  mesma altura; bom, se  que algum podia estar alguma vez  altura de um homem com semelhante autoridade e inato poder.
    de repente, o impacto de sua presena a golpeou com intensidade.
    Era real!
    Cus!, Selena e ela tinham conseguido convoc-lo e traz-lo para este mundo.
    Com o rosto impassvel e sem a mais ligeira amostra de que a situao o divertisse, olhou-a diretamente aos olhos.
    - No entendo por que estou aqui. Se no querer me sentir dentro de ti, por que me convocaste?
    Esteve a ponto de gemer ao escutar suas palavras. E mais ainda quando a viso de seu corpo dourado, esbelto e poderoso introduzindo-se em lhe passou pela mente. 
    O que se sentiria quando um homem to incrivelmente delicioso lhe fazia o amor durante toda a noite?
    Estava claro que Julin seria delicioso na cama. No cabia dvida. Com a destreza e agilidade que caracterizavam seus movimentos, no fazia falta dizer o fenomenalmente 
bem que...
    Grace ficou tensa ante o rumo de seus pensamentos. O que acontecia este homem?
    Jamais em sua vida havia sentido um desejo sexual como o que sentia nesses momentos. Nunca! Literalmente falando, tombaria-o no cho e o comeria inteiro. 
    No tinha sentido.
    acostumou-se, com o passo dos anos, a que lhe descrevessem inumerveis encontros sexuais da forma mais grfica; alguns de seus pacientes incluso tentavam conmocionarla 
ou excit-la. 
    Nenhuma s vez tinham conseguido seu propsito.
    Mas quando se tratava do Julin, quo nico tinha em mente era agarr-lo, jog-lo no cho e subir em cima.
    Esse pensamento, to imprprio dela, devolveu-lhe a sensatez.
    Abriu a boca para responder sua pergunta, e no disse nada. O que ia fazer com este homem?
    Alm daquilo.
    Moveu a cabea com incredulidade.
    - O que se supe que vou fazer contigo?
    Os olhos dele se obscureceram pela luxria e tentou toc-la de novo.
    OH, sim!, pedia-lhe seu corpo, por favor, me toque por todos stios.
    - Para! -espetou, dirigindo-se tanto ao Julin como a si mesmo; negava-se a perder o controle. A prudncia governaria a situao, no os hormnios. J tinha 
cometido esse engano uma vez, e no estava disposta a repeti-lo. 
    Subiu de um salto um degrau mais e o olhou diretamente aos olhos. Jesus, Mara e Jos!, era fantstico. O cabelo loiro lhe caa em ondas at a metade das costas, 
onde estava sujeito por uma tira de couro marrom. Exceto trs finas tranas acabadas em pequenas contas de cristal, que oscilavam com cada um de seus movimentos.
    As sobrancelhas, de cor castanha escura, arqueavam-se sobre uns olhos fascinantes ao mesmo tempo que terrorficos. E esses olhos a estavam olhando com mais paixo 
da que devessem. 
    Nesse momento desejaria poder matar a Selena, sem dvida nenhuma.
    Mas no tanto como gostaria de meter-se na cama com este homem e cravar os dentes nessa pele dourada.
    Deixa-o j!
    - No entendo o que acontece -disse ao fim. Tinha que pensar; descobrir o que devia fazer-. Preciso me sentar um minuto e voc... -deslizou os olhos sobre o 
magnfico corpo-. Voc precisa te tampar.
    Julin ps uma expresso crispada. Era a primeira vez em toda sua existncia que algum lhe dizia isso.
    De fato, todas as mulheres s que tinha conhecido antes da maldio, no tinham feito outra coisa que tentar lhe arrancar a roupa. O mais rpido possvel. E 
depois da maldio, seus invocadoras tinham dedicado dias inteiros a contemplar sua nudez enquanto passavam as mos por seu corpo, saboreando sua presena. 
    - Fique aqui um momento -lhe disse Grace antes de subir a toda pressa as escadas.
    Julin observou o vaivm de seus quadris enquanto subia os degraus e seu membro se endureceu imediatamente. Jogou uma olhada a seu redor com os dentes apertados, 
em um intento por ignorar o ardor que sentia na entrepierna. A chave estava na distrao; ao menos at que ela claudicasse. 
    O qual no demoraria para ocorrer. Nenhuma mulher podia negar-se por muito tempo o prazer do ter.
    Com um amargo sorriso ante aquela idia, contemplou a casa.
    Em que lugar e em que poca se encontrava?
    No sabia quanto tempo tinha estado apanhado. Quo nico recordava era o som das vozes com o passar do tempo, a sutil mudana dos acentos e dos dialetos conforme 
passavam os anos. 
    Olhando a luz que se encontrava sobre sua cabea, franziu o cenho. No havia nenhuma chama. O que era essa coisa? Os olhos lhe encheram de lgrimas, irritados, 
e desviou a vista.
    Isso devia ser uma lmpada, decidiu.
    "Oua, preciso trocar a lmpada. me faa o favor de lhe dar ao interruptor que est junto  porta, vale?"
    Enquanto recordava as palavras do dono da livraria, olhou para a porta e viu o que supostamente devia ser o interruptor. Julin se afastou das escadas e apertou 
o pequeno dispositivo. Imediatamente, as luzes se apagaram. Reacendeu as.
    Sorriu sem propor-lhe O que outras maravilhas lhe aguardavam nesta poca?
    - Aqui tem.
    Julin olhou ao Grace que estava na parte superior da escada. Arrojou-lhe um comprido retngulo de tecido verde escuro. Sustentou-a sobre o peito enquanto a 
incredulidade o deixava perplexo.
    Havia dito a srio o de lhe cobrir?
    Que estranho. Franzindo mais o cenho, envolveu-se os quadris com o tecido.
    Grace esperou at que se afastou da porta para olh-lo de novo. Graas a Deus, por fim estava abafado. No era de sentir saudades que os vitorianos insistissem 
tanto no assunto das folhas de parra. Era uma pena no ter umas quantas no ptio. Quo nico crescia ali eram uns quantos acebos, e duvidava muito que ele apreciasse 
suas folhas.
    Grace se encaminhou para a sala e se sentou no sof.
    - me ajude, Lanie -suspirou-. Me pagar isso por isso.
    E ento, ele se sentou a seu lado, revolucionando tudo os hormnios de seu corpo com sua presena.
    Enquanto se movia at a outra ponta do sof, Grace lhe olhou cautelosamente. 
    - Assim... para quanto tempo vieste?
    OH, que boa pergunta, Grace! por que no lhe pergunta pelo tempo ou lhe pede um autgrafo j que te pe? Jesus!
    - At a prxima lua enche -seus glidos olhos deram amostras de um pequeno degelo. E, enquanto deslizava seu olhar por todo seu corpo, o gelo se transformou 
em fogo em dcimas de segundo. inclinou-se sobre ela para lhe tocar a cara. Grace se incorporou de um salto e ps a mesita do caf como barreira de separao.
    - Est-me dizendo que tenho que te agentar durante todo um ms?
    - Sim.
    Conmocionada, Grace se passou a mo pelos olhos. No podia entret-lo durante um ms. Um ms inteiro, com todos seus dias! Tinha obrigaes, responsabilidades.
At tinha que procurar um passatempo.
    - Olhe -lhe disse-. O cria ou no, tenho uma vida em que no est includo.
    Sabia, pela expresso de seu rosto, que no lhe importavam suas palavras. Absolutamente.
    - Se crie que estou encantado de estar aqui contigo, est infelizmente equivocada. Asseguro-te que no escolhi vir.
    Suas palavras conseguiram feri-la.
    - Bom, certa parte de ti no sente o mesmo -lhe disse enquanto dedicava um furioso olhar a aquela parte de seu corpo que ainda estava rgida como uma vara.
    Ele suspirou ao jogar uma olhada a seu regao e vislumbrar a protuberncia que me sobressaa sob a toalha.
    - Infelizmente, tenho tanto controle sobre isto como sobre o fato de estar aqui. 
    - Bom, a porta est a -disse assinalando-a-. Tome cuidado de que no te golpeie o traseiro ao fechar-se. 
    - me acredite; se pudesse ir, faria-o.
    Grace titubeou ante suas palavras, ante seu significado.
    - Quer dizer que no posso te ordenar que te parta?, nem que retorne ao livro?
    - Acredito que a expresso que usou foi: bingo.
    Grace guardou silncio.
    Julin ficou de p lentamente e a olhou. Durante todos os sculos que tinha condenado, esta a primeira vez que lhe acontecia uma coisa assim. O resto de seus 
invocadoras tinham sabido o que ele significava, e tinham estado mais que dispostas a passar todo um ms em seus braos, utilizando felizmente seu corpo para obter 
prazer.
    Jamais em sua vida, mortal ou imortal, tinha encontrado a uma mulher que no lhe desejasse fisicamente.
    Era...
    Estranho.
    Humilhante.
    Quase embaraoso.
    Seria um indcio de que a maldio se debilitava?, de que possivelmente pudesse liberar-se?
    No. No fundo sabia que no era certo, mesmo que sua mente se esforava em aferrar-se  idia. Quando os deuses gregos decretam um castigo, fazem-no com um estilo 
e com uma sanha que nem sequer dois milnios podem suavizar.
    Houve uma poca, muito tempo atrs, em que tinha lutado contra a condenao. Uma poca em que tinha acreditado que poderia liberar-se. Mas depois de dois mil 
anos de fechamento e tortura desumana, tinha aprendido algo: resignao.
    merecia-se este inferno pessoal e, como o soldado que uma vez tinha sido, aceitava o castigo.
    Sentia um n na garganta e tragou para tentar desfaz-lo. Estendeu os braos aos lados e ofereceu seu corpo ao Grace.
    - Faz comigo o que deseje. S tem que me dizer como posso te agradar. 
    - Ento desejo que te parta.
    Julin deixou cair os braos.
    - Nisso no posso te agradar.
    Frustrada, Grace comeou a caminhar nervosa de um lado a outro. Finalmente, seus hormnios tinham retornado  normalidade e, com a cabea mais limpa, esforou-se 
por encontrar uma soluo. Mas por muito que a buscava, no parecia haver nenhuma. 
    Uma dor aguda se instalou em suas tmporas.
    O que ia fazer um ms -um ms inteiro- com ele?
    De novo, uma viso do Julin convexo sobre ela, com o cabelo caindo a ambos os lados do rosto, formando um dossel ao redor de seus corpos enquanto se introduzia 
totalmente nela, assaltou-a. 
    - Necessito algo... -ao Julin falhou a voz.
    Grace se deu a volta para lhe olhar, com o corpo ainda lhe suplicando que cedesse a seus desejos.
    Seria to fcil render-se ante ele... Mas no podia cometer esse engano. negava-se a usar ao Julin desse modo. Como se...
    No, no ia pensar nisso. negava-se a pensar nisso.
    - O que? -perguntou ela.
    - Comida -respondeu Julin-. Se no ir me utilizar de forma apropriada, importaria-te se como algo? 
    A expresso envergonhada e tinta de desagrado que adotou seu rosto indicou ao Grace que no gostava de ter que pedir.
    Ento caiu na conta de algo; se para ela isto resultava estranho e difcil, como demnios se sentiria ele depois de ter sido arrancado de onde quer que estivesse, 
para ser arrojado a sua vida como se fosse um calhau arrojado com um tirachinas? Devia ser terrvel.
    -  obvio -lhe disse enquanto ficava em movimento para que ele a seguisse-. A cozinha est aqui -o guiou pelo curto corredor que levava a parte traseira da casa.
    Abriu o frigorfico e se apartou para que ele jogasse uma olhada.
    - O que gosta?
    Em lugar de colocar a cabea para procurar algo, ficou ao meio metro de distncia.
    - ficou um pouco de pizza?
    - Pizza? -repetiu Grace assombrada. Como saberia ele o que era uma pizza?
    Julin se encolheu de ombros.
    - Deu-me a impresso de que voc gostava de muito.
    Ao Grace arderam as bochechas enquanto recordava o tolo jueguecito ao que se dedicaram enquanto comiam. Selena fazia outro comentrio a respeito de substituir 
o sexo com a comida, e ela tinha fingido um orgasmo ao saborear a ltima parte de pizza.
    - Escutou-nos?
    Com uma expresso hermtica, ele respondeu em voz baixa.
    - O escravo sexual escuta tudo o que se diz nas proximidades do livro.
    Se as bochechas lhe ardessem um pouco mais, acabariam explorando.
    - No ficou nada -disse rapidamente, retrocedo colocar a cabea no congelador para esfriar a Tenho um pouco de frango que me sobrou de ontem, e tambm pasta.
    - E veio? 
    Ela assentiu com a cabea.
    - Est bem.
    O tom desptico que utilizou Julin fez estalar sua fria. Era um desses tonillos usados por um tpico Tarzn que no fundo queria dizer: Eu sou o macho, nenm. 
me traga a comida. E tinha conseguido que lhe fervesse o sangue. 
    - Olhe, tio, no sou sua cozinheira. Como te passa comigo te darei de comer Alpo.
    Ele arqueou uma sobrancelha.
    - Alpo?
    - Esquece-o -ainda irritada, tirou o frango e o preparou para coloc-lo no microondas. 
    Julin se sentou  mesa com esse aura de arrogncia to masculina que acabava com todas suas boas intenes. Desejando ter uma lata do Alpo, Grace serve um pouco 
de pasta em uma terrina.
    - De todos os modos, quanto tempo estiveste encerrado nesse livro? Da Idade Mdia? -ao menos sua forma de atuar correspondia a da poca.
    Ele permaneceu sentado, to quieto como uma esttua. Nada de mostrar suas emoes. Se no o tivesse conhecido melhor, teria pensado que se tratava de um andride.
    - A ltima vez que fui convocado foi no ano 1895.
    - Srio? -Grace ficou com a boca aberta enquanto colocava a terrina no microondas- Em 1895? Est falando a srio?
    Ele assentiu com a cabea.
    - Em que ano lhe meteram no livro?, a primeira vez quero dizer. 
    A ira se apropriou de seu rosto com tal intensidade que Grace se assustou.
    - Segundo seu calendrio, no ano 149 a.C.
    Grace abriu os olhos de par em par.
    - No ano 149 antes de Cristo? Jesus, Mara e Jos! Quando te chamei Julin da Macednia era certo.  da Macednia.
    Ele assentiu com um gesto brusco.
    Os pensamentos do Grace giravam como um torvelinho enquanto fechava o microondas e o punha em marcha. Era impossvel. Tinha que ser impossvel!
    - Como lhe meteram no livro? A ver, conforme tenho entendido, os antigos gregos no tinham livros, verdade?
    - Originalmente fui encerrado em um cilindro de pergaminho que mais tarde foi encadernado como medida de amparo -disse com um tom sombrio e o rosto impassvel-. 
E com respeito ao que foi o que fiz para que me castigassem: invadi Alexandria. 
    Grace franziu o cenho. Aquilo no tinha nem pingo de sentido; como o resto de tudo o que estava acontecendo.
    - E por que foste merecer te um castigo por invadir uma cidade?
    - Alexandria no era uma cidade, era uma sacerdotisa virgem do deus Prapo. 
    Grace se esticou ante o comentrio, e ante a magnitude do castigo que implicava "invadir" a uma mulher. Encerrar ao autor da invaso para toda a eternidade era 
um pouco excessivo. 
    - Violou a uma mulher? 
    - No a violei -respondeu olhando-a com dureza-. Foi de mtuo consentimento, asseguro-lhe isso.
    Vale, esse era um tema sensvel para ele. percebia-se claramente em sua glida conduta. No gostava de falar do passado. Teria que ser um poquito mais sutil 
em seu interrogatrio.
    Julin escutou o estranho timbre, e observou como Grace apertava uma mola que abria a porta da caixa negra onde tinha introduzido sua comida. 
    Ela tirou a fumegante terrina de comida e o colocou ante ele, junto com um garfo prateado, uma faca, um guardanapo de papel e uma taa de vinho. O quente aroma 
lhe subiu  cabea e fez que o estmago rugisse de necessidade.
    supunha-se que devia estar perplexo pelo modo to rpido em que ela tinha cozinhado, mas depois de ter ouvido falar de artefatos com nomes estranhos como trem, 
cmara, automvel, fongrafo, foguete e ordenador, Julin duvidava que algo pudesse tom-lo por surpresa.
    Em realidade, no ficava nenhum sentimento nele, alm do desejo; fazia muito que tinha banido todas suas emoes.
    Sua existncia no era mais que uma sucesso de fragmentos temporrios ao longo dos sculos. Sua nica razo de ser era a de obedecer os desejos sexuais de seus 
invocadoras.  
    E, se algo tinha aprendido nos dois ltimos milnios, era a desfrutar dos escassos prazeres que podia obter em cada invocao.
    Com esse pensamento, agarrou uma pequena poro de comida e saboreou a deliciosa sensao dos mornos e cremosos talharins sobre sua lngua. Era uma pura delcia.
    Deixou que o aroma das especiarias e do frango invadisse sua cabea. Tinha passado uma eternidade da ltima vez que provou a comida. Uma eternidade sofrendo 
uma fome atroz. Fechou os olhos e tragou. Acostumado como estava  privao em lugar da os mantimentos, seu estmago se fechou ante o primeiro bocado. Julin apertou 
com fora a faca e o garfo enquanto lutava por afastar a terrvel dor.
    Mas no deixou de comer. No o faria enquanto houvesse comida na terrina. Tinha esperado muito tempo para poder aplacar sua fome e no estava disposta a deter-se 
agora. 
    depois de uns quantos bocados mais, os retortijones diminuram e lhe permitiram desfrutar plenamente da comida.
    Uma vez seu estmago se acalmou, teve que jogar mo de todas suas foras para comer como um humano e no escond-la comida a punhados, tal era a fome que lhe 
devorava as vsceras. 
    Em momentos como este, resultava-lhe muito difcil recordar que ainda era humano, e no uma besta desbocada e feroz que tinha sido liberada de sua jaula.
    Fazia sculos que tinha perdido a maior parte de sua condio humana. E estava decidido a conservar o pouco que ficava.
    Grace se apoiou na encimera e o observou enquanto comia. O fazia lentamente, de forma quase mecnica. No deixava entrever se gostava da comida, mas ainda assim, 
continuava comendo.
    O que realmente lhe surpreendeu foram os deliciosos maneiras europeus que demonstrava. Ela nunca tinha sido capaz de comer desse modo, e foi ento quando comeou 
a perguntar-se onde teria aprendido a utilizar a faca para manter a massa no garfo, e evitar que casse.
    - Havia garfos em  antiga a Macednia? -perguntou-lhe. 
    Julin deixou de comer.
    - Desculpa?
    - Perguntava-me quando se inventou o garfo. J o utilizavam em...?
    Estas desvairando! Gritou-lhe sua mente.
    E quem no o faria nesta situao? Olhe ao tipo. Quantas vezes crie que algum atuou como um imbecil e acabou devolvendo a vida a uma esttua grega? Especialmente 
uma esttua com esse corpo!
    No muito freqentemente.
    - Acredito que se inventou em meados do sigo XV.
    - Srio? -perguntou ela-. Voc estava ali?
    Com uma expresso ilegvel, elevou os olhos e a sua vez perguntou:
    - A que te refere, ao momento em que inventaram o garfo ou ao sculo XV?
    - Ao sculo XV,  obvio. -E pensando-o melhor, acrescentou:- No estava ali quando se inventou o garfo, verdade?
    - No. -Julin se esclareceu garganta e se limpou a boca com o guardanapo-. Fui convocado em quatro ocasies durante esse sculo. Duas vezes na Itlia, uma na 
Frana e outra na Inglaterra.
    - De verdade? -Tentou imaginar-se como devia ser o mundo naquela poca-. Arrumado a que viu todo tipo de coisas ao longo dos sculos.
    - No tantas.
    - OH, venha j! Em dois mil anos...
    - Vi principalmente dormitrios, camas e armrios.
    Seu tom seco fez que Grace se detivera e ele continuou comendo. Uma imagem do Paul lhe cravou o corao. Ela s tinha conhecido a um imbecil egosta e despreocupado. 
Mas parecia que Julin tinha mais experincia nesse terreno. 
    - me conte ento, o que faz enquanto est no livro, tomba-te e esperas que algum te convoque?
    Ele assentiu.
    - E o que faz para passar o tempo?
    Julin se encolheu de ombros e Grace caiu na conta de que, em realidade, no demonstrava possuir um grande nmero de expresses.
    Nem de palavras.
    aproximou-se da mesa e se sentou em um tamborete frente a ele.
    - A ver, de acordo com o que me h dito temos que estar juntos durante um ms, que tal se nos dedicamos a conversar para faz-lo mais agradvel?
    Julin levantou o olhar, surpreso. No podia recordar a ltima vez que algum quis conversar com ele, exceto para lhe dar nimos ou lhe fazer sugestes que o 
ajudassem a incrementar o prazer que lhes proporcionava. Ou para lhe pedir que voltasse para a cama.
    Tinha aprendido a uma idade muito temprana que as mulheres s queriam uma coisa dele: essa parte de seu corpo enterrada profundamente entre suas coxas.
    Com essa ideia na mente, passeou lentamente o olhar pelo corpo do Grace, detendo-se em seus peitos, que se endureceram sob seu prolongado escrutnio.
    Indignada, Grace cruzou os braos sobre o peito e esperou a que ele a olhasse aos olhos. Julin quase soltou uma gargalhada. Quase.
    - A ver -disse ele utilizando suas mesmas palavras-. H coisas que fazer com a lngua muito mais prazenteiras que conversar: como lhe passar isso pelos peitos 
nus e pela garganta -baixou o olhar para o lugar onde, aproximadamente, ficaria seu regao atravs da mesa-. Sem mencionar outras partes que poderia visitar.
    Por um instante, Grace ficou sem fala. E depois lhe encontrou a graa ao assunto. E um momento mais tarde comeou a ficar muito brincalhona.
    Como terapeuta, tinha ouvido coisas muito mais surpreendentes que essa, recordou-se. 
    Sim, claro, mas no o havia dito uma pessoa com a que ela queria fazer outras coisas alm de falar. 
    - Tem razo, h outras muitas coisas que se podem fazer com uma lngua; como, por exemplo, lhe cort-la disse, e se desfrutou na surpresa que refletiram seus 
olhos-. Mas sou uma mulher a que gosta de muito falar, e voc est aqui para me agradar, verdade?
    Seu corpo se esticou de forma muito sutil, como se resistisse a aceitar seu papel.
    -  certo.
    - Ento, me conte o que faz enquanto est no livro.
    Grace sentiu como seus olhos a atravessavam com uma intensidade to abrasadora que a deixou intrigada, desconcertada e um pouco assustada.
    -  como estar encerrado em um sarcfago -respondeu ele em voz baixa-. Ouo vozes, mas no posso ver a luz nem nenhuma outra coisa. No posso me mover. Simplesmente 
me limito a esperar e a escutar.
    Grace se horrorizou ante a simples ideia. Recordava o dia, muito tempo atrs, em que se ficou encerrada acidentalmente no armrio das ferramentas de seu pai. 
A escurido era total e no havia modo de sair. Aterrorizada, havia sentido que lhe oprimiam os pulmes e que a cabea comeava a lhe dar voltas pelo medo. Chiou 
e esperneou contra a porta at que teve as mos cheias de moratones.
    Finalmente, sua me a escutou e a ajudou a sair.
    Aps, Grace sentia uma ligeira claustrofobia devido  experincia. No podia imagin-lo que seria passar sculos inteiros em um lugar assim.
    -  horrvel -balbuciou.
    - Ao final te chega a acostumar. Com o tempo.
    - De verdade? -no estava muito segura, mas duvidava que fosse certo.
    Quando sua me a tirou do armrio, descobriu que s tinha estado encerrada meia hora; mas lhe tinha parecido uma eternidade. O que se sentiria ao passar realmente 
uma eternidade encerrado?
    - tentaste escapar alguma vez?
    O olhar que lhe dedicou o dizia tudo.
    - O que aconteceu? -perguntou Grace.
    - Obviamente, no tive sorte.
    sentia-se muito mal por ele. Dois mil anos encerrado em uma cripta tenebrosa. Era um milagre que no se tornou louco. Que fora capaz de sentar-se com ela e falar.
    No era de sentir saudades que lhe tivesse pedido comida. Privar a uma pessoa de todos os prazeres sensoriais era uma tortura cruel e desumana.
    E ento soube que ia ajudar o. No sabia muito bem como faz-lo, mas tinha que haver algum modo de liber-lo.
    - E se encontrssemos o modo de te tirar da?
    - Asseguro-te que no h nenhum.
    -  um tanto pessimista, no?
    Olhou-a divertido. 
    - Estar apanhado durante dois mil anos tem esse efeito sobre as pessoas. 
    Grace o observou enquanto acabava a comida, com a mente em ebulio. Sua parte mais otimista se negava a escutar seu fatalismo, exatamente igual  terapeuta 
que havia nela se negava a deix-lo partir sem ajud-lo. Tinha jurado aliviar o sofrimento das pessoas, e ela se tomava seus juramentos muito a srio. 
    Quem a segue, consegue-a.
    E embora tivesse que atravessar oceanos ou cruzar o mesmo inferno, encontraria o modo de liber-lo!
    Enquanto isso, decidiu fazer algo que duvidava muito que algum tivesse feito por ele antes: ia encarregar se de que desfrutasse de sua liberdade em Nova Orlens.
As outras mulheres o tinham mantido encerrado nos limites de seus dormitrios ou de seus vestidores, mas ela no estava disposta a encadear a ningum.
    - Bem, ento digamos que esta vez vais ser voc o que desfrute, tio.
    Ele elevou o olhar da terrina com repentino interesse.
    - vou ser sua faxineira - continuou Grace-. Faremos algo que te deseje muito. E veremos tudo o que te ocorra.
    Enquanto tomava um sorvo de vinho, curvou os lbios em um gesto irnico.
    - te tire a camisa.
    - Como? -perguntou Grace.
    Julin deixou a um lado a taa de vinho e a atravessou com um luxurioso e candente olhar.
    - H dito que posso ver o que quiser e fazer o que me deseje muito. Bem, pois quero ver seus peitos nus e depois quero passar a lngua por...
    - Oua grandalho!, te relaxe! -disse-lhe Grace com as bochechas ardendo e o corpo abrasado pelo desejo-. Acredito que vamos deixar claras umas quantas regras 
que ter que cumprir esteja aqui. Nmero um: nada disso. 
    - E por que no?
    Sim, exigiu-lhe seu corpo entre a splica e o aborrecimento. por que no?
    - Porque no sou nenhuma gata guia de ruas com o rabo elevado para que qualquer gato venha, monte-me e se largue. 
    
    
    Captulo 4
    
    
    Julin elevou uma sobrancelha ante a crua e inesperada analogia. Mas mais que as palavras, o que lhe surpreendeu foi o tom amargo de sua voz. Deveram utiliz-la 
no passado. No era de sentir saudades que se assustasse dele. 
    Uma imagem do Penlope lhe passou pela mente e sentiu uma pontada de dor no peito, to feroz que teve que recorrer a seu firme treinamento militar para no cambalear-se. 
    Tinha muitos pecados que expiar. Alguns tinham sido to grandes que dois mil anos de cativeiro no eram mais que o princpio de sua condenao. 
    No  que fosse um bastardo de nascimento;  que, depois de uma vida brutal, infestada de desespero e traies, tinha acabado convertendo-se em um. 
    Fechou os olhos e se obrigou a afastar esses pensamentos. Isso era, nunca melhor dizendo, histria antiga e isto era o presente. Grace era o presente.
    E estava nele por ela.
    Agora entendia o que Selena queria dizer quando lhe falou sobre o Grace. Por isso lhe convocaram. Para lhe mostrar ao Grace que o sexo podia ser divertido.
    Nunca antes se encontrou em uma situao semelhante.
    Enquanto a observava, seus lbios desenharam um lento sorriso. Esta seria a primeira vez que teria que perseguir uma mulher para que o aceitasse. Anteriormente, 
nenhuma tinha rechaado seu corpo.
    Com a inteligncia do Grace e sua teimosia, sabia que levar-lhe  cama seria uma provocao comparvel ao de tender uma emboscada ao exrcito romano. 
    Sim, ia saborear cada momento.
    Igual a acabaria saboreando-a a ela. Cada doce e sardento centmetro de seu corpo.
    Grace tragou saliva ante o primeiro sorriso genuno do Julin. O sorriso suavizava sua expresso e o fazia ainda mais devastador.
    Que demnios estaria pensando para sorrir assim?
    Por ensima vez, sentiu que lhe subiam as cores ao pensar em seu cru discursito. No o tinha feito a propsito; em realidade no gostava de despir seus sentimentos 
ante ningum, especialmente ante um desconhecido.
    Mas havia algo fascinante neste homem. Algo que ela era percebia de forma perturbadora. Possivelmente fosse a dissimulado dor que refletiam de vez em quando 
esses celestiales olhos azuis, quando o pilhava com o guarda baixo. Ou talvez fossem seus anos como psicloga, que lhe impediam de ter uma alma atormentada em sua 
casa e no lhe emprestar ajuda.
    No sabia.
    O relgio de parede do saguo da escada, deu a uma. 
    - meu deus! -disse assombrada pela hora-. Tenho que me levantar s seis da manh. 
    - Vai  cama?, a dormir?
    Se o humor do Julin no tivesse sido to anti-social, o espanto que mostrou seu rosto teria feito rir ao Grace de boa vontade. 
    - Tenho que ir.
    Ele franziu o cenho...
    Dolorido?
    - Ocorre-te algo? -perguntou ela.
    Julin negou com a cabea.
    - Bom, ento vou ensinar te o stio onde vais dormir e...
    - No tenho sonho.
    Ao Grace sobressaltaram suas palavras.
    - O que?
    Julin a olhou, incapaz de encontrar as palavras exatas para lhe descrever o que sentia. Tinha apanhado tanto tempo no livro, que o nico que queria fazer era 
correr ou saltar. Fazer algo para celebrar sua repentina liberdade de movimentos.
    No queria ir-se  cama. A idia de permanecer convexo na escurido um s minuto mais...
    esforou-se por voltar a respirar.
    - estive descansando desde 1895 -lhe explicou-. No estou muito seguro dos anos que transcorreram, mas pelo que vejo, deveram ser uns quantos. 
    - Estamos no ano 2002 -lhe informou Grace-. estiveste "dormindo" durante cento e sete anos. -No, corrigiu-se ela mesma. No tinha estado dormindo. 
    Lhe havia dito que podia escutar qualquer conversao que tivesse lugar perto do livro; o que significava que tinha permanecido acordado durante seu fechamento. 
Isolado. Sozinho.
    Ela era a primeira pessoa com a que tinha falado, ou estado perto, depois de cem anos. 
    Lhe fez um n no estmago ao pensar no que devia ter suportado. Embora a priso de seu acanhamento nunca tinha sido tangvel para ela, sabia o que era escutar 
s pessoas e no ser parte deles. Permanecer como uma simples espectadora.
    - Eu gostaria de poder ficar desperta -disse, reprimindo um bocejo-. De verdade; mas se no dormir o suficiente, meu crebro se converte em gelatina e fica sem 
bateria.
    - Entendo-te. Ao menos entendo o essencial, embora no sei que so a gelatina nem a bateria. 
    Grace ainda percebia sua desiluso.
    - Pode ver a televiso.
    - Televiso?
    Agarrou a terrina vazia e o limpou antes de retornar com o Julin  sala de estar. Acendeu o televisor e o ensinou a trocar os canais com o mando a distncia.
    - Incrvel -sussurrou ele enquanto fazia zapping pela primeira vez.
    - Sim,  algo muito til.
    Isso o manteria ocupado. depois de tudo, os homens s necessitavam trs coisas para ser felizes: comida, sexo e um mando a distncia. Dois de trs deveriam mant-lo 
satisfeito um momento.
    - Bom -disse enquanto se dirigia s escadas-. boa noite.
    Ao passar a seu lado, Julin lhe tocou o brao. E, embora seu roce foi muito ligeiro, Grace sentiu uma descarga eltrica.
    Com o rosto inexpressivo, seus olhos deixavam ver todas as emoes que o invadiam. Grace percebeu seu sofrimento e sua necessidade; mas sobre tudo, captou sua 
solido.
    No queria ficar sozinho.
    Umedecendo-os lbios -lhe tinham secado de forma repentina-, disse algo incrvel.
    - Tenho outro televisor em minha habitao. por que no v ali o que queira, enquanto eu durmo?
    Julin lhe dedicou um sorriso tmido.
    Foi atrs dela enquanto subiam as escadas, totalmente surpreso pelo fato de que Grace o tivesse compreendido sem palavras. Tinha tido em conta sua necessidade 
de companhia, sem preocupar-se de seus prprios temores.
    Isso lhe fez sentir algo estranho para ela. Uma estranha sensao no estmago.
    Ternura?
    No estava seguro.
    Grace o levou at uma enorme habitao presidida por uma cama com dossel, situada na parede oposta  porta de entrada. Em frente da cama havia uma cmoda e, 
sobre ela, uma como o tinha chamado Grace?, televiso?
    Observou como Julin passeava por seu dormitrio, olhando as fotografias que havia nas paredes e sobre os mveis; fotografias de seus pais e de seus avs, da 
Selena e ela na faculdade, e una do co que teve quando era pequena.
    - Vive sozinha? -perguntou-lhe.
    - Sim -disse, aproximando-se da cadeira de balano que estava junto  cama. Sua camisola estava sobre o respaldo. Agarrou-o e depois olhou ao Julin e  toalha 
verde que ainda levava ao redor de seus esbeltos quadris. No podia deixar que se metesse na cama com ela daquela guisa.
    Seguro que pode.
    No, no posso.
    Por favor?
    Shh! Parte irracional de mim, te cale e me deixe pensar.
    Ainda guardava os pijamas de seu pai no dormitrio que tinha pertencido a seus progenitores; ali estavam todas seus pertences e para o Grace, era um lugar sagrado. 
Tendo em conta a largura dos ombros do Julin, estava segura de que as camisas no lhe serviriam, mas as calas tinham cinturas adaptveis e, embora ficassem curtos, 
ao menos no lhe cairiam.
    - Espera aqui -lhe disse-. No demorarei nada.
    depois de v-la partir como uma exalao, Julin se aproximou dos ventanales e apartou as cortinas de encaixe branco. Observou as estranhas caixas metlicas 
-que deviam ser automveis- enquanto passavam por diante da casa com aquele zumbido to estranho que no cessava um instante, semelhante ao rudo do mar. As luzes 
iluminavam as ruas e todos os edifcios; pareciam-se com as tochas que havia em sua terra natal.
    Que inslito era este mundo. Extraamente parecido ao dele e, mesmo assim, to diferente. 
    Tentou associar os objetos que via com as palavras que tinha escutado ao longo das dcadas; palavras que no compreendia. Como televiso e lmpada. 
    E pela primeira vez desde que era menino, sentiu medo. No gostava das mudanas que percebia, a rapidez com a que as coisas tinham evoludo no mundo. 
    Como seria todo a seguinte vez que o convocassem?
    Poderiam as coisas trocar muito?
    Ou o que era mais aterrador, e se jamais voltavam a invoc-lo?
    Tragou saliva ante aquela idia. E se acabava apanhado durante toda a eternidade? S e acordado. Alerta. Sentindo a opressiva escurido em torno dele, deixando-o 
sem ire nos pulmes enquanto seu corpo se rasgava de dor.
    E se no voltava a caminhar de novo como um homem? Ou a falar com outro ser humano, ou a tocar a outra pessoa?
    Esta gente tinha coisas chamadas ordenadores. Tinha escutado ao dono da livraria falar sobre eles com os clientes. E uns quantos lhe haviam dito que, provavelmente, 
os ordenadores substituiriam um dia aos livros.
    O que seria dele ento?
    
    Vestida com sua regata de dormir rosa, Grace se deteve na habitao de seus pais, junto  porta de espelho do vestidor, onde guardou os alianas de casamento 
o dia posterior ao funeral. Podia ver o dbil resplendor do diamante marquise do meio quilate.
    A dor fez que lhe formasse um n na garganta; lutou contra as lgrimas que pugnavam por brotar de seus olhos.
    Com vinte e quatro anos recm cumpridos naquela poca, tinha sido o suficientemente arrogante para pensar que era uma pessoa amadurecida e capaz de fazer frente 
a algo que a vida lhe pusesse por diante. acreditou-se invencvel. E em um segundo, sua vida se derrubou.
    A morte lhe arrebatou todo aquilo que uma vez teve: a segurana, a f, sua crena na justia e, sobre tudo, o amor sincero de seus pais e seu apoio emocional.
    Apesar de toda sua vaidade juvenil, no tinha estado preparada para que lhe arrebatassem por completo a toda sua famlia.
    E, embora tinham acontecido cinco anos, ainda os sentia falta de. A dor era muito profunda. O velho dito aquele, segundo o qual era melhor ter conhecido o amor 
antes de perd-lo, era uma enorme fraude. No havia nada pior que perder s pessoas que lhe querem e lhe cuidam em um acidente sem sentido.
    Incapaz de enfrentar sua ausncia, Grace tinha selado a habitao depois do funeral, e o tinha deixado todo tal e como estava.
    Abriu a gaveta onde seu pai guardava os pijamas e tragou saliva. Ningum havia meio doido estas coisas da tarde que sua me as dobrou e as guardou.
    Ainda recordava a risada de sua me. As brincadeiras sobre o conservador estilo de seu pai, que sempre escolhia pijamas de flanela. 
    Pior ainda, recordava o amor que se professavam.
    O que daria ela por encontrar o casal perfeito, como lhes tinha acontecido . Tinham estado casados vinte e cinco anos antes de morrer, e seu amor tinha permanecido 
intacto desde dia que se conheceram. 
    No podia recordar um s momento em que sua me no sonriera ante uma brincadeira de seu pai. Sempre foram agarrados da mo como dois adolescentes, e se roubavam 
beijos quando acreditavam que ningum os via.
    Mas ela os via.
    E agora o recordava.
    Queria esse tipo de amor. Mas por alguma razo, no tinha encontrado a um homem que a deixasse sem flego. Um homem que conseguisse que lhe desbocasse o corao 
e que seus sentidos se cambaleassem.
    Um homem sem o qual a vida no tivesse sentido.
    - OH, mame! -balbuciou, desejando que seus pais no tivessem morrido aquela noite.
    Desejando...
    No sabia o que. Quo nico queria era conseguir algo que lhe fizesse pensar no futuro. Algo que lhe fizesse feliz; da mesma forma que seu pai tinha feito feliz 
a sua me.
    Mordendo o lbio, Grace agarrou a cala de quadros azul marinho e branco, e saiu correndo da habitao.
    - Aqui tem -disse arrojando o objeto ao Julin e saindo a toda pressa por volta do quarto de banho, em metade do corredor. No queria que ele fosse testemunha 
de suas lgrimas. No voltaria a mostrar-se vulnervel diante de um homem.
    Julin trocou a toalha pelas calas e se foi detrs o Grace. Tinha fechado de uma portada a porta mais prxima  habitao onde ele se encontrava. 
    - Grace -a chamou enquanto abria a porta com suavidade.
    ficou paralisado ao v-la chorar. Estava em metade de um quarto de asseio estranho, com dois lavamanos incrustados na parede e uma encimera branca na qual se 
apoiava. tampou-se a boca com uma toalha, em um intento de sufocar seus dilaceradores soluos. 
    Apesar de sua severo educao e dos dois mil anos de autocontrol, Julin se viu miservel por uma quebra de onda de compaixo. Grace chorava como se algum lhe 
tivesse quebrado o corao.
    E isso o fazia sentir-se incmodo. Inseguro.
    Apertando os dentes, afastou aqueles inslitos sentimentos. Se algo tinha aprendido durante sua infncia era a no se aprofundar nos problemas de outros, porque 
nunca trazia nada bom. No terei que cuidar de ningum mais que da gente mesmo. Cada vez que tinha cometido o engano de interessar-se por algum, tinha-o pago com 
acrscimo.
    Alm disso, nesta ocasio no havia tempo. Nada de tempo.
    Quanto menos tivesse que ver com as emoes e a vida do Grace, mais fcil lhe resultaria voltar a suportar seu confinamento.
    E, ento, as palavras do Grace o golpearam com fora, justo em metade do peito. Ela o tinha definido  perfeio: no era mais que um gato dedicado a conseguir 
prazer e depois partir.
    aferrou-se com fora ao atirador da porta. No era um animal. Ele tambm tinha sentimentos.
    Ou, ao menos, estava acostumado aos ter.
    antes de que pudesse reconsiderar suas aes, entrou na estadia e a abraou. Grace lhe rodeou a cintura com os braos e se apoiou nele como se se tratasse de
um salva-vidas, enquanto enterrava a cara em seu peito nu e soluava. Todo seu corpo tremia.
    Um pouco muito estranho se abriu passo no interior do Julin. Um profundo desejo que no sabia muito bem como definir.
    Jamais em sua vida tinha consolado a uma mulher que chorava. deitou-se com tantas que no podia record-lo; mas nunca, jamais, tinha abraado a uma mulher como 
estava abraando ao Grace. Nem depois de fazer o amor. Uma vez acabava com seu casal de volta, levantava-se, limpava-se e procurava algo com o que entreter-se at 
que fosse requerido de novo.
    Inclusive antes da maldio, jamais tinha demonstrado ternura por ningum. Nem por sua esposa.
    Como soldado, tinha sido treinado desde que tinha uso de razo para mostrar-se feroz, frio e duro.
    "Volta com seu escudo, ou sobre ele". Essas foram as palavras de sua madrasta o dia que o agarrou por cabelo e o jogou de sua casa para que comeasse o treinamento 
militar,  tenra idade de sete anos.
    Seu pai tinha sido ainda pior. Um legendrio comandante espartano que no tolerava amostras de debilidade. Nem de emoo. O tipo se encarregou, ltego em mo, 
de que a infncia do Julin chegasse a seu fim, ensinando-o a ocultar a dor. Ningum podia ser testemunha de seu sofrimento.
    At o dia de hoje, ainda podia sentir o ltego sobre a pele nua de suas costas, e escutar o som que fazia o couro ao cortar o ar entre golpe e golpe. Podia ver 
a zombadora careta de desprezo no rosto de seu pai.
    - Sinto-o -murmurou Grace sobre seu ombro, lhe devolvendo  presente.
    Ela elevou a cabea para poder lhe olhar. Tinha os olhos cinzas brilhantes pelas lgrimas e pareciam rachar a capa que recubra seu corao, congelado desde 
fazia sculos por necessidade e por obrigao. 
    Incmodo, Julin se afastou dela.
    - Sente-se melhor? 
    Grace se limpou as lgrimas e se esclareceu garganta. No sabia por que tinha ido Julin atrs dela, mas tinha passado muito tempo da ltima vez que algum a 
consolou enquanto chorava. 
    - Sim -murmurou-. Obrigado.
    Ele no respondeu.
    Em lugar de ser o homem tenro que a abraava instantes antes, havia tornado a ser o Senhor Estatua; todo seu corpo estava rgido e no dava amostras de emoo.
    Deixando escapar um suspiro iracundo, e passou a seu lado.
    - No me teria posto assim se no estivesse to cansada e possivelmente ainda um pouco achispada. Preciso dormir. 
    Sabia que ele iria atrs dela, assim voltou resignadamente para sua habitao e se meteu na cama de madeira de pinheiro, acurrucndose sob o grosso edredom. 
Sentiu como o colcho se afundava sob o peso do Julin um instante depois.
    Seu corao se acelerou ante a repentina calidez do corpo do homem junto ao dele. E a coisa piorou quando ele se acurruc a suas costas e lhe aconteceu uma larga 
e musculosa perna sobre a cintura.
    - Julin! -gritou com uma nota de advertncia ao sentir sua ereo contra o quadril-. Acredito que seria melhor que ficasse em seu lado da cama, enquanto eu 
fico no meu.
    No pareceu emprestar ateno a suas palavras, posto que inclinou a cabea e deixou um pequeno rastro de beijos sobre seu cabelo.
    - Pensava que me tinha chamado para aliviar a dor de suas partes baixas -lhe sussurrou no ouvido.
    Com o corpo ao vermelho vivo devido a sua proximidade, e ao aroma a sndalo que lhe embotava a cabea, Grace se ruborizou ao lhe escutar repetir as palavras 
que dissesse a Selena. 
    - Minhas partes baixas se encontram em perfeito estado, e muito felizes tal e como esto.
    - Prometo-te que eu conseguirei que estejam muito, muito mais felizes.
    OH!, no lhe cabia a menor duvida.
    - Se no te comportar, jogarei-te da habitao.
    Ento o olhou e viu a incredulidade refletida nos olhos azuis.
    - No entendo por que vais jogar me -disse isso.
    - Porque no vou utilizar te como se fosse um boneco sem nome, que no tem mais razo de ser que me servir. De acordo? No quero ter esse tipo de intimidade 
com um homem ao que no conheo.
    Com um olhar preocupado, Julin se apartou finalmente dela e se tombou na cama.
    Grace respirou profundamente para tentar que seu acelerado corao se relaxasse, e poder apagar o fogo que o fazia ferver o sangue. Resultava muito duro lhe 
dizer que no a este homem.
    Crie realmente que vais ser capaz de dormir com este tipo a seu lado?  que tem uma pedra por crebro?
    Fechou os olhos e recitou sua aborrecida letana. Tinha que dormir. No havia sitio para os "e se..." nem para os "mas...". Nem tampouco para o Julin.
    Ele colocou os travesseiros de modo que lhe servissem de respaldo, e olhou ao Grace. Esta ia ser, em sua excepcionalmente larga vida, a primeira vez que passasse 
uma noite junto a uma mulher sem lhe fazer o amor.
    Era inconcebvel. Nenhuma o tinha rechaado antes.
    Ela se deu a volta naquele momento e lhe deu um mando a distncia, como o que lhe tinha ensinado na sala. Apertou um boto e acendeu a televiso, depois baixou 
o volume da gente que falava.
    - Isto  para a luz -disse apertando outro boto. Imediatamente, as luzes se apagaram, deixando que fora o televisor o que iluminasse fracamente as sombras da 
habitao-. No me incomodam os rudos, assim  que no acredito que desperte -deu o mando a distancia-. boa noite, Julin da Macednia.
    - boa noite, Grace -sussurrou ele, observando como seu sedoso cabelo se estendia sobre o travesseiro, enquanto se acurrucaba para dormir.
    Deixou o mando a um lado e, durante um bom momento, dedicou-se a olh-la enquanto a luz procedente do televisor piscava sobre os relaxados ngulos de seu rosto.
    Soube o momento exato no que dormiu, pela uniformidade de sua respirao. S ento se atreveu a toc-la. atreveu-se a seguir com a gema de um dedo a suave curva 
de seu ma do rosto. 
    Seu corpo reagiu com tal violncia que teve que morder o lbio para no soltar uma maldio. O fogo se estendeu por seu sangue.
    Tinha conhecido numerosos dores durante toda sua vida: primeira a dor de estmago quando precisava comer, depois a sede de amor e respeito, e por ltimo a dor 
exigente de seu membro quando ansiava a umidade escorregadia do corpo de uma mulher. Mas jamais, jamais, tinha experiente algo semelhante ao que sentia agora.
    Era uma fome to voraz, uma sensao to potente, que ameaava at sua prudncia.
    S podia pensar em lhe separar as cremosas coxas e afundar-se profundamente nela. Em deslizar-se dentro e fora de seu corpo uma e outra vez, at que ambos alcanassem 
o clmax ao unssono.
    Mas isso jamais chegaria a acontecer.
    afastou-se dela a uma distncia prudente, de onde no pudesse cheirar seu suave aroma feminino, nem sentir o calor de seu corpo sob o edredom.
    Poderia lhe proporcionar agradar durante dias, sem deter-se, mas ele jamais encontraria a paz. 
    - Maldito seja, Prapo -grunhiu. Era o deus que lhe tinha amaldioado, afundando-o neste miservel destino-. Espero que Hades te esteja dando o que te merece.
    Uma vez aplacada sua ira, suspirou e se deu conta que as Parcas e as Frias se estavam encarregando do prprio com ele. 
    
    Grace despertou com uma estranha sensao de calidez e segurana. Um sentimento que no tinha experiente desde fazia anos. 
    de repente, sentiu um beijo muito doce sobre as plpebras, como se algum estivesse acariciando-a com os lbios. Umas mos fortes e clidas lhe tocavam o cabelo.
    Julin!
    incorporou-se to rpido que se golpeou com sua cabea. At seus ouvidos chegou o gemido de dor do Julin. Esfregando-a frente, abriu os olhos e viu que ele 
a observava com o cenho franzido e obviamente molesto.
    - Sinto-o -se desculpou enquanto se sentava-. Me sobressaltou.
    Julin abriu a boca e se tocou os dentes com o polegar para comprovar se o golpe os tinha afrouxado. 
    Aquilo foi pior ainda para o Grace, posto que no pde evitar contemplar o roce de sua lngua sobre os dentes. E a viso desses blanqusimos dente, incrivelmente 
retos, que lhe gostaria de ter lhe mordiscando...
    - O que quer para tomar o caf da manh? -perguntou-lhe para afastar-se um pouco de seus pensamentos.
    O olhar dele descendeu at o profundo decote em V de sua regata. Seguindo a direo de seus olhos, Grace se deu conta de que, de onde ele estava sentado, poderia 
ver todo seu corpo at chegar s embaraosas braguitas do Mickey Mouse. 
    antes de que pudesse mover-se, Julin atirou dela, at sent-la sobre suas coxas e reclamou seus lbios.
    Grace gemeu de agradar sob o assalto de sua boca, enquanto sua lngua o fazia as coisas mais escandalosas. A cabea comeou a lhe girar com a intensidade do 
beijo e com o quente flego do Julin mesclando-se com o seu.
    E pensar que nunca lhe tinha gostado de beijar...
    Devia estar louca!
    Os braos do Julin intensificaram seu abrao. Milhares de chamas lambiam seu corpo, acendendo-a e incitando-a, enquanto se agrupavam na zona que mais lhe doa: 
entre as coxas, onde queria lhe ter.
    Seus lbios a abandonaram para riscar com a lngua um rastro at sua garganta, desenhando midos crculos sobre o queixo, o lbulo da orelha e finalmente o pescoo.
    O tipo parecia conhecer todas as zonas ergenas do corpo de uma mulher!
    Melhor ainda, sabia como usar as mos e a lngua para as massagear at obter o mximo prazer.
    Exalou o ar brandamente sobre sua orelha e, imediatamente, um calafrio a percorreu de acima a abaixo; quando passou a lngua pelo lbulo, todo seu corpo comeou 
a tremer.
    Um formigamento lhe percorreu os peitos, que imediatamente se endureceram, sobressaindo-se como duros montculos que clamavam por ser beijados.
    - Julin -gemeu, incapaz de reconhecer sua voz. Sua mente lhe pedia que se detivera, mas as palavras ficaram atravessadas na garganta. 
    Havia muito poder em suas carcias. Muita magia. O fazia ansiar, dolorosamente, muito mais.
    deu-se a volta com ela em braos e a aprisionou contra o colcho. Inclusive atravs do pijama, Grace percebia sua ereo, seu membro duro e ardente que pressionava 
sobre o quadril, enquanto com as mos lhe aferrava as ndegas e respirava entrecortadamente junto a sua orelha. 
    - Tem que parar -conseguiu lhe dizer ao fim com voz dbil.
    - Parar o que? -perguntou-lhe-. Isto? -e riscou com a lngua o labirinto de sua orelha. Grace vaiou de prazer. Os calafrios se aconteciam e, como se se tratasse 
de brasas ao vermelho vivo, abrasavam cada centmetro de sua pele. Os peitos se incharam ainda mais sob o corpo do Julin-. Ou isto? -e introduziu uma mo sob a 
cinturilla elstica de seus braguitas para toc-la onde mais o desejava.
    Grace se arqueou em resposta a suas carcias e cravou os dedos nos lenis ante a sensao de suas mos entre as pernas. Deus, este homem era incrvel!
    Julin comeou a acariciar em crculos a trmula carne, utilizando um s dedo, fazendo que se consumisse antes de lhe introduzir dois dedos at o fundo. 
    Enquanto rodeava, acariciava e atormentava seu interior, comeou a lhe massagear muito brandamente o clitris com o polegar. 
    - Ooooh! -gemeu Grace, jogando a cabea para trs pela intensidade do prazer.
    aferrou-se ao Julin, enquanto ele continuava seu implacvel assalto utilizando suas mos e sua lngua, lhe dando agradar. Totalmente fora de controle, Grace 
se esfregava de forma desinhibida contra ele, ansiando sua paixo, suas carcias.
    Julin fechou os olhos e saboreou o aroma do corpo do Grace sob o seu; a sensao de seus braos envolvendo-o. Era dela. Podia senti-la tremer e pulsar ao redor 
de sua mo, enquanto seu corpo se retorcia sob suas carcias.
    Em qualquer momento chegaria ao clmax.
    Com esse pensamento ocupando sua mente por completo, tirou-lhe a regata e inclinou a cabea at apanhar um duro mamilo e sugar brandamente toda a areola, deleitando-se 
na sensao da rugosa pele sob sua lngua.
    No recordava que uma mulher soubesse to bem como aquela.
    Seu sabor ficaria gravado a fogo na mente, jamais poderia esquec-lo.
    E estava completamente preparada para receb-lo: ardente, mida e muito estreita; exatamente como lhe gostava de uma mulher.
    Rasgou de um puxo o pequeno objeto que se atia aos quadris do Grace, e que lhe impedia um acesso total a aquele lugar que morria por explorar completamente. 
    E em toda sua profundidade.
    Ela escutou como rompia as braguitas, mas no foi capaz de det-lo. Sua vontade j no lhe pertencia; tinha sido engolida por umas sensaes to intensas, que 
o nico que queria era encontrar alvio. 
    Tinha que consegui-lo!
    Elevando os braos, enterrou as mos no cabelo do Julin, incapaz de permitir que se afastasse, embora s fosse por um segundo.
    Julin se tirou as calas a puxes e lhe separou as coxas.
    Com o corpo envolto em puro fogo, Grace agentou a respirao enquanto ele colocava seu comprido e duro corpo entre suas pernas.
    A ponta de seu membro pressionava justo sobre o centro de sua feminilidade. Arqueou os quadris aproximando-se ainda mais, aferrando-se a seus amplos ombros. 
Desejava senti-lo dentro com um desespero tal, que desafiava a todo entendimento.
    E de repente, soou o telefone.
    Grace deu um coice ao escut-lo, e sua mente recuperou repentinamente o controle
    - O que  esse rudo? -grunhiu Julin.
    Agradecida pela interrupo, Grace saiu como pde de debaixo do Julin; tremiam-lhe as pernas e lhe ardia todo o corpo.
    -  um telefone -disse, antes de inclinar-se para a mesita de noite e agarrar o auricular.
    A mo no deixava de lhe tremer enquanto o aproximava da orelha.
    Lanando uma maldio, Julin ficou de lado.
    - Selena, graas a Deus que  voc -disse Grace, logo que escutou sua voz. Nesse momento agradecia muitssimo a habilidade que tinha Selena de saber o momento 
preciso em que chamar!
    - O que acontece? -perguntou seu amiga.
    - Deixa de fazer isso -espetou ao Julin que, nesse instante, dedicava-se a lhe lamber as ndegas em um movimento descendente...
    - Mas se no estar fazendo nada -lhe disse Selena.
    - Voc no, Lanie.
    O silncio caiu sobre o outro extremo da linha.
    - Escuta -disse Grace a Selena com uma dura advertncia na voz-. Necessito que procure entre a roupa do Bill e traga umas quantas coisas. Agora.
    - Funcionou! -o agudo chiado esteve a ponto de lhe perfurar o tmpano-. Ai, Meu deus! Funcionou!, no posso acredit-lo! Vou para l!
    Grace pendurou o telefone justo quando a lngua do Julin baixava desde suas ndegas para...
    - Para j!
    Ele se tornou para trs e a olhou com o cenho franzido, estupefato.
    - Voc no gosta que te faa isso?
    - Eu no hei dito isso -respondeu antes de poder deter-se.
    Julin se aproximou de novo a ela.
    Grace desceu de um salto da cama.
    - Tenho que ir a trabalhar.
    Julin se apoiou em um brao, tendido sobre um flanco, e a observou enquanto recolhia as calas do pijama e os arrojava. Agarrou-os com uma mo enquanto seus 
olhos se moviam, perezosamente, sobre o corpo do Grace.
    - por que no chama para dizer que est doente?
    - Que estou doente? -repetiu-. E voc como conhece esse truque?
    Ele se encolheu de ombros.
    - J lhe hei isso dito. Posso escutar enquanto estou encerrado no livro. Por isso posso aprender idiomas e entender as mudanas na sintaxe.
    Com a mesma elegncia de uma pantera que se endireita detrs estar escondida, Julin apartou o edredom e saiu lentamente da cama. No levava as calas. E seu 
membro estava totalmente ereto.
    Hipnotizada, Grace foi incapaz de mover-se.
    - No acabamos -disse ele com a voz rouca, enquanto se aproximava dela.
    - Pois claro que sim! -respondeu-lhe Grace, e fugiu ao quarto de banho, encerrando-se ali detrs jogar o fecho  porta. 
    Com os dentes apertados, Julin teve a repentina necessidade de golpe-la cabea contra a parede de to frustrado como se sentia. por que tinha que ser to teimosa?
    olhou-se o membro rgido e soltou um juramento.
    - E voc no pode te comportar durante cinco minutos ao menos?
    Grace se deu uma larga ducha fria. O que tinha Julin que fazia que seu sangue literalmente fervesse? Inclusive agora podia sentir o calor de seu corpo sobre 
ela.
    Seus lbios sobre...
    - Para, para, para!
    No era uma ninfomanaca inverificada sobre si mesmo. Era uma licenciada em Filosofia, com um crebro; e sem hormnios.
    Mas mesmo assim, seria extremamente fcil esquecer-se de tudo e passar todo o ms na cama com o Julin.
    - Muito bem -se disse a si mesmo-. Suponhamos que te mete na cama com ele um ms. E logo, o que? -ensaboou-se o corpo enquanto a irritao desvanecia os ltimos 
rescaldos de seu desejo-. Eu te direi o que passar depois. Ele se ir e voc, colega, ficar sozinha outra vez.
    " Lembra-te do que ocorreu quando Paul partiu? Lembra-te de como se sentia quando te passeava pela habitao, com o estmago revolto porque tinha permitido que 
te utilizasse? Lembra-te da humilhao que sentia?
    Mas ainda pior que essas lembranas, era a imagem do Paul mofando-se dela a gargalhadas com seus amigos, enquanto recolhia o dinheiro da aposta. Como desejava 
ter sido um homem nesse momento, para poder abrir a porta de seu apartamento de uma patada e golpe-lo at faz-lo pedaos.
    No, no deixaria que ningum mais a utilizasse.
    Havia-lhe flanco anos superar a crueldade do Paul, e no tinha nenhum desejo de arruinar o que tinha conseguido por um capricho. Embora fosse um fabuloso capricho!
    No, no e no. A prxima vez que se entregasse a um homem, seria com um que estivesse unido a ela. Algum que a cuidasse. 
    Algum que no deixasse a um lado sua dor e continuasse usando seu corpo procurando seu prprio prazer, como se ela no importasse nada -pensava, enquanto as 
lembranas reprimidas retornavam  superfcie. Paul se tinha comportado como se ela no tivesse estado presente. Como se no tivesse sido mais que uma boneca sem 
emoes, desenhada s para lhe proporcionar agradar.
    E no estava disposta a deixar que a voltassem a tratar assim, especialmente se se tratava do Julin.
    Jamais.
    
    Julin baixou as escadas, maravilhado pela brilhante luz do sol que entrava pelas janelas. Resultava-lhe divertido o fato de que a gente desse por sentado esses 
pequenos detalhes. Recordava a poca em que no se fixava em um pouco to simples como uma manh ensolarada.
    E agora, cada uma delas era um verdadeiro presente dos deuses. Um presente que tinha toda a inteno de degustar durante o ms que tinha por diante, at que 
estivesse obrigado a retornar  escurido. 
    Com o corao arrasado, dirigiu-se  cozinha, para o armrio onde Grace guardava a comida. Ao abrir a porta lhe surpreendeu a frieza. Alargou a mo e deixou 
que o ar frio lhe acariciasse a pele. Incrvel.
    Tirou vrios recipientes, mas no pde ler as etiquetas.
    - No coma nada que no possa identificar -se recordou a si mesmo, enquanto pensava em algumas das asquerosidades que tinha visto s pessoas comer ao longo dos 
sculos. 
    inclinou-se para diante e rebuscou at encontrar um melo em uma das gavetas inferiores. Levou-o a encimera do centro da cozinha, agarrou uma faca comprido do 
suporte, onde Grace tinha ao menos uma dzia deles, e o partiu pela metade.
    Cortou uma parte e o introduziu na boca. 
    Quando o delicioso suco alagou seus papilas gustativas, grunhiu de satisfao. A doce polpa fez que seu estmago rugisse com uma feroz exigncia. A garganta 
lhe pedia, com uma sensao prxima  dor, que lhe proporcionasse um pouco mais daquela relaxante doura. 
    Era to estupendo voltar a ter comida... Ter algo com o que apagar a sede e a fome.
    antes de poder deter-se, deixou a faca a um lado e comeou a partir o melo com as mos, levando-os partes  boca to rpido como podia.
    Pelos deuses!, estava to faminto... Tinha tanta sede...
    No foi consciente do que fazia at que tirou o chapu rasgando a casca.
    ficou paralisado ao ver suas mos cobertas com o suco do melo, e os dedos curvados como as garras de qualquer animal.
    "Date a volta, Julin e me olhe. Agora sei um bom menino e feixe o que te ordeno. me toque aqui. Mmm... sim, isso. Bom menino, bom menino. faa-me isso bem e 
te trarei de comer em um momento."
    Julin se encolheu de temor ante a repentina invaso das lembranas de sua ltima invocao. No era de sentir saudades que se comportasse como um animal; tinham-lhe 
tratado como tal durante tanto tempo que logo que recordava como ser um homem.
    Ao menos, Grace no lhe tinha encadeado  cama.
    Ainda.
    Enojado, jogou uma olhada ao redor da cozinha, enquanto dava obrigado mentalmente pelo fato de que Grace no tivesse presenciado sua perda momentnea de controle.
    Com a respirao entrecortada, agarrou a metade do melo e o jogou ao recipiente onde tinha visto o Grace atirar o lixo a noite anterior. Depois, abriu o grifo 
da pia e se lavou para desprender-se da pegajosa polpa. 
    logo que a gua fresca lhe roou a pele, suspirou de prazer. gua. Fria e pura. Era o que mais sentia falta de durante seu confinamento. O que mais desejava, 
hora detrs hora, enquanto sua ressecada garganta ardia de dor. 
    Deixou que a gua se deslizasse por sua pele antes de captur-la com as mos cavadas e beber diretamente delas. chupou-se os dedos. Era maravilhosamente relaxante 
a sensao de sentir o frescor na boca e depois notar como descia pela garganta, acalmando sua sede. Quo nico desejava nesse momento era meter-se na pia e deixar 
que a gua se deslizasse por todo seu corpo.
    Deixar que...
    Escutou que algum golpeava brandamente a porta e, imediatamente, um rudo de passos que descendiam pela escada. Fechou o grifo e agarrou o trapo seco que havia 
junto  pia para sec-las mos e a cara.
    Quando voltou para a encimera para recolher os restos do melo, reconheceu a voz da Selena.
    - Onde est?
    Julin agitou a cabea ante o entusiasmo da amiga do Grace. Isso era o que tinha esperado do Grace. 
    As duas mulheres entraram na cozinha. Julin elevou o olhar e se encontrou com uns olhos marrons to grandes como dois escudos espartanos. 
    - Jesus, Mara e Jos! -balbuciou Selena.
    Grace cruzou os braos sobre o peito, em seus olhos brilhava uma mescla de ira e diverso. 
    - Julin, esta  Selena.
    - Jesus, Mara e Jos! -repetiu seu amiga.
    - Selena? -perguntou Grace, movendo a mo ante os olhos de sua boquiaberta amiga, que nem sequer piscou.
    - Jesus, MA...!
    - vais deixar o j? -repreendeu-a Grace.
    Selena deixou que a roupa que levava nas mos casse direta ao cho e deu uma volta completa ao redor do Julin para poder ver seu corpo desde todos os ngulos. 
Seus olhos comearam pela cabea e descenderam at os dedos dos ps. 
    Julin logo que pde suprimir a ira ante semelhante escrutnio.
    - Voc gostaria de me olhar os dentes talvez, ou prefere que me baixe as calas para que possa me inspecionar mais a gosto? -perguntou-lhe com mais malcia da 
que tinha pretendido em um princpio. depois de tudo, ela estava, tecnicamente, de sua parte.
    Se fechasse a boca e deixasse de olhar o daquele modo... Nunca tinha suportado ser o centro dessas desmedidas amostras de ateno. 
    Selena alargou a mo, insegura, para lhe tocar o brao.
    - Uuuh! -burlou-se ele, conseguindo que Selena desse um coice.
    Grace soltou uma gargalhada.
    Selena franziu o cenho e dedicou a ambos um furioso olhar.
    - Muito bem, esto tentando rir de mim?
    - Merece-lhe isso -lhe disse Grace enquanto agarrava uma parte de melo recm talhado pelo Julin e o levava a boca-. Por no mencionar que voc vais ocupar 
te dele durante o dia de hoje.
    - O que? -perguntaram Julin e Selena ao unssono.
    Grace se tragou o bocado.
    - Bom, no posso lev-lo comigo  consulta, no?
    Selena sorriu com malcia.
    - Arrumado a que Lisa e seus pacientes femininas estariam encantadas.
    - Exatamente igual ao menino que tem entrevista s oito. No obstante, no acredito que fosse muito produtivo.
    - No pode cancelar as entrevistas? -perguntou Selena.
    Julin esteve de acordo. No gostava de absolutamente mostrar-se em um stio pblico. A nica parte da maldio que encontrava remotamente passvel era o fato 
de que a maioria de seus invocadoras o mantinham oculto em suas estadias privadas ou nos jardins.
    - Sabe perfeitamente por que -respondeu Grace-. No tenho um maridito advogado que me mantenha. Alm disso, no acredito que ao Julin goste de ficar solo em 
casa todo o dia, sem nada que fazer. Estou segura de que adorar sair e conhecer a cidade.
    - Preferiria ficar aqui contigo -disse ele.
    Porque o que realmente gostava de era v-la retorcer-se outra vez sob seu corpo, e sentir como todo seu membro se empapava com seu fluxo, enquanto a fazia chiar 
de prazer.
    Grace ficou apanhada em seu olhar, e Julin reconheceu o desejo que brilhava nas profundidades cinzas de seus olhos. Nesse instante, descobriu o que se propunha. 
ia se trabalhar para evitar ficar a ss com ele.
    Bem, cedo ou tarde teria que retornar a casa.
    E, ento, seria dela.  
    E uma vez se rendesse, ia demonstrar lhe a resistncia e a paixo que possua um soldado macedonio treinado no exrcito espartano. 
    
    
    Captulo 5
    
    A manh pareceu transcorrer muito lentamente com a habitual ronda de entrevistas. Por muito que tentasse concentrar-se em seus pacientes e seus problemas, no 
o obtinha.
    Uma e outra vez, sua mente voltava a recordar uma pele torrada pelo sol e uns ardentes olhos azuis. 
    E um sorriso...
    Como desejaria que Julin no lhe tivesse sorrido jamais. Esse sorriso podia muito bem ser sua perdio.
    -...e ento lhe disse: "Dave, olhe, se quer te pr minha roupa, de acordo. Mas no toque meus vestidos de desenho, porque quando lhe pe isso, dou-me conta de 
que ficam melhor que a mim, e me d vontade de dar-lhe todos ao Exrcito de Salvao." Fiz bem, doutora?
    Grace elevou a vista do caderno onde rabiscava esboos de homens "contentes" com lanas em riste.
    - O que dizia, Rachel? -perguntou a paciente, sentada na poltrona justa em frente dela.
    A mulher era uma fotgrafa elegantemente vestida.
    - Esteve bem o de lhe dizer ao Dave que no ficasse minha roupa? A ver, joder, no sinta muito bem que a seu noivo fique sua roupa melhor que a ti, no?
    Grace assentiu.
    -  obvio.  sua roupa e no teria por que fechar seu vestidor com chave.
    - V-o? Sabia!, isso foi o que lhe disse. Mas acaso me escutou? No. Ele pode chamar-se Davida sempre que quiser, e me dizer que  uma mulher apanhada no corpo 
de um homem; mas quando aterrissa, escuta-me como o fazia meu ex-marido. Juraria...
    Grace olhou inadvertidamente a hora... outra vez. Quase tinha acabado com o Rachel.
    - J sabe, Rachel -lhe disse, cortando-a antes de que pudesse comear sua sabida arenga sobre os homens e seus irritantes costumes-, possivelmente deveramos 
deixar o tema para na segunda-feira, quando tivermos a sesso conjunta com o Dave, no crie?
    Rachel assentiu.
    - Estupendo. Mas me recorde na segunda-feira que lhe fale sobre Menino.
    - Menino?
    - O chihuahua que vive no apartamento do lado. Juraria que esse co me jogou o olho. 
    Grace franziu o cenho. No era possvel que Rachel insinuasse o que ela estava imaginado que no fundo queria dizer.
    - O olho?
    - J sabe, o olho. Pode que parea um vira-lata, mas esse co s pensa no sexo. Cada vez que passo a seu lado, me olhe a saia. E no se imagina o que faz com 
minhas sapatilhas de esporte. Esse co  um pervertido.
    - Vale -respondeu Grace, interrompendo-a de novo. Comeava a suspeitar que no podia fazer nada com o Rachel, e sua obsesso a respeito de que todos os homens 
do mundo morriam por possui-la-. Definitivamente, ocuparemo-nos de desentranhar o amor que esse chihuahua sente por ti. 
    - Obrigado doutora.  voc  a melhor -Rachel recolheu sua bolsa do cho e se encaminhou para a porta.
    Grace se esfregou a frente enquanto as palavras do Rachel ainda ressonavam em sua cabea. Um chihuahua? Jesus!
    Pobre Rachel. Tinha que haver algum modo de ajudar a esta pobre mulher.
    Embora, por outro lado, era prefervel ter a um chihuahua lanando olhadas luxuriosas a sua saia, que a um escravo grego. 
    - Ai, Lanie -soprou-, como consegue me colocar nestas confuses?
    antes de poder fiar esse pensamento, soou o zumbido do intercomunicador.
    - Sim, Lisa?
    - Sua entrevista das onze foi cancelada, e durante a hora da senhorita Thibideaux, seu amiga Selena Laurens chamou seis dzias de vezes; e no estou exagerando, 
nem brincando. deixou uma quantidade impressionante de mensagens para que a chame o mvel logo que seja possvel.
    - Obrigado, Lisa.
    Agarrou o telefone e marcou o nmero da Selena.
    - Uf, graas a Deus! -exclamou seu amiga antes de que Grace pudesse pronunciar palavra-. Move o culo at aqui e te leve a seu noivo a sua casa. Agora mesmo!
    - No  meu noivo,  voc...
    - Ah!, quer saber o que ? -perguntou-lhe Selena com um tom histrico-.  um jodido m de estrognios, isso  o que . Estou rodeada de uma multido de mulheres 
neste mesmo momento. Sunshine est encantada, porque est vendendo mais cermica da que vendeu em sua vida. tentei levar ao Julin de volta a sua casa esta manh, 
mas no pude abrir um huequecito em semelhante multido. Juro-te que se o vir, pensaria que h um famoso.  a primeira vez que sou testemunha de algo assim. E agora, 
move o culo e vem me ajudar!
    E pendurou.
    Grace amaldioou sua sorte e pediu a Lisa, atravs do intercomunicador, que cancelasse todas as entrevistas pendentes para o resto do dia. 
    
    logo que chegou  praa, entendeu o que Selena tinha querido lhe dizer. Haveria umas vinte mulheres rodeando ao Julin, e dzias mais boquiabertas ao passar 
perto da banca. 
    As que estavam mais perto dele, empurravam-se a cotoveladas tratando de chamar sua ateno.
    Mas o mais incrvel de tudo era contemplar s trs mulheres que lhe aconteciam os braos pela cintura, enquanto outra os fazia uma foto. 
    - Obrigado -ronronou uma delas, cuja idade rondaria os trinta e cinco, dirigindo-se ao Julin enquanto arrebatava a cmara  garota que acabava de fazer a foto 
instantnea. Sustentou-a diante do peito em um intento de atrair a ateno do Julin, mas ele no pareceu interessado no mais Isto mnimo  simplesmente maravilhoso 
-continuou babando-. No posso esperar a chegar a casa e acostumar-lhe a meu grupo de novela. Jamais me acreditaro quando lhes contar que me encontrei com um modelo 
de capa de novela romntica no Bairro Francs. 
    Havia algo na rigidez do Julin que lhe dizia que no gostava da ateno que despertava. Mas tinha que admitir que no se comportava de forma abertamente mal 
educada. 
    No obstante, o sorriso no chegava aos olhos; e a que tinha nesses momentos no se parecia em nada a que lhe tinha dedicado a noite anterior.
    - Um prazer -lhes respondeu.
    As risitas que seguiram ao comentrio foram ensurdecedoras. Grace agitou a cabea totalmente incrdula. Garotas, um pouco de dignidade...!
    E de novo, observando o rosto do Julin, seu corpo e seu sorriso, sobreveio-lhe aquela sensao de vertigem, to habitual desde que lhe visse pela primeira vez.
    Como ia culpar as por comportar-se como adolescentes  porta de um concerto em um centro comercial?
    De repente, Julin olhou alm da mar de admiradoras e a viu. Grace arqueou uma sobrancelha, lhe indicando que encontrava a situao bastante divertida.
    Imediatamente, o sorriso se apagou de seu rosto e cravou os olhos nela como um faminto depredador que acaba de encontrar sua prxima comida.
    - Se me desculpam -disse, abrindo-se passo entre as mulheres e dirigindo-se diretamente para o Grace.
    Ela tragou saliva ao perceber a foto instantnea hostilidade das mulheres, que franziram o cenho em massa, observando-a.
    Mas foi muito pior o repentino e cru arrebatamento de desejo que a percorreu por completo, e fez que seu corao comeasse a pulsar descontrolado. Com cada passo 
que Julin dava para ela, a sensao se multiplicou por dez.
    - Saudaes, agapimeni -disse Julin, lhe elevando a mo para depositar um beijo sobre os ndulos.
    Uma ardente descarrega eltrica percorreu suas costas e, antes de que pudesse mover-se, ele a arrastou para seus braos e lhe deu um trrido beijo que lhe rasgou 
a alma.
    Fechou os olhos de forma instintiva e saboreou a calidez de sua boca e de seu flego; a sensao de seus braos rodeando-a com fora contra seu peito, duro como 
uma rocha. A cabea comeou a lhe dar voltas.
    Uf, certamente este homem sabia como dar um beijo! Julin tinha uma forma de mover os lbios que desafiava qualquer possvel explicao.
    E seu corpo... Grace nunca havia sentido nada parecido a esses msculos esbeltos e duros flexionando-se a seu redor.
    Uma das "admiradoras" sussurrou um apenas audvel Lagarta!, que rompeu o feitio.
    - Julin, por favor -murmurou-. A gente nos olhe.
    - E te importa?
    - Pois claro!
    Julin separou seus lbios dos do Grace com um grunhido, e voltou a deix-la sobre o cho. S ento, foi consciente de que a tinha estado sustentando, aparentemente 
sem muito esforo.
    Com as bochechas ao vermelho, Grace captou as olhadas invejosas das mulheres enquanto se dispersavam.
    Julin se apartou e deu um passo para trs; seu rosto mostrava s claras quo pouco disposto estava a manter-se afastado.
    - Por fim -disse Selena com um suspiro-. De novo posso ouvir -disse agitando a cabea-. Se tivesse sabido que ia funcionar, eu mesma lhe teria beijado. 
    Grace lhe dedicou uma sonrisilla satisfeita.
    - Bom, voc  a culpado.
    - Como diz? -perguntou-lhe Selena.
    Grace assinalou a roupa do Julin com um gesto da mo.
    - Olhe como vai vestido. No pode mostrar em pblico a um deus grego com umas calas curtas e uma camiseta de suspensrios duas talhas mais pequena da que necessita. 
Jesus, Selena!, no que estava pensando?
    - Em que estamos a 38 com uma umidade do cento e dez por cento. No queria que muriese por um golpe de calor.
    - Senhoras, por favor -disse Julin, interpondo-se entre elas-. Faz muito calor para estar discutindo em plena rua sobre um pouco to corriqueiro como minha 
roupa -disse, deslizando um faminto olhar sobre o Grace, e sonriendo de uma forma que derreteria a qualquer mulher-. E no sou um deus grego, s um semideus menor.
    Grace no entendeu o que Julin dizia, j que o som de sua voz a tinha cativada. Como o conseguia?, como fazia que sua voz soasse com esse tom to ertico?
    Seria seu timbre profundo?
    No, era algo mais. Mas no acaba de entender o que podia ser.
    Honestamente, quo nico queria era encontrar uma cama e deixar que fizesse com ela tudo o que lhe desejasse muito; e sentir sua apetitosa pele sob as mos.
    Observou a Selena e viu que esta o comia com os olhos, enquanto lhe olhava as pernas nuas e o traseiro.
    - Voc tambm o sente, verdade? -perguntou-lhe.
    Selena elevou o olhar, piscando.
    - O que?
    - A ele.  como se fosse o Flautista do Hamelin e ns fssemos os ratos, seduzidas por sua msica -Grace se deu a volta e observou o modo em que as mulheres 
o olhavam; algumas inclusive estiravam o pescoo para lhe ver melhor-. O que h nele que nos faz esquecer nossa vontade? -perguntou.
    Julin arqueou uma sobrancelha com um gesto arrogante.
    - Eu te atraio contra sua vontade?
    - Sinceramente sim. Eu no gosto de me sentir deste modo.
    - E como se sente? -perguntou-lhe ele.
    - Sexualmente atrativa -lhe respondeu antes de poder conter a lngua.
    - Como se fosse uma deusa? -voltou-lhe a perguntar ele com voz rouca.
    - Sim -respondeu, enquanto Julin se aproximava dela.
    No a tocou, mas tampouco  que fizesse falta. Sua mera presena conseguia afligi-la e embriag-la to somente com que cravasse seu olhar em seus lbios ou em 
seu pescoo. Podia jurar que realmente sentia o calor de seus lbios sobre a garganta.
    E Julin nem sequer se moveu.
    - Eu posso te dizer o que  -ronronou ele.
    - A maldio, no  certo?
    Julin negou com a cabea enquanto elevava uma mo para lhe passar muito lentamente o dedo pelo ma do rosto. Grace fechou os olhos com fora ao sentir uma 
feroz quebra de onda de desejo. Se no o olhava, possivelmente fosse capaz de manter-se firme e no capturar esse dedo com os dentes.
    Julin se inclinou um pouco mais e esfregou a bochecha contra a dela. 
    -  o fato de que posso te perceber a um nvel que os homens de sua mesma idade no apreciam. 
    -  o fato de que tem o traserus mais firme que vi em minha vida -disse Sunshine, interrompendo-os-. Por no mencionar que qualquer morre ao escutar sua voz. 
Eu gostaria que alguma de vocs dois me dissesse onde posso me fazer com um destes.
    Grace rompeu a rir a gargalhadas ante o inesperado comentrio do Sunshine.
    - Olha-o -disse a garota, assinalando ao Julin com o lpis. Tinha a mo manchada de pintura cinza, ao igual  bochecha direita-. Quando foi a ltima vez que 
viu um homem to bem formado, com uns msculos to tonificados que pode ver como o sangue corre por suas veias? Seu noivo ... a ver... est bom. Est muito bom 
-e depois acrescentou com uma expresso muito sria: - Est como um caminho.
    Sunshine girou um pouco seu caderno de esboos para que Grace pudesse ver sua interpretao do Julin.   
    - D-te conta do modo em que a luz ressalta o tom dourado de sua pele? D a sensao de que o sol lhe beijasse.
    Grace franziu o cenho. Sunshine tinha razo.
    Julin se inclinou para ela, com os olhos azuis repletos de paixo.
    - Volta para casa comigo, Grace -lhe sussurrou ao ouvido-. Agora. me deixe que te abrace, que te dispa e que te ensine como querem os deuses que um homem ame 
a uma mulher. Juro-te que o recordar durante o resto de sua vida.
    Grace fechou os olhos enjoada com o aroma do sndalo. O flego do Julin lhe acariciava o pescoo e seu rosto estava to perto que podia sentir os incipientes 
cabelos de sua barba lhe roando a bochecha.
    Todo seu corpo queria render-se ante ele. Sim, por favor, sim.
    Olhou os definidos e duros msculos dos ombros e o oco da garganta. Ai, como desejaria passar a lngua por essa pele dourada, e comprovar que o resto de seu 
corpo era to saboroso como sua boca!
    Julin seria esplndido na cama. No havia dvida.
    Mas ela no significava nada para ele. Nada absolutamente.
    - No posso -balbuciou, dando um passo atrs.
    Com a decepo refletida nos olhos, Julin apartou o olhar e adotou uma atitude brusca e resolvida.
    - Poder -lhe assegurou.
    Interiormente, sabia que Julin tinha razo. Quanto tempo seria capaz uma mulher de resistir a um homem como ele?
    Afastando esses pensamentos da mente, olhou ao outro lado da rua, ao Jackson Brewery.
    - Precisamos comprar algo que te sente bem.
    - No pude fazer outra coisa; tira- uma cabea ao Bill, e  duas vezes mais largo de ombros -disse Selena-. A estupenda idia de que o trouxesse comigo foi tua.
    Grace a olhou com os olhos entreabridos.
    - De acordo. Estaremos no Brewery, se por acaso nos necessita.
    - Muito bem, mas tomem cuidado.
    - Que tomemos cuidado? -perguntou Grace.
    Selena assinalou ao Julin com o dedo gordo.
    - Se houver uma correria de mulheres, me faa caso e te aparte de seu caminho. Desde que se foi o ltimo grupo de "admiradoras" no sinto o p direito.
    Grace cruzou a rua entre gargalhadas. Sabia que Julin iria atrs dela; de fato, sentia sua presena justo a suas costas. Era algo inegvel: esse homem tinha 
uma forma horrorosa de invadir seus pensamentos e seus sentidos.
    Nenhum dos dois disse uma palavra enquanto atravessavam a lotada galeria comercial, e entravam na primeira loja que viram.
    Grace jogou uma olhada at encontrar a seo de roupa masculina. Quando a localizou, dirigiu-se para ali.
    - Que estilo de roupa voc gosta mais? -perguntou ao Julin, enquanto se detinha junto ao expositor dos jeans. 
    - Para o que tenho em mente, o nudismo nos viria bem.
    Grace ps os olhos em branco.
    - Est tentando me chatear, verdade?
    - Talvez. Devo admitir que eu gosto de muito quando te ruboriza.
    E se aproximou dela.
    Grace se apartou e deixou que o mostrador dos jeans se interpor entre eles.
    - Acredito que necessitar pelo menos trs pares de calas enquanto esteja aqui.
    Ele suspirou e olhou atentamente os jeans.
    - Para que te incomodar se irei dentro de umas semanas?
    Grace o olhou furiosa...
    - Jesus, Julin! -espetou-lhe, indignada-. Te comporta como se ningum se preocupou de te vestir em suas anteriores invocaes.
    - No o fizeram.
    Grace ficou paralisada ante o desapaixonado tom de sua voz.
    - Est-me dizendo que durante os ltimos dois mil anos ningum se preocupou de que ponha um pouco de roupa em cima?
    - S em duas ocasies -lhe respondeu com a mesma inflexo montona-. Uma vez, durante uma tempestade de neve na Inglaterra, na poca da Regncia, uma de meus 
invocadoras me cobriu com uma camisola rosa de volantes, antes de me tirar o balco para que seu marido no me encontrasse na cama. A segunda vez foi muito abafadia 
para lhe contar isso - No tiene gracia. Y no entiendo cmo una mujer puede tener a un hombre al lado durante un mes y no preocuparse de que se vista.
    - No tem graa. E no entendo como uma mulher pode ter a um homem ao lado durante um ms e no preocupar-se de que se vista.
    - me olhe, Grace -lhe disse, estendendo os braos para que contemplasse seu esbelto e delicioso corpo-. Sou um escravo sexual. Ningum tinha pensado jamais em 
me pr roupa para cumprir com minhas obrigaes, antes de que voc chegasse.
    A apaixonada olhar do Julin a mantinha em um estado de transe, mas a dor que ele tentava ocultar nas profundidades azuis de seus olhos a golpeou com fora. 
E o golpe lhe chegou  alma.
    - Asseguro-te -prosseguiu ele em voz baixa- que uma vez me tinham dentro, faziam algo por me manter ali; na Idade Mdia, uma das invocadoras trancou a porta 
e disse a todo mundo que tinha a peste. 
    Grace desviou o olhar enquanto lhe escutava. O que contava era incrvel, mas podia dizer -pela expresso de seu rosto- que no estava exagerando nem um pice.
    No era capaz de imagin-las degradaes que teria sofrido ao longo dos sculos. Santo Deus!, a gente tratava aos animais melhor do que lhe tinham tratado a 
ele.
    - Invocavam-lhe e nenhuma delas conversava contigo, nem te dava roupa?
    - A fantasia de todo homem, no  certo? Ter a um milho de mulheres dispostas a jogar-se em seus braos, sem compromissos nem promessas. Sem procurar outra 
coisa que seu corpo e as poucas semanas de prazer que pode lhes proporcionar -o tom ligeiro no conseguiu ocultar a amargura que lhe invadia.
    Pode que essa fosse a fantasia de qualquer homem, mas estava claro que no era a do Julin.
    - Bom -disse Grace, voltando para os jeans-, eu no sou assim, e vais precisar levar algo em cima quando sairmos.
    O olhar que lhe dedicou foi to iracunda que deu um involuntrio passo para trs.
    - No me amaldioaram para ser mostrado em pblico, Grace. Estou aqui para te servir a ti, e s a ti.
    Que bem soava isso. Mas nem ainda assim ia dar-se por vencida. No podia utilizar a outro ser humano da forma que Julin descrevia. Estava mau e no seria capaz 
de seguir vivendo consigo mesma se o fazia isso. 
    - D-me igual -disse, decidida-. Quero que saia comigo e vais necessitar roupa -e comeou a olhar as talhas das calas.
    Julin guardou silncio.
    Grace elevou os olhos e captou o tenebroso e encolerizada olhar dele.
    - O que?
    - Quanto o que? -espetou ele.
    - Nada. vamos ver qual destes fica melhor -agarrou uns quantos jeans de diferentes esculpe e os ofereceu. Pelo modo em que Julin reagiu, qualquer teria pensado 
que lhe estava dando uma mierda de co. 
    Sem fazer caso de seu ameaador aparncia, Grace lhe empurrou para os provadores e fechou com fora a porta de um dos compartimentos atrs dele.
    Julin ficou paralisado ao entrar no pequeno cubculo. Sua imagem lhe assaltou sbitamente desde trs ngulos diferentes. Durante um minuto, foi incapaz de respirar 
enquanto lutava contra o irrefrevel desejo de fugir do estreito e reduzido habitculo. No podia fazer um s movimento sem dar um golpe com a porta ou com os espelhos.
    Mas ainda pior que a claustrofobia, foi enfrentar-se  imagem de seu rosto. Fazia sculos que no contemplava seu reflexo. O homem que tinha diante se parecia 
tanto a seu pai que lhe entraram desejos de fazer pedaos o cristal. Tinham os mesmos rasgos angulosos e o mesmo olhar desdenhoso. 
    Quo nico no compartilhavam era a profunda e irregular cicatriz que atravessava a bochecha esquerda de seu progenitor.
    Pela primeira vez em incontveis sculos, Julin contemplou a desagradvel imagem das trs tranas que lhe identificavam como general, e que lhe caam sobre 
o ombro.
    Elevou uma tremente mo e as tocou enquanto fazia algo que no tinha feito em muito tempo: recordar o dia que ganhou o direito s levar.
    Durante a batalha do Tebas, o general que lhes comandava caiu abatido e as tropas saladas de frutas comearam a replegarse aterrorizadas. Ele agarrou a espada 
do general, reagrupou a seus homens e lhes conduziu  vitria, esmagando aos romanos.
    O dia posterior  luta, reina-a da Macednia em pessoa lhe trancou o cabelo e deu de presente as trs contas de cristal que as sujeitavam nos extremos. 
    Julin encerrou as pequenas bolinhas em um punho.
    Essas tranas tinham pertencido ao que uma vez fora um orgulhoso e herico geral macedonio, cujo exrcito foi to capitalista que obrigou aos romanos a dispersar-se 
aterrorizados.
    A lembrana lhe atormentava.
    Baixou o olhar para o anel que levava na mo direita. Um anel que tinha estado ali tanto tempo que j no era consciente de que existia; fazia muito que tinha 
esquecido seu significado.
    Mas as tranas...
    No tinha pensado nelas desde fazia muitos, muitos sculos.
    as tocando nesse momento, recordava ao homem que uma vez foi. Recordava os rostos de seus familiares. s pessoas que se apressava a lhe servir. A aqueles que 
lhe temiam e lhe respeitavam. 
    Recordava uma poca em que ele mesmo governava seu destino, e o mundo conhecido se estendia ante ele para ser conquistado. 
    E agora no era mais que...
    Com um n na garganta, fechou os olhos e se tirou as contas do extremo das tranas, antes de comear s desfazer.
    Enquanto seus dedos se esforavam em desfazer a primeira delas, olhou as calas que tinha deixado cair ao cho.
    por que estava fazendo isso Grace por ele? por que se empenhava em lhe tratar como a um ser humano?
    Estava to acostumado a ser tratado como a um objeto, que a amabilidade desta mulher lhe resultava insuportvel. O trato impessoal e frio que tinha mantido com 
o resto de seus invocadoras lhe tinha ajudado a tolerar a maldio, a no recordar quem e o que foi tempo atrs.
    A no recordar o que tinha perdido.
    Permitia-lhe concentrar-se to solo no aqui e o agora, nos prazeres efmeros que tinha por diante. 
    Mas os seres humanos no viviam desse modo. Tinham famlias, amigos, um futuro e muitos sonhos.
    Esperanas.
    Coisas que fazia sculos que ele tinha deixado atrs. Coisas que jamais voltaria a conhecer.
    - Maldito seja, Prapo! -soprou enquanto tironeaba da ltima trana-. E maldito eu seja tambm!
    Grace o olhou assombrada, da cabea aos ps e de novo para cima, quando por fim Julin saiu do provador vestido com uns jeans que pareciam ter sido desenhados 
especificamente para ele.
    Rodeada-a camiseta de suspensrios que Selena lhe tinha emprestado, chegava-lhe justo  estreita e musculosa cintura. As calas lhe caam sobre os quadris, deixando 
 vista uma poro de seu duro estmago, dividido em duas pela linha de plo escuro que comeava sob o umbigo e desaparecia sob o vaqueiro.
    Grace teve o forte impulso de aproximar-se dele e deslizar a mo por aquele lhe sugiram atalho para investigar at onde levava. Recordava muito bem a imagem 
do Julin nu diante dela.
    Com os dentes apertados e tratando de normalizar a respirao, teve que admitir que os jeans lhe sentavam de maravilha. Estava muito melhor que com as calas 
curtas -se  que isso era possvel.
    Sunshine estava no certo: tinha o melhor culo que um vaqueiro tivesse abafado jamais, e em quo nico podia pensar era em passar a mo por esse traseiro e lhe 
dar um bom aperto. 
    A vendedora, e a clienta a que esta atendia, deixaram de falar e olharam ao Julin boquiabertas.
    - Ficam bem? -perguntou ao Grace.
    - Uf!, sim corao -lhe respondeu Grace sem flego, antes de pensar no que ia dizer.
    Julin lhe sorriu, mas o sorriso no lhe iluminou os olhos.
    Grace deu uma volta completa a seu redor e se fixou na talha.
    Ai, sim!, um culo precioso!
    Distrada por suas bem formada costas, passou inadvertidamente os dedos sobre sua pele enquanto agarrava a etiqueta. Sentiu como Julin se esticava.
    - J sabe -disse ele, olhando-a por cima do ombro-, que desfrutaramos muitssimo mais se ambos estivssemos nus. E em sua cama.
    Grace escutou como a vendedora e a outra mulher ofegavam surpreendidas.
    Com o rosto morto de calor, endireitou-se e o olhou furiosa.
    - Temos que falar com urgncia sobre os comentrios adequados em um lugar pblico.
    - Se me levasse a casa, no teria que preocupar-se por isso.
    O tipo era realmente implacvel. 
    Movendo a cabea com incredulidade, Grace agarrou dois pares mais de jeans, umas quantas camisas, um cinturo, uns culos de sol, meias trs-quartos, sapatos 
e vrios boxers enormes e horrorosos. Nenhum homem estaria atrativo com aquela cueca, decidiu. E o ltimo que pretendia era que Julin resultasse ainda mais apetecvel.
    Saram da zona dos provadores com o Julin vestido de cima abaixo com a roupa nova: um plo, uns jeans e umas sapatilhas de esporte.
    - Agora parece quase humano -brincou Grace, enquanto deixavam atrs o departamento de roupa masculina.
    Julin lhe dedicou um olhar frio e letal.
    - S por fora -lhe respondeu com voz to baixa que Grace no esteve segura de ter escutado bem.
    - O que h dito? -perguntou-lhe.
    - Que s sou humano exteriormente -disse ele falando mais alto.
    Grace captou a angstia em seu olhar. Seu corao comeou a pulsar com mais fora.
    - Julin -disse com claras intenes de lhe repreender-, s humano.
    Ele apertou os lbios e lhe respondeu com um olhar sombrio e precavido:
    - Srio? Um humano pode viver dois mil anos? Permite a um humano caminhar pelo mundo umas quantas semanas cada centenas de anos?
    Olhou a seu redor, notando-se nas mulheres que o olhavam s escondidas por entre a roupa. Mulheres que se detinham por completo, paralisadas, assim que o viam 
pela extremidade do olho. 
    Fez um amplo gesto com a mo, assinalando o espetculo que se desenvolvia a seu redor.
    - Viu que faam isso com algum mais? -o rosto do Julin adotou uma expresso dura e perigosa, enquanto a atravessava com o olhar- No, Grace, jamais hei sido 
humano.
    Com o urgente desejo de reconfort-lo, ela levou a mo at sua bochecha.
    - s humano, Julin.
    A dvida que viu em seus olhos lhe partiu o corao.
    Sem saber muito bem o que fazer nem o que dizer para que se sentisse melhor, deixou passar o tema e se encaminhou para a sada. Estava quase saindo quando se 
deu conta de que Julin no ia atrs dela.
    girou-se e o localizou imediatamente. distraiu-se no departamento de lingerie feminina; estava de p junto a um expositor de minsculas negligs negras. Comeou 
a ruborizar-se de novo; juraria que podia escutar os lascivos pensamentos que passavam nesses momentos pela mente masculina. 
    Seria melhor que fosse rapidamente para busc-lo, antes de que qualquer das mulheres se oferecesse como modelo. aproximou-se apressadamente e se esclareceu garganta.
    - Vamos?
    Ele a olhou muito devagar, de cima abaixo e Grace soube por seus olhos que estava conjurando sua imagem com aquele objeto de gaze.
    - Estaria deslumbrante com isto.
    Ela o olhou com cepticismo. Aquela coisa era to difana que se transparentara por inteiro. Ao contrrio do que ocorria com ele, o seu no era um corpo que 
conseguisse fazer voltar a cabea de ningum -a menos que o susodicho estivesse muito desesperado. Ou tivesse estado encarcerado um par de dcadas. 
    - No sei se deslumbraria a algum, mas seguro que eu acabava congelada.
    - No demoraria muito em entrar em calor.
    Grace conteve a respirao ao escutar suas palavras; acreditou-as com convico.
    -  muito mau.
    - No, na cama no -disse baixando a cabea para a sua-. Realmente na cama sou muito...
    - Aqui esto!
    Grace retrocedeu de um salto ao escutar a voz da Selena. Julin lhe disse algo em uma lngua estranha que no conseguiu entender.
    - V, v -disse com tom acusador-. Grace no entende o grego clssico. dedicou-se a dormir durante todo o semestre -Selena a olhou e estalou a lngua-. O v? 
Disse-te que algum dia te serviria para algo.
    - Sim, claro! -disse a gargalhadas-. Como se naquela poca eu me pudesse ter imaginado que foste convocar a um escravo sexual gri... -a voz do Grace se extinguiu 
ao cair na conta de que Julin estava presente. Envergonhada, mordeu-se o lbio.
    - No passa nada, Grace -a tranqilizou em voz baixa. 
    Mas ela sabia que esse comentrio o tinha incomodado. Era lgico.
    - Sei o que sou Grace; a verdade no me ofende. Em realidade, estou mais ofendido pelo fato de que me chame grego. Fui treinado na Esparta e lutei com o exrcito 
macedonio. Para mim era um hbito evitar todo contato possvel com os gregos antes de ser amaldioado.
    Grace arqueou uma sobrancelha ante suas palavras, ou melhor dizendo ante o que no havia dito. No fazia nenhuma referncia a sua infncia.
    - Onde nasceu?
    Comeou a lhe pulsar um msculo na mandbula, e seus olhos se obscureceram de forma sinistra. Qualquer que tivesse sido o lugar de seu nascimento, no parecia 
lhe agradar muito. 
    - Muito bem, sou mdio grego; mas no estou orgulhoso dessa parte de minha herana.
    Bem; um tema espinhoso. de agora em diante, apagaria a palavra "grego" de seu vocabulrio.
    - Voltando para assunto da neglig negra -disse Selena-, devo dizer que ali h uma vermelha que acredito que ficaria muito melhor.
    - Selena! -gritou-lhe Grace.
    Seu amiga a ignorou e conduziu ao Julin  prateleira onde estava pendurada a lingerie de cor vermelha. Selena agarrou um picardias de cor vermelha brilhante 
aberto pela parte dianteira, e sujeito por um pequeno cordoncillo que se atava justo sob o peito. Os suspensrios eram minsculos. Umas braguitas e um liguero de 
encaixe do mesmo tom completavam o conjunto. 
    - O que est pensando? -perguntou-lhe Grace enquanto Selena sustentava o objeto frente a Julin.
    Ele a olhou de forma especulativo. 
    Se continuavam com esse jueguecito, acabaria morta de vergonha.
    - Querem deixar j isso? -perguntou-lhes-. No me penso pr isso l la mir divertido.
    - De todas formas vou comprar o -disse seu amiga com voz resolvida-. Estou virtualmente segura de que Julin  capaz de te convencer para que lhe ponha isso.
    Ele a olhou divertido.
    - Preferiria convenc-la para que o tirasse.
    Grace se cobriu a cara com as mos e gemeu.
    - Acabar animando-lhe respondeu Selena com um gesto conspirador.
    - No o farei -lhe disse Grace, ainda oculta depois das mos.
    - Sim o far -disse Julin deixando resolvido o tema, enquanto Selena pagava a neglig vermelha.
    Usou um tom to arrogante e crdulo, que Grace imaginou que no estava acostumado a que lhe desafiassem.
    - Equivocaste-te alguma vez? -perguntou-lhe.
    A diverso desapareceu de seu rosto, e de novo ocultou seus sentimentos detrs uma espcie de vu. Esse olhar escondia algo, estava segura. Um pouco muito doloroso, 
tendo em conta a repentina tenso de seu corpo. 
    No voltou a pronunciar uma s palavra at que Selena retornou e lhe deu a bolsa.
    - V -comentou-, me ocorre que podiam pr umas velas, uma msica tranqila e...
    - Selena -a interrompeu Grace-, agradeo-te muito o que tenta fazer, mas em lugar de falar de mim, podemos nos ocupar do Julin?
    Selena o olhou de esguelha.
    - Claro, passa-lhe algo?
    - Sabe como tir-lo do livro? De forma permanente, quero dizer.
    - Nem idia -respondeu e se dirigiu ao Julin-. Voc sabe algo a respeito?
    - No deixei que repetir-lhe  impossvel.
    Selena assentiu com a cabea.
    -  muito teimosa. Nunca disposta ateno ao que lhe diz, a menos que seja o que ela quer ouvir.
    - Teimosa ou no -acrescentou Grace dirigindo-se ao Julin-, no posso imaginar uma s razo pela qual quereria permanecer encerrado em um livro.
    Julin apartou o olhar.
    - Grace, no o curve.
    - Isso  o que intento, liber-lo do esgotamento de seu confinamento.
    - De acordo -disse Selena, cedendo finalmente-. Muito bem, Julin, que horrvel pecado cometeu para acabar metido em um livro?
    - Hubris. 
    - Ooooh! -exclamou Selena com tom fnebre-, isso no  nada bom. Grace, pode que tenha razo. Estavam acostumados a fazer coisas como despedaar s pessoas por 
isso. Deveria ter emprestado ateno durante as classes de cultura clssica. Os deuses gregos so realmente desumanos no referente aos castigos.
    Grace entrecerr os olhos para olh-los.
    - Nego-me a acreditar que no exista nenhum modo de liber-lo. No podemos destruir o livro, ou convocar a um de seus espritos, ou fazer algo para ajud-lo?
    - V!, agora crie em minha magia vodu?
    - No muito, a verdade. Mas lhe arrumou isso para lhe trazer at aqui.  que no pode pensar em algo que sirva de ajuda?
    Selena se mordiscou o polegar em um gesto pensativo.
    - Julin, que deus estava a seu favor?
    Ele inspirou fundo, como se estivesse realmente cansado de suas perguntas.
    - Em realidade, nenhum deles me apreciava muito. Como era um soldado, normalmente dedicava sacrifcios a Ateneu, mas tinha mais contato com o Eros.
    Selena lhe dedicou um sorriso travesso.
    - O deus do amor e o desejo; compreendo-o perfeitamente.
    - No  pelo que crie -lhe respondeu ele agriamente.
    Selena lhe ignorou.
    - tentaste alguma vez recorrer ao Eros?
    - No nos falamos.
    Grace ps os olhos em branco ante o despreocupado sarcasmo do Julin.
    - por que no tenta convoc-lo? -sugeriu-lhe Selena.
    Grace lhe lanou um furioso olhar.
    - Selena, poderia fazer o esforo de ser um pouco mais sria? Sei que me burlei que suas crenas durante todos estes anos, mas agora estamos falando da vida 
do Julin.
    - Estou falando totalmente a srio -lhe respondeu com nfase-. O melhor para o Julin seria invocar ao Eros e lhe pedir ajuda.
    Que demnios? -pensou Grace. A noite anterior, no acreditava que pudessem invocar ao Julin. Possivelmente Selena tivesse razo.
    - Tentar-o? -perguntou-lhe Grace.
    Julin suspirou resignado, mas dava a impresso de que estava mais que disposto s sacudir s dois. Com aspecto ofendido, jogou a cabea para trs e olhando 
ao teto disse:
    - Cupido, bastardo intil, invoco sua presena.
    Grace elevou as mos.
    - Joder!, no entendo como no se aparece depois de chamar o desse modo.
    Selena riu.
    - Muito bem -disse Grace-. De todas formas no me acredito nada deste abracadabra. vamos deixar as bolsas em meu carro e a procurar um stio onde comer; ali 
poderemos pensar algo mais produtivo que invocar ao tal "Cupido, bastardo intil". Esto de acordo?
    - Por mim bem -respondeu Selena.
    Grace lhe deu a bolsa com a roupa de seu marido.
    - Aqui esto as coisas do Bill.
    Selena olhou no interior e franziu o cenho.
    - Onde est a camiseta de suspensrios?
    - Logo lhe dou isso.
    Selena riu de novo.
    Julin caminhava atrs delas, escutando suas brincadeiras enquanto saam da loja.
    Felizmente, Grace tinha encontrado estacionamento justo no estacionamento do centro comercial.
    Julin as observou deixar as bolsas no carro. Se o pensava um pouco, tinha que admitir que gostava do fato de que Grace estivesse to interessada em ajud-lo.
    Ningum o tinha estado antes.
    Tinha percorrido o caminho de sua existncia em solitrio, apoiando-se em sua inteligncia e em sua fora. Inclusive antes de ser amaldioado estava cansado 
de tudo. Cansado da solido, de no contar com ningum neste mundo e, o mais importante, de no ter a ningum que se preocupasse com ele. 
    Era uma pena que no tivesse conhecido ao Grace antes da maldio. Ela teria sido um blsamo para sua inquietao. Mas de todos os modos, as mulheres de sua 
poca no se pareciam com as atuais; essas mulheres o tratavam como a uma lenda a que temer ou aplacar, mas Grace o olhava como a um igual.
    O que tinha Grace que a fazia parecer nica? O que havia nela que lhe permitia chegar ao mais fundo de sua alma, quando sua prpria famlia lhe tinha dado as 
costas?
    No estava muito seguro. Mas era uma mulher muito especial. Um corao puro em um mundo infestado de egosmo. Nunca tinha acreditado possvel encontrar a algum 
como ela.
    Incmodo ante o rumo que estavam tomando seus pensamentos, jogou uma olhada  multido. Ningum parecia molesto com o opressivo calor lhe reinem naquela estranha 
cidade.
    Captou a discusso que um casal mantinha justo em frente de onde eles se encontravam; a mulher estava zangada porque seu marido se esqueceu algo. Com eles havia 
um menino, de uns trs ou quatro anos, que caminhava entre ambos.
    Julin lhes sorriu. No podia recordar a ltima vez que tinha visto uma famlia imersa em seus quehaceres. A imagem despertou uma parte dele que apenas se recordava 
ter. Seu corao. perguntou-se se essas pessoas saberiam o presente que supunha se ter os uns aos outros.
    Enquanto o casal continuava com a discusso, o menino se deteve. Algo ao outro lado da rua tinha captado sua ateno. 
    Julin conteve o flego ao dar-se conta do que o menino estava a ponto de fazer.
    Grace fechou nesse momento o porta-malas do carro.
    Pela extremidade do olho, viu uma mancha azul que cruzava a rua a toda carreira. Levou-lhe um segundo dar-se conta de que se tratava do Julin, atravessando 
como uma exalao o estacionamento. Franziu o cenho, sentida saudades, e ento viu o pequen que se internava na rua lotada de carros. 
    - OH, Meu deus! -ofegou quando escutou que os veculos comeavam a frear em seco.
    - Steven! -gritou uma mulher.
    Com um movimento prprio de um filme, Julin saltou o muro que separava o estacionamento da rua, agarrou ao menino ao vo e protegendo-o sobre seu peito, equilibrou-se 
sobre a lua do carro que acabava de frear, deu um salto lateral e acabou no outro lado.
    Aterrissaram a salvo no outro sulco, um segundo antes de que outro carro colidisse com o primeiro e se equilibrasse diretamente sobre eles.
    Horrorizada, Grace observou como Julin subia de um salto  capota de um velho Chevy, deslizava-se pelo pra-brisa e se deixava cair ao cho, rodando uns quantos 
metros at deter-se por fim e ficar imvel, tendido de flanco.
    O caos invadiu a rua, que se encheu de gritos e chiados, enquanto a multido rodeava o cenrio do acidente.
    Grace no podia deixar de tremer. Aterrorizada, cruzou a multido, tentando chegar ao lugar onde tinha cansado Julin.
    - Por favor, que esteja bem; por favor, que esteja bem -murmurava uma e outra vez, suplicando que tivessem sobrevivido ao golpe.
    Quando conseguiu atravessar a mar humana e chegou ao lugar onde tinha cansado, viu que Julin no tinha solto ao menino. Ainda o deixava firmemente sujeito, 
a salvo entre seus braos.
    Incapaz de acreditar o que via, deteve-se com o corao desbocado.
    Estavam vivos?
    - No vi nada igual em minha vida -comentou um homem atrs dela.
    Todos os congregados eram da mesma opinio. 
    Quando viu que Julin comeava a mover-se, aproximou-se muito devagar e muito assustada.
    - Est bem? -escutou que lhe perguntava ao menino.
    O pequeno respondeu com um lastimero uivo.
    Ignorando o ensurdecedor grito, Julin ficou em p, lentamente, com o menino em braos.
    Como as tinha arrumado para manter pego ao pequeno?
    cambaleou-se um pouco e voltou a recuperar o equilbrio sem soltar ao menino.
    Grace lhe ajudou a manter-se em p lhe sujeitando pelas costas.
    - No deveria te haver levantado -lhe disse quando viu o sangue que lhe empapava o brao esquerdo.
    Ele no pareceu lhe emprestar ateno.
    Tinha um estranho e lgubre olhar.
    - Shh! J te tenho -murmurou-. Agora est a salvo.
    Esta atitude a deixou assombrada. Aparentemente, no era a primeira vez que consolava a um menino. Mas, quando teria estado um soldado grego perto de um menino?
    A menos que tivesse sido pai.
    A mente do Grace girava a velocidades de vertigem, sopesando as possibilidades, enquanto Julin deixava  chorosa criatura em braos de sua me, que soluava 
ainda mais forte que o menino.
    Senhor!, era possvel que Julin tivesse tido filhos? E se era certo, onde estavam esses meninos?
    O que lhes teria acontecido?
    - Steven -choramingou a mulher enquanto abraava ao menino-. Quantas vezes tenho que te dizer que no te afaste de meu lado?
    - Est bem? -perguntaram ao unssono o pai do menino e o condutor, dirigindo-se ao Julin.
    Fazendo uma careta, passou-se a mo pelo brao esquerdo para comprovar os danos sofridos.
    - Sim, no  nada -respondeu, mas Grace percebeu a rigidez de sua perna esquerda, onde lhe tinha golpeado o carro.
    - Necessita que te veja um mdico -lhe disse, enquanto Selena se aproximava.
    - Estou bem, de verdade -lhe respondeu com um dbil sorriso, e ento baixou a voz para que s ela pudesse lhe escutar-; mas tenho que confessar que os carros 
faziam menos danifico que os carros quando te chocava com eles.
    Ao Grace horrorizou seu inoportuno senso de humor.
    - Como pode brincar com isto?, acreditava que tinha morrido.
    Ele se encolheu de ombros.
    Enquanto o homem lhe dava profusamente as obrigado por ter salvado a seu filho, Grace jogou uma olhada a seu brao; o sangue emanava justo por cima do cotovelo, 
mas se evaporava imediatamente, como se se tratasse de um efeito especial prprio de um filme.
    de repente, Julin apoiou todo seu peso sobre a perna ferida, e a tenso que se refletia em seu rosto desapareceu. 
    Grace intercambiou um atnito olhar com a Selena, que tambm se precaveu do que acabava de acontecer. Que demnios tinha feito Julin?
    Era humano, ou no?
    - No posso agradecer-lhe o suficiente -insistia o homem-, acreditava que os dois tinham morrido.
    - Me alegro de lhe haver visto a tempo -sussurrou Julin. Estendeu a mo para o menino.
    Estava a ponto de acariciar os castanhos cachos do pequeno quando se deteve. Grace observou as emoes que cruzavam por seu rosto antes de que ele recuperasse 
sua atitude estica e retirasse a mo.
    Sem dizer uma palavra, voltou para estacionamento.
    - Julin? -chamou-lhe, apressando-se para lhe dar alcance-. De verdade est bem?
    - No se preocupe por mim, Grace. Meus ossos no se rompem, e estranha vez sangro -nesta ocasio, a amargura de sua voz era indiscutvel-.  um presente da maldio. 
As Parcas proibiram minha morte para que no pudesse escapar a meu castigo.
    Grace se encolheu ao ver a angstia que refletiam seus olhos.
    Mas no s estava interessada no fato de que tivesse sobrevivido ao acidente, tambm queria lhe perguntar sobre o menino, sobre seu modo de olh-lo -como se 
tivesse estado revivendo um horrvel pesadelo. Mas as palavras lhe engasgaram.
    - Tio, merece-te uma recompensa -lhe disse Selena ao alcanar -.vamos a Praline Factory!
    - Selena, no acredito que...
    - O que  Praline? -perguntou ele.
    -  ambrsia cajun -explicou Selena-. Algo que deveria estar a sua altura.
    Contra os protestos do Grace, Selena lhes conduziu para a escada rolante. Subiu ao primeiro degrau e se deu a volta para olhar ao Julin, que subia em meio das 
duas.
    - Como fez para saltar sobre o carro? Foi incrvel!
    Julin encolheu os ombros.
    - Vamos, homem no seja modesto! Parecia-te com o Keanu Reeves no Matrix. Grace, fixou-te no movimento que fez?
    - Sim, vi-o -disse em voz fica, percebendo o incmodo que se sentia Julin ante as adulaes da Selena.
    Tambm percebeu a forma em que as mulheres a seu redor o olhavam boquiabertas.
    Julin tinha razo. No era normal. Mas, quantas vezes podia contemplar um homem como ele em carne e osso?, um homem que exsudasse esse brutal atrativo sexual?
    Era um saco de feromonas andantes.
    E agora um heri.
    Mas, sobre tudo, era um mistrio; ao menos para ela. morria por conhecer umas quantas coisas sobre ele. E, de uma ou outra forma, conseguiria as averiguar durante 
o ms que tinham por diante. 
    Quando chegaram a Praline Factory, no ltimo piso, Grace comprou dois Pralines de acar e nozes e uma Coca Cola. Sem pens-lo duas vezes, ofereceu- um praline 
ao Julin. Mas em lugar de agarr-lo, ele se inclinou e lhe deu um bocado enquanto ela o sustentava.
    Saboreou o sabor aucarado de uma forma que fez que ao Grace subisse a temperatura; seus olhos azuis no deixaram de olh-la enquanto degustava o doce, como 
se desejasse que fosse seu corpo o que saboreava naquele momento.
    - Tinha razo -disse com essa voz rouca que fazia que lhe pusesse a pele de galinha-. Est delicioso.
    - Latido! -disse a vendedora do outro lado do mostrador-. Esse acento no  de por aqui perto. Voc deve vir de longe.
    - Sim -respondeu Julin-. No sou daqui.
    - E de onde ? 
    - Da Macednia.
    - Isso no est em Califrnia, verdade? -perguntou a garota-. Parece um desses surferos que se vem pela praia.
    Julin franziu o cenho.
    - Califrnia?
    -  da Grcia -informou Selena  garota.
    - Ah! -exclamou ela.
    Julin arqueou uma acusadora sobrancelha.
    - Macednia no ...
    - Colega -disse Selena, com os lbios manchados de praline-, por estes contornos pode te sentir afortunado se encontrar a algum que conhea a diferena.
    antes de que Grace pudesse responder s bruscas palavras da Selena, Julin lhe colocou as mos na cintura e a elevou at apoi-la sobre seu peito.
    inclinou-se e apanhou seu lbio inferior com os dentes para, ato seguido, acarici-lo com a lngua. Ao Grace comeou a lhe dar voltas todo depois do tenro abrao. 
Julin aprofundou o beijo um momento antes de solt-la e afastar-se dela.
    - Tinha acar -lhe explicou com um travesso sorriso, que fez que suas covinhas aparecessem em todo seu esplendor.
    Grace piscou, surpreendida ante quo rpido seu beijo tinha despertado sua paixo, e o refrescante que parecia com o mesmo tempo.
    - me podia haver isso dito.
    - Certo, mas deste modo foi muito mais divertido.
    Grace no pde rebater seu argumento.
    Com passos rpidos, afastou-se dele e tentou ignorar o sorriso malicioso da Selena.
    - por que me tem tanto medo? -perguntou-lhe Julin inesperadamente, enquanto ficava a seu lado.
    - No te tenho medo.
    - Ah, no? E ento o que  o que te assusta? Cada vez que me aproximo de ti, encolhe-te de medo. 
    - No me encolho -insistiu Grace. Joder,  que havia eco?
    Julin alargou o brao e o passou pela cintura. Ela se apartou com rapidez.
    - Encolheste-te -lhe disse acusadoramente, enquanto retornavam  escada rolante.
    Grace baixava um degrau por diante do Julin, e lhe aconteceu os braos pelos ombros e apoiou o queixo sobre sua cabea. Sua presena a rodeava por completo, 
envolvia-a e fazia que se sentisse extraamente enjoada e protegida.
    Olhou fixamente a fora que desprendiam essas mos morias e grandes sob as suas. A forma nas veias se marcavam, ressaltando seu poder e sua beleza. Ao igual 
ao resto de seu corpo, suas mos e seus braos eram magnficos.
    - Alguma vez tiveste um orgasmo, verdade? -sussurrou-lhe ele ao ouvido.
    Grace se engasgou com o Praline.
    - Este no  lugar para falar disso.
    - acertei, verdade? -perguntou-lhe-. Por isso...
    - No  isso -lhe interrompeu ela-; de fato sim que tive alguns.
    Vale, era uma mentira. Mas ele no tinha por que averigu-lo.
    - Com um homem?
    - Julin! -exclamou-. O que acontece com Selena e a ti com esse af de discutir sobre minha vida privada em pblico?
    Ele inclinou ainda mais a cabea, aproximando-a tanto a seu pescoo que Grace podia sentir o roce de seu flego sobre a pele, e cheirar seu quente aroma a limpo.
    - Sabe, Grace? Posso te proporcionar prazeres to intensos que no seria capaz de imagin-los.
    Um calafrio lhe percorreu as costas. Acreditava-lhe.
    Seria to fcil deixar que lhe demonstrasse suas palavras...
    Mas no podia. Estaria mau e, sem ter em conta o que ele dissesse, acabaria lhe remoendo a conscincia. E no fundo, suspeitava que a ele tambm. 
    tornou-se para trs, o justo para olh-lo aos olhos.
    - Te ocorreu pensar que possivelmente no me interesse sua proposta?
    Suas palavras lhe deixaram perplexo.
    - E isso como  possvel?
    - J lhe hei isso dito. A prxima vez que compartilhe minha intimidade com um homem, quero que estejam envoltas muitas mais parte alm das bvias. Quero ter 
seu corao. 
    Julin olhou seus lbios com olhos famintos.
    - Asseguro-te que no o sentiria falta de.
    - Sim que o faria.
    Estremecendo-se como se o tivesse esbofeteado, Julin se ergueu.
    Grace sabia que acabava de tocar outro tema espinhoso. Como queria descobrir mais costure sobre ele, deu-se a volta e o olhou aos olhos.
    - por que  to importante para ti que eu acesse? Ocorrer-te algo se no cumprir com minha parte?
    Ele riu amargamente.
    - Como se as coisas pudessem piorar mais.
    - Ento, por que no te dedica a desfrutar do tempo que passe comigo sem pensar em... -e baixou a voz- o sexo?
    Os olhos do Julin flamejaram.
    - Desfrutar com o que? Conhecendo pessoas cujos rostos me perseguiro durante toda a eternidade? Crie que me diverte olhar a meu redor sabendo que em uns dias 
me arrojaro de novo ao buraco vazio e escuro onde posso ouvir, mas no posso ver, saborear, sentir nem cheirar, onde meu estmago se retorce constantemente de fome 
e a garganta me arde pela sede que no posso satisfazer? Voc  o nico que me est permitido desfrutar. E me negaria esse prazer?
    Os olhos do Grace se encheram de lgrimas. No queria lhe fazer danifico. No era sua inteno.
    Mas Paul tinha utilizado um truque similar para ganhar sua simpatia e levar-lhe  cama; e isso lhe tinha destroado o corao.
    Depois da morte de seus pais, Paul lhe tinha assegurado que a cuidaria. Tinha estado junto a ela, consolando-a e sustentando-a. E, quando finalmente confio nele 
por completo e lhe entregou seu corpo, lhe fez tanto dano e, de forma to cruel, que ainda sentia a alma rasgada.
    - Sinto-o muito, Julin. De verdade. Mas no posso faz-lo -desceu da escada rolante e se encaminhou de volta  rua peatonal.
    - por que? -perguntou-lhe, enquanto Selena e lhe davam alcance.
    Como podia explicar-lhe Paul lhe fez muito dano aquela noite. No tinha tido compaixo alguma por seus sentimentos. Lhe pediu que se detivera mas no o fez. 
    "Olhe, supe-se que a primeira vez di -lhe disse Paul- Joder!, deixa de chorar; acabarei em um minuto e poder partir."
    Para quando Paul acabou, sentia-se to humilhada e ferida que se passou dias inteiros chorando.
    - Grace? -a voz do Julin se introduziu entre o torvelinho de seus pensamentos- O que te acontece?
    Custou-lhe muito trabalho conter as lgrimas. Mas no choraria; no em pblico. No assim. No permitiria que ningum sentisse lstima por ela.
    - No  nada -lhe respondeu.
    Em busca de uma baforada de ar fresco, embora fosse mais ardente e espesso que o vapor, dirigiu-se  porta lateral do Brewery que levava ao Moonwalk. Julin 
e Selena a seguiram.
    - Grace, o que  o que te faz chorar? -perguntou-lhe Julin.
    - Paul -sussurrou Selena. 
    Grace a olhou furiosa, enquanto se esforava por recuperar a calma. Com um suspiro entrecortado, olhou ao Julin.
    - eu adoraria te jogar os braos ao pescoo e me colocar na cama contigo, mas no posso. No quero que me utilizem desse modo, e no quero te utilizar!  que 
no o entende? 
    Julin apartou o olhar com a mandbula tensa. Grace olhou para o lugar onde tinha fixado sua ateno e viu um grupo de seis rudes moteros que se aproximavam 
at eles. A vestimenta de couro devia ser cansativo com aquela temperatura, mas nenhum deles parecia not-lo, posto que no paravam de tomar o cabelo e rir.
    Nesse momento, Grace se fixou na mulher que lhes acompanhava. Sua forma de andar, lenta e sedutora, era o equivalente feminino ao elegante e gil perambular 
to tpico do Julin. A garota tambm possua uma estranha beleza, prpria de qualquer atriz ou modelo. 
    Alta e loira, levava um direto Top de couro e uns shorts muito curtos e ajustados que abraavam uma figura pela qual Grace seria capaz de assassinar. 
    A garota diminua o passo, ficando atrasada depois dos homens, enquanto se deslizava os culos pela ponte do nariz para olhar fixamente ao Julin.
    Grace se encolheu mentalmente.
    OH Senhor!, isto podia ficar muito feio. Nenhum dos desalinhados e duros moteros pareciam pertencer ao tipo de homem que tolera que sua noiva olhe a outro tio. 
E o ltimo que ela desejava era uma briga no Moonwalk.
    Grace agarrou ao Julin da mo e atirou dele em direo contrria.
    Mas se negou a mover-se.
    - Venha, Julin! -disse-lhe nervosa-. Temos que voltar para centro comercial.
    Ainda assim no se moveu. 
    Olhava fixamente aos moteros, de forma to furiosa que parecia querer assassin-los. E ento, em um abrir e fechar de olhos, soltou-se da mo do Grace e se aproximou 
deles a pernadas, at que agarrou a um pela camisa. 
    Muda de assombro, Grace observou como Julin lhe dava ao tipo um murro na mandbula.
    
    
    Captulo 6
    
    - Vem aqui, pedao do Julin deixou cair uma enxurrada de maldies que tivessem envergonhado at a um marinheiro.
    Grace abriu uns olhos como pratos. No estava muito segura do que lhe surpreendia mais: se o ataque do Julin ao desconhecido motero ou a linguagem que estava 
usando.
    Como ele no deixava de lhe dar murros, o tipo comeou a defender-se; mas suas habilidades na luta no se aproximavam, nem de longe, s do Julin.
    Esquecendo por completo a Selena, Grace ps-se a correr para eles com o corao pulsando desbocado enquanto tentava pensar o que fazer. No havia maneira de 
interpor-se entre os dois homens, tendo em conta que tentavam matar o um ao outro.
    - Julin, detenha antes de que lhe faa mal! -gritou a garota que lhes acompanhava.
    Grace se deteve o escut-la, incapaz de mover-se.
    Como  que conhecia o Julin?
    A mulher dava voltas ao redor de ambos, em um intento de ajudar ao motero e estorvar ao Julin. 
    - Cu, tome cuidado, vai a... Ai, isso deveu doer! -a mulher se encolheu em um gesto de dor, quando Julin golpeou ao tipo no nariz-. Julin, deixa de lhe maltratar 
desse modo! vais fazer que lhe enche o nariz. Uf, corao, te agache!
    O motero no se agachou e Julin lhe atirou um tremendo murro no queixo, que o fez cambalear-se para trs. 
    O olhar do Grace passava do Julin  mulher com total incredulidade, aniquilada.
    Como era possvel que se conhecessem? 
    - Eros, corao! No! -gritou a garota de novo, agitando as mos freneticamente diante da cara.
    Selena se aproximou at o Grace.
    - Este  o Eros que Julin invocou? -perguntou-lhe Grace.
    Selena se encolheu de ombros.
    - Pode ser; mas jamais me teria imaginado ao Cupido de motero.
    - Onde est Prapo? -perguntou Julin ao Eros, enquanto lhe agarrava para lhe empurrar sobre o corrimo de madeira, sob a qual discorria o rio.
    - No sei -lhe respondeu, lutando para apartar as mos do Julin de sua camiseta.
    - No te atreva a me mentir -grunhiu Julin.
    - No sei!
    Julin lhe sujeitou com a fora que outorgam dois mil anos de dor e raiva. As mos lhe tremiam enquanto lhe atirava da camiseta. Mas ainda piores que o desejo 
de lhe matar ali mesmo, eram as implacveis pergunta que ressonavam em sua cabea.
    por que ningum tinha acudido antes a suas chamadas?
    por que o tinha trado Eros?
    por que o tinham deixado sozinho para que sofresse?
    - Onde est? -perguntou de novo Julin.
    - Comendo, arrotando; demnios! No sei. Faz uma eternidade que no o vejo.
    Julin o separou do corrimo de um puxo e o soltou. Tinha a cara desencaixada pela ira.
    - Tenho que encontr-lo -disse entre dentes-. Agora.
    Na mandbula do Eros comeou a palpitar um msculo enquanto tentava alis-las rugas da camiseta.
    - Bom, me dando uma sova no vais chamar sua ateno.
    - Ento possivelmente deva lhe matar -lhe respondeu Julin, aproximando-se de novo a ele.
    Sbitamente, os outros moteros reagiram para det-lo.
    Ao aproximar-se deles, Eros se agachou para esquivar o murro do Julin e se interps entre este e seus amigos.
    - lhe deixem em paz, meninos -lhes disse enquanto agarrava ao mais prximo pelo brao e o empurrava para trs-. No querero lutar com ele. me faam caso. Poderia 
lhes tirar o corao e fazer que lhes comessem isso antes de que cassem mortos ao cho. 
    Julin estudou aos homens com um furioso olhar que desafiava a qualquer deles a aproximar-se. Grace sentiu terror ante a ira refletida em seus olhos. Uma ira 
letal que parecia confirmar as palavras do Eros.
    - Est louco? -perguntou o mais alto observando incrdulo ao Julin-. No acredito que seja capaz de tanto.
    Eros se limpou o sangue do lbio e sorriu fracamente ao olhar o dedo.
    - Sim, bom. Confiem em mim. Seus punhos so como marretas, e tem a condenada habilidade de mover-se to rpido que no podero esquiv-lo.
    Apesar de suas poeirentas calas de couro negro e a rasgada camiseta, Eros era incrivelmente bonito e no parecia estar esgotado, como o resto de seus companheiros. 
Seu arrumado rosto poderia ser formoso se no levasse uma cavanhaque castanha rodeada de uma barba de trs dias, e o corte de cabelo ao estilo militar. 
    - Alm disso, no  mais que uma pequena rixa familiar -continuou Eros, com um estranho brilho nos olhos. Deu uns tapinhas a seu amigo no brao e soltou uma 
gargalhada-. Meu irmo pequeno sempre teve um carter desagradvel.
    Grace intercambiou um atnito e incrdulo olhar com a Selena, ao mesmo tempo que ambas ficavam boquiabertas pelo assombro.
    - escutei bem? -perguntou a Selena-. No  possvel que seja irmo do Julin. Ou sim?
    - Como quer que saiba?
    Julin disse algo ao Eros em grego que fez que os olhos da Selena se abriram como pratos e que o sorriso desaparecesse do rosto do deus.
    - Se no fosse meu irmo, mataria-te por isso.
    Os olhos do Julin o fulminaram.
    - Se no necessitasse sua ajuda, j estaria morto.
    Em lugar de zangar-se, Eros riu a gargalhadas.
    - No te ocorra rir  -lhe advertiu com aborrecimento a garota-.  melhor que recorde que  das poucas pessoas capaz de cumprir essa ameaa.
    Eros assentiu e se girou para falar com seus companheiros.
    - Parte  -lhes disse-. Nos reuniremos com vs mais tarde.
    - Est seguro? -perguntou o mais alto dos quatro, olhando com nervosismo ao Julin-- Podemos te dar uma mo, se te fizer falta.
    - No, no passa nada -disse movendo a mo despectivamente-. No recordam que vos pinjente que tinha que ver algum? Meu irmo est um pouco cheio o saco comigo, 
mas lhe passar.
    Grace se apartou para deixar passar aos moteros; todos partiram, com a exceo da imponente mulher, que ficou ali de p, observando cautelosamente aos dois homens 
com os braos cruzados sobre o generoso peito coberto de couro.  
    Totalmente alheio a ela, a Selena e  mulher, Eros caminhou lentamente ao redor do Julin, desenhando um crculo para poder lhe examinar atentamente.
    - te relacionando com mortais? -perguntou-lhe Julin, deslizando um olhar igualmente frio e desdenhoso sobre o Eros-. V, Cupido...  que se congelou o Trtaro 
desde que me parti?
    Eros fez caso omisso de suas iradas palavras.
    - Joder, menino! -exclamou incrdulo-. No trocaste um pice. Acreditava que foi mortal.
    - supunha-se que devia s-lo mas... -e de novo comeou a soltar improprios, um aps o outro.
    Os olhos do Eros comearam a brilhar, ameaadores.
    - Com uma boca como essa, deveria te acotovelar com Are. Joder, hermanito!, no sabia que pudesse conhecer o significado de todo isso.
    Julin voltou a agarrar a seu irmo pela camiseta, mas antes de poder fazer nada mais, a mulher elevou o brao e fez um estranho movimento com a mo.
    Julin ficou imvel como uma esttua. Pela expresso de seu rosto, Grace podia afirmar que no estava muito contente.
    - me deixe, Psique -grunhiu. 
    Grace abriu a boca pela surpresa. Psique? Seria possvel?
    - S se prometer no voltar a golpe-lo -respondeu ela-. Sei que no tm a melhor das relaes, mas respeita o fato de que eu goste de sua cara tal e como est, 
e que no suporte que lhe d um s murro mais. 
    - Li-b-ra-me -voltou a dizer Julin, recalcando cada slaba.
    -  melhor que o faa, Psique -lhe disse Eros-. Est sendo amvel contigo, mas pode livrar-se de ti muito mais facilmente que eu, graas a mame. E se o faz, 
acabar ferida.
    Psique baixou o brao.
    Julin liberou a seu irmo.
    - No te encontro para nada gracioso, Cupido. Nada disto me resulta gracioso. E agora, me diga onde est Prapo.
    - Maldita seja! No sei. Quo ltimo soube dele  que estava vivendo no sul da Frana.
    Ao Grace zumbiam os ouvidos ante a informao que estava descobrindo. No podia deixar de olhar ao Cupido e a Psique. Seria possvel? Poderiam ser verdadeiramente 
Cupido e Psique?
    E seriam famlia do Julin? Seria possvel tal coisa?
    De novo sups que seria to lgico como a imagem de duas mulheres bbadas conjurando a um escravo sexual grego, que estava encerrado em um velho livro. 
    Captou o olhar vido e encantado da Selena.
    - Quem  Prapo? -perguntou-lhe Grace.
    - Um deus flico da fertilidade que sempre se representou totalmente juntado -lhe sussurrou.
    - E para que o necessita Julin?
    Seu amiga se encolheu de ombros.
    - Porque possivelmente foi ele quem lhe amaldioou? Mas ento aqui haveria algo muito divertido: Prapo  irmo do Eros, portanto, se Eros for irmo do Julin, 
h muitos possibilidades de que este e Prapo tambm o sejam. 
    Condenado a uma eternidade como escravo por seu prprio irmo?
    O simples pensamento a punha doente.
    - Chama-o -disse Julin com tom ameaador ao Eros.
    - Chama-o voc. Eu estou fora de jogo para ele.
    - Fora de jogo?
    Cupido lhe respondeu em grego.
    Com a mente totalmente embotada por tudo o que estava acontecendo, Grace decidiu interromp-los e ver se conseguia algumas respostas.
    - me perdoe mas, o que est acontecendo aqui? -perguntou ao Julin-. por que lhe golpeaste?
    Ele a olhou com regozijo.
    - Porque gostava de muito.
    - Muito bonito -disse Cupido lentamente ao Julin, sem nem sequer olhar ao Grace-. No v h... quanto?, dois mil anos? E em lugar de me dar um abrao fraternal 
e amistoso, acabo esmurrado. -Cupido sorriu jocoso a Psique-. E mame se pergunta por que no me relaciono mais com meus irmos...
    - No estou de humor para agentar seus sarcasmos, Cupido -lhe advertiu Julin entre dentes.
    Cupido soprou.
    -  que no vais deixar de me chamar por esse nauseabundo nome? Jamais pude suport-lo, e no posso acreditar que voc goste, dado o muito que odiava aos romanos.
    Julin lhe dedicou um frio sorriso.
    - Utilizo-o porque sei o muito que o odeia, Cupido.
    Cupido apertou os dentes e Grace notou que se conteve com muita dificuldade para no equilibrar-se sobre o Julin.
    - me diga, chamou-me to somente para me surrar? Ou h algum outro motivo, mais produtivo, que explique minha presena?
    - Para te ser justifico, no pensava que te incomodasse em vir, posto que me ignoraste as ltimas trs mil vezes que te chamei.
    - Porque sabia que foste pegar me -disse Cupido destacando-a bochecha torcida-; e o tem feito.
    - E ento, por que acudiste esta vez? -inquiriu Julin. 
    - Para te ser justifico -respondeu, repetindo as palavras do Julin-, assumia que estava morto e que me chamava um simples mortal cuja voz era muito similar 
 tua. 
    Grace observou como as emoes abandonavam ao Julin. Como se as hirientes palavras do Cupido tivessem matado algo em seu interior. A ele tambm pareceram afet-lo, 
j que se via mais acalmado.
    - Olhe -disse ao Julin-, sei que me culpa do que aconteceu, mas no tive nada que ver com o que aconteceu ao Penlope. No tinha forma de saber o que Prapo 
ia fazer ao descobri-lo tudo.
    Julin fez um gesto de dor, como se Cupido o tivesse esbofeteado. Uma agonia arrolladora se refletiu em seus olhos e em seu rosto. Grace no tinha nem idia 
de quem era a tal Penlope, mas parecia bastante bvio que tinha significado muito para o Julin.
    - Ah, no? -perguntou-lhe Julin com a voz rouca. 
    - Juro-lhe isso, hermanito -respondeu Cupido em voz baixa. Lanou um rpido olhar a Psique e de novo se centrou no Julin-. Nunca tive a inteno de lhe fazer 
danifico, e jamais quis te trair.
    - J -disse ele com um sorriso zombador-. E esperas que me cria isso? Conheo-te muito bem, Cupido. voc adora causar estragos nas vidas dos mortais.
    - Mas no o fez contigo, Julin -disse Psique com voz lastimera-. Se no crie a ele, confia em mim. Ningum quis que Penlope morrera dessa maneira. Sua me 
ainda chora suas mortes.
    O furioso olhar do Julin se endureceu ainda mais.
    - Como suporta falar dela? Afrodita estava to ciumenta de ti que tentou te casar com um homem horrvel, e depois quase te matou para evitar que te casasse com 
o Cupido. Para ser a deusa do Amor, no tem muito para outros, tudo o esbanja nela mesma. 
    Psique apartou o olhar.
    - No fale assim de -lhe espetou Cupido-.  nossa me e se merece nosso respeito.
    A sinistra ira que refletiu o rosto do Julin teria aterrorizado ao muito mesmo diabo, e Cupido se encolheu ao v-la.
    - No te atreva jamais a defend-la diante de mim.
    Foi ento quando Cupido notou a presena do Grace e da Selena. Olhou-as duas vezes, surpreso, como se acabassem de aparecer de repente em metade do grupo. 
    - Quais so?
    - Amigas -respondeu Julin, para surpresa do Grace. 
    O rosto do Cupido adotou uma expresso dura e fria. 
    - Voc no tem amigas.
    Julin no respondeu, mas a tirante careta que torceu seus lbios afetou profundamente ao Grace.
    Aparentemente inconsciente da dureza de suas palavras, Cupido se aproximou indolentemente at Psique.
    - Ainda no me h dito por que  to importante para ti jogar a luva ao Prapo.
    A mandbula do Julin se esticou.
    - Porque me amaldioou a passar a eternidade como um escravo, e no posso escapar. Quero o ter diante o tempo suficiente para comear a lhe arrancar partes do 
corpo que no possam voltar a lhe crescer.
    Cupido perdeu a cor do rosto.
    - Tio, j lhe jogou Pelotas se fez isso. Mame lhe tivesse matado com haver-se informado.
    - A srio crie que vou acreditar me que Prapo me fez isto sem que ela se inteirasse? No sou to estpido, Eros. A essa mulher no interessa nada o que possa 
me ocorrer.
    Cupido negou com a cabea.
    - No comece com isso. Quando te ofereci seus presentes me disse que me colocasse isso por meu orifcio traseiro. Lembra-te?
    - por que o faria? -perguntou Julin com sarcasmo-. Zeus me expulsou do Olimpo horas depois de meu nascimento, e Afrodita jamais se incomodou em discutir a deciso. 
S lhes aproximavam de mim para me torturar de algum modo. -Julin olhou ao Cupido com fria assassina-. Quando a um co lhe golpeia com freqncia, acaba voltando-se 
agressivo.
    - Vale, admito-o. Alguns de ns poderamos ter sido um pouco mais condescendentes contigo, mas...
    - Nada de peros, Cupido. No fizeram nada por mim, nenhuma puetera vez. Especialmente ela. 
    - Isso no  certo. Mame jamais superou que lhe desse as costas. Foi seu favorito.
    Julin soprou.
    - E por isso estive apanhado em um livro os ltimos dois mil anos?
    Grace sofria por ele. Como podia Cupido escut-lo to tranqilo, sem nem sequer pensar em usar seus poderes para liberar a seu irmo de um destino pior que a 
morte? No era de sentir saudades que Julin lhes amaldioara. Sbitamente, Julin agarrou uma adaga do cinturo do Cupido e se fez um profundo corte na boneca.
    Ela ofegou horrorizada, mas antes de poder abrir a boca, a ferida se fechou sem ter derramado uma s gota de sangue.
    Cupido abriu os olhos de par em par.
    - Que bode! -ofegou-. Essa  uma das adagas do Hefesto.
    - J sei -lhe respondeu Julin enquanto lhe devolvia a arma-. At voc pode morrer se lhe ferem com uma destas, mas eu no. At a chega a maldio do Prapo.
    Grace contemplou o horror nos olhos do Cupido ao ser consciente da magnitude do ocorrido. 
    - Sabia que te odiava, mas jamais pensei que cairia to baixo. Tio, no que estava pensando?
    - No me importa o que pensasse, s quero me liberar disto.
    Cupido assentiu. Pela primeira vez, Grace viu simpatia e preocupao em seu olhar.
    - Muito bem, hermanito. Passo por passo. No v muito longe enquanto vou procurar a mame e vejo o que tem que dizer a respeito.
    - Se me quiser tanto como diz, por que no a chamas para que venha aqui e falo diretamente com ela?
    Cupido lhe olhou pensativamente.
    - Porque a ltima vez que mencionei seu nome, esteve chorando durante um sculo. Fez-lhe muito dano.
    Embora a aparncia do Julin seguia sendo rgida e distante, Grace suspeitava que, no fundo, devia ter sofrido tanto como sua me.
    Se no mais.
    - Consultarei-o com ela e voltarei em um momento -lhe disse enquanto passava um brao ao redor dos ombros de Psique-. De acordo?
    Julin alargou o brao, agarrou o pendente que Cupido levava a pescoo e atirou dele com fora.
    - Deste modo me asseguro de que retorne.
    Cupido se esfregou o pescoo; parecia bastante mal-humorado.
    - Tenha muito cuidado. Esse arco pode ser muito perigoso se cair nas mos equivocadas.
    - No tema. Lembrana muita bem como di.
    Ambos intercambiaram um olhar carregado de significado.
    - at agora -se despediu Cupido dando uma palmada, e junto com Psique, desvaneceu-se entre os vapores de uma neblina dourada.
    Grace retrocedeu um passo, com a mente em ebulio. No podia acabar de acredit-lo que tinha presenciado.
    - Devo estar sonhando -murmurou-. Ou isso, ou vi muitos episdios da Xena.
    Permaneceu muito quieta enquanto se esforava por digerir tudo o que tinha visto e ouvido.
    - No pode ter sido real. Deve ser algum tipo de alucinao.
    Julin suspirou com cansao.
    - Eu gostaria de poder acredit-lo.
    - Deus Santo!, esse era Cupido! -exclamou Selena extasiada-. Cupido. O real. Esse querubim to macaco que tem poder sobre os coraes.
    Julin soprou.
    - Cupido  algo menos "bonito". E com respeito aos coraes, encarrega-se de destro-los.
    - Mas faz que a gente se apaixone.
    - No -lhe respondeu, apertando com mais fora o pendente entre seus dedos-. O que ele oferece  uma iluso. Nenhum poder celestial pode conseguir que um humano 
ame a outro. O amor provm do corao -confessou com uma nota afligida na voz.
    Grace procurou seu olhar.
    - Falas como se soubesse de primeira mo.
    - Sei.
    Grace sentia sua dor como se fosse o dela. Alargou o brao para lhe tocar brandamente o brao.
    - Isso foi o que ocorreu ao Penlope? -perguntou-lhe em voz baixa.
    Julin apartou o olhar do Grace, mas ela captou o sofrimento que se refletiu em seus olhos.
    - H algum lugar onde possa me cortar o cabelo? -perguntou inesperadamente.
    - O que? -respondeu Grace, consciente de que tinha trocado o tema para, desse modo, no ter que responder a sua pergunta-. por que?
    - No quero ter nada que me o recorde dor e o dio que se viam em seu rosto eram tangveis.
    A contra gosto, Grace assentiu.
    - H um lugar no Brewery.
    - Por favor, me leve.
    E Grace o fez. Abriu a marcha de volta ao centro comercial, at chegar ao salo de beleza. 
    Ningum disse uma palavra at que esteve sentado na cadeira com a estilista detrs.
    - Est seguro de que quer cortar-lhe perguntou a garota, passando as mos com uma carcia reverente entre os compridos e douradas mechas-. Lhe asseguro que  
magnfico. A maioria dos homens esto espantosos com o cabelo comprido, mas lhe sinta de maravilha, tem-no to saudvel e suave! eu adoraria saber o que usa para 
acondicion-lo.
    O rosto do Julin permaneceu impassvel.
    - Corte o.
    A garota, uma diminuta moria, olhou por cima de seu ombro procurando o Grace.
    - Sabe? Se tivesse isto em minha cama todas as noites e pudesse acarici-lo, eu no gostaria de nada que queria danific-lo.
    Grace sorriu. Se a garota soubesse...
    -  seu cabelo.
    - Est bem -respondeu com um suspiro resignado. Cortou-o justo por cima dos ombros.
    - Mais curto -disse Julin enquanto a garota se afastava.
    A estilista pareceu surpreendida.
    - Est seguro?
    Julin assentiu com a cabea.
    Grace observou em silncio como a garota lhe cortava o cabelo deixando-lhe com um estilo que recordava ao David do Miguel Anjo, com os cachos alvoroados lhe 
emoldurando o rosto.
    Estava mais deslumbrante que antes, se  que isso era possvel.
    - Tudo bem? -perguntou-lhe a garota finalmente.
    - Est bem -lhe respondeu ele-. Obrigado.
    Grace pagou o corte e lhe deu uma gorjeta  garota. Olhou ao Julin e sorriu.
    - Agora parece desta poca.
    Ele voltou a cabea com um gesto rpido, como se lhe tivesse dado um bofeto.
    - Ofendi-te? -perguntou-lhe Grace, preocupada com a possibilidade de lhe haver feito mal inadvertidamente. Isso era quo ltimo Julin necessitava.
    - No.
    Mas Grace o intua. Um pouco relacionado com seu comentrio lhe tinha ferido. Profundamente.
    - Ento -disse Selena pensativamente, enquanto se uniam  multido que lotava o Brewery-,  filho da Afrodita?
    Ele a olhou de esguelha, furioso.
    - No sou filho de ningum. Minha me me abandonou, meu pai me repudiou e cresci em um campo de batalha espartano, sob o punho de qualquer que andasse perto.
    Suas palavras rasgaram o corao do Grace. No era de sentir saudades que fosse to duro. To forte.
    Assaltou-a uma inquietao: o teria abraado algum com carinho alguma vez? S uma vez, sem que ele tivesse que agradar a esse algum primeiro.
    Julin encabeava a marcha e Grace observava seu andar sinuoso. Parecia um depredador esbelto e letal. Levava os polegares metidos nos bolsos dianteiros dos 
jeans, e caminhava totalmente alheio s mulheres que suspiravam e babavam a seu passo.
    Tentou imaginar-se ao Julin com a aparncia que teria tido levando sua armadura de batalha. Dada sua arrogncia e seu modo de mover-se, devia ter sido um feroz 
lutador.
    - Selena -chamou a seu amiga em voz baixa-. No li na faculdade que os espartanos golpeavam a seus filhos todos os dias, para comprovar o grau de dor que podiam
suportar?
    Julin lhe respondeu em seu lugar.
    - Sim. E uma vez ao ano, faziam uma competio em busca do menino que agentasse a surra mais dura sem chorar.
    - Um grande nmero deles morria pela brutalidade das competies -acrescentou Selena-. Bem durante a surra ou pelas posteriores feridas.
    Grace o recordou tudo de repente. Suas palavras a respeito de ser treinado na Esparta e seu dio pelos gregos.
    Selena olhou com tristeza ao Grace antes de dirigir-se ao Julin.
    - Sendo o filho de uma deusa, suponho que agentaria mais de uma surra.
    - Sim, suportava-as -disse sinceramente, com a voz carente de emoes.
    Grace nunca teve mais desejos de abraar a outro ser humano como nesse momento. Queria sustentar ao Julin entre seus braos. Mas sabia que no lhe agradaria.
    - Bom -comentou Selena, e por seu olhar, Grace soube que tentava alegrar o ambiente-, tenho um pouco de fome. por que no pilhamos uns hambrgueres no Hard Rock?
    Julin franziu o cenho at formar uma profunda V.
    - por que tenho constantemente a impresso de que falam em outro idioma? O que  "pilhar um hambrguer no Hard Rock"?
    Grace soltou uma gargalhada.
    - O Hard Rock  um restaurante.
    Julin pareceu horrorizado.
    - Comem em um stio cujo nome anuncia que a comida  mais dura que uma rocha?
    Grace riu ainda mais. por que alguma vez se precaveu disso?
    -  muito bom, srio, j ver.
    Saram do Brewery e atravessaram o estacionamento em direo ao Hard Rock Caf.
    Felizmente, no tiveram que esperar muito antes de que a garonete lhes buscasse uma mesa. 
    - Oua! -disse um menino quando se aproximavam da mulher-. Ns chegamos antes.
    A garonete lhe lanou um olhar glacial.
    - Sua mesa ainda no est preparada -e se voltou para o Julin com ojitos tenros-. Se for to amvel de me seguir...
    A garota abriu a marcha rebolando os quadris, como se no tivesse outra coisa que fazer.
    Grace olhou a Selena agentando a risada, e lhe indicou com um gesto que olhasse  garota.
    - No o tenha em conta -lhe respondeu seu amiga-. Nos penetrou por diante de dez pessoas.
    A garonete lhes levou at uma mesa na parte traseira.
    - Aqui se pode sentar -disse enquanto roava ligeiramente o brao do Julin-, e eu me encarrego de que sua comida no tarde muito.
    - E ns somos invisveis? -perguntou Grace quando a garota se afastou.
    - Comeo a acreditar que sim -respondeu Selena, sentando-se no banco situado cara  parede.
    Grace se sentou em frente, com o muro a suas costas. Como era de esperar, Julin ocupou um stio a seu lado.
    Lhe ofereceu o menu.
    - No posso ler isto -lhe disse antes de devolver-lhe - En realidad s lo hacan. El problema es que me ensearon a leer griego clsico, latn, snscrito, jeroglficos 
egipcios y otras lenguas que hace mucho que desaparecieron. Usando tus propias palabras, este men est en griego para m.
    - Ah! -exclamou Grace, envergonhada por no hav-lo pensando antes-. Suponho que no ensinavam a ler aos soldados da antigidade.
    Julin se passou uma mo pelo queixo e pareceu adotar uma atitude mal-humorada ante o comentrio.
    - Em realidade sim o faziam. O problema  que me ensinaram a ler grego clssico, latim, snscrito, hierglifos egpcios e outras lnguas que faz muito que desapareceram. 
Usando suas prprias palavras, este menu est em grego para mim.
    Grace se encolheu.
    - No vais deixar de me recordar que escutou tudo o que disse antes de que aparecesse, verdade?
    - Temo-me que no.
    Apoiou o brao na mesa e, nesse momento, Selena apartou a vista do menu e lhe olhou a mo. Ento ofegou.
    - Isso  o que eu acredito? -perguntou enquanto lhe elevava a mo.
    Para surpresa do Grace, ele permitiu que lhe agarrasse a mo e que olhasse o anel.
    - Grace, viu isto?
    Ela se incorporou no assento para poder v-lo mais de perto.
    - No, a verdade. estive um tanto distrada.
    Um tanto distrada, sim, claro. Isso  como dizer que o Everest  um paraleleppedo.
    Ainda sob a tnue luz do local, o ouro emitia luminosos brilhos. A parte superior era plaina e tinha uma espada gravada rodeada de folhas de louro, e incrustadas 
entre as folhas, havia umas pedras preciosas que pareciam ser diamantes e esmeraldas.
    -  formoso -disse Grace.
    -  um jodido anel de general, certo? -perguntou Selena-. No foi um simples soldado da p. Foi um puto geral!
    Julin assentiu sobriamente.
    - O trmino  equivalente.
    Selena soltou o ar totalmente aniquilada.
    - Grace, no tem nem idia! Julin teve que ser algum realmente relevante em seu tempo para ter este anel. No o davam a qualquer -e moveu a cabea-. Estou 
muito impressionada.
    - No o esteja -lhe respondeu Julin.
    Pela primeira vez em anos, Grace invejou a licenciatura em Histria Antiga de seu amiga. Lanie sabia muito mais a respeito do Julin e de seu mundo do que ela 
jamais poderia averiguar.
    Mas no parecia necessitar esse grau de conhecimento para entender quo doloroso devia ter sido para ele passar de ser um general que ordenava a um exrcito, 
a um escravo governado pelas mulheres.
    - Arrumado a que foi um magnfico general -disse Grace.
    Julin a olhou, captando a sinceridade com a que tinha pronunciado suas palavras. Por alguma inescrutvel razo, seu completo lhe reconfortou. 
    - Fiz o que pude.
    - Arrumado a que lhes deu uma patada no culo a uns quantos exrcitos -continuou ela.
    Ele sorriu. No tinha pensado em suas vitrias desde fazia sculos.
    - Chutei a uns quantos romanos, sim.
    Grace riu ante o uso do vocabulrio.
    - Aprende rpido.
    - Oua! -exclamou Selena, interrompendo-os-. Posso lhe jogar uma olhada ao arco do Cupido?
    - Sim! -exclamou Grace-. Podemos?
    Julin o tirou de seu bolso e o deixou sobre a mesa.
    - Com cuidado -advertiu a Selena enquanto alargava o brao-. A flecha dourada est carregada. Um pinchacito e te apaixonar pela primeira pessoa que veja.
    Ela retirou a mo.
    Grace agarrou o garfo e com ele arrastou o arco at o ter perto.
    - supe-se que deve ser to pequeno?
    Julin sorriu.
    -  que nunca ouviste essa frase que diz: "O tamanho no importa"?
    Grace ps os olhos em branco.
    - No quero nem escutar a de um homem que a tem to grande como voc.
    - Grace! -ofegou Selena-. Jamais te tinha ouvido falar assim.
    - fui extremamente comedida, considerando tudo o que vs me ho dito estes ltimos dias.
    Julin acariciou o cabelo que lhe caa sobre os ombros. Esta vez, Grace no se retirou. Estava fazendo progressos.
    - Ento, me diga como usa Cupido isto -lhe disse ela. Julin deixou que seus dedos acariciassem as sedosas mechas de seu cabelo. Brilhavam at com a escassa 
luz do restaurante. Desejava tanto sentir esse cabelo estendendo-se sobre seu peito nu... Enterrar seu rosto nele e deixar que lhe acariciasse as bochechas.
    Com o olhar escurecido, imaginou como se sentiria ao ter o corpo do Grace rodeando-o. E o som de sua respirao junto ao ouvido.
    - Julin? -perguntou ela, tirando o de seu ensoacin-. Como o utiliza Cupido?
    - Pode adotar um tamanho semelhante ao do arco, ou pode fazer que a arma se faa maior. Depende do momento. 
    - Srio? -perguntou Selena-. No sabia.
    A garonete chegou correndo e colocou a bandeja sobre a mesa, enquanto devorava com os olhos ao Julin como se fosse o especial do dia. 
    Muito discretamente, Julin recolheu o arco de em cima da mesa e o devolveu a seu bolso.
    - Sinto muito lhe haver feito esperar. Se tivesse sabido que no foram atender lhe imediatamente, eu mesma lhe teria tomado nota nada mais sentar-se. 
    Grace lhe dirigiu  garota um olhar carrancudo. Joder!,  que Julin no podia ter cinco minutos de tranqilidade, sem que uma mulher lhe oferecesse abertamente?
    E isso no inclui a ti?
    ficou geada ante o giro de seus pensamentos. Ela se comportava exatamente igual s demais, lhe olhando o culo e babando ante seu corpo. Era um milagre que ele 
suportasse sua presena.
    Afundando-se no assento, prometeu-se a si mesmo que no o trataria daquele modo. Julin no era uma parte de carne. Era uma pessoa, e merecia ser tratado com 
respeito e dignidade. 
    Pediu o menu para os trs, e quando a garonete retornou com as bebidas, trouxe uma bandeja de alitas de frango ao estilo Bfalo.
    - Ns no pedimos isto -apontou Selena.
    - OH, j sei! -respondeu a garota, sonriendo ao Julin-. H muito trabalho na cozinha e demoraremos um pouco mais em poder lhe servir a comida. Pensei que deveria 
estar faminto e por isso lhe traga as alitas. Mas se no gosta, posso trazer qualquer outra coisa; a casa convida, no se preocupe. Preferiria outra coisa?
    Puaj! O dobro sentido era to bvio que ao Grace entraram vontades de lhe arrancar de raiz o cabelo acobreado. 
    - Est bem assim, obrigado -lhe disse Julin.
    - Ai, Meu deus!, pode falar um pouco mais? -pediu-lhe a garota, a ponto de deprimir-se-. OH, por favor, diga meu nome! Meu nome  Mary.
    - Obrigado, Mary.
    - Ooooh! -exclamou a garonete-. Me ps a pele de galinha -e com um ltimo olhar ao Julin, carregada de desejo, afastou-se deles. 
    - No posso acredit-lo -comentou Grace-. As mulheres sempre se comportam assim contigo?
    - Sim -respondeu ele com a ira refletida na voz-. Por isso dio me mostrar em lugares pblicos.
    - No deixe que te incomode -lhe disse Selena, enquanto agarrava uma alita de frango-. Definitivamente, sua presena resulta muito til. De fato, proponho que 
o tiremos mais freqentemente. 
    Grace deixou escapar um bufido.
    - Sim, bom; se essa criatura anotar seu nome e seu nmero de telefone na conta antes de nos dar isso terei que lhe dar um bofeto.
    Selena estalou em gargalhadas.
    antes de que Grace pudesse perguntar qualquer outra coisa, Cupido entrou sem pressas no restaurante, e se aproximou at eles.
    Tinha um ligeiro moratn no lado esquerdo da cara, onde Julin o tinha golpeado. Tentou mostrar-se indiferente, mas mesmo assim, Grace percebeu a tenso em seu 
interior, como se estivesse preparado para fugir em um momento dado. Arqueou uma sobrancelha ante o cabelo curto do Julin, mas no disse nenhuma palavra enquanto 
tomava assento junto  Selena.
    - E bem? -perguntou Julin.
    Cupido suspirou profundamente.
    - Quer que primeiro te d as ms notcias ou prefere as pssimas?
    - Vejamos... que tal se fizermos que meu dia seja mais memorvel? Comea com as pssimas e segue com as ms para tentar melhorar o ambiente. 
    Cupido assentiu.
    - De acordo. No pior dos casos, a maldio jamais se poder romper. 
    Julin se tomou a notcia melhor que Grace; apenas se fez um gesto de aprovao. 
    Grace olhou ao Cupido com os olhos entreabridos.
    - Como pode lhe fazer isto? Deus Santo!, meus pais teriam removido cu e terra para me ajudar, e voc te limita a te sentar sem nem sequer lhe dizer o sinto. 
Que classe de irmo ?
    - Grace -a admoestou Julin-. No lhe desafie. No sabemos que conseqncias pode trazer.
    - Isso  certo mort...
    - lhe toque interrompeu Julin- e utilizarei a adaga que leva no cinturo para te tirar o corao.
    Cupido se moveu para afastar-se dele.
    - Por certo, se esqueceu alguns detalhes suculentos quando me contou sua histria.
    Julin lhe olhou furioso, com os olhos entrecerrados.
    - Como o que?
    - Como o fato de que te deitasse com uma das sacerdotisas vrgenes do Prapo. Tio, no que estava pensando? Nem sequer se preocupou de lhe tirar a tnica enquanto 
tomava. No foi to estpido para fazer isso, pode-se saber o que te ocorreu?
    - Se por acaso te esqueceu, estava muito zangado com ele naquele momento -disse com amargura.
    - Ento deveria ter procurado uma das seguidoras de mame. Para isso esto.
    - Ela no foi a que matou a minha esposa. Foi Prapo.
    Grace esteve a ponto de sofrer um enfarte ao lhe escutar. Estava falando a srio?
    Cupido ignorou a aberta hostilidade do Julin.
    - Bom, Prapo ainda est um pouco sensvel com respeito ao tema. Parece que o v como o ltimo de seus insultos. 
    - Ah, j entendo! -grunhiu Julin-. O irmo maior est zangado comigo por me haver atrevido a tomar a uma de seus vrgenes consagradas,  que esperava que me 
sentasse to tranqilo e deixasse que ele matasse a minha famlia a seu desejo? -A ira que destilava sua voz fez que ao Grace lhe arrepiasse o plo da nuca-. Te 
incomodou em lhe perguntar ao Prapo por que foi atrs deles?
    Cupido se passou uma mo pelos olhos e deixou escapar um suspiro entrecortado.
    - Claro, recorda que perseguiu o Livio e o derrotou na Conjara? Pois ele pediu que se vingasse sua morte, justo antes de que lhe cortasse a cabea.
    - Estvamos em guerra.
    - J sabe o muito que sempre te odiou Prapo. Estava procurando uma desculpa para poder lanar-se sobre ti sem temor a sofrer represlias; e a deu voc mesmo.
    Grace observou ao Julin, cujo rosto era uma mscara inexpressiva.
    - H- dito ao Prapo que quero v-lo? -perguntou-lhe.
    - Est louco? Maldio! Claro que no. Mencionei seu nome e esteve a ponto de estalar de fria. Disse que podia te apodrecer no Trtaro durante toda a eternidade. 
me acredite, voc no gostaria de estar perto dele.
    - Ja! eu adoraria!
    Cupido assentiu.
    - Vale, mas se o matas, ter que as verta com o Zeus, Tesfone e Nmesis.
    - E crie que me assustam?
    - J sei que no, mas no quero verte morrer desse modo. E se no fosse to teimoso como uma mula, ao menos durante trs segundos, voc mesmo te daria conta. 
Venha j! De verdade quer desencadear a ira do grande chefe?
    Pela expresso do Julin, Grace houvesse dito que lhe dava exatamente igual.
    - Mas -continuou Cupido-, mame assinalou que existe um modo de acabar com a maldio.
    Grace conteve a respirao enquanto a esperana revoava nos olhos do Julin. Ambos esperaram a que Cupido se explicasse.
    Em lugar de seguir, ele se dedicou a observar o interior do sombrio local.
    - Crie que esta gente se come esta mier...?
    Julin estalou os dedos diante dos olhos de seu irmo.
    - O que fao para romper a maldio?
    Cupido se arrellan no assento.
    - J sabe que tudo no universo  cclico. Tudo o que comea tem um final. Posto que foi Alexandria a que originou a maldio, deve ser convocado por outra mulher 
dedicada ao Alejandro. Uma que tambm necessite algo de ti. Deve fazer um sacrifcio por ela e... -ento, estalou em gargalhadas.
    At que Julin se estirou por cima da mesa e lhe agarrou pela camiseta.
    - E...?
    Lhe deu um tranco para que lhe soltasse e adotou uma atitude sria.
    - Bom... -continuou olhando ao Grace e a Selena-. Desculpam um momento?
    - Sou uma sexloga -lhe disse Grace-. Nada do que diga poder me surpreender. 
    - E eu no penso me levantar desta mesa at que escute as suculentas fofocas -confessou Selena.
    - De acordo ento -conveio Cupido, enquanto olhava de novo ao Julin-. Quando a mulher consagrada ao Alejandro invoque, no poder colocar seu cucharita em seu 
jarrita de gelia at o ltimo dia. Ser ento quando deverem lhes unir carnalmente antes da meia-noite, e te encarregar de no separar seus corpos at o amanhecer. 
Se sair dela em qualquer momento, por qualquer motivo, retornar imediatamente ao livro e a maldio seguir vigente. 
    Julin amaldioou e olhou para outro lado.
    - Exatamente -lhe respondeu seu irmo-. Sabe quo forte  a maldio do Prapo. No h uma puetera forma de que agente trinta dias sem te atirar a seu invocadora.
    - Esse no  o problema -disse Julin entre dentes-. O problema radica em encontrar a uma mulher consagrada ao Alejandro que me invoque.
    Com o corao pulsando desenfreado por causa dos nervos, Grace se incorporou no assento.
    - O que significa o de "uma mulher consagrada ao Alejandro"?
    Cupido encolheu os ombros.
    - Que tem que levar o nome do Alejandro.
    - Como sobrenome? -perguntou ela.
    - Sim.
    Grace elevou os olhos e procurou o olhar afligido do Julin.
    - Julin, meu nome completo  Grace Alexander.
    
    
    Captulo 7
    
    Julin olhou fixamente ao Grace; sua mente no parava de lhe dar voltas ao que acabava de dizer. 
    Seria certo? Poderia atrever-se a acredit-lo? A ter esperana depois de tanto tempo...?
    - Seu sobrenome  Alexander? -repetiu, incrdulo.
    - Sim -lhe respondeu ela, com um sorriso alentador no rosto.
    Cupido observou a seu irmo com um olhar severo.
    - J intimastes vs dois?
    - No -respondeu Julin-. Ainda no -e pensar que tinha estado zangado por isso...
    Grace tinha evitado que cometesse o terceiro engano maior de sua vida. Nesse momento a beijaria. Um sorriso iluminou o rosto do Cupido.
    - Bom, maldita seja minha sorte... Enfim, melhor no nomear a corda em casa do enforcado... Nunca conheci a uma mulher que pudesse estar perto de ti mais de 
dez minutos sem jogar-se em...
    - Cupido -lhe cortou Julin, antes de que soltasse um comprido discurso sobre o nmero de mulheres com as que se deitou-. Tem algo mais que dizer que nos seja 
til?
    - Uma coisa mais. A frmula de mame s ter xito se Prapo no o descobrir. Se o fizer, poderia evitar que te liberasse com sua caracterstica m sombra. 
    Julin apertou os punhos ante a lembrana de algumas das aes mais repugnantes de seu irmo.
    Por alguma razo que no alcanava a compreender, Prapo lhe tinha odiado desde que nasceu. E com o passo dos anos, seu irmo tinha dado um novo significado 
 expresso "rivalidade fraternal".
    Julin deu um sorvo a sua bebida.
    - No o descobrir a menos que voc o diga.
    - No me olhe -replicou Cupido-. No sou dos seus. Confunde-me com o primo Dion. E agora que o recordo, tenho que me reunir com meus meninos. Planejamos fazer 
um grande tributo ao velho Baco esta noite -alargou o brao e deixou a mo com a palma para cima-. Meu arco, se for to amvel.
    Com muito cuidado, para no cravar-se, Julin o tirou do bolso e o devolveu.
    Nesse momento percebeu o estranho olhar de seu irmo maior; um olhar de afeto sincero. 
    - Estarei perto se por acaso me necessita. S tem que me chamar; por meu nome, nada do Cupido. E por favor, deixa isso de "bastardo intil", joder! -olhou-lhe 
com um sorriso presunoso-. Deveria ter sabido que foi voc. 
    Julin no disse nada enquanto recordava o que tinha acontecido a ltima vez que tomou a palavra de seu irmo, e lhe pediu ajuda.
    Cupido se levantou, olhou ao Grace e a Selena, e sorriu ao Julin.
    - Boa sorte com seu intento de obter a liberdade. Que a fora de Are e a sabedoria de Ateneu lhe guiem. 
    - E que Hades se encarregue de assar sua velha alma.
    Cupido lanou uma gargalhada.
    - Muito tarde. Fez-o quando s tinha trezentos anos e no foi to horrvel. Vemo-nos, hermanito.
    Julin no falou enquanto Cupido se abria caminho para a porta de sada, como qualquer ser humano normal. A garonete lhes trouxe o pedido e ele agarrou a estranha 
comida, consistente em uma parte de carne metido em duas fatias de po; mas em realidade no tinha muita fome. Tinha perdido o apetite.
    Grace cobriu a carne com uma coisa vermelha, tampou-a com o po e lhe deu um bocado. Selena bicava de uma salada enfeitada com o mesmo molho.
    Elevando o olhar, Grace se deu conta do cenho com que Julin a observava enquanto comia. Parecia ainda mais preocupado que antes, e tinha a mandbula to tensa 
que se via que estava apertando com fora os dentes.
    - O que te ocorre? -perguntou-lhe.
    Ele entrecerr os olhos suspicazmente. 
    - Est disposta realmente a fazer o que Eros h dito?
    Grace deixou o hambrguer no prato e se limpou a boca com o guardanapo. Em realidade, no gostava de muito a idia de que Julin usasse seu corpo para obter 
a liberdade. Seria uma relao de uma s noite, sem compromissos nem promessas.
    Julin se iria assim que acabasse com ela. No tinha nenhuma dvida a respeito.
    por que ia querer ficar junto a ela um homem como ele, que bem podia ter a qualquer mulher da terra comendo de sua mo?
    Mesmo assim, no podia conden-lo a seguir vivendo eternamente em um livro. No quando ela era a chave para liber-lo. 
    - me conte uma coisa -disse Grace em voz baixa-; quero saber como acabou metido no livro; a histria completa. E o que ocorreu a sua esposa.
    No o teria acreditado possvel, mas a mandbula do Julin se esticou ainda mais. Estava tentado esconder-se de novo.
    Mas ela se negou a que fugisse. J era hora de que entendesse por que lhe preocupava o fato de deitar-se com ele.
    - Julin, est-me pedindo muito. No tenho muita experincia com os homens.
    Ele franziu o cenho.
    -  virgem?
    - Oxal -balbuciou Grace.
    Julin viu a dor em seus olhos enquanto lhe respondia em um murmrio. Envergonhada, ela olhou ao cho. 
    No!, rugiu sua mente. No era possvel que tivesse sofrido o que estava imaginando. Uma inesperada fria despertou em seu interior ante a mera possibilidade.
    - Violaram-lhe?
    - No -sussurrou ela-. No... exatamente.
    A confuso dissipou a ira do Julin.
    - Ento, o que quer dizer?
    - Era jovem e estpida -continuou ela muito devagar.
    - O muito porco se aproveitou de que seus pais acabavam de morrer e de que ela estava muito mal -lhe contou Selena com voz spera-. Era um desses sujos embusteiros 
que lhe soltam o de "s quero te cuidar", para aproveitar-se e depois sair correndo uma vez que o conseguem.
    - Fez-te mal? -perguntou-lhe Julin.
    Grace assentiu.
    Uma nova quebra de onda de fria o assaltou. No sabia muito bem por que lhe importava tanto o que pudesse lhe acontecer ao Grace, mas por alguma razo que no 
acabava de compreender, assim era. E queria vingar-se em seu nome. Viu como lhe tremia a mo, a cobriu com a sua, e comeou a lhe acariciar brandamente os ndulos 
com o polegar.
    - S o fiz uma vez -confessou Grace em um murmrio-. J sei que a primeira vez di, mas no sabia que fosse assim. E o dano fsico no foi o pior; o mais horrvel 
foi o fato de que no pareceu lhe importar nada meu sofrimento. Senti-me como se s estivesse ali para lhe agradar, como se nem sequer fosse uma pessoa.
    Ao Julin lhe fez um n no estmago. Sabia muito bem ao que Grace se referia.
    - Essa mesma semana -prosseguiu ela-, como no me chamava nem me respondia, fui a seu apartamento para v-lo. Era primavera e tinha as janelas abertas. Quando 
me aproximei... -um soluo a interrompeu.
    - Ele e seu companheiro de piso tinham feito uma aposta para ver qual dos dois desflorava mais vrgenes esse ano -lhe contou Selena-. Grace lhes escutou burlar-se 
dela.
    Uma fria letal e sinistra o possuiu. Ele tinha conhecido a muitos homens dessa ndole. E jamais tinha podido suport-los. De fato, sempre lhe tinha dado muito 
gosto liberar  terra de sua fedida presena. 
    - Senti-me utilizada; como uma estpida -murmurou Grace olhando-o. A agonia que refletiam seus olhos o abrasou-. No quero voltar a me sentir assim -se tampou 
a cara com uma mo, mas no antes de que Julin captasse a humilhao em seu olhar.
    - Sinto-o muito, Grace -sussurrou ele, abraando-a.
    Ento isso era. Essa era a fonte de seus demnios. Abraou-a com fora, apoiando a bochecha sobre sua cabea. O suave aroma a flores o rodeou. 
    Como ansiava poder consol-la. E que culpado se sentia. Ele tambm tinha usado ao Penlope. Os deuses eram testemunhas de que lhe tinha feito a sua esposa muito 
mais danifico, a fim de contas. 
    merecia-se estar maldito, pensou com amargura.
    O tinha ganho em pulso, e no voltaria a fazer mal ao Grace. Era uma mulher honesta, com um grande corao e se negava a aproveitar-se dela.
    - No passa nada, Grace -a consolou com ternura, envolvendo-a ainda mais entre seus braos e embalando-a. Beijou-a brandamente na cabea-. No te pedirei que 
faa isto por mim.
    Ela elevou a vista muito surpreendida. No podia acreditar que dissesse algo assim.
    - No posso deixar de faz-lo.
    - Sim que pode. Simplesmente esquece-o -havia dor em sua voz. E uma cadncia estranha, algo que lhe dava uma ligeira idia do homem que uma vez tinha sido.
    - Realmente crie que posso faz-lo?
    - E por que no? Todos os membros de minha famlia me deram de lado. Voc nem sequer me conhece -seu olhar se escureceu ao solt-la.
    - Julin...
    - me faa caso, Grace. No o mereo -tragou saliva antes de voltar a falar-. Como general, fui implacvel no campo de batalha. Ainda posso ver as olhadas horrorizadas 
dos milhares de homens que morreram sob minha espada, enquanto os fazia pedaos sem o mais mnimo indcio de remorso -procurou o olhar do Grace-. por que ia algum 
como voc a ajudar a algum como eu?
    Grace recordou como Julin tinha embalado e consolado ao menino, como tinha ameaado ao Cupido para evitar que lhe fizesse mal; e ento soube por que. Pode que 
em seu passado tivesse feito costure espantosas, mas no era um ser perverso. Poderia hav-la violado se tivesse querido. E em lugar de faz-lo, esse homem que apenas 
se tinha conhecido um gesto amvel, limitou-se a consol-la.
    No, apesar de todos os crmenes que pudesse ter cometido no passado, havia bondade nele.
    Julin tinha sido um homem de seu tempo. Um general da Antigidade, forjado no fragor de muitas batalhas. Um homem que se criou em condies to brutais que 
no podia acabar de imaginar-lhe Grace se tens ante la inesperada confesin.
    - E sua esposa? -perguntou Grace.
    Um msculo comeou a lhe pulsar na mandbula.
    - Menti-lhe, tra-a e a enganei, e ao final, matei-a.
    Grace se esticou ante a inesperada confisso.
    - Voc a matou?
    - Pode que no fosse eu o que lhe tirasse a vida, mas fui o responsvel, depois de tudo. Se no... -sua voz se desvaneceu enquanto fechava os olhos com fora.
    - O que? -perguntou Grace-. O que ocorreu?
    - Forcei meu destino, e o seu. E ao final, as Parcas me castigaram. 
    Grace no pensava ficar assim.
    - Como morreu?
    - Enlouqueceu quando descobriu o que lhe fiz. O que Eros fazia... -Julin enterrou a cara entre as mos enquanto as lembranas o assaltavam-. Fui um estpido 
ao acreditar que Eros podia conseguir que algum me amasse.
    Grace alargou o brao e lhe aconteceu a mo pelo rosto. Ele a olhou. Estava incrivelmente formosa ali sentada. A ternura de seus olhos no deixava de surpreend-lo. 
Nenhuma mulher o tinha cuidadoso nunca desse modo.
    Nem sequer Penlope. Sempre tinha faltado algo quando sua mulher o olhava, ou quando o acariciava. 
    Seu corao, compreendeu com um sobressalto. Grace estava no certo. Era muito diferente quando o corao no estava envolto. Era algo muito sutil, mas sempre 
tinha percebido o vazio nas carcias do Penlope, em suas palavras; e isso tinha feito que sua alma enegrecida sofresse ainda mais.
    Sbitamente, Cupido se materializou junto  Selena e olhou ao Julin com um tmido sorriso. 
    - Esqueci te dizer algo.
    Julin deixou escapar um suspiro encolerizado. 
    - No sei por que tm o costume de lhes esquecer de algo. E, est acostumado a ocorrer, que esse algo  sempre o mais importante. O que esqueceste esta vez?
    Cupido no foi capaz de enfrentar o olhar de seu irmo.
    - Como muito bem sabe, est condenado a, digamo-lo assim, te sentir forado a agradar  mulher que te invoque.
    Julin lanou um rpido olhar ao Grace e seu membro se esticou malvolamente em resposta. 
    - Sou muito consciente desse fato.
    - Mas  consciente de que com cada dia que passe sem possui-la, sua prudncia ir desaparecendo? Para quando o ms esteja chegando a seu fim, ser um louco desesperado 
pela falta de sexo e a nica forma de te sanar ser ceder a seus desejos. Se no o fizer, irmo, sofrer uma agonia to dolorosa que o castigo do Prometeo a seu 
lado parecer uma estadia nos Campos Elseos.
    Selena ofegou.
    - Prometeo no  o deus que supostamente entregou o fogo  humanidade? -perguntou Grace.
    - Sim -respondeu Cupido.
    Grace olhou nervosa ao Julin.
    - que foi encadeado a uma rocha e condenado a que todos os dias uma guia se comesse suas vsceras?
    - E a que cada noite se recuperasse para que o pssaro pudesse seguir comendo ao dia seguinte -acabou Julin em seu lugar. Os deuses sabiam como castigar a aqueles 
que os chateavam.
    Uma ira amarga se estendeu por suas veias enquanto observava ao Cupido.
    - Vos dio.
    Cupido assentiu.
    - Sei. Oxal no tivesse feito nunca o que me pediu. Sinto-o muito. Cria-o ou no, mame e eu estamos muito arrependidos.
    Com as emoes revoltas, Julin no foi capaz de dizer nada. Desolado, quo nico via era o rosto do Penlope em sua mente, e a viso o fazia encolher-se de 
dor.
    Uma coisa era que sua famlia o castigasse a ele, mas nunca deveriam haver meio doido aos que eram inocentes. 
    Cupido depositou uma cajita na mesa, frente a ele.
    - Se no querer abandonar a esperana, vais necessitar isto.
    - te cuide dos presentes dos deuses -disse Julin amargamente, enquanto abria a caixa para encontrar dois pares de grilhes de prata e um jogo de diminutas chaves, 
colocadas sobre um leito de cetim azul escuro. Imediatamente reconheceu o intrincado estilo de seu padrasto.
    - Hefesto?
    Seu irmo assentiu.
    - Nem Zeus pode as romper. Quando sentir que perde o controle, aconselho-te que encadeie a um pouco realmente slido e que te mantenha... -esperou um momento 
enquanto olhava fixamente ao Grace- afastado dela.
    Julin tomou ar. Poderia rir ante a ironia, mas nem sequer era capaz de reunir foras. De uma ou outra maneira, em cada invocao, sempre acabava encadeado a 
algo.
    - Isso  desumano -balbuciou Grace.
    Cupido lhe dedicou um olhar feroz.
    - Nenm, me faa caso; se no o encadear, lamentar-o.
    - Quanto tempo demorar? -perguntou Julin.
    Ele se encolheu de ombros.
    - No sei. Depende muito de ti e do autocontrol de que disponha -espetou Cupido-. te Conhecendo,  bastante possvel que nem sequer as necessite. 
    Julin fechou a caixa. Podia ser muito forte, mas no tinha o otimismo de seu irmo. Tinha-o perdido fazia muito, lenta e dolorosamente.
    Eros lhe aplaudiu as costas.
    - Boa sorte.
    Julin no disse nada enquanto seu irmo se afastava. Olhava fixamente a caixa enquanto as palavras do Cupido ressonavam em sua cabea. Se algo tinha aprendido 
ao longo dos sculos, era a deixar que as Parcas se sassem com a sua.
    Era uma estupidez pensar que tinha a oportunidade de ser livre. Era sua penitncia e devia aceit-la. Era um escravo, e um escravo seguiria sendo.
    - Julin? -chamou-lhe Grace-. O que te passa?
    - No podemos faz-lo. me leve a casa, Grace. me leve a casa e me deixe que te faa o amor. vamos esquecer o antes de que algum, certamente voc, saia ferido.
    - Mas esta  sua oportunidade de ser livre. Poderia ser quo nica tenha. foste convocado antes por alguma mulher que levasse o nome do Alejandro?
    - No.
    - Ento, devemos faz-lo.
    - No o entende -lhe disse entre dentes-. Se o que Eros diz  certo, para quando chegar essa noite, no serei eu mesmo.
    - E quem ser?
    - Um monstro.
    Grace lhe olhou com cepticismo.
    - No acredito que pudesse s-lo.
    Ele a observou, furioso.
    - Voc no tem nem idia do que sou capaz de fazer. Quando a loucura dos deuses se abate sobre algum, no h maneira de encontrar ajuda, nem esperana de ach-la 
-o estmago lhe contraiu com um n-. No deveria me haver convocado, Grace -concluiu, alargando o brao para agarrar seu copo.
    - Paraste-te a pensar que possivelmente tudo isto estava destinado? -perguntou ela sbitamente-. Possivelmente fui eu a que te invocou porque estava disposto 
que eu te liberasse. 
    Julin contemplou a Selena atravs da mesa.
    - Convocou-me porque Selena te enganou. Quo nico queria era que tivesse umas quantas noites prazenteiras para que pudesse esquec-lo tudo e procurasse um homem 
decente, sem temor a que pudesse te fazer danifico. 
    - Mas  possvel que...
    - No h peros que valham, Grace. No estava destinado. 
    Ela baixou o olhar at sua boneca. Aproximou a mo e acariciou a inscrio em grego que subia pela cara interna do brao.
    - Que bonito! -exclamou-.  uma tatuagem?
    - No.
    - E o que ? -insistiu.
    - Prapo o gravou a fogo -respondeu ele, ignorando a pergunta.
    Selena se incorporou um pouco e lhe jogou uma olhada.
    - Diz: "Maldito seja por toda a eternidade e mais  frente".
    Grace deixou a mo sobre a inscrio e olhou ao Julin aos olhos.
    - No posso imaginar tudo o que deveste sofrer durante tanto tempo. E mais me custa entender que fosse seu prprio irmo quem te fizesse algo assim.
    - Como disse Cupido, sabia que no devia tocar a uma das vrgenes do Prapo.
    - E por que o fez ento? 
    - Porque fui um estpido.
    Grace chiou os dentes; tinha umas vontades horrveis de estrangul-lo. por que alguma vez respondia ao que lhe perguntava?
    - E o que te fez...?
    - No gosta de falar do tema -lhe espetou.
    Lhe soltou o brao.
    - Alguma vez deixaste que algum te aproxime, Julin? Arrumado a que sempre foste um desses tipos que no abrem seu corao porque no confiam em ningum.  Um 
de esses que prefeririam que lhes cortassem a lngua antes de que algum descobrisse que no so seres insensveis, a no ser justamente o contrrio. Comportou-te 
assim com o Penlope?
    Julin apartou o olhar enquanto as lembranas lhe embargavam.
    Lembranas de uma infncia infestada de fome e privaes.
    Lembranas de noites agnicas desejando...
    - Sim -respondeu simplesmente-. Sempre estive sozinho.
    Grace sofria por ele. Mas no podia permitir que se conformasse.
    De algum modo tinha que encontrar a forma de chegar at seu corao. De lhe animar a que lutasse por romper a maldio.
    Devia haver algum modo de lhe fazer lutar.
    E nesse momento jurou encontr-lo.
    
    
    Captulo 8
    
    Julin e Grace ajudaram a Selena a desmontar o puestecillo ambulante e a guard-lo tudo no jipe, antes de retornar a casa sorteando o trfico tpico de uma sexta-feira 
de noite. 
    - estiveste muito calado -lhe disse ela enquanto se detinha em um semforo em vermelho.
    Observou como o olhar do Julin seguia o movimento dos automveis que passavam junto a eles. Parecia perdido, como algum que se debatesse no limite entre a 
fantasia e a realidade. 
    - No sei o que dizer -respondeu depois de uma breve pausa.
    - me diga como se sente.
    - Sobre o que?
    Grace riu.
    - Definitivamente,  um homem -lhe disse-. Sabe? As sesses com os homens so as mais difceis. Chegam e pagam cento e vinte e cinco dlares para no dizer virtualmente 
nada. Jamais conseguirei entend-lo.
    Julin baixou a vista at seu regao, e ela observou o modo em que acariciava distradamente seu anel com o polegar.
    - Disse que foi uma sexloga, o que  isso exatamente?
    O semforo ficou em verde e se internaram de novo no trfico.
    - Voc e eu estamos no mesmo negcio, mais ou menos. Ajudo s pessoas que tm problemas com seus casais. Mulheres que tm medo de ter relaes ntimas com os 
homens, ou mulheres s que gostam dos homens um pouco mais da conta.
    - Ninfomanacas?
    Grace assentiu.
    - conheci a umas quantas.
    - Arrumado a que sim.
    - E os homens? -perguntou ele.
    - No so fceis de ajudar. Como j te hei dito, no revistam falar muito. Tenho um par de pacientes que sofrem de medo cnico...
    - E isso o que ?
    - Algo que estou completamente segura que voc no padeceria jamais -lhe respondeu, pensando na contnua e arrogante perseguio a que lhe submetia. esclareceu-se 
garganta e o explicou-. So homens que tm medo de que suas companheiras riam deles quando esto na cama.
    - Ah!
    - Tambm tenho um par que abusam verbalmente de seus casais, e outros dois que querem trocar-se de sexo...
    - pode-se fazer isso? -perguntou Julin, totalmente pasmado.
    - Claro! -respondeu Grace com um gesto da mo-. Te surpreenderia saber do que so capazes os mdicos hoje em dia.
    Tomou uma curva e entraram em sua vizinhana.
    Julin permaneceu calado tanto momento que estava a ponto de lhe ensinar o que era a rdio quando, de repente, ele perguntou:
    - por que quer ajud-los?
    - No sei -lhe respondeu com franqueza-. Suponho que se remonta a minha infncia, uma poca de muitas inseguranas para mim. Meus pais me queriam muito, mas
no sabia me relacionar com outros meninos. Meu pai era professor de histria e minha me dona-de-casa...
    - O que  um dona-de-casa?
    - Uma mulher que fica em casa e faz as coisas tpicas das mes. No fundo, nunca me trataram como a uma menina, por isso, quando estava perto de outros meninos,
no sabia como me comportar. Nem o que dizer. Assustava-me tanto que me punha a tremer. Finalmente, meu pai comeou a me levar a um psiclogo e, depois de um tempo,
melhorei o bastante.
    - Exceto com os homens.
    - Essa  uma histria totalmente diferente -lhe disse, suspirando-. De adolescente era uma garota desajeitada, e os meninos do instituto no se aproximavam de
mim, a menos que queriam burlar-se.
    - Burlar-se de ti?, por que?
    Grace se encolheu de ombros com um gesto indiferente. Pelo menos, essas velhas lembranas tinham deixado de incomod-la. Finalmente os tinha superado.
    - Porque estava plaina, tinha orelhas de abano e um monto de sardas.
    - Que estava plaina?
    - No tinha peito.
    Grace tivesse jurado que podia sentir o calor que desprendia o olhar do Julin enquanto inspecionava seus peitos.
    Olhando o de reojo, confirmou suas suspeitas. De fato, estava-a observando como se se tirou a camisa e estivesse em metade de...
    - Seus peitos so muito bonitos.
    - Obrigado -lhe respondeu com estupidez, embora curiosamente se sentia adulada por um completo to pouco convencional-. E voc?
    - Eu no tenho peitos.
    Disse-o com um tom to inexpressivo e srio que Grace no pde evitar estalar em gargalhadas.
    - No era isso ao que me referia, e sabe muito bem. Como foi sua adolescncia?
    - J lhe hei isso dito.
    Lhe olhou furiosa.
    - Srio.
    - Srio, lutava, comia, bebia, deitava-me com mulheres e me banhava. Normalmente, nessa ordem.
    - Ainda temos problemas com isto da falta de confiana, no? -perguntou ela de forma retrica. 
    Assumindo seu papel de psicloga, trocou a um tema que lhe resultasse mais fcil.
    - por que no me conta o que sentiu a primeira vez que participou de uma batalha?
    - No senti nada.
    - No estava assustado?
    - Do que?
    - De morrer, ou de que lhe ferissem.
    - No.
    A sinceridade de sua singela resposta conseguiu desconcert-la. 
    - E como  que no tinha medo?
    - No tem medo a morrer quando no tem nada pelo que seguir vivendo. 
    Impressionada por suas palavras, Grace tomou o caminho de entrada a sua casa. 
    Decidindo que seria melhor deixar um tema to srio no momento, desceu do carro e abriu o porta-malas. 
    Julin agarrou as bolsas e a seguiu at a casa.
    dirigiram-se  planta alta. Grace tirou seu cmodos jeans do vestidor e fez stio nas gavetas para poder guardar a roupa nova do Julin.
    - Vejamos -disse, enrugando as bolsas vazias para as jogar no cesto de papis de vime, colocada junto ao armrio-.  sexta-feira de noite. O que voc gostaria 
de fazer? Gosta de uma noite tranqila ou prefere dar uma volta pela cidade?
    Seu faminto olhar a percorreu da cabea aos ps, fazendo que ardesse imediatamente.
    - J conhece minha resposta.
    - Vale. Um voto a favor de jogar-se no pescoo da doutora, e outro em contra. Alguma outra alternativa?
    - Que tal uma noite tranqila em casa, ento?
    - De acordo -respondeu Grace, enquanto se aproximava da mesita de noite para agarrar o telefone-. me Deixe que comprove as mensagens e depois prepararemos o 
jantar.
    Julin seguiu colocando sua roupa, enquanto ela chamava o servio de secretria eletrnica e falava com eles.
    Acabava de dobrar o ltimo objeto quando percebeu uma nota de alarme na voz do Grace.
    - Disse o que queria?
    Julin se girou para poder observ-la. Tinha os olhos ligeiramente dilatados, e sujeitava o telefone com muita fora.
    - por que lhe deu meu nmero de telefone? -perguntou zangada-. Meus pacientes jamais devem saber meu nmero privado. Posso falar com seu superior?
    Julin se aproximou dela.
    - Algo vai mau?
    Grace elevou a mo, lhe indicando que permanecesse em silencio para poder escutar o que a outra pessoa lhe estava dizendo.
    - Muito bem -disse depois de uma larga espera-. Terei que trocar o nmero de novo. Obrigado -pendurou o telefone, franzindo o cenho pela preocupao.
    - O que passou? -perguntou-lhe ele.
    Grace soprou irritada enquanto se esfregava o pescoo.
    - A companhia acaba de contratar a esta garota e, como  nova, deu-lhe meu nmero privado a um de meus pacientes. 
    Falava to rpido que ao Julin custava trabalho segui-la.
    - Bom, em realidade, no  meu paciente -prosseguiu sem deter-se-. Jamais teria aceito a um homem assim, mas Luanne, a doutora Jenkins, no  to seletiva. A 
semana passada teve que partir da cidade a toda pressa, por uma emergncia familiar. Assim  que Beth e eu tivemos que nos repartir seus pacientes para atend-los 
enquanto ela est fora. Ainda assim, no quis ficar com este homem to horripilante, mas Beth no passa consulta as sextas-feiras, e ele tem que acudir as quartas-feiras 
e as sextas-feiras devida ao regime de liberdade condicional. 
    Grace o olhou com o pnico refletido em seus plidos olhos cinzas.
    - Mas eu no quis atend-lo, e o supervisor de seu caso me jurou que no haveria nenhum problema. Disse que o tipo no representava uma ameaa para ningum.
    Julin sentia que lhe palpitava a cabea pela quantidade de informao que Grace estava soltando, e que ele era incapaz de compreender em sua major parte. 
    - Isso  um problema?
    -  um poquito horripilante -disse com as mos trementes-.  um perseguidor. Acabam de lhe dar o alta de um hospital psiquitrico. 
    - Um perseguidor? Um hospital psiquitrico? O que  isso? 
    Ao escutar a explicao, Julin no pde evitar ficar com a boca aberta.
    - Permitem que estas pessoas se movam a seu desejo?
    - Bom, sim. A idia  ajud-los.
    Julin estava horrorizado. Que classe de mundo era esse no que os homens se negavam a proteger a suas mulheres e meninos da depravao?
    - Em minha poca, no permitamos que pessoas assim se aproximassem de nossas famlias. Assegurvamo-nos de que no andassem soltos por nossas ruas.
    - Bem-vindo ao sculo vinte e um! -exclamou Grace com amargura-. Aqui fazemos as coisas de um modo... distinto.
    Julin moveu a cabea, ensimismado, enquanto pensava em todas as coisas desta poca que lhe resultavam estranhas. No podia entender a esta gente, nem seu modo 
de vida. 
    - No encaixo neste mundo -resmungou.
    - Julin...
    afastou-se quando viu que Grace se aproximava dele.
    - Grace, sabe que  assim. Suponhamos que rompemos a maldio; do que me vai servir? O que se supe que vou fazer aqui? No posso ler seu idioma, no sei conduzir 
e no tenho possibilidades de trabalhar. H muitas coisas que no entendo. Sinto-me perdido...
    Ela se estremeceu ante a evidente angustia que Julin tentava esconder com todas suas foras.
    - S est um pouco arrasado. Mas o faremos passado a passado. Ensinarei-te a conduzir e a ler. E com respeito ao trabalho... sei que  capaz de fazer muitas 
coisas. 
    - Como o que?
    - No sei. alm de ser um soldado, a que outra coisa te dedicava na Macednia?
    - Era um general, Grace. Quo nico sei fazer  dirigir a um antigo exrcito em uma batalha. Nada mais.
    Grace tomou sua cara entre as mos e o olhou com dureza.
    - No te atreva a abandonar agora. H-me dito que no tinha medo a lutar, como pode te assustar por isso?
    - No sei, mas me assusta.
    Algo estranho ocorreu ento; Grace percebeu que Julin lhe tinha permitido aproximar-se. No de forma muito ntima, mas pela expresso de seu rosto se dava conta 
de que estava admitindo sua vulnerabilidade ante ela. E, no fundo, sabia que no era o tipo de homem que admite facilmente esse fato. 
    - Eu te ajudarei.
    A dvida que refletiam os olhos azuis fez que lhe revolvesse o estmago.
    - por que?
    - Porque somos amigos -lhe respondeu com ternura, enquanto lhe acariciava a bochecha com o polegar-. No foi isso o que disse ao Cupido?
    - J escutou sua resposta. No tenho amigos.
    - Agora sim.
    Ele se inclinou e a beijou na frente, atraindo-a para seu corpo para lhe dar um forte abrao. O quente aroma do sndalo a alagou enquanto escutava como o corao 
do Julin pulsava freneticamente sob sua bochecha rodeada por seus bceps torrados pelo sol. Foi um gesto to tenro que ao Grace chegou  alma.
    - De acordo, Grace -lhe disse em voz baixa-. O tentaremos. Mas me prometa que no deixar que te faa mal.
    Ela o olhou carrancuda.
    - Estou falando a srio. Uma vez que me ponha os grilhes, no me solte sob nenhuma circunstncia. Jura-o.
    - Mas...
    - Jura-o! -insistiu ele com brutalidade.
    - Muito bem. Se no poder te controlar, no te liberarei. Mas eu tambm quero que me prometa uma coisa.
    Ele se apartou um pouco e a olhou com cepticismo. No obstante, seguiu abraando-a.
    - O que?
    Grace apoiou as mos sobre seus fortes bceps e sentiu como a pele do Julin se arrepiava sob seu contato. Ele baixou o olhar para suas mos, com uma das expresses 
mais tenras que ela tinha visto nunca. 
    - me prometa que no vais desistir -lhe disse-, que vais tentar acabar com a maldio.
    Olhou-a com um sorriso estranho.
    - Est bem. Tentarei-o.
    - E o obter.
    Julin sorriu ao escutar seu comentrio.
    - Tem o otimismo de uma menina.
    Grace lhe devolveu o sorriso.
    - Como Peter Po.
    - Peter o que?
    Ela se afastou de seus braos a contra gosto. Tomando o da mo, levou-o at a porta do dormitrio.
    - me acompanhe, escravo meu macedonio, e te contarei quem som Peter Po e os Meninos Perdidos.
    
    - Ento, esse menino alguma vez se fez maior? -perguntou Julin enquanto preparavam o jantar.
    Grace estava muito surpreendida, j que ele no se queixou quando lhe pediu que se encarregasse da salada. Parecia bastante acostumado a usar facas para cortar 
comida.
    Sem muitas vontades de investigar aquela pequena peculiaridade, concentrou-se no molho para os talharins.
    - No. Retornou  ilha com Campainha.
    - Interessante. 
    Grace colocou uma colher no molho e, pondo uma mo debaixo para que no gotejasse, a aproximou do Julin para que a provasse, depois de hav-la esfriado. 
    - me diga o que te parece.
    Ele se inclinou, abriu a boca e deixou que Grace lhe desse a provar o molho.
    Ela observou como a saboreava.
    - Est deliciosa.
    - Muita sal possivelmente?
    - No, est perfeita.
    Ela sorriu alegremente.
    - Tenha -lhe disse ele, lhe oferecendo uma parte de queijo.
    Grace abriu a boca, mas ele no o deu; aproveitando-se das circunstncias, apropriou-se de seus lbios para beij-la a conscincia.
    Cu santo! Uma lngua com tal capacidade de movimento deveria ser imortalizada com um monumento, ou encontrar o modo de conserv-la para a posteridade. Semelhante 
tesouro no podia desaparecer. E esses lbios...
    Mmm, Grace no queria parar-se a pensar nesses deliciosos lbios e no que eram capazes de fazer.
    Julin a sujeitou pela cintura apertando-a contra seus quadris, justo sobre o lugar onde seu membro se esticava sob os jeans. Por amor de Deus!, este homem estava 
maravilhosamente dotado e Grace comeou a tremer ante a idia de que desdobrasse todos seus encantos sexuais para ela. 
    Seria capaz de sobreviver a algo assim?
    Sentia como Julin se esticava e como sua respirao comeava a alterar-se. Estava deixando-se arrastar pela paixo, e Grace comeava a temer que, se no o detinha 
nesse momento, nenhum dos dois ia ser capaz de parar depois.
    Embora no gostava de nada separar-se dele, deu um passo atrs, desfazendo o trrido abrao.
    - Julin, te comporte.
    Ofegando, observou a luta que sustentava consigo mesmo enquanto a devorava com os olhos.
    - Seria muito mais singelo comportar-se se no fosse to jodidamente desejvel. 
    O comentrio foi to inesperado que ela riu com vontades.
    - Sinto-o -lhe disse, captando o gesto irritado do Julin-. Ao contrrio do que ocorre a ti, eu no estou acostumada a que me digam coisas como essa. O major 
completo que me tm feito nunca, foi o de um menino chamado Rick Glysdale. O dia da graduao, veio a me recolher a casa, olhou-me de cima abaixo e disse: " Joder!, 
arrumaste-te mais do que esperava".
    Julin soprou.
    - Preocupam-me os homens desta poca, Grace. Todos parecem ser uns completos imbecis.
    Rendo-se de novo, lhe deu um ligeiro beijo na bochecha e se aproximou da panela para tirar a massa da gua antes de que se passasse. 
    Enquanto jogava os talharins no escorredor, lembrou-se do po.
    - Pode lhe jogar uma olhada s baguettes?
    Julin se aproximou do forno e se inclinou, lhe oferecendo ao Grace uma suculenta viso de sua parte traseira. Ela se mordeu o lbio inferior, enquanto se esforava 
por no aproximar-se e passar a mo por esse firme e escuro traseiro. 
    - Esto a ponto de queimar-se. 
    - Ai, mierda! Pode as tirar? -perguntou-lhe, tentando no derramar a gua que estava fervendo.
    - Claro -Julin agarrou o trapo da encimera, e comeou a tirar o po. De repente, soltou um juramento que chamou a ateno do Grace.
    Ela se girou e viu que o trapo estava ardendo.
    - Ali! -exclamou, tirando-se de no meio-. Joga-o  pia.
    Ele o fez, mas ao passar por seu lado, roou-lhe a mo com o trapo e Grace vaiou de dor.
    - Queimei-te? -perguntou-lhe.
    - um pouco.
    Julin fez uma careta ao lhe agarrar a mo para lhe examinar a queimadura.
    - Sinto-o -lhe disse, um momento antes de levar o dedo do Grace  boca.
    Atnita, no foi capaz de mover-se enquanto Julin passava a lngua pela sensibilizada pele de seu dedo. Apesar da queimao da ferida, a sensao era muito 
agradvel. Muito, muito agradvel.
    - Isso no lhe vem bem  queimadura -sussurrou. 
    Com o dedo ainda na boca, Julin lhe dedicou um sorriso travesso e alargou o brao para abrir o grifo, que estava a suas costas. Fez um crculo completo com 
a lngua ao redor do dedo uma vez mais antes de abrir a boca e coloc-lo sob o jorro de gua fria.
    lhe sustentando o brao para que a gua aliviasse a ardncia da queimadura, aproximou-se da planta de aloe, que estava em batente da janela, e cortou uma parte. 
    - Conhece as propriedades do aloe? -perguntou-lhe ela.
    - Suas propriedades curativas se conheciam muito antes de que eu nascesse -respondeu ele.
    Quando esfregou o dedo com a viscosa seiva da planta, Grace sentiu que um calafrio lhe percorria as costas e se o fazia um n no estmago.
    - Sente-se melhor?
    Ela assentiu com a cabea.
    Com a ternura e o desejo refletidos nos olhos, Julin contemplou seus lbios como se ainda pudesse perceber seu sabor.
    - Acredito que, a partir de agora, deixarei que voc seja a que se encarregue do forno -lhe disse.
    - Provavelmente seja o melhor.
    Grace se separou dele e tirou as baguettes, que ainda eram comestveis. 
    Serve os pratos e precedeu ao Julin at a sala de estar, onde se sentaram a comer no cho, diante do sof, enquanto viam Matrix.
    - eu adoro este filme -disse ela quando comeava o filme.
    Julin colocou o prato sobre a mesita de caf e se aproximou do Grace.
    - Sempre come no cho? -perguntou-lhe antes de levar uma parte de po  boca.
    Fascinada pela harmonia de seus movimentos, Grace observou atentamente como a mandbula do Julin se esticava ao mastigar.
    No havia nenhuma parte de seu corpo pela que no lhe fizesse a boca gua? Comeava a entender por que o resto de seus invocadoras o tinham utilizado.
    A idia de mant-lo encerrado em uma habitao durante um ms estava comeando a lhe resultar muito tentadora.
    E alm disso tinham aqueles grilhes...
    - Bom -disse afastando sua mente daquela maravilhosa e bronzeada pele, e do bem que se veria se Julin estivesse totalmente nu e esparramado sobre seu colcho-, 
est a mesa do comilo, mas posto que a maioria das noites estou sozinha, prefiro tomar um tigela de sopa no sof.
    Julin girou de forma magistral o garfo sobre a colher, at que os talharins estiveram perfeitamente enrolados. 
    - Necessita a algum que cuide de ti -lhe disse antes de levar o garfo  boca.
    Grace se encolheu de ombros.
    - Eu me cuido sozinha.
    - No  o mesmo.
    Grace o olhou carrancuda. Havia algo em sua voz que lhe indicava que no o dizia do ponto de vista machista. Julin falava do corao e apoiando-se em sua prpria 
experincia. 
    - Suponho que todos necessitamos algum que nos cuide, verdade? -sussurrou ela.
    Ele girou a cabea para ver a televiso, mas no antes de que Grace captasse o brilho do desejo em seus olhos. Ela o observou enquanto permanecia uns minutos 
atento ao filme. At distrado, comia de forma impecvel. Grace estava toda coberta de manchas de molho, e ele nem sequer tinha deixado cair uma s gota.
    - Insgnia me como faz isso -lhe disse.
    Julin a olhou com curiosidade.
    - O que?
    - O que faz com a colher. Est-me pondo dos nervos. No consigo que meus talharins acabem enrolados no garfo; ficam todos soltos e me ponho perdida.
    - Claro, e no queremos que nos rodeiem um monto de talharins gigantes que o deixem tudo feito um asco, verdade?
    Grace riu porque sabia que no falava precisamente dos talharins.
    - A ver, como o faz?
    Julin tomou um sorvo de vinho e deixou a taa a um lado.
    - Vejamos, assim me resultar mais fcil lhe ensinar isso Al sentarse tras ella, l dobl las rodillas, de modo que quedaron a cada lado de su cuerpo y cuando 
se inclin hacia delante, Grace not su ereccin presionndole en la cadera. Esta vez no se sorprendi. Curiosamente, estaba empezando a acostumbrase.
    E se deslizou entre o sof e Grace.
    - Julin... -lhe advertiu ela.
    - S vou ensinar te o que quer.
    - Hum... -exclamou dbia. De todos os modos, no podia evitar sentir sua proximidade lhe impregnasse at os ossos, at a alma. A calidez do peito do Julin se 
estendeu por suas costas quando a rodeou com seus maravilhosos braos.
    Ao sentar-se atrs dela, ele dobrou os joelhos, de modo que ficaram a cada lado de seu corpo e quando se inclinou para diante, Grace notou sua ereo lhe pressionando 
no quadril. Esta vez no se surpreendeu. Curiosamente, estava comeando a acostumasse.
    Sentia o poder e a fora do Julin enquanto seu corpo fibroso e esbelto se acomodava atrs dela, deixando-a sem flego e muito insegura.
    Uns sentimentos estranhos e intensos comearam a estender-se em seu interior, jamais lhe tinha ocorrido algo assim. O que tinha Julin que o fazia sentir-se 
to protegida e feliz?
    Se se tratava da maldio, deveriam lhe trocar o nome, porque no havia nada malvolo nas sensaes que a embargavam.
    - Muito bem -lhe disse Julin, e seu flego lhe roou a orelha fazendo que uma descarga eltrica a transpassasse. Imediatamente, agarrou-lhe as mos e os dois 
juntos sustentaram os talheres. 
    Fechou os olhos, enquanto aspirava o doce aroma a flores que desprendia o cabelo do Grace. Estava empregando toda sua fora de vontade para concentrar-se na 
tarefa de lhe ensinar a comer talharins, e esquecer-se do muito que desejava lhe fazer o amor.
    Ela deslizou provocativamente os dedos entre os seus, intensificando desse modo as sensaes que sua pele clida e suave produziam no Julin. Um novo tipo de 
desespero se apropriou dele. Uma que no era capaz de nomear. Sabia o que queria dela, e no se tratava s de seu corpo.
    Mas no se atrevia a pensar nisso.
    No se atrevia a ter esperanas.
    Grace no estava a seu alcance. Seu corao o dizia, e sua alma. Nem todo o desejo do mundo poderia trocar um fato essencial: no se merecia uma mulher como 
ela.
    Jamais o tinha merecido...
    Abriu os olhos e lhe mostrou o modo de usar a colher para ajudar-se a enrolar os talharins no garfo. 
    - V? -murmurou, lhe aproximando o garfo aos lbios-.  singelo.
    Ela abriu a boca e Julin introduziu com cuidado o garfo. Enquanto o tirava, deslizando-o entre seus lbios, sentiu que experimentava uma nova forma de tortura. 
    O corao pulsava a um ritmo frentico e selvagem, e seu sentido comum lhe dizia que se afastasse dela.
    Mas no podia. Levava tanto tempo sem companhia. Tanto tempo sem ter um amigo...
    No podia deix-la agora. No sabia como faz-lo.
    Assim seguiu lhe dando de comer.
    Grace se reclinou entre seus braos. Apartou as mos das suas e deixou que ele tomasse o controle. Enquanto mastigava os talharins, agarrou uma parte de po 
e o ofereceu ao Julin. Lhe mordiscou os dedos ao ficar o na boca. 
    Grace sorriu e lhe acariciou o queixo enquanto mastigava. Uf! A forma em que se esticava esse msculo sob sua mo... adorava como se movia seu corpo, como se 
relaxavam e se contraam seus msculos, por muito pequeno que fosse o esforo.
    Uma mulher jamais poderia cansar-se de olh-lo.
    Tomou um sorvo de vinho e, enquanto isso, Julin lhe roubou uns quantos talharins.
    - Oua, voc! -disse-lhe brincando-. Isso  meu.
    Seus celestiales olhos azuis resplandeceram ao sorrir, e lhe ofereceu de novo o garfo para que seguisse comendo.
    Enquanto mastigava, Grace lhe aproximou a taa de vinho aos lbios.
    Infelizmente, no calculou bem e a afastou muito logo, com o que o vinho se derramou por seu queixo e caiu sobre a camisa. 
    - Sinto muito! -exclamou, lhe limpando o queixo com os dedos. Sua incipiente barba lhe raspava a pele-. Jesus! A que formei!
    A ele no pareceu lhe incomodar absolutamente. Agarrou-lhe a mo e se dedicou a lamber o vinho que caa por seus dedos.
    Grace deixou escapar um gemido. Julin lhe lambia os dedos e os mordiscava com muita suavidade, e ela se estremecia da cabea aos ps.
    Um a um, foi limpando meticulosamente. E quando acabou, elevou-lhe o queixo e capturou seus lbios. 
    Mas no foi o beijo exigente e feroz ao que ela estava acostumada. que utilizava para seduzi-la e devor-la.
    Este foi suave e tranqilo. Tenro. Os lbios do Julin eram delicados mas exigentes. 
    Ento se afastou.
    - Ainda tem fome? -perguntou-lhe.
    - Sim -balbuciou Grace, sem referir-se  comida, a no ser aos apetites que seu corpo estava experimentando junto a ele.
    Julin lhe ofereceu mais talharins.
    Quando lhe aproximou a taa novamente para acalmar sua sede, Julin lhe cobriu a mo com a sua enquanto a observava com olhos risonhos.
    Assim seguiram, dando-se de comer e deleitando-se em sua mtua companhia, at o final do filme. Julin pareceu muito interessado nas lutas finais. 
    - Suas armas so fascinantes -comentou.
    - Suponho que para um general devem s-lo.
    Ele a olhou de esguelha e seguiu atento ao filme.
    - O que  o que mais voc gosta do Matrix?
    - As alegorias.
    Ele assentiu.
    - Tem influncias do Platn.
    - Conhece o Platn? -perguntou-lhe surpreendida.
    - Estudei-o quando era jovem.
    - Srio?
    No pareceu divertido pela conversao.
    - As arrumavam para nos ensinar umas quantas coisas entre surra e surra.
    - No est falando a srio, Julin.
    - J.
    Uma vez acabou o filme, ajudou-a a recolher a cozinha.
    Quando ela carregava a lava-loua, soou o telefone.
    - No demorarei nada -lhe disse enquanto corria para a salita para responder.
    - Grace,  voc?
    ficou geada ao escutar a voz do Rodnay Carmichael.
    - Ol, senhor Carmichael -o saudou framente.
    Nesse momento, teria matado ao Luanne por partir da cidade.
    To somente tinha tido uma sesso com o Rodney, na quarta-feira, mas tinha sido suficiente para fazer que desejasse contratar a um detetive privado que procurasse 
o Luanne e a trouxesse de volta.
    O tipo lhe dava calafrios.
    - Onde esteve hoje, Grace? No estar doente, verdade? Poderia te levar...
    - No lhe trocou Lisa sua entrevista?
    - Sim, mas estava pensando que podam...
    - Olhe, senhor Carmichael, no atendo a meus pacientes em casa. Verei-lhe na hora de sua sesso. De acordo?
    A linha ficou em silncio.
    - Grace? 
    Ela saltou e chiou ao escutar a voz do Julin a suas costas.
    Ele a observava com curiosidade, com uma expresso que muito bem poderia ter encontrado divertida se no tivesse estado to aterrorizada.
    - Est bem? -perguntou-lhe ele.
    - Sim, sinto-o -disse, pendurando o telefone-. Era esse paciente do que te falei. Rodney Carmichael. Tira-me de gonzo.
    - O que?
    - Que me pe muito nervosa -pela primeira vez, agradecia muitssimo a presena do Julin. Desde no estar ele, teria ido a casa da Selena e Bill, em busca de 
sua hospitalidade durante o fim de semana-. Venha -lhe disse enquanto apagava a luz da cozinha-. Vamos acima e comeo a te ensinar a ler?
    Julin negou com a cabea.
    - No abandona, verdade?
    - No.
    - Muito bem -lhe respondeu, seguindo-a escada acima-. Aceito que me d classes se puser a neglig roj...
    - No, no e no -disse ela, detendo-se em metade da escada e girando-se para Me olh-lo temo que isso no vai ser possvel.
    Ele se aproximou e acariciou o cabelo que lhe caa sobre o ombro.
    - No sabe que necessito uma musa que me anime a aprender? E que melhor musa que voc vestida com...?
    Grace lhe colocou os dedos sobre os lbios para impedir que seguisse falando.
    - Se me puser isso, duvido muito que vs aprender algo que no saiba j.
    Lhe mordiscou os dedos.
    - Prometo me comportar bem.
    Sabendo que era uma idia pssima, deixou que a convencesse.
    - Ser melhor que te comporte -lhe advertiu, lhe olhando por cima do ombro enquanto acabava de subir os degraus.
    Grace entrou no enorme vestidor que seu pai tinha convertido em biblioteca anos atrs, e rebuscou nas prateleiras at encontrar seu velho conto do Peter Po.
    Julin rebuscou em suas gavetas at encontrar o deplorvel traje.
    Intercambiaram objetos no centro da habitao. Grace correu por volta do quarto de banho e se trocou de roupa mas, logo que se contemplou no espelho, com o difano 
objeto vermelho, foi incapaz de mover-se. Puaj! Se Julin a via com essas pintas sairia dando alaridos da habitao.
    Incapaz de suportar a humilhao de v-lo decepcionado por seu corpo, tirou-se a neglig e ficou sua singela regata rosa. envolveu-se em seu grosso penhoar antes 
de retornar  habitao.
    Julin meneou a cabea.
    - por que te puseste isso?
    - Olhe, no sou idiota. No tenho o tipo de corpo que faz que os homens babem.
    - O que est tentando me dizer?, que  um homem?
    Ela franziu o cenho ante sua lgica.
    - No.
    - Ento como sabe que seu corpo no acordada o desejo de um homem?
    - Porque no sou cega. Vale? Os homens no babam por mim do mesmo modo que as mulheres fazem contigo. Maldita seja!, considero-me afortunada quando se do conta 
de que sou uma mulher. 
    - Grace -resmungou, levantando-se. ficou em p e se deteve os ps da cama-. Vem aqui -lhe ordenou.
    Ela obedeceu.
    Julin a colocou exatamente em frente do espelho de corpo inteiro.
    - O que v? -perguntou-lhe.
    - A ti.
    Lhe sorriu.
    Inclinando-se, apoiou o queixo sobre o ombro do Grace.
    - O que v quando te olha?
    - Vejo algum que precisa perder de seis a nove quilogramas e comprar um carregamento de nata antimanchas para fazer desaparecer as sardas.
    A ele no pareceu lhe fazer graa.
    Passou-lhe as mos pela cintura, at a parte dianteira do penhoar, onde descansava o n do cinturo.
    - me deixe que te diga o que eu vejo -ronronou justo sobre sua orelha, enquanto colocava as mos sobre o cinturo, sem abri-lo-. Vejo um formoso cabelo, escuro 
como a noite. Suave e abundante. Tem o cabelo ideal para que caia em cascata sobre o ventre nu de um homem, para enterrar a cara nele e aspirar seu aroma. 
    Grace comeou a tremer.
    - Tem um rosto com forma de corao, semelhante ao de um pequeno fantasia de diabo, com lbios cheios e sensuais que pedem a gritos ser beijados. E com respeito 
a suas sardas, so fascinantes. Acrescentam um toque juvenil a seu encanto que te faz nica e irresistvel.
    No soava to mal dito por ele.
    Desabotoou-lhe o penhoar e fez uma careta ante a viso da regata rosa. Abrindo-o de tudo, seguiu falando.
    - O que temos aqui? -resmungou, devorando-a com os olhos.
    antes de poder pensar sequer em protestar, Julin lhe baixou o penhoar pelos braos e o deixou cair ao cho, a seus ps. Voltou a apoiar o queixo em seu ombro 
enquanto seus olhos a contemplavam atravs do espelho. 
    Elevou-lhe a regata.
    - Julin -disse ela, lhe agarrando a mo.
    Seus olhares se encontraram no espelho. Grace no pde mover-se, j que a paixo e a ternura que se refletiam nos olhos do Julin a sumiram em um estado de transe. 
    - Quero verte, Grace -lhe disse em um tom que deixava s claras que no admitiria um no por resposta. 
    antes de poder voltar a pensar com claridade, lhe tirou a regata e passou suas mos sobre a pele nua de seu estmago.
    - Seus peitos no so pequenos -sussurrou, incorporando-se atrs dela-. Tm o tamanho perfeito para a mo de um homem -e para demonstrar sua afirmao, aproximou 
as mos e os cobriu com elas.
    - Julin -balbuciou Grace com um gemido e o corpo abrasado-. Recorda sua promessa.
    - Estou-me comportando bem -respondeu ele com voz rouca.
    Apoiando-se sobre seus duros peitorais, Grace observou sem flego no espelho como Julin deixava seus peitos e lhe acariciava as costelas, descendendo at os 
quadris e uma vez ali, colocava as mos sob o elstico de seus braguitas. 
    - Tem um corpo formoso, Grace -lhe disse enquanto lhe acariciava o pbis.
    Pela primeira vez em toda sua vida, acreditou-. Julin lhe mordiscou o pescoo enquanto suas mos brincavam com os cachos escuros de seu entrepierna. 
    - Julin -choramingou, sabendo que se no o detinha agora no seria capaz de faz-lo mais tarde.
    - Shh! -disse-lhe ao ouvido-. J te tenho.
    E, ento, separou as tenras dobras de seu corpo e acariciou seu sexo. 
    Grace gemeu, consumida pela paixo. Julin capturou seus lbios e a beijou plena e profundamente.
    De forma instintiva, deu-se a volta entre seus braos para sabore-lo melhor.
    Levantou-a do cho, sem abandonar seus lbios, enquanto a levava at a cama. De algum modo, as arrumou para acomod-la sobre o colcho e tombar-se sobre ela 
sem deixar de beij-la.
    Certamente tinha um grande talento. 
    E uf!, Grace se sentia arder com suas carcias. Com seu aroma escandalosamente sensual. Com a sensao de seu corpo tendido junto a ela. Comeou a tremer de 
ps a cabea enquanto lhe separava as coxas com os joelhos e se colocava, ainda vestido, sobre ela.
    Sentir seu peso era algo maravilhoso. Seu corpo duro e viril, enquanto esfregava seus esbeltos quadris contra ela. At atravs dos jeans, podia sentir sua ereo 
pressionando sobre seu entrepierna. Como se estivessem atradas por um m, seus quadris se elevaram compassando-se ao movimento do Julin. 
    - Isso, Grace -murmurou sobre seus lbios, enquanto seguia roando seu membro inchado contra ela, de um modo to magistral que Grace soube que j teria chegado 
ao clmax se estivesse dentro dela-. Sente minhas carcias. Sente meu desejo por ti, s por ti. No lute contra ele.
    Grace voltou a gemer quando Julin abandonou seus lbios e deixou um abrasador reguero de beijos por sua garganta, at chegar a seus peitos, que comeou a sugar 
com suavidade.
    Grace delirava de prazer enquanto enterrava as mos nos cachos loiros do Julin.
    Ele atormentou implacavelmente seus peitos com a lngua.
    Todo seu corpo tremia pelo tremendo esforo que lhe supunha manter-se vestido. Queria introduzir-se nela com tanto desespero que sua prudncia se desvanecia 
pouco a pouco.
    Com cada aposta de seus quadris contra as do Grace, lhe dava vontade de gritar pela agonia do desejo insatisfeito. Era a tortura mais deliciosa que jamais tinha 
experiente.
    E tudo piorou ao sentir ao Grace deslizar as mos por suas costas, e as introduzir em seus bolsos traseiros para aproxim-lo ainda mais, apertando-o com fora. 
    Julin se estremeceu ante a sensao.
    - Sim, OH, sim! -ofegava Grace quando ele aumentou o ritmo de suas investidas.
    Julin sentiu que todo lhe dava voltas. Tinha que afundar-se nela. E se no podia fazer o de uma maneira, por todos os templos de Atenas que o faria de outra. 
    separou-se dela e se moveu para baixo, passando os lbios por seu estmago e lhe beijando os quadris enquanto lhe tirava as braguitas.
    Grace tremia de ps a cabea ao sentir o poder que ele ostentava nesse momento. 
    - Por favor -lhe suplicou, incapaz de suport-lo mais.
    Apartou-lhe as coxas com os cotovelos. Grace o permitiu sem protestar. Colocou as mos baixo ela e lhe elevou os quadris at que lhe aconteceu as pernas por 
cima de seus ombros.
    Os olhos lhe abriram de par em par no mesmo instante em que Julin tomou na boca.
    Grace enterrou as mos no cabelo dele e jogou a cabea para trs, vaiando de agradar ante as carcias to ntimas que a lngua do Julin lhe prodigalizava. Jamais 
tinha experiente algo assim. Uma e outra vez, penetrando-a com a lngua implacavelmente, ele a lambia, atormentava-a, pinava em seu interior at deix-la sem flego, 
exausta. 
    Julin fechou os olhos e grunhiu quando provou seu sabor. E desfrutou da sensao. Os murmrios de prazer que escapavam da garganta do Grace ressonavam em seus 
ouvidos. Percebia como ela reagia ante cada carcia sensual de sua lngua, cuidadosamente executada. De fato, sentia como lhe tremiam as coxas e as ndegas, como 
se estremeciam contra seus ombros e suas bochechas. 
    Grace se retorcia de modo muito ertico em resposta a suas carcias.
    Com a respirao entrecortada, Julin quis lhe mostrar exatamente o que se esteve perdendo. Quando sasse da habitao essa noite, Grace no voltaria a encolher-se 
de temor ante suas carcias.
    Ela choramingou quando moveu a mo devagar para introduzir o polegar em sua vagina, enquanto continuava lambendo-a.
    - Julin! -ofegou com um involuntrio estremecimento de seu corpo.
    Ele moveu o dedo e a lngua ainda mais rpido, mais profundo, aumentando a presso enquanto girava e girava. Grace sentia que a cabea lhe dava voltas pelo roce 
da barba do Julin em suas coxas, em seu sexo.
    E, quando pensava que j no poderia suport-lo mais, alcanou o clmax de forma to violenta que jogou a cabea para trs e gritou enquanto seu corpo se convulsionava 
pelas contnuas quebras de onda de prazer.
    Mas Julin no se deteve, seguiu lhe prodigalizando carcias at que teve outro novo orgasmo, quase seguido ao primeiro.
    A terceira vez que lhe ocorreu pensou que morreria. 
    Dbil, e totalmente saciada, sacudia a cabea a um e outro lado, sobre o travesseiro, enquanto ele continuava seu implacvel assalto.
    - Julin, por favor -lhe suplicou enquanto seu corpo seguia experimentando contnuos espasmos por suas carcias-. No posso mais.
    S ento, ele se apartou.
    Grace se sentia palpitar da cabea at os ps, e respirava entrecortadamente. Jamais tinha conhecido um prazer to intenso.
    Julin riscou um caminho de beijos desde suas coxas at sua garganta, e ali ficou.
    - me diga a verdade, Grace -lhe disse ao ouvido-. H sentido algo assim antes?
    - No -sussurrou ela com honestidade; duvidava que muitas mulheres tivessem conhecido algo semelhante ao que ela acabava de experimentar. Possivelmente no houvesse 
nenhuma-. No tinha nem idia de que pudesse ser assim.
    Com um olhar faminto, Julin a contemplou como se queria devor-la.
    Ela sentiu a presso de sua ereo sobre o quadril e caiu na conta que ele no tinha chegado ao orgasmo. Tinha mantido sua promessa.
    Com o corao lhe pulsando frentico ante o descobrimento, quis lhe proporcionar quo mesmo ela acabava de viver. Ou ao menos, algo que lhe aproximasse.
    Baixando a mo, comeou a lhe desabotoar as calas.
    Julin lhe agarrou a mo e a levou aos lbios para lhe beijar a palma com muita ternura.
    - Sua inteno  boa, mas no te incomode.
    - Julin -lhe disse em tom de recriminao-. Sei que  muito doloroso para um homem se no se...
    - No posso -insistiu ele, interrompendo-a de novo.
    Grace o olhou carrancuda.
    - Que no pode o que?
    - Ter um orgasmo.
    Grace abriu a boca, atnita. Estaria dizendo a verdade? De todos os modos, seus olhos tinham uma expresso mortalmente sria. 
    -  parte da maldio -lhe explicou ele-. Posso te dar agradar, mas se me toca justo agora, s conseguir me fazer mais danifico. 
    Sofrendo por ele, acariciou-lhe a bochecha.
    - Ento, por que...?
    - Porque queria faz-lo.
    No acreditava. No. Apartou a mo de seu rosto e olhou para outro lado.
    - Querer dizer porque tinha que faz-lo. Pela maldio tambm, no  certo?
    Ele a agarrou pelo queixo e a obrigou a lhe olhar aos olhos.
    - No. Estou lutando contra a maldio, se no fosse assim, estaria dentro de ti agora mesmo. 
    - No o entendo.
    - Eu tampouco -lhe confessou olhando-a aos olhos, como se procurasse nela a resposta-. te Deite comigo -sussurrou-. Por favor.
    Grace fez uma careta de dor ante o sofrimento que destilava aquela singela petio. Seu pobre Julin. O que lhe tinham feito? Como podiam lhe fazer isso a algum 
como ele? 
    Julin agarrou o livro e o deu ao Grace.
    - me leia.
    Ela abriu o conto enquanto ele colocava os travesseiros no cabecero da cama.
    estirou-se no colcho e fez que Grace se tombasse a seu lado. Sem dizer uma s palavra, atirou da manta e a rodeou em um tenro gesto com seu brao.
    O aroma de sndalo a assaltou de novo, enquanto comeava a lhe ler a histria do Wendy e Peter Po.
    Estiveram assim durante uma hora.
    - eu adoro sua voz. Sua forma de falar -lhe disse enquanto Grace se detinha para passar uma pgina.
    Ela sorriu.
    - Devo dizer o mesmo de ti. Tem a voz mais cativante que escutei jamais. 
    Julin lhe tirou o livro das mos e o deixou sobre a mesita de noite. Grace elevou o olhar at seus olhos. O desejo os fazia mais brilhantes, e a contemplava 
com um desejo que a deixou sem respirao.
    Ento, para seu assombro, beijou-a brandamente na ponta do nariz.
    Alargou o brao, agarrou o mando a distncia e baixou as luzes at deixar a habitao em penumbra. Grace no sabia o que dizer enquanto ele se acurrucaba atrs 
dela e a abraava pelas costas. 
    Julin lhe apartou o cabelo da cara e apoiou a cabea no travesseiro, ao lado da sua.
    - eu adoro seu aroma -lhe sussurrou, abraando-a com fora.
    - Obrigado -respondeu ela em um murmrio.
    No estava segura, mas lhe dava a impresso de que Julin sorria.
    Se acurruc ainda mais, aproximando-se da calidez de seu corpo, mas os jeans lhe rasparam as pernas.
    - No est incmodo vestido? No deveria te trocar de roupa?
    - No -respondeu tranqilamente-. Deste modo, sei que minha colherinha permanecer afastada de voc...
    - Nem te ocorra diz-lo -disse com uma gargalhada-. No te ofenda, mas seu irmo  asqueroso.
    - Sabia que havia uma razo para que eu gostasse tanto.
    Grace lhe tirou o mando a distncia das mos.
    - boa noite, Julin.
    - boa noite, carinho.
    Grace apagou a luz.
    Imediatamente, notou como Julin se esticava. Sua respirao se converteu em um ofego entrecortado e se separou dela.
    - Julin?
    Ele no respondeu.
    Preocupada, Grace acendeu a luz para poder lhe ver. abraava-se com fora o torso, com os braos cruzados sobre o peito. Tinha a frente coberta de suor e um
olhar aterrado e selvagem enquanto se esforava por respirar.
    - Julin?
    Ele observou a habitao como se acabasse de despertar de um pesadelo espantoso. Grace viu como elevava um brao e colocava a mo na parede, para assegurar-se 
que tudo era real, no uma alucinao.
    umedeceu-se os lbios, passou-se a mo pelo peito e tragou saliva.
    E ento, Grace o entendeu.
    A escurido. Por isso no tinha apagado as luzes, mas sim tinha baixado a intensidade.
    - Sinto-o Julin, no sabia. 
    Ele seguia sem falar.
    Grace o abraou, surpreendida de que um homem to forte procurasse consolo nela como se no pudesse fazer outra coisa. Julin apoiou a cabea sobre seus peitos.
    Com os dentes apertados, Grace sentiu que os olhos lhe enchiam de lgrimas. E nesse instante soube que jamais lhe deixaria retornar a esse livro. Nunca.
    De algum modo, romperiam a maldio. E, quando tudo tivesse acabado, esperava que Julin pudesse vingar do responsvel por seu sofrimento. 
    
    
    Captulo 9
    
    
    Grace permaneceu imvel durante horas, escutando a respirao tranqila e compassada do Julin, enquanto dormia a seu lado. Tinha colocado uma perna entre suas 
coxas e lhe rodeava a cintura com um brao. 
    A sensao de seu corpo, envolvendo-a, a fazia palpitar de desejo.
    E seu aroma...
    O que mais gostava de nesses momentos era d-la volta e enterrar o nariz no aroma quente e amaderado de sua pele. Ningum a tinha feito sentir-se assim jamais. 
To querida, to segura.
    To desejvel.
    E se perguntava como era possvel, tendo em conta que apenas se conheciam. Julin chegava a uma parte de seu interior que ia mais  frente do mero desejo fsico.
    Era to forte, to autoritrio... E to divertido. A fazia rir e lhe encolhia o corao.
    Alargou o brao e passou os dedos com suavidade pela mo que tinha justo colocada sob seu queixo. Tinha umas mos preciosas. Largas e ahusadas. At relaxadas 
durante o sonho, sua fora era inegvel. E a magia que obravam em seu corpo...
    Um milagre.
    Passou o polegar por seu anel de general e comeou a perguntar-se como teria sido Julin ento. A menos que a maldio tivesse alterado sua aparncia fsica, 
no parecia ser muito maior, no aparentava mais de trinta. 
    Como poderia ter liderado um exrcito a uma idade to temprana? Mas claro, Alejandro Magno apenas se tinha idade para barbear-se quando comeou suas campanhas.
    Julin devia ter tido uma aparncia magnfica no campo de batalha. Grace fechou os olhos e tentou imaginar-lhe a cavalo, carregando contra seus inimigos. Podia 
ver uma vvida imagem do general vestido com a armadura e com a espada em alto enquanto lutava corpo a corpo com os romanos.
    - Jasn?
    Grace se esticou ao escutar o murmrio. Julin estava dormido.
    Girou sobre o colcho e o olhou.
    - Julin?
    Ele adotou uma postura rgida e comeou a falar em uma confusa mescla de ingls e grego clssico.
    - No! Okhee! Okhee! No! -e se incorporou at ficar sentado na cama. 
    Grace no podia saber se estava dormido ou acordado.
    Tocou-lhe o brao instintivamente e, lanando uma maldio, ele a agarrou com fora e atirou dela at p-la sobre suas coxas. Depois voltou a arrojar a  cama, 
com um olhar selvagem e os lbios franzidos. 
    - Maldito seja! -grunhiu. 
    - Julin -ofegou Grace, lutando por liberar-se enquanto ele a agarrava com mais fora pelo brao-. Sou eu, Grace!
    - Grace? -repetiu com o cenho franzido, tentando enfocar o olhar. 
    separou-se dela piscando. Elevou as mos e as observou como se fossem dois apndices estranhos que no tivesse visto jamais. Depois cravou os olhos no Grace.
    - Tenho-te feito mal? 
    - No, estou bem. E voc?
    Ele no respondeu.
    - Julin? -disse enquanto lhe tocava.
    afastou-se dela como se se separasse de uma criatura venenosa.
    - Estou bem. Era um mau sonho.
    - Um mau sonho ou uma m lembrana?
    - Uma m lembrana que me persegue em sonhos -murmurou com a voz carregada de dor, e se levantou-. Deveria dormir em outro stio.
    Grace o agarrou pelo brao antes de que pudesse partir e o aproximou de volta  cama.
    - Isso  o que sempre fez no passado?
    Ele assentiu.
    - Contaste-lhe seus pesadelos a algum? 
    Julin a olhou horrorizado. Por quem o tinha tomado? 
    Por um menino choro que necessitava a sua me?
    Sempre tinha guardado a angstia em seu interior. Como lhe tinham ensinado. S durante as horas de sonho as lembranas podiam transpassar as barreiras que ele 
mesmo tinha ereto. S quando dormia era dbil. 
    No livro no havia ningum que pudesse resultar ferido quando lhe assaltava o pesadelo. Mas uma vez liberado de seu confinamento, sabia que no era muito inteligente 
dormir ao lado de algum que podia acabar inadvertidamente ferido enquanto estava apanhado no sonho. 
    Poderia matar a de forma acidental.
    E essa idia o aterrorizava.
    - No -sussurrou-. No o contei nunca a ningum
    - Ento, conta-me o .
    - No -respondeu com firmeza-. No quero voltar a viv-lo.
    - Se o reviver cada vez que sonha, qual  a diferena? me deixe entrar em seus sonhos, Julin. me deixe te ajudar.
    Poderia faz-lo? Poderia ter esperana?
    Sabe que no.
    Mas ainda assim...
    Queria purgar os demnios. Queria dormir uma noite completa livre do tortura, com um sonho tranqilo.
    - Conta me insistiu isso brandamente.
    Grace percebia sua relutncia enquanto se unia a ela na cama. Permaneceu sentado no bordo, com a cabea entre as mos.
    - J me perguntaste o que fiz para que me amaldioaram. Fizeram-no porque tra ao nico irmo que jamais conheci. A nica famlia que tive na vida.
    A angstia de sua voz impregnou muito fundo no Grace. Desejava desesperadamente lhe acariciar as costas, para reconfort-lo, mas no se atreveu se por acaso 
ele voltava a apartar-se de novo. 
    - O que fez?
    Julin se mes o cabelo e deixou enterrado o punho nele. Com a mandbula mais rgida que o ao e o olhar fixo no tapete respondeu:
    - Permiti que a inveja me envenenasse.
    - Como?
    Permaneceu calado um momento antes de voltar a falar.
    - Conheci o Jasn pouco depois de que minha madrasta me enviasse a viver aos barraces. 
    Grace apenas se recordava uma conversao com a Selena em que lhe explicava que os barraces espartanos eram os lugares onde se obrigava a viver aos meninos, 
afastados de seus lares e de suas famlias. Sempre os tinha imaginado como uma espcie de internado.
    - Quantos anos tinha?
    - Sete.
    Incapaz de imaginar que a obrigassem a apartar-se de seus pais a essa idade, Grace ofegou.
    - No havia nada de estranho na deciso -disse ele sem olh-la-. E era grande para minha idade. Alm disso, a vida nos barraces era imensamente melhor que a 
que levava junto a minha madrasta.
    Grace percebia o veneno que destilava sua voz e se perguntou como teria sido a mulher.
    - Ento, Jasn vivia contigo nos barraces?
    - Sim -murmurou ele-. Cada barraco estava dividido em grupos, e cada um escolhia a um lder. Jasn era o lder de meu grupo.
    - O que faziam esses grupos?
    - Fomos uma espcie de unidade militar. Estudvamos, limpvamos nosso barraco, mas sobre tudo, arrumvamo-nos isso entre todos para poder sobreviver.
    Grace se sobressaltou ante essa palavra to dura.
    - Sobreviver a que?
    - Ao estilo de vida espartano -respondeu Julin com voz spera-. No sei se conhecer algo sobre os costumes da gente de meu pai, mas no viviam com os luxos 
habituais do resto dos gregos.
    - Os espartanos s queriam uma coisa de seus filhos: que nos convertssemos na fora militar mais impressionante do mundo antigo. Para nos preparar, ensinavam-nos 
a sobreviver com as necessidades mais bsicas. Davam-nos uma s tnica que devamos conservar durante todo um ano, e se se danificava, perdamo-la, ou acabava por 
ficar pequena, ficvamos sem ela. Tnhamos que nos fazer nossa prpria cama. E uma vez que chegvamos  puberdade, no nos permitia levar nenhum tipo de calado.
    riu com amargura.
    - Ainda posso recordar como me doam os ps durante o inverno. Tnhamos proibido acender fogo, e tampouco podamos nos tampar com uma manta, assim  que nos 
envolvamos os ps com farrapos para evitar que nos congelassem durante a noite. Pela manh tirvamos os cadveres dos meninos que tinham morrido de frio. 
    Grace se encolheu de espanto ante o mundo que Julin descrevia. Tentava imaginar-se como devia ter sido viver assim. Pior ainda, recordou o manha de criana 
que pilhou aos treze anos porque se encaprich de uns sapatos de oitenta dlares que, segundo sua me, eram muito para ela; e  mesma idade, Julin teria estado 
procurando farrapos. A injustia daquilo a fazia pedaos.
    - S foram meninos.
    - Jamais fui um menino -lhe respondeu com simplicidade-. Mas isso no era tudo, o pior era que apenas nos davam de comer. Estvamos obrigados a roubar ou a morrer 
de fome. 
    - E os pais o permitiam?
    Ele a olhou por cima do ombro; seus olhos tinham uma expresso irnica.
    - Consideravam-no um dever cvico. E, posto que meu pai era o stratgoi da Esparta, a maioria dos professores e dos meninos me desprezaram do primeiro momento. 
Davam-me muita menos comida que ao resto. 
    - O que era seu pai? -perguntou-lhe, no acabava de compreender o trmino grego que Julin tinha empregado.
    - O general supremo, se o prefere -inspirou profundamente e continuou-. Por causa de sua posio, e de sua reputao de homem cruel, eu era um emparelha para 
meu grupo. Enquanto eles se uniam para poder roubar comida, me deixavam de lado, e tinha que me engenhar isso para sobreviver. Um dia, pescaram ao Jasn roubando 
comida. Quando retornaram aos barraces foram castig-lo. Assim  que dava um passo  frente e me joguei toda a culpa.
    - por que? 
    Julin se encolheu de ombros, lhe subtraindo importncia ao assunto.
    - Estava to fraco pela surra anterior que pensei que no viveria se lhe davam outra. 
    - E por que lhe tinham golpeado antes?
    - Era o modo de comear o dia. logo que nos tiravam rastros das camas, davam-nos uma boa sova.
    Grace fez uma careta de dor.
    - Ento, por que deixou que lhe pegassem em seu lugar, se voc tambm estava ferido?
    - Sendo o filho de uma deusa, agentava as surras mais duras.
    Ela fechou os olhos enquanto recordava as palavras que Selena havia dito essa mesma tarde. Esta vez, no pde resistir o impulso de aproximar-se dele. P-lhe 
a mo sobre o bceps. Julin no se apartou. Ao contrrio, cobriu-lhe a mo com a sua e lhe deu um ligeiro aperto.
    - Desde esse dia em adiante, Jasn me considerou seu irmo, e fez que outros me aceitassem. Embora minha me e meu pai tinham outros filhos, nunca tinha tido 
um irmo antes. 
    Ela sorriu.
    - O que ocorreu depois?
    O bceps se contraiu sob sua mo.
    - Decidimos unir foras para conseguir o que necessitvamos. Ele distraa s pessoas e eu roubava; assim, se nos pilhavam, eu me levava os golpes.
    por que? Tinha Grace na ponta da lngua, mas a mordeu. No fundo, conhecia a resposta: Julin estava protegendo a seu irmo.
    - O tempo foi passando -continuou ele-, e notei que seu pai saa furtivamente do povo para observ-lo de longe. O amor e o orgulho em seu rosto eram algo indescritvel. 
Sua me fazia o mesmo. supunha-se que nos devamos arrumar isso para conseguir comida, mas alguns dias, Jasn encontrava coisas que seus pais lhe tinham deixado. 
Po fresco, lagosta assada, uma jarra de leite... e s vezes, dinheiro. 
    - Que tenro.
    - Sim, era-o; mas cada vez que me dava conta do que faziam por ele, a realidade me destroava. Queria que meus pais sentissem o mesmo por mim. Teria dado gostoso 
minha vida porque meu pai me olhasse uma s vez sem dio; ou porque minha me se preocupasse comigo o justo para vir para ver-me. O mais perto que estive nunca dela 
foi em seu templo da Thimaria. Estava acostumado a passar horas contemplando sua esttua, e me perguntando se era assim realmente. me perguntando se pensava alguma 
vez em mim.
    Grace se sentou atrs dele, abraou-o pela cintura e ps o queixo sobre seu ombro.
    - Alguma vez viu sua me quando foi pequeno?
    Lhe rodeou os braos com os seus e jogou a cabea para trs, at deix-la repousar sobre o ombro do Grace. Ela sorriu ante o gesto. Embora estivesse tenso e 
nervoso, estava-lhe confiando coisas que jamais tinha compartilhado com outra pessoa. 
    E lhe sab-lo proporcionava uma sensao de incrvel intimidade. 
    - No a vi nunca -confessou em voz baixa-. Enviava a outros, mas ela jamais se apresentou ante mim. Sem importar o muito que lhe implorasse, sempre se negava. 
depois de um tempo, deixei de pedir-lhe E ao final, tambm deixei de entrar em seus templos. 
    Grace lhe plantou um beijo tenro no ombro. Como podia sua me hav-lo ignorado? Como podia ser capaz uma me de no atender o rogo de um filho? 
    Pensava em seus prprios pais. No amor e a ternura que lhe tinham prodigalizado. E, pela primeira vez, depois de tantos anos, disse-se que seus sentimentos com 
respeito a sua trgica morte estavam totalmente equivocados. Sempre tinha pensado que teria sido muito melhor no conhecer seu carinho para no perder o de modo 
to cruel.
    Mas no era assim. Embora as lembranas de sua infncia e de seus pais eram agridoces, reconfortavam-na.
    Julin no tinha conhecido nunca a ternura de um abrao. A segurana de saber que, fizesse o que fizesse, seus pais sempre estariam ali. 
    No podia imaginar como teria sido crescer do modo que ele o fez.
    - Mas tinha ao Jasn -sussurrou, perguntando-se se teria sido suficiente para ele.
    - Sim. Depois da morte de meu pai, quando eu tinha quatorze anos, Jasn foi o bastante amvel para deixar ir a sua casa quando davam permisso. Foi em uma dessas 
visitas quando vi pela primeira vez ao Penlope.
    Grace sentiu uma pequena pontada de cimes ao escutar o nome de sua esposa.
    - Era to formosa... -murmurou ele- e estava prometida ao Jasn.
    Grace ficou paralisada ante suas palavras.
    OH! A coisa no ia bem.
    - Pior ainda -lhe disse lhe acariciando o brao com suavidade-, estava apaixonada por ele. Cada vez que amos de licena, jogava-se em braos do Jasn para beij-lo. 
Dizia-lhe o muito que significava para ela. Quando nos partamos, pedia-lhe em voz baixa que tomasse cuidado, e lhe deixava comida para que a encontrasse.
    Julin se deteve enquanto recordava a imagem do Jasn quando voltava para os barraces com os presentes do Penlope.
    "Algum dia te casar, Julin" dizia seu amigo enquanto fazia ornamento dos obsquios "mas jamais ter uma esposa como a minha para te esquentar a cama."
    Embora seu amigo no o dissesse, Julin conhecia o motivo de que falasse assim. Nenhum pai responsvel entregaria a sua filha em matrimnio a um homem deserdado, 
sem famlia que o reconhecesse. 
    Cada vez que seu amigo pronunciava essas palavras, sua alma se fazia pedaos. Havia ocasies nas que suspeitava que Jasn jogava sal em suas feridas devido ao 
cimes. Penlope o olhava mais da conta quando pensava que seu prometido no o notava. Pode que ele tivesse seu corao, mas ao igual ao resto das mulheres, ela 
o comia com os olhos cada vez que estava perto.
    Por esse motivo Jasn deixou de convid-lo a sua casa. E que lhe proibissem retornar ao nico lar que tinha conhecido, acabou por destro-lo.
    - Deveria ter deixado que se casassem -seguiu Julin, enquanto passava o brao pela cabea do Grace e enterrava o rosto em seu pescoo para inalar o doce aroma 
de sua pele-. Ento sabia, mas no podia suport-lo. Ano detrs ano, veria como ela o amava. Veria como sua famlia o adorava, enquanto eu no tinha um lar onde 
acudir. 
    - por que? -perguntou Grace-. H dito que tinha irmos, no lhe teriam deixado ficar com eles?
    Ele negou com a cabea.
    - Os filhos de meu pai odiavam a morte. Sua me me teria permitido ficar com eles, mas me negava a pagar o preo que pedia em troca. No tinha nada naqueles 
dias, exceto minha dignidade.
    - Agora tambm a tem -murmurou ela, abraando-o com mais fora pela cintura-. fui testemunha dela.
    Soltando-a, deixou passar suas palavras e esticou a mandbula.
    - O que ocorreu ao Jasn? -seguiu Grace. Queria que seguisse falando enquanto estivesse de humor-. Morreu em combate?
    Ele soltou uma amarga gargalhada.
    - No. Quando fomos o suficientemente majores para nos unir ao exrcito, mantive-o a salvo no campo de batalha. Tinha prometido ao Penlope e a sua famlia que 
no permitiria que lhe ocorresse nada.
    Grace sentiu o corao do Julin pulsando com rapidez sob seus braos.
    - Conforme passavam os anos, pronunciavam meu nome com temor e respeito. Minhas vitrias se convertiam em lenda, e se contavam uma e outra vez. Quando retornava 
a Thimaria, acabava dormindo na rua, ou na cama de qualquer mulher que me abrisse a porta para passar a noite. Desse modo passava o tempo at que retornava  batalha.
    Ao Grace ardiam os olhos pelas lgrimas; a voz do Julin estava carregada de dor. Como podiam hav-lo tratado assim?
    - O que aconteceu trocassem as coisas? -perguntou-lhe.
    Ele suspirou.
    - Uma noite, enquanto procurava um lugar para dormir, tropecei-me com eles duas na rua. Estavam abraando-se como dois apaixonados. Desculpei-me rapidamente 
mas, ao me afastar, escutei ao Jasn falando com o Penlope.
    Todo seu corpo ficou rgido entre os braos do Grace e o corao comeou a lhe pulsar com mais rapidez.
    - O que disse? -urgiu-lhe Grace.
    Os olhos do Julin adotaram um olhar sombrio.
    - Lhe perguntou que por que nunca ficava em casa de meus irmos. Jasn riu e lhe respondeu: "Ningum quer ao Julin.  o filho da Afrodita, a Deusa do Amor, 
e nem sequer ela suporta estar perto dele. "
    Grace foi incapaz de respirar enquanto escutava as cruis palavras. imaginou como deveu sentir-se Julin para as ouvir.
    Ele tomou ar com brutalidade.
    - Tinha-lhe guardado as costas mais vezes das que podia recordar. Tinham-me ferido em batalha em incontveis ocasione por proteg-lo, incluindo uma vez em que 
uma lana me atravessou o flanco. E ali estava ele, burlando-se de mim. No pude suportar a injustia. Tinha acreditado que fomos irmos. E suponho que, ao final, 
fomos, j que me tratou do mesmo modo que o resto de minha famlia. Eu sempre tinha sido um enteado bastardo. S e repudiado. No entendia por que ele tinha tantas 
pessoas que o queriam e eu no tinha a ningum. 
    - Ferido e zangado por suas palavras, fiz o que jamais deveria ter feito: invocar ao Eros.
    Grace podia imaginar-se facilmente o que tinha ocorrido.
    - Fez que Penlope se apaixonasse por ti.
    Ele assentiu.
    - Disparou ao Jasn com uma flecha de chumbo que matou seu amor pelo Penlope, e lhe disparou com uma de ouro para que se apaixonasse por mim. supunha-se que 
tudo devia acabar a mas...
    Balanando-o com suavidade entre seus braos, Grace aguardou a que encontrasse as palavras exatas.
    - Demorei dois anos em convencer a seu pai para que lhe permitisse casar-se com um bastardo deserdado, sem influncias familiares. Para ento, minha lenda tinha 
aumentado e tinha sido ascendido. Finalmente consegui acumular riquezas suficientes para fazer que Penlope vivesse como uma rainha. E, no que se referia a ela, 
no reparei em gastos. Tnhamos jardins, escravos e tudo o que lhe desejava muito. Dava-lhe liberdade e independncia, como jamais teve nenhuma outra mulher da poca. 
    - Mas no era suficiente?
    Ele negou com a cabea.
    - Eu necessitava algo mais e sabia que lhe ocorria algo. At antes de que Eros interviesse, sempre foi excessivamente veemente. Dependia do Jasn de um modo 
proibido para as espartanas e, em uma ocasio em que foi ferido, barbeou-se totalmente a cabea como amostra de sua dor. 
    " Mais tarde, uma vez Eros disparou suas flechas, Penlope passava por compridos perodos de depresso, ou de fria. Eu fazia tudo o que podia por ela, e tentava 
que fosse feliz.
    Grace lhe acariciou o cabelo enquanto o escutava.
    - Dizia que me queria, mas eu percebia que no se interessava por mim do mesmo modo que o tinha feito pelo Jasn. Entregava-me seu corpo de forma generosa, mas 
no havia verdadeira paixo em suas carcias. Soube desde a primeira vez que a beijei. Tentei me enganar a mim mesmo, me dizendo que no importava. Muito poucos 
homens, nnaquele tempo, naquele tempo, achavam o amor no matrimnio. Alm disso, ausentava-me durante meses, s vezes, inclusive anos, enquanto dirigia meu exrcito. 
Mas ao final, suponho que me pareo muito a minha me, porque sempre desejei mais. 
    Grace sofria enormemente por ele.
    - E ento chegou o dia em que Eros tambm me traiu.
    - Traiu-te?, como? -perguntou ansiosa, sabendo que esse era a origem da maldio. 
    - Ele e Prapo estiveram bebendo a noite posterior a que eu matasse ao Livio. Eros, bbado, contou-lhe o que tinha feito por mim. logo que Prapo escutou a histria, 
soube como vingar-se.
    - Foi ao Inframundo e agarrou gua da Lacuna da Memria para oferecer-lhe ao Jasn. E assim que tocou seus lbios, recordou seu amor pelo Penlope. Prapo lhe 
contou o que eu tinha feito e lhe entregou mais gua para que a desse a beber a ela.
    Julin sentia como seus lbios articulavam as palavras, mas perdeu o controle da narrao. Em lugar de tentar pensar no que ia contar, fechou os olhos e reviveu 
aquele desgraado dia.
    Acabava de entrar na casa procedente dos estbulos, quando viu o Penlope e ao Jasn no trio. Beijando-se. 
    Atnito, deteve-se metade de caminho, enquanto uma quebra de onda de nervosismo se apoderava dele ao comprovar a paixo daquele abrao. 
    At que Jasn elevou o olhar e o viu na porta.
    No instante em que seus olhos se encontraram, Jasn curvou os lbios.
    - Ladro desprezvel! Prapo me contou sua traio. Como pde?
    Com o rosto desfigurado pelo dio, Penlope se equilibrou sobre o Julin e o esbofeteou.
    - Asqueroso bastardo, mataria-te pelo que tem feito.
    - Eu o matarei -gritou Jasn enquanto desenvainaba sua espada.
    Julin tentou apartar ao Penlope, mas ela se negou.
    - Por todos os deuses! dei a luz a seus filhos -disse enquanto tentava lhe arranhar a cara.
    Julin a sustentou pelas bonecas.
    - Penlope, eu...
    - No me toque! -gritou-lhe escapando de suas mos-. Me d asco. Crie que uma mulher decente ia querer te  luz do dia?  desprezvel. Repulsivo. separou-se 
dele e se aproximou do Jasn.
    - lhe corte a cabea. Quero me banhar em seu sangue at apagar o rastro de seu aroma em minha pele. 
    Jasn blandi a espada.
    Julin deu um salto para trs, ficando fora do alcance da arma.
    De forma instintiva, procurou sua prpria espada, mas se deteve. Quo ltimo desejava era derramar o sangue do Jasn.
    - No quero lutar contigo.
    - Que no? Violou a minha mulher e lhe fez levar sua semente, quando deveriam ter sido meus filhos aos que desse a luz! Recebi-te em meu lar com os braos abertos. 
Dava-te uma cama quando ningum te queria perto, e assim me paga?
    Julin o olhou com incredulidade.
    - Pago-te? Tem a mais mnima idia das ocasies nas que te salvei a vida durante as batalhas? De quantas surras me deram em seu lugar? Pode sequer as contar? 
E te atreveu a te burlar de mim.
    Jasn riu cruelmente.
    - Todos, exceto Kyrian, burlavam-se de ti, idiota. De fato, era o nico que te defendia, com tanto empenho que s vezes me fazia me expor o que fariam juntos 
quando estavam a ss.
    Suprimindo a ira que lhe teria deixado totalmente exposto e vulnervel ao ataque do Jasn, agachou-se para esquivar a seguinte estocada. 
    - Deixa-o, Jasn. No me obrigue a fazer algo do que os dois nos arrependeramos mais tarde.
    - Do nico que me arrependo  de ter dado capacidade a um ladro em minha casa -bramou Jasn com ira, elevando a espada de novo.
    Julin tentou agachar-se, mas Penlope se aproximou at ele por detrs e o propin um empurro.
    A espada do Jasn lhe deu nas costelas. Vaiando de dor, Julin tirou sua prpria espada e a blandi de tal modo que teria deixado a seu amigo sem cabea se lhe 
tivesse alcanado.
    Jasn tentou alcan-lo, mas Julin se limitou a defender-se enquanto tentava afastar ao Penlope do alcance das espadas.
    - No o faa, Jasn. Sabe que sua habilidade com a espada  inferior  minha.
    Seu amigo intensificou o ataque.
    - No vou deixar que siga com ela, no. 
    Os segundos seguintes se aconteceram com incomum rapidez, mas ainda assim, Julin via passar a imagem por sua cabea com difana nitidez.
    Penlope o agarrou por brao livre ao mesmo tempo que Jasn atacava. A espada no feriu o Julin de milagre depois do empurro que lhe deu sua esposa. Totalmente 
desequilibrado, tentou liberar-se do Penlope, mas com ela no meio, o que conseguiu foi tropear-se para diante, de uma vez que Jasn avanava para eles.
    No instante em que chocaram, sentiu como sua espada se afundava no corpo de seu amigo. 
    - No! -gritou Julin, extraindo a folha do ventre do Jasn enquanto Penlope deixava escapar um atormentado chiado de angstia.
    Lentamente, Jasn caiu ao cho.
    Ajoelhando-se, Julin arrojou sua espada a um lado e agarrou a seu amigo. 
    - Deuses do Olimpo!, o que tm feito?
    Cuspindo sangue e tossindo, Jasn lhe lanou um olhar acusador.
    - Eu no fiz nada. Foi voc o que me traiu. Fomos irmos e me roubou o corao.
    Jasn tragou dolorosamente enquanto seus plidos olhos atravessavam ao Julin.
    - Jamais teve nada que no roubasse antes.
    Julin comeou a tremer, consumido pela culpa e a agonia. Jamais tinha tido inteno de que acontecesse algo assim. Nunca tinha querido que algum sasse ferido, 
e menos ainda Jasn. Quo nico desejava era algum que lhe amasse. S queria um lar onde fosse bem-vindo.
    Mas Jasn tinha razo. Ele era o nico culpado. De tudo.
    Os chiados do Penlope ressonavam em seus ouvidos. Agarrou-o por cabelo e comeou a atirar com todas suas foras. Com um olhar selvagem, tirou a adaga que Julin 
levava no cinturo.
    - Quero-te morto! Morto!
    Afundou-lhe a adaga no brao, e voltou a tir-la para atacar de novo. Ele a agarrou a tempo.
    Com um forte puxo, desfez-se dele e se apartou.
    - No -lhe disse com um olhar desencaixado-. Quero que sofra. Tirou-me o que mais queria. Agora eu farei o mesmo contigo -e saiu correndo.
    Afligido pela dor e a fria, Julin no pde mover-se enquanto via como a vida abandonava o corpo de seu amigo.
    Ento, as palavras de sua esposa se filtraram entre a neblina que confundia sua mente.
    - No! -rugiu enquanto ficava em p-. No o faa!
    Chegou  porta dos aposentos do Penlope a tempo para escutar os gritos dos meninos. Com o corao em um punho, tentou abri-la mas ela a tinha trancado de dentro.
    Quando conseguiu abri-la, era muito tarde.
    Muito tarde...
    Julin se levou as mos  cara, pressionando-se com fora os olhos, enquanto o horror do acontecido aquele dia o alagava de novo; mas agora sentia as carcias 
do Grace nas costas, e se sentia reconfortado.
    Jamais seria capaz de esquecer a imagem de seus filhos, o medo no corao. A agonia mais absoluta.
    Quo nico tinha amado no mundo eram seus filhos.
    E s eles o tinham amado.
    por que? por que tiveram que sofrer por causa de seus enganos? por que teve Prapo que tortur-lo fazendo que eles sofressem?
    E como pde permitir Afrodita que todo aquilo acontecesse? Uma coisa era que no fizesse caso a ele, mas deixar que seus filhos morreram...
    Por isso foi aquele dia a seu templo. Tinha planejado matar ao Prapo. lhe arrancar a cabea dos ombros e crav-la em uma lana.
    - O que ocorreu? -perguntou-lhe Grace, devolvendo-o  presente.
    - Quando entrei na habitao era muito tarde -disse com a garganta quase fechada pela dor-. Nossos filhos estavam mortos; sua prpria me os tinha assassinado. 
Penlope se tinha aberto as bonecas e jazia junto a eles. Chamei um mdico para que tentasse deter a hemorragia -ento fez uma pausa-. Enquanto exalava seu ltimo 
flego, cuspiu-me  cara.
    Grace fechou os olhos, consumida pela dor do Julin. Era pior do que tinha imaginado.
    Santo Deus! Como tinha sobrevivido?
    Tinha escutado numerosos relatos de tragdias ao longo de sua vida, mas nenhum podia comparar-se com o que Julin tinha sofrido. E o passou ele sozinho, sem 
ningum que o ajudasse. Sem ningum que o amasse.
    - Sinto-o tanto -sussurrou ela lhe acariciando o peito para consol-lo. 
    - Ainda no posso acreditar que estejam mortos -murmurou ele com a voz rota de dor-. Me perguntou que fazia enquanto estava no livro. Recordar as caras de meus 
filhos; de meu filho e de minha filha. Recordar seus bracitos ao redor de meu pescoo. Recordar como saam correndo a meu encontro cada vez que retornava a casa, 
depois de uma campanha. E reviver cada um dos momentos desse dia, desejando ter feito algo para salv-los.
    Grace piscou para afastar as lgrimas. No era de sentir saudades que jamais tivesse falado a ningum disso.
    Julin tomou uma profunda baforada de ar.
    - Os deuses nem sequer me concedem cair na loucura para poder escapar a minhas lembranas. No me permite semelhante alvio.
    depois dessas palavras, no voltou a falar. limitou-se a ficar imvel entre os braos do Grace.
    Surpreendida por sua fortaleza, esteve sentada atrs dele durante horas, abraando-o. No sabia que mais podia fazer.
    Pela primeira vez em anos, suas habilidades de psicloga lhe falharam por completo. 
    
    Quando despertou, a luz do sol entrava em torrentes pelas janelas. Demorou todo um minuto em recordar o acontecido a noite anterior.
    sentou-se na cama e tentou tocar ao Julin, mas estava sozinha.
    - Julin? -chamou-o.
    Ningum respondeu.
    Jogando a um lado o edredom, levantou-se e se vestiu depressa.
    - Julin? -voltou a cham-lo, enquanto baixava as escadas.
    Nada. Nem um som, alm dos batimentos do corao frenticos de seu corao.
    O pnico comeou a abrir-se passo em sua cabea. Lhe teria acontecido algo?
    Entrou correndo na sala de estar; o livro estava sobre a mesita de caf. Passando as pginas com rapidez, viu que a folha onde tinha estado o desenho do Julin 
seguia em branco. Aliviada pelo fato de que no tivesse retornado ao livro, continuou registrando a casa.
    Onde estava?
    Foi  cozinha e notou que a porta traseira estava entreabierta. Franziu o cenho, sentida saudades, e a abriu de tudo para sair ao alpendre. 
    Jogou uma olhada ao ptio at que viu os meninos dos vizinhos sentados na grama, justo ao lado dos sebes que separavam ambas as casas. Mas o que mais sentiu 
saudades foi observar ao Julin sentado com eles, lhes ensinando um jogo com pedras e palitos. 
    Os dois meninos e uma das meninas estavam sentados a seu lado, escutando atentamente, enquanto sua irm pequena -de to somente dois anos- engatinhava entre 
eles. 
    Grace sorriu ante a aprazvel estampa. A calidez a invadiu de repente, e se perguntou se Julin se teria visto assim com seus prprios filhos. 
    Abandonou o alpendre e caminhou para eles. Bobby era o major dos meninos, com nove anos; depois vinha Tommy, com oito e Katie que acabava de cumprir seis. Seus 
pais se mudaram  vizinhana fazia j dez anos, recm casados e, embora tinham uma boa relao, jamais tinham passado de ser mais que amigveis vizinhos. 
    - Ento, o que ocorreu? -perguntou Bobby, quando chegou o turno do Julin. 
    - Bom, o exrcito estava apanhado -continuou Julin, movendo uma das pedras com um pau-, trado por um dos seus: um jovem hoplita que tinha vendido a seus companheiros
porque queria converter-se em centurio romano.
    - Eram os melhores -lhe interrompeu Bobby.
    Julin fez uma careta zombadora.
    - No eram nada comparados com os espartanos.
    - Acima Esparta! -gritou Tommy-. Assim anima nosso mascote do colgio. 
    Bobby lhe deu um empurro a seu irmo, e o golpeou na cabea.
    - Est interrompendo a histria.
    - No deve golpear a seu irmo jamais -deu Julin com brutalidade mas, ainda assim, com certa ternura-. Se supe que os irmos devem proteger-se, no fazer-se 
danifico. 
    A ironia de suas palavras lhe encolheu o corao. Era uma pena que ningum tivesse ensinado a seus irmos essa lio.
    - Sinto-o -se desculpou Bobby-. O que passou depois?
    antes de que Julin pudesse lhe responder, o beb caiu e esparramou os palitos e as pedras. Os meninos comearam a lhe gritar, mas Julin os tranqilizou enquanto 
levantava o Allison e a punha de novo em p. 
    Acariciou levemente o nariz da pequena e a fez rir. Depois retornou ao jogo.
    Enquanto chegava o turno ao Bobby para mover a pedra, Julin retomou a histria onde a tinha deixado.
    - O geral macedonio observou as colinas que o rodeavam; estavam encerrados. Os romanos os tinham encurralado. No havia modo de flanque-los, nem de retroceder. 
    - renderam-se? -perguntou Bobby.
    - Nunca -respondeu Julin com convico-. A morte antes que a desonra.
    Fez uma pausa enquanto as palavras reverberavam em sua cabea. Era a inscrio que adornava seu escudo. Como general, tinha vivido honrando esse lema.
    Como escravo, fazia muito que o tinha esquecido.
    Os meninos se aproximaram um pouco mais.
    - Morreram? -perguntou Katie.
    - Alguns sim -respondeu Julin, tentando afastar as lembranas que afluam a sua mente. Lembranas de um homem que, uma vez, foi o dono de seu prprio destino-. 
Mas no antes de fazer fugir aos romanos.
    - Como? -perguntaram os meninos, ansiosos.
    Esta vez, Julin agarrou ao beb antes de que voltasse a interromp-los.
    - A ver -comeou Julin enquanto dava ao Allison sua bola vermelha. A menina se sentou sobre o joelho que tinha dobrada, e ele a sujeitou lhe acontecendo uma 
mo pela cintura-. Enquanto cavalgavam para eles, o geral macedonio surpreendeu aos romanos, que esperavam que ele reunisse a seus homens em posio de falange, 
o qual lhes tivesse convertido em uma presa fcil para os arqueiros e a cavalaria. Em lugar de fazer o previsvel, o general ordenou a seus homens que se dispersassem 
e apontassem com as lanas aos cavalos, para romper as linhas da cavalaria romana.
    - E funcionou? -perguntou Tommy. 
    Inclusive Grace estava interessada na histria. Julin assentiu.
    - Os romanos no se esperavam esse movimento ttico em um exrcito treinado. Completamente despreparadas, as tropas romanas se dispersaram.
    - E o geral macedonio? 
    - Soltou um poderoso grito de guerra enquanto cavalgava em seu cavalo Mania, atravessando o campo at chegar  colina onde os generais romanos se estavam replegando. 
Eles se deram a volta para enfrent-lo, mas no foi muito inteligente por sua parte. Com a fria que sentia no corao, devida  traio que tinha sofrido, carregou 
sobre eles e s deixou a um supervivente. 
    - por que? -perguntou Bobby.
    - Queria que entregasse uma mensagem.
    - Qual? -inquiriu Tommy.
    Julin sorriu ante as vidas perguntas.
    - O general fez farrapos o estandarte romano e depois usou uma parte para ajudar ao romano a enfaixaras feridas. Com um sorriso letal, olhou fixamente ao homem 
e lhe disse: "Roma delenda est", Roma est destruda. E, ento, enviou ao general romano de volta a sua casa, encadeado, para que entregasse a mensagem ao Senado 
Romano.
    - Latido! -exclamou Bobby, impressionado-. Oxal fosse meu professor de histria no colgio. Assim aprovaria a disciplina seguro.
    Julin alvoroou o cabelo negro do menino.
    - Se te faz sentir melhor, no me interessava nada o tema a sua idade. Quo nico queria era fazer travessuras.
    - Ol, senhorita Grace! -saudou-a Tommy quando por fim se deu conta de sua presena-. escutou a histria do senhor Julin? Diz que os romanos eram tipos maus.
    Julin olhou ao Grace, que estava a uns metros de distncia, e lhe sorriu.
    - Estou segura de que ele sabe.
    - Pode arrumar minha boneca? -pediu-lhe Katie, oferecendo-lhe Grace alz la mirada mientras Emily rodeaba la casa.
    Julin soltou ao Allison e agarrou a boneca. P-lhe o brao em seu stio e a devolveu.
    - Obrigado -lhe disse Katie enquanto se jogava em seu pescoo e lhe dava um forte abrao. 
    O desejo que refletiu o rosto do Julin fez que ao Grace desse uma espetada o corao. Sabia que nesse momento, ele estava vendo a cara de sua prpria filha 
ao olhar ao Katie.
    - De nada, pequena -lhe respondeu com voz rouca, afastando-se dela.
    - Katie, Tommy, Bobby? O que esto fazendo a?
    Grace elevou o olhar enquanto Emily rodeava a casa.
    - No estaro incomodando  senhorita Grace, verdade?
    - No, para nada -lhe respondeu Grace. Emily no pareceu escut-la porque seguiu arreganhando aos meninos.
    - E o que est fazendo Allison aqui? supunha-se que devia estar no ptio traseiro. 
    - Oua mame! -gritou Bobby aproximando-se dela  carreira-. Sabe jogar ao Parcelon? O senhor Julin nos ensinou. 
    Grace riu a gargalhadas enquanto os cinco retornavam ao jardim dianteiro, com o Bobby falando sem parar. Julin tinha os olhos fechados e parecia estar saboreando 
o som das vozes infantis.
    -  todo um conta contos -lhe disse Grace quando lhe aproximou.
    - No cria.
    - A srio -lhe respondeu ela com nfase-. Sabe? Tem-me feito pensar. Bobby tem razo, seria um professor estupendo.
    Julin lhe sorriu satisfeito.
    - De general a professor. por que no me trocar o nome ao de Cartilha o Velho e me insultar enquanto est em classe?
    Ela riu.
    - No est to ofendido como quer me fazer acreditar.
    - E como sabe?
    - Pela expresso de seu rosto, e pela luz que h em seus olhos -lhe agarrou o brao e o levou de volta ao alpendre-. Deveria pensar seriamente nessa possibilidade. 
Selena conseguiu sua licenciatura no Tulane e conhece muita gente ali. Quem melhor para ensinar Histria Antiga que algum que a conheceu de primeira mo?
    No lhe respondeu. Em lugar disso, Grace notou como movia os ps, descalos, sobre a terra. 
    - O que est fazendo? -perguntou-lhe.
    - Desfrutando da sensao da erva -respondeu ele com um sussurro-. As folhas me fazem coquillas nos dedos.
    Ela sorriu ante o infantil de sua atitude.
    - Para isso saiu?
    Ele assentiu.
    - eu adoro sentir o sol na cara.
    Grace sabia, no fundo de seu corao, que tinha podido desfrut-lo em contadas ocasies.
    - Vamos, prepararemos umas terrinas de cereais e comeremos no alpendre.
    Ela subiu em primeiro lugar os cinco degraus que levavam at o alpendre, e lhe deixou sentado em sua cadeira de balano de vime para encarregar do caf da manh. 
    Quando retornou, Julin tinha a cabea apoiada no respaldo e os olhos fechados; sua expresso era serena.
    Como no queria incomod-lo, retrocedeu.
    - Sabe que todo meu corpo percebe sua presena? Todos meus sentidos so conscientes de sua proximidade -lhe confessou enquanto abria os olhos e a olhava com 
um desejo abrasador. 
    - No sabia -disse ela nervosa, lhe oferecendo a terrina. Ele o agarrou, mas no voltou a falar do tema. Comeou a comer em silncio.
    Absorvendo o calor do sol, Julin escutava a suave brisa e se recreava com a presena prxima e relaxante do Grace.
    despertou-se ao amanhecer para contemplar, atravs das janelas, a sada do sol. E tinha passado uma hora desfrutando de do contato do corpo do Grace. 
    Ela o tentava de um modo que jamais tinha experiente. Por um s minuto se permitiu baralhar a possibilidade de permanecer nesta poca.
    E depois o que?
    S tinha uma "habilidade" que podia lhe ser til neste mundo moderno, e no era o tipo de homem que pudesse viver alegremente da caridade de uma mulher. 
    No depois de...
    Apertou os dentes enquanto as lembranas o abrasavam.
    Aos quatorze anos, tinha trocado sua virgindade por uma terrina de papa de aveia frite e uma taa de leite azedo. Inclusive agora, com todo o tempo que tinha 
transcorrido, podia sentir as mos da mulher lhe tocando o corpo, lhe tirando a roupa, agarrando-se febrilmente enquanto lhe ensinava como lhe dar agradar.
    " Ooooh!" Cantarolou a mulher " muito bonito, verdade? Se alguma vez quiser mais papa, s tem que vir para ver-me quando meu marido no esteja em casa"
    sentiu-se to sujo depois... to usado.
    Durante os anos seguintes, dormiu em mais ocasione entre as sombras dos portais que em uma cama acolhedora, porque no gostava de voltar a pagar esse aprecio 
por uma comida e um pouco de comodidade.
    E se fosse de novo livre, no quereria...
    Fechou os olhos com fora. No se via neste mundo. Era muito diferente. Muito estranho.
    - J acabaste?
    Elevou os olhos e viu o Grace de p junto a ele, com a mo estendida esperando a terrina.
    - Sim, obrigado -lhe respondeu enquanto o dava.
    - Vou me dar uma ducha rpida. Voltarei em uns minutos.
    Contemplou-a enquanto partia; seus olhos se atrasaram nas pernas nuas. Ainda podia sentir o sabor de sua pele nos lbios. E o doce aroma de seu corpo.
    Grace o obcecava. No se tratava dos efeitos da maldio. Havia algo mais. Algo que jamais tinha experiente antes.
    Pela primeira vez, depois de dois mil anos, voltava a sentir-se como um homem; e esse sentimento vinha acompanhado de um desejo to profundo que lhe partia em 
dois o corao.
    Desejava-a. Em corpo e alma.
    E queria seu amor.
    A idia o assustou.
    Mas era certo. No havia tornado a experimentar esse profundo e doloroso desejo de sentir um tenro abrao desde que era pequeno. Necessitava que algum lhe dissesse 
que o amava, e que o fizesse de corao, no pelo efeito de um feitio. 
    Jogando a cabea para trs, soltou uma maldio. Quando ia aprender?
    Tinha nascido para sofrer. O Orculo do Delfos o havia dito.
    "Sofrer como nenhum homem sofreu jamais"
    "Mas me amar algum?"
    "No nesta vida."
    E se afastou dali totalmente fundo pela profecia. Que pouco tinha imaginado ento o sofrimento que lhe aguardava. 
    " o filho da Deusa do Amor, e nem sequer ela suporta estar perto dele." 
    A verdade fez que se encolhesse de dor. Grace jamais o amaria. Ningum o faria. Seu destino no era que o liberassem de seu sofrimento. Pior ainda, seu destino 
tinha uma trgica tendncia a derramar o sangue de todos os que se aproximavam dele.
    A dor lhe rasgava o peito enquanto pensava na possibilidade de que algo acontecesse ao Grace.
    No poderia permiti-lo. Tinha que proteg-la a toda costa. Embora isso significasse perder sua liberdade.
    Com essa ideia em mente, foi em sua busca.
    Grace se estava tirando o sabo dos olhos. Ao abri-los, sobressaltou-se quando viu que Julin a observava atravs da abertura das cortinas da ducha.
    - Deste-me um susto de morte! -exclamou.
    - Sinto muito.
    Ele permaneceu ao lado da banheira de patas, tamanho extra grande, vestido s com os boxers e apoiado sobre a parede, com a mesma pose que tinha no livro: os 
largos ombros jogados para trs e os braos relaxados a ambos os lados do corpo. 
    Grace se umedeceu os lbios ao contemplar os esculturais msculos de seu peito e de seu torso. Espontaneamente, seu olhar descendeu at os boxers vermelhos e 
amarelos.
    Bom, dizer que nenhum homem estaria bem com eles tinha sido um engano. Porque Julin estava fenomenal. Em realidade, no havia palavras que descrevessem com 
exatido quo muito bom estava com eles. 
    E aquele sorriso travesso, meio zombadora, que esgrimia nesses momentos, derreteria o corao da mais frgida das mulheres. Esse homem a punha muito, muito quente.
    Nervosa, Grace caiu na conta de que estava completamente nua diante dele.
    - Necessita algo? -perguntou-lhe enquanto se cobria os peitos com a manopla.
    Para sua consternao, ele se tirou os boxers e se meteu na banheira com ela.
    O crebro do Grace se converteu em mingau, afligida pela capitalista e masculina presena do Julin. Esse incrvel sorriso cheia de covinhas curvava seus lbios, 
e fazia que o corao lhe acelerasse e que comeasse a tremer.
    - S queria verte -disse em voz baixa e tenra-. Tem idia do que me faz quando te passa as mos pelos peitos nus?
    Apreciando o tamanho de sua ereo, Grace tinha uma idia bastante aproximada. 
    - Julin...
    - Mmm?
    Esqueceu o que ia dizer quando ele aproximou a cabea at seu pescoo. estremeceu-se por completo ao sentir que sua lngua lhe abrasava a pele.
    Gemeu pela sobrecarga sensorial que supunham as carcias das mos do Julin, unidas  sensao da gua quente da ducha. Apenas se foi consciente de que lhe tirava 
a manopla que ainda cobria seus peitos, e se levava um deles  boca. 
    Vaiou de agradar ao sentir a lngua do Julin girar ao redor do endurecido mamilo, roando-o levemente e fazendo-a arder.
    Ajudou-a a sentar-se na banheira e a jogou para trs, apoiando-a no respaldo. O contraste da fria porcelana nas costas e do quente corpo do Julin por diante, 
enquanto a gua caa sobre eles, excitou-a de um modo que jamais tivesse acreditado possvel.
    Nunca antes tinha apreciado o enorme tamanho da antiga banheira mas, nesse momento, no a trocaria por nada do mundo.
    - me toque, Grace -lhe disse com voz rouca, lhe agarrando a mo e aproximando-lhe at seu inchado membro-. Quero sentir suas mos sobre mim.
    Julin se estremeceu quando ela acariciou a dureza aveludada de seu pnis. 
    Fechou os olhos enquanto as sensaes o afligiam. As carcias do Grace no se limitavam ao plano fsico, percebia-as tambm a um nvel indefinvel. Incrvel. 
    Queria mais dela. Queria-o tudo dela.
    - eu adoro sentir suas mos sobre minha pele -balbuciou enquanto ela tomava entre suas mos. Pelos deuses! Desejava-a tanto que lhe doa todo o corpo. Como desejava 
que, to somente uma vez, fizesse o amor a ele. 
    Que lhe fizesse o amor com o corao. 
    A dor voltou a rasg-lo. No importava quantas vezes tivesse relaes sexuais, o resultado sempre era o mesmo. Sempre acabava ferido. Se no se tratava de seu 
corpo, era no profundo de sua alma.
    "Nenhuma mulher decente te querer  luz do dia."
    Era verdade, e sabia.
    Grace percebeu sua tenso.
    - Tenho-te feito mal? -perguntou enquanto afastava a mo.
    Ele negou com a cabea e lhe colocou as mos a ambos os lados do pescoo para beij-la profundamente. Sbitamente o beijo trocou, intensificando-se, como se 
estivesse tentado provar algo ante os dois. 
    Deslizou a mo pelo brao do Grace, at capturar a sua e enlaar os dedos. Depois, moveu as mos unidas e a acariciou entre as pernas.
    Grace gemeu enquanto ele a tocava com as mos entrelaadas. Era o mais ertico que tinha experiente jamais.
    Tremia de ps a cabea enquanto ele aumentava o ritmo das carcias. Quando introduziu os dedos de ambos em seu interior, Grace gritou de prazer.
    - Isso  -lhe murmurou ao ouvido-. nos Sinta aos dois unidos.
    Sem flego, Grace se agarrou ao ombro do Julin com a mo livre e o corpo em chamas. Deus, era um amante incrvel!
    de repente, ele retirou as mos e lhe elevou uma das pernas para passar-lhe pela cintura.
    Grace lhe deixou fazer, at que se deu conta de suas intenes. Estava preparando-se para penetr-la. 
    - No! -ofegou enquanto o empurrava-. Julin, no pode.
    Seus olhos flamejavam de necessidade e desejo.
    - S quero isto de ti, Grace. me deixe te possuir.
    Ela esteve a ponto de ceder.
    Mas ento, algo estranho aconteceu a seus olhos. Um vu escuro caiu sobre eles, e as pupilas lhe dilataram por completo.
    ficou imvel. Respirava entre ofegos e fechou os olhos como se estivesse lutando com um inimigo invisvel.
    Lanando uma maldio, afastou-se dela.
    - Corre! -gritou.
    Grace no o duvidou.
    Saiu como pde de debaixo dele, agarrou a toalha e correu para a porta. Mas no pde abandon-lo.
    deteve-se na entrada e olhou para trs. Viu como Julin se agachava at ficar apoiado nas mos e os joelhos, e se agitava como se o estivessem torturando.
    Escutou-o golpear a banheira com o punho fechado enquanto grunhia de dor.
    O corao do Grace martilleaba frentico ao v-lo lutar. Se soubesse o que podia fazer...
    Finalmente, caiu exausto  banheira.
    Aterrorizada, e sem poder deixar de tremer, Grace entrou no quarto de banho de novo e deu trs cautelosos passos para a banheira, preparada para sair correndo 
se ele tentava agarr-la.
    Estava tendido de flanco, com os olhos fechados. Respirava com dificuldade e parecia dbil e esgotado enquanto a gua caa sobre ele, esmagando as mechas douradas 
sobre seu rosto.
    Fechou o grifo.
    Julin no se moveu.
    - Julin?
    Abriu os olhos.
    - Assustei-te?
    - um pouco -lhe respondeu com franqueza. 
    Ele respirou fundo, entrecortadamente, e se sentou devagar. No a olhou. Tinha os olhos cravados em algo que estava a suas costas, por cima de seu ombro.
    - No vou ser capaz de lutar contra isso -disse, depois de uma larga pausa. Ento a olhou-. Nos estamos enganando, Grace. me deixe te possuir enquanto estou 
acalmado.
    - Isso  o que quer de verdade?
    Julin apertou os dentes ao escutar sua pergunta. No, no era o que queria. Mas o que desejava estava alm de seu alcance.
    Queria coisas que os deuses no tinham disposto para ele. Coisas que nem sequer se atrevia a nomear, porque o simples feito das pronunciar fazia sua ausncia 
ainda mais insuportvel. 
    - Eu gostaria de poder morrer.
    Grace retrocedeu ante a sincera resposta. Como desejava poder consol-lo. Afastar seu sofrimento.
    - Sei -lhe disse, com a voz rouca pelas lgrimas que no se atrevia a derramar. Passou-lhe os braos ao redor dos fortes e esbeltos ombros, e o abraou com fora.
    Para sua surpresa, Julin apoiou a bochecha sobre a sua. Nenhum dos dois pronunciou uma palavra enquanto se abraavam. Finalmente, ele se apartou.
    -  melhor que nos detenhamos antes de que... -no acabou a frase, mas no era necessrio que o fizesse. Grace j tinha sido testemunha das conseqncias, e 
no tinha nenhum desejo de repetir a experincia.
    Deixou-o no quarto de banho e foi vestir se. Julin saiu lentamente da banheira e se secou com uma toalha. Escutava ao Grace em sua habitao; estava abrindo 
a porta do armrio. Em sua mente, imaginou nua e a viso o avivou. 
    Uma demolidora quebra de onda de desejo o assaltou, golpeando-o com tal fora que esteve a ponto de cair de costas ao cho.
    agarrou-se ao lavabo enquanto lutava consigo mesmo.
    - No posso seguir vivendo assim -balbuciou-. No sou um animal.
    Elevou os olhos e se contemplou no espelho. Era a viva imagem de seu pai. Olhou seu rosto com dio.
    Podia sentir as chicotadas nas costas, enquanto seu pai o golpeava at que quase no podia se ter em p.
    "No te atreva a chorar, menino bonito. Nem um s soluo. Pode que seja o filho de uma deusa, mas este  o mundo no que vive, e aqui no mimamos aos meninos 
bonitos como voc."
    No fundo de sua mente, via o olhar de desprezo de seu pai enquanto o golpeava com o punho at jog-lo no cho, e depois o levantava pelo pescoo at quase asfixi-lo. 
Ele chutava e tentava defender-se com os punhos, mas aos quatorze anos era muito jovem e inexperiente para evitar os golpes do general.
    Com o rosto desfigurado por uma careta de desprezo, seu pai lhe tinha talhado na bochecha com uma adaga, afundando-a at o osso. E tudo porque tinha pescado 
a sua esposa olhando-o enquanto comiam. 
    "Vejamos se agora te deseja."
    A lacerante dor do corte foi insuportvel, e a hemorragia no se deteve em todo o dia.  manh seguinte, a ferida tinha desaparecido sem deixar rastro.
    A ira de seu progenitor tinha sido incomensurvel.
    - Julin?
    Sobressaltado, deu um pequeno salto ao escutar uma voz esquecida desde fazia dois mil anos.
    Jogou uma olhada  estadia, mas no viu nada.
    Sem estar muito seguro de ter escutado a voz, falou em voz baixa.
    - Ateneu?
    A deusa se materializou diante dele, justo no oco da porta. Embora levava roupas modernas, tinha o cabelo negro recolhido sobre a cabea, ao estilo grego, com 
mechas frisadas que lhe caam sobre os ombros. Seus plidos olhos azuis se encheram de ternura ao sorrir.
    - Venho em representao de sua me.
    - Ainda no  capaz de me enfrentar?
    Ateneu apartou o olhar.
    Julin sentiu o repentino impulso de rir a gargalhadas. por que se incomodava em esperar que sua me queria v-lo?
    Deveria estar acostumado.
    Ateneu brincava com um de seus cachos, envolvendo-lhe no dedo, enquanto o observava com uma estranha expresso de melancolia no rosto.
    - Que conste que te teria ajudado de ter sabido isto. Foi meu general favorito.
    De repente, compreendeu o que tinha ocorrido tantos sculos atrs.
    - Utilizou-me em seu pulso contra Prapo, verdade?
    Viu a culpa refletida nos olhos da deusa antes de que ela pudesse ocult-la.
    - O fato, feito est. 
    Com os lbios franzidos pela ira, olhou-a furioso.
    - Ah, sim? por que enviou a essa batalha quando sabia que Prapo me odiava?
    - Porque sabia que podia ganhar, e eu odiava aos romanos. Foi o nico general que tinha que podia desfazer-se do Livio, e assim o fez. Jamais me hei sentido 
mais orgulhosa de ti que aquele dia, quando lhe cortou a cabea.
    Cegado pela amargura, era incapaz de acreditar o que estava escutando.
    - Agora me diz que estava orgulhosa?
    Ela ignorou sua pergunta.
    - Sua me e eu falamos com o Cloto para que te ajude.
    Julin se paralisou ao escut-la. Cloto era a Parca encarregada das vidas dos humanos. A tecel do destino. 
    - E?
    - Se consegue romper a maldio, poderemos te devolver a Macednia; retornar ao mesmo dia em que foi amaldioado a permanecer no pergaminho. 
    - Posso retornar? -repetiu, aniquilado pela incredulidade.
    - Mas no te permitir voltar a lutar. Se o fizer, poderia trocar o curso da histria. Se lhe enviarmos de volta, dever jurar que viver retirado em sua vila.
    Sempre havia uma armadilha. Deveria hav-lo recordado antes de pensar que podiam ajud-lo.
    - Com que propsito, ento?
    - Viver em sua poca. No mundo que conhece -dizendo isto, jogou uma olhada ao quarto de banho-. Ou pode permanecer aqui, se o preferir. A eleio  tua.
    Julin soprou.
    - Mida eleio.
    -  melhor que no ter nenhuma.
    Seria certo? J no estava seguro de nada.
    - E meus filhos? -perguntou. Queria, no, desejava voltar a ver sua famlia, s duas nicas pessoas que tinham significado algo para ele.
    - Sabe que no podemos trocar isso.
    Julin amaldioou a Ateneu. Os deuses sempre conseguiam atorment-lo lhe tirando tudo o que lhe importava. Jamais lhe tinham concedido nada. 
    Ateneu alargou o brao e o acariciou ligeiramente na bochecha.
    - Escolhe com cuidado -sussurrou, e se desvaneceu.
    - Julin?, com quem falas?
    Piscou ao escutar ao Grace no corredor.
    - Com ningum -respondeu-. Falo sozinho.
    - Ah! -exclamou ela, aceitando a mentira sem problemas-. Estava pensando em te levar de novo ao Bairro Francs esta tarde. Podemos visitar o Aqurio. O que te 
parece?
    - Claro -respondeu ele, saindo do banho.
    Grace franziu o cenho, mas no disse nada enquanto se dirigia para as escadas.
    Julin foi trocar se  habitao. Enquanto ficava as calas, fixou-se nas fotografias que Grace tinha no vestidor. Parecia uma menina to feliz... to livre. 
Gostava especialmente uma em que sua me lhe acontecia os braos ao redor do pescoo e ambas riam a gargalhadas.
    Nesse momento, soube o que devia fazer. No importava o muito que desejasse outras coisas, jamais poderia ficar com ela. O havia dito ela mesma a noite que o 
invocaram.
    Tinha sua prpria vida. Uma em que ele no estava includo.
    No, Grace no necessitava a algum como ele. A algum que s atrairia a indeseada ateno dos deuses sobre sua cabea. 
    Romperia a maldio e aceitaria a oferta de Ateneu.
    No pertencia a esta poca. Seu mundo era a antiga a Macednia. E a solido. 
    
    
    Captulo 10
    
    
    Algo ia mau. Grace o notava no ambiente enquanto conduzia para o Bairro Francs. Julin ia sentado junto a ela, olhando pela janela.
    Tinha tentado vrias vezes faz-lo falar, mas no havia modo de que separasse os lbios. Tudo o que lhe ocorria era que estava deprimido pelo acontecido no quarto 
de banho. Devia ser duro para um homem habituado a manter um frreo controle de si mesmo perder o daquele modo. 
    Estacionou o carro no estacionamento pblico.
    - V, que calor faz! -exclamou ao sair e sentir-se imediatamente assaltada pelo ar carregado e denso.
    Jogou uma olhada ao Julin, que estava realmente deslumbrante com os culos de sol escuras que lhe tinha comprado. Uma fina capa de suor lhe cobria a pele.
    - Faz muito calor para ti? -perguntou-lhe, pensando em quo mau o estaria passando com os jeans e o plo de ponto.
    - No vou morrer me, se referir a isso -respondeu mordazmente. 
    - Estamos um pouco irritados, no?
    - Sinto-o -se desculpou ao chegar a seu lado-. Estou pagando meu mau humor contigo, quando no tem a culpa de nada. 
    - No importa. Estou acostumada a ser o cabrito expiatrio. De fato, converti-o em minha profisso. 
    Posto que no podia lhe ver os olhos, Grace no sabia se suas palavras lhe tinham feito graa ou no.
    - Isso  o que fazem seus pacientes?
    Ela assentiu.
    - H dias que so horripilantes. Mas prefiro que me grite uma mulher a que o faa um homem.
    - Tm-lhe feito mal alguma vez? -O af de amparo de sua voz a deixou perplexa. E encantada. Tinha jogado muito de menos ter a algum que a cuidasse.
    - No -respondeu, tentando dissipar a evidente tenso de seu corpo. Esperava que nunca lhe fizessem mal, mas depois da chamada do Rodney, no estava muito segura, 
e era bastante possvel que esse tipo acabasse com sua boa sorte. 
    Est sendo ridcula. S porque o homem ponha os cabelos de ponta no significa que seja perigoso. 
    A expresso do rosto do Julin era dura e muito sria.
    - Acredito que deveria te buscar uma nova profisso.
    - Talvez -lhe disse evasivamente. No tinha nenhuma inteno de deixar seu trabalho-. A ver, onde vamos primeiro?
    Ele se encolheu de ombros despreocupadamente.
    - D-me exatamente igual.
    - Ento, vamos ao Aqurio. Pelo menos h ar condicionado -e agarrando-o do brao, cruzou o estacionamento e se encaminhou pelo Moonwalk para o lugar.
    Julin permaneceu em silncio enquanto ela comprava entradas e o guiava para o interior. No disse nada at que estiveram passeando pelos tneis subacuticos, 
que lhes permitiam observar as distintas espcies marinhas em seu hbitat natural.
    -  incrvel -balbuciou quando uma enorme raia passou sobre suas cabeas. Tinha uma expresso infantil, e a luz que faiscava em seus olhos a encheu de calidez. 
    Sbitamente, soou sua busca. Soltou uma maldio e olhou o nmero. Uma chamada do despacho um sbado? 
    Que estranho.
    Tirou o mvel da bolsa e chamou.
    - Ol, Grace! -disse-lhe Beth, logo que desprendeu-. Escuta, estou em minha consulta. Ontem  noite entrou algum ao despacho. 
    - No!, quem faria algo assim?
    Grace captou o olhar curioso nos olhos do Julin. Ofereceu-lhe um sorriso inseguro, e seguiu escutando ao Beth Livingston, a psiquiatra que compartilhava a consulta 
com o Luanne e com ela.
    - Nem idia. H uma equipe da polcia procurando rastros e tudo est passado os laos. Por isso vi, no se levaram nada importante. Tinha um pouco de valor em 
sua consulta?
    - S o ordenador.
    - Est ainda ali. Algo mais? Dinheiro, qualquer outra coisa?
    - No, nunca deixo objetos de valor a.
    - Espera, o oficial quer falar contigo.
    Grace esperou at escutar uma voz masculina.
    - Doutora Alexander?
    - Sim, sou eu.
    - Sou o oficial Allred. Parece que se levaram seu organizador Rodolex e uns quantos arquivos. Sabe de algum que pudesse estar interessado neles?
    - Pois no. Necessita que v para l?
    - No, no. Estamos procurando rastros, mas se lhe ocorre algo, por favor, nos chame -e aconteceu o telefone ao Beth.
    - Quer que v? -perguntou-lhe.
    - No. No h nada que possa fazer. Em realidade,  bastante aborrecido.
    - Vale, me avise  busca se necessitar algo.
    - Farei-o.
    Grace pendurou o telefone e o devolveu  bolsa.
    - passou algo? -perguntou Julin.
    - Algum entrou ontem  noite em meu escritrio.
    Ele franziu o cenho.
    - Para que?
    - Nem idia -a pausa do Grace fez que o cenho do Julin se intensificasse, enquanto ela pensava nos possveis motivos-. No posso imaginar para que ia querer 
algum meu Rodolex. Desde que me comprei o Palm Pilot, nem sequer o usei.  muito estranho.
    - Temos que ir?
    Ela agitou a cabea.
    - No faz falta.
    Julin deixou que Grace o guiasse ao redor dos diferentes aqurios, enquanto lhe lia as estranhas inscries que explicavam detalhes sobre as distintas espcies 
e seus hbitats.
    Pelos deuses!, como gostava de escutar o som de sua voz ao ler. Havia algo muito relaxante na voz do Grace. Passou-lhe um brao pelos ombros enquanto passeavam. 
Lhe rodeou a cintura e enganchou um dedo em uma das trabillas do cinturo.
    O gesto conseguiu debilit-lo. deu-se conta de que passava as horas desejando sentir o roce de seu corpo. E a sensao seria muito mais prazenteira se ambos 
estivessem nus nesse mesmo momento.
    Quando lhe sorriu, o corao lhe acelerou descontroladamente. O que tinha esta mulher que despertava algo nele que jamais havia sentido?
    Mas no fundo sabia. Era a primeira mulher que o via. No a sua aparncia fsica, nem a suas proezas de guerreiro. Ela via sua alma.
    Jamais tinha pensado que podia existir uma pessoa assim.
    Grace o tratava como a um amigo. E seu interesse em ajud-lo era genuno. Ou ao menos, isso parecia.
     parte de seu trabalho.
    Ou era de verdade?
    Podia uma mulher to maravilhosa e compassiva como ela preocupar-se realmente por um tipo como ele?
    Grace se deteve diante de outra inscrio. Julin ficou atrs dela e lhe aconteceu ambos os braos pelos ombros. Lhe acariciou distradamente os antebraos enquanto 
lia.
    Com o corpo em chamas pelo desejo que despertava nele, inclinou o queixo at apoi-la sobre sua cabea e escutar desse modo a explicao, enquanto observava 
como nadavam os peixes. O aroma de sua pele invadiu seus sentidos e desejou voltar para sua casa, onde poderia lhe tirar a roupa.
    No era capaz de recordar quando tinha sido a ltima vez que desejou tanto a uma mulher como lhe ocorria com o Grace. De fato, no acreditava possvel que algo 
assim lhe tivesse ocorrido antes. Desejava perder-se em seu interior. Sentir suas unhas lhe arranhando as costas enquanto gritava ao chegar ao clmax. 
    Que as Parcas tivessem piedade dele. Grace lhe tinha metido sob a pele. 
    E estava apavorado. Ela ocupava um lugar em seu corao que acabaria destroando-o se lhe faltava. S ela podia acabar realmente com ele. Faz-lo pedaos. 
    Era quase a una do meio-dia quando saram do Aqurio. Grace se encolheu logo que voltaram para a rua, assaltada pela quebra de onda de calor. Em dias como este, 
perguntava-se como poderia a gente sobreviver antes de que se inventasse o ar condicionado.
    Olhou ao Julin e sorriu. Por fim tinha encontrado a algum a quem perguntar. 
    - me diga uma coisa, o que faziam para sobreviver em dias to calorosos como este?
    Ele arqueou uma sobrancelha com um gesto arrogante.
    - Hoje no faz calor. Se quer saber o que  o calor, tenta atravessar um deserto com todo seu exrcito, levando a armadura e com apenas o meio odre de gua para 
te manter. 
    Ela fez um gesto compassivo.
    - Abrasador, suponho.
    Ele no respondeu.
    Grace jogou uma olhada  praa, lotada de gente.
    - Quer que vamos ver a Selena e demos uma volta pela praa? Deve estar em sua banca. na sbado est acostumada ser um de seus melhores dias. 
    - Vamos.
    Agarrados pela mo, baixaram a rua at chegar ao Jackson Square. Como era de esperar, Selena estava em seu puestecillo com um cliente. Grace comeou a afastar-se 
para no interromper, mas Selena a viu e lhe fez um gesto para que se aproximasse.
    - Oua, Gracie, lembra-te do Ben? Bom, melhor do doutor Lewis, da faculdade.
    Grace duvidou em aproximar-se do reconhecer ao tipo corpulento, entrado j nos quarenta. 
    Que se o recordava? Tinha-lhe posto uma nota muito baixo em sua disciplina, com o qual, baixou-lhe a mdia de todo o curso. Sem mencionar que o homem tinha um 
ego to grande como o territrio da Alaska, e adorava fazer acontecer um mau momento a seus alunos. De fato, ainda recordava a uma pobre garota que ps-se a chorar 
quando ele deu o sdico exame final que tinha preparado. O tio riu, literalmente a gargalhadas, quando viu a reao da garota. 
    - Ol! -saudou, Grace tentando no demonstrar sua antipatia. Supunha que o homem no podia evitar ser detestvel. Como bom licenciado pela universidade do Harvard, 
devia pensar que o mundo girava a seu redor. 
    - Senhorita Alexander -a saudou com o mesmo tom depreciativo to insuportvel que ela recordava  perfeio. 
    - Em realidade deveria me chamar doutora Alexander -o corrigiu, encantada ao ver como abria os olhos pela surpresa. 
    - Desculpe-me -lhe disse com um tom de voz que distava muito de parecer arrependido. 
    - Ben e eu estvamos conversando sobre a Antiga a Grcia -explicou Selena, dedicando um diablico sorriso ao Julin-. Sou da opinio de que Afrodita era filha 
de Urano.
    Ben ps os olhos em branco.
    - No me cansarei de te dizer que, segundo a opinio mais estendida, era filha do Zeus e Dione. Quando vais aceitar o e a te unir a ns?
    Selena o ignorou.
    - me diga, Julin, quem tem razo?
    Ben percorreu ao Julin de cima abaixo com um arrogante olhar. Grace sabia que quo nico via nele era a um homem excepcionalmente arrumado, que parecia tirado 
de um anncio de automveis.
    - Jovem, tem lido voc alguma vez ao Homero?, sabe quem ?
    Grace suprimiu uma gargalhada ante a pergunta. Estava desejando escutar a resposta do Julin.
    Ele riu com vontades.
    - Tenho lido ao Homero em profundidade. As obras que lhe atribuem no so mais que um amlgama de lendas, fundidas com dados reais ao longo dos sculos, e cujos 
verdadeiros orgenes se perderam nas brumas do tempo. Muito ao contrrio que a Teogona do Hesodo, a qual escreveu com a ajuda direta do Clo. 
    O doutor Lewis disse algo em grego clssico.
    -  mais que uma simples opinio, doutor -lhe respondeu Julin em ingls-.  um fato provado. 
    Ben voltou a olh-lo com ateno, mas Grace sabia que ainda no estava muito disposto a acreditar que algum com o aspecto do Julin pudesse lhe dar uma lio 
em seu prprio campo. 
    - E voc como sabe?
    Julin lhe respondeu em grego.
    Pela primeira vez desde que conhecia aquele homem, fazia j mais de uma dcada, Grace lhe viu totalmente surpreso. 
    - meu deus! -ofegou-. Fala grega como se fosse sua lngua materna. 
    Julin olhou ao Grace com um sorriso sincero; estava-se divertindo.
    - J lhe disse isso -lhe disse Selena-. Conhece os deuses gregos melhor que qualquer outra pessoa. 
    O doutor Lewis viu ento o anel do Julin.
    -  isso o que acredito que ? -inquiriu-. Um anel de general?
    Julin assentiu.
    - Sim.
    - Importa-lhe se lhe jogo uma olhada? 
    Julin o tirou e o ofereceu. O doutor Lewis conteve o flego.
    - Macedonio? Acredito que do sculo II AC.
    - Exato.
    -  uma reproduo incrvel -comentou Ben, enquanto o devolvia.
    Julin o ps de novo.
    - No  uma reproduo.
    - No pode ser! -ofegou Ben, incrdulo-. No pode ser original,  excessivamente antigo. 
    - Tinha-o um colecionador privado -apontou Selena. Ben no deixava de olh-la para, ao momento, voltar a centrar sua ateno no Julin. 
    - Como o conseguiu? -perguntou-lhe.
    Julin demorou para responder enquanto recordava o dia em que o deram. Kyrian da Tracia e ele tinham sido ascendidos de uma vez, depois de salvar, virtualmente 
os dois sozinhos, a cidade do Tempolis das garras dos romanos. 
    Tinha sido uma batalha larga, sangrenta e brutal. Seu exrcito se dispersou, deixando-os solos ao Kyrian e a ele para defender a cidade. Julin tinha esperado 
que Kyrian o abandonasse tambm, mas o idiota lhe tinha sorrido, sustentando uma espada em cada mo, e lhe havia dito: " um formoso dia para morrer. O que te parece 
se matarmos uns quantos bastardos romanos antes de pagar ao Caronte?"
    Kyrian da Tracia, um luntico total e absoluto, sempre tinha tido mais guelra que crebro. 
    Quando tudo teve acabado, beberam at acabar debaixo das mesas. E  manh seguinte, despertaram com a notcia da ascenso.
    Pelos deuses! De todas as pessoas que tinha conhecido na Macednia, Kyrian era a quem mais sentia falta de. Era o nico que sempre lhe guardou as costas e o 
defendeu. 
    - Foi um presente -respondeu Julin ao Ben.
    Ele jogou uma olhada  mo do Julin, com os olhos carregados de cobia. 
    - Consideraria voc a possibilidade de vend-lo? Eu estaria a disposto a pagar o que pedisse.
    - Nunca -respondeu Julin, recordando as feridas que tinha recebido durante a batalha do Tempolis-. No sabe pelo que aconteceu consegui-lo. 
    Ben meneou a cabea.
    - Oxal algum me fizesse alguma vez um presente como esse. Tem a mais ligeira idia do que lhe dariam por ele?
    - A ltima vez que o comprovei, ofereceram-me meu peso em ouro.
    Ben soltou uma gargalhada e deu uma palmada sobre a mesa da Selena.
    - Muito bom. Esse era o preo para liberar um general capturado, verdade?
    - Para aqueles covardes que no eram capazes de morrer lutando, sim.
    Os olhos do Ben mostraram um novo respeito ao observar ao Julin.
    - Sabe a quem pertenceu?
    Selena respondeu.
    - Ao Julin da Macednia. ouviste falar dele em alguma ocasio, Ben?
    Ele ficou com a boca aberta e os olhos como pratos.
    - Est falando a srio?  que no sabe quem foi? 
    Selena ps uma expresso estranha. Assumindo que no sabia, Ben continuou falando.
    - Tesio disse dele que ia ser o novo Alejandro Magno. Julin era filho do Diocles da Esparta, tambm conhecido como Diocles o Aougueiro. Esse homem faria que 
o Marqus do Sade parecesse Ronald McDonald. Segundo os rumores, Julin nasceu de uma relao entre a Afrodita e o general, depois de que Diocles salvasse um dos 
templos da deusa de ser profanado. A opinio mais estendida hoje em dia  que sua me foi uma das sacerdotisas do templo.
    - De verdade? -perguntou Grace.
    Julin ps os olhos em branco.
    - A ningum interessa quem pde ser o tal Julin. Esse tipo morreu faz sculos.
    Ben o ignorou e seguiu alardeando de seus conhecimentos.
    - Os romanos o conheciam como Augusto Julho Punitor... -olhou ao Grace e acrescentou para que ela o entendesse: - Julin, o Executor. Ele e Kyrian da Tracia 
deixaram um rastro sangrento ao longo de todo o Mediterrneo, durante a quarta guerra salada de frutas contra Roma. Julin desprezava aos romanos, e jurou que veria 
a cidade arrasada sob seu exrcito. Ele e Kyrian estiveram a ponto de conseguir que Roma se ajoelhasse ante eles. 
    A mandbula do Julin se relaxou um pouco.
    - Sabe o que ocorreu ao Kyrian da Tracia?
    Ben deixou escapar um assobio.
    - No teve um final agradvel. Foi capturado; os romanos o crucificaram no ano 47 a.C.
    Julin retrocedeu ao escut-lo. Com um olhar afligido e brincando com o anel, disse:
    - Esse homem era, sem dvida, um dos melhores guerreiros que jamais existiram. Amava a luta como nenhum outro que tenha conhecido -moveu a cabea-. Recordo que 
uma vez Kyrian conduziu seu carro at atravessar uma barreira de escudos, rompendo os pescoos dos soldados romanos e permitindo que seus homens os derrotassem com 
to somente um punhado de baixas -franziu o cenho-. No posso acreditar que o capturassem.
    Ben encolheu os ombros com um gesto indiferente.
    - Bom, uma vez desaparecido Julin, Kyrian era o nico geral macedonio digno de dirigir um exrcito; por isso os romanos foram atrs dele com tudo o que tinham.
    - O que aconteceu ao Julin? -perguntou Grace, intrigada pelo que os historiadores opinavam do tema.
    Julin a olhou furioso.
    - Ningum sabe -lhe respondeu Ben-.  um dos grandes mistrios do mundo antigo. Aqui temos a um general ao que ningum pode derrotar no campo de batalha e, de 
repente puf! Desaparece sem deixar rastro -tamborilou com um dedo sobre a mesa da Selena-. A ltima vez que lhe viu foi na batalha da Conjara. Em um brilhante movimento 
ttico, enganou ao Livio, que perdeu seu, at ento, inexpugnvel posio. Foi uma das maiores derrota na histria do Imprio Romano.
    - E a quem lhe importa? -queixou-se Julin.
    Ben ignorou a interrupo.
    - Depois da batalha, supe-se que Julin mandou dizer ao Escipin o Jovem que lhe perseguiria, em vingana pela derrota que acabava de lhe infligir ao exrcito 
macedonio. Aterrorizado, Escipin abandonou sua carreira militar na Macednia e partiu como voluntrio  Pennsula Ibrica, para seguir lutando ali -o professor 
agitou a cabea-. Mas antes de que Julin pudesse levar a cabo a ameaa, desvaneceu-se. Encontraram a toda sua famlia assassinada em seu prprio lar. E a  onde 
a coisa fica interessante -olhou ento a Selena. Os escritos macedonios que chegaram at nossos dias, afirmam que Livio o feriu de morte durante a batalha, e que 
em metade de uma incrvel dor, retornou cavalgando para casa para assassinar a sua famlia e evitar, deste modo, que seu inimigo tomasse como escravos. Os textos 
romanos asseguram que Escipin enviou a vrios de seus soldados, que atacaram ao Julin em metade da noite. Supostamente, mataram-no junto ao resto de sua famlia, 
esquartejaram-no e ocultaram os pedaos de seu corpo.
    Julin soprou ante a idia.
    - Escipin era um covarde e um fanfarro. Jamais se teria atrevido a atacarm...
    - Bom! -exclamou Grace, interrompendo ao Julin antes de que se delatasse-. Faz um tempo esplndido, verdade?
    - Escipin no era nenhum covarde -lhe respondeu Ben-. Ningum pode discutir seus xitos na Pennsula Ibrica.
    Grace viu como o dio se refletia nos olhos do Julin.
    Mas Ben no pareceu not-lo. 
    - Jovem, o valor desse anel que leva  incalculvel. eu adoraria saber como pode conseguir-se algo assim. E a esse respeito, mataria por saber o que ocorreu 
a seu dono original. 
    Grace olhou incmoda a Selena.
    Julin fez uma careta sarcstica ao Ben.
    - Julin da Macednia desatou a ira dos deuses e foi castigado por sua arrogncia.
    - Suponho que essa poderia ser outra explicao -nesse momento, soou o alarme de seu relgio-. Joder! Tenho que recolher a minha esposa.
    ficou em p e ofereceu a mo ao Julin.
    - No nos apresentaram adequadamente. Sou Ben Lewis.
    - Julin -lhe respondeu, aceitando a saudao.
    O doutor Lewis riu. At que se deu conta que Julin no brincava.
    - Srio?
    - Puseram-me o nome de seu geral macedonio, poderia-se dizer. 
    - Seu pai deve ter sido como o meu. Dois amantes de todo o grego.
    - Em realidade, em meu caso sua lealdade ia para a Esparta.
    Ben riu com mais ganha. Jogou um olhar rpido a Selena.
    - por que no o traz para a prxima reunio do Scrates? eu adoraria que os meninos o conhecessem. No  muito freqente encontrar a algum que conhece a histria 
grega to profundamente como eu. 
    Dito isto, voltou a dirigir-se ao Julin.
    - foi um prazer. Vemo-nos! -disse a Selena.
    - Bom -comeou a dizer Selena uma vez que Ben teve desaparecido entre a multido-, meu amigo, obtiveste o impossvel. Acaba de deixar impressionado a um dos 
investigadores da Antiga a Grcia mais importantes deste pas.
    Julin no pareceu impressionar-se muito, mas Grace sim o fez.
    - Lanie, crie que  possvel que Julin possa trabalhar como professor na faculdade uma vez acabemos com a maldio? Estava pensando que pod...
    - No, Grace -a interrompeu ele.
    - Que no o que? vais necessitar...
    - No vou ficar me aqui.
    O olhar frio e vazio que tinha naquele momento era a mesma com a que a tinha cuidadoso a noite em que o convocaram. E ao Grace a partiu em dois. 
    - O que quer dizer? -inquiriu ela.
    O desviou o olhar. 
    - Ateneu me tem feito uma oferta para me devolver a casa. Uma vez rompamos a maldio, enviar-me de novo a Macednia.
    Grace se esforou por seguir respirando.
    - Entendo -disse, embora se estava morrendo por dentro-. Usar meu corpo e depois ir. -E seguiu com um n na garganta: - Ao menos no terei que pedir a Selena 
que me leve a casa depois.
    Julin retrocedeu como se o tivesse esbofeteado.
    - O que quer de mim, Grace? por que foste querer que ficasse aqui?
    Ela no conhecia a resposta. Quo nico sabia era que no queria que partisse. Queria que ficasse.
    Mas no contra sua vontade.
    -Te vou dizer algo -lhe disse. Comeava a zangar-se ante a idia de que ele desaparecesse-; no quero que fique. De fato, me est ocorrendo uma coisa, que tal 
se vai a casa da Selena por uns dias? -e ento olhou a seu amiga-, importaria-te?
    Selena abria e fechava a boca como um peixe lutando por respirar. Julin alargou um brao para o Grace.
    - Grace...
    - No me toque -lhe advertiu apartando seu prprio brao-. Me d asco. 
    - Grace! -exclamou Selena-. No posso acreditar que voc...
    - No importa -disse Julin com voz fria e carente de emoo-. Ao menos no me cuspiu  cara com seu ltimo flego. 
    Tinha-o ferido. Grace podia v-lo em seus olhos; mas ela tambm se sentia muito ferida. Terrivelmente ferida.
    - At mais tarde -disse a Selena e partiu, deixando ali ao Julin.
    Selena deixou escapar o ar lentamente enquanto observava ao Julin, que contemplava como Grace se afastava deles. Seu corpo estava totalmente rgido e tinha 
um tic na mandbula.
    - Onde pe o olho, pe a bala. Um golpe direto ao corao. Uma ferida em carne viva. 
    Julin a deixou cravada com um olhar francamente hostil.
    - me diga, Orculo. Quais deveriam ter sido minhas palavras?
    Selena baralhou suas cartas. 
    - No sei -lhe respondeu melancolicamente-. Imagino que no te teria ido to mal se tivesse sido honesto.
    Julin se esfregou os olhos e se sentou na cadeira, frente a Selena. No tinha tido inteno de ferir o Grace.
    E jamais poderia esquecer esse olhar, enquanto lhe cuspia as horrveis palavras: "No me toque. D-me asco."
    esforou-se por seguir respirando, agentando a agonia. As Parcas seguiam burlando-se dele.
    Deviam ter um dia aborrecido no Olimpo.
    - Quer que te leia as cartas? -perguntou-lhe Selena, devolvendo-o  presente.
    - Claro, por que no? -respondeu. No ia dizer lhe nada que no soubesse j.
    - O que quer saber?
    - Alguma vez...? -se deteve antes de formular a mesma pergunta que fizesse, sculos atrs, ao Orculo do Delfos- ...conseguirei romper a maldio? -perguntou 
em voz baixa.
    Selena baralhou as cartas, e tirou trs dela. Abriu uns olhos como pratos. 
    Julin no necessitava que as interpretasse. J o via por si mesmo: uma torre destroada por um raio, um corao atravessado por trs espadas, e duas pessoas 
encadeadas e arrastadas por um demnio.
    - No passa nada -disse a Selena-. Jamais pensei que pudesse sair bem.
    - Isso no  o que nos dizem as cartas -sussurrou-. Mas tem toda uma batalha por diante. 
    Julin soltou uma amarga gargalhada.
    - Manejo bem as batalhas -era a dor que sentia no corao o que ia acabar com ele.
    
    Grace se limpou as lgrimas da cara enquanto entrava no caminho de acesso ao jardim. Apertou os dentes ao baixar do carro, e fechou a porta com um forte golpe.
    Ao inferno com o Julin. Podia ficar apanhado no livro para toda a eternidade. Ela no era uma parte de carne a sua inteira disposio. 
    Como pod...?
    Procurou no bolso as chaves da entrada.
    - E como no ia fazer o? -murmurou. Tirou a chave e abriu a porta.
    A ira a consumia. Estava sendo irrazonable, e sabia. Julin no tinha a culpa de que Paul tivesse sido um porco egosta. Como tampouco era culpado de que ela 
temesse ser utilizada. 
    Estava culpando ao Julin por algo no que no tinha participado, mas ainda assim...
    S queria a algum que a amasse. Que algum queria ficar a seu lado.
    E tinha esperado que ao ajudar ao Julin ficasse perto e...
    Fechou a porta e meneou a cabea. Por muito que desejasse que as coisas fossem distintas, nada ia trocar, posto que no estava escrito que fossem de outro modo. 
Tinha escutado o que Ben contou a respeito da vida do Julin. A histria que o mesmo Julin contou aos meninos sobre a batalha.
    Recordava o modo em que tinha cruzado a rua como uma exalao para salvar ao menino.
    Ele tinha nascido para liderar um exrcito. No pertencia a esta poca. Pertencia a seu mundo antigo.
    Era muito egosta por sua parte tentar mant-lo a seu lado, como se fosse um mascote que acabasse de resgatar.
    Subiu as escadas penosamente, com o corao destroado. Teria que afastar-se dele. Era tudo o que podia fazer. Porque, no fundo, sabia que quanto mais soubesse 
a respeito do Julin, mais carinho lhe agarraria. E se ele no tinha inteno de ficar, acabaria muito ferida.
    Tinha subido a metade da escada, quando algum bateu na porta principal. Por um instante, lhe levantou o nimo ao pensar que podia ser Julin; at que chegou 
 porta e viu a silhueta de um homem baixinho esperando no alpendre.
    Entreabriu a porta e emitiu um ofego.
    Era Rodney Carmichael.
    Levava um traje marrom escuro, com uma camisa amarela e gravata vermelha. penteou-se para trs o cabelo curto e negro, e lhe dedicava um radiante sorriso.
    - Ol Grace!
    - Senhor Carmichael -o saudou glacialmente, embora o corao lhe pulsava a toda pressa. Havia algo definitivamente horripilante neste tipejo magro-. O que est 
fazendo aqui?
    - Passava por aqui e me detive para saudar. Me ocorreu que pod...
    - Tem que partir.
    Ele franziu o cenho.
    - por que? S quero falar contigo. 
    - Porque no atendo a meus pacientes em casa.
    - Vale, mas eu no sou...
    - Senhor Carmichael -lhe disse com brutalidade-. Tem que partir. Se no o fizer, chamarei  polcia.
    Sem fazer muito caso  ira do Grace, assentiu com a cabea, demonstrando ter a pacincia de um santo.
    - V! Ento deve estar ocupada. Posso passar por aqui mais tarde. Eu tambm tenho muito que fazer. Venho logo ento? Podemos jantar juntos.
    Totalmente muda de assombro, Grace o olhou fixamente aos olhos.
    - No.
    Ele sorriu ante a negativa.
    - Vamos, Grace. No seja assim. Sabe que parecemos o um para o outro. Se me deixar...
    - Parta!
    - Muito bem; mas voltarei. Temos muito do que falar -se deu a volta e baixou a escadas do alpendre.
    Com o corao martilleando no peito, ela fechou a porta e jogou o seguro.
    - vou matar te, Luanne -disse enquanto se dirigia  cozinha. Ao passar pela salita de estar, uma sombra na janela chamou sua ateno. 
    Era Rodney.
    Aterrada, agarrou o telefone e chamou  polcia.
    Demoraram quase uma hora em chegar. Rodney permaneceu no jardim todo o tempo, de janela em janela, observando-a atravs das frestas das persianas. At que no 
viu que o carro de polcia subia pelo caminho de entrada no desapareceu pelo ptio traseiro. 
    Grace tomou uma profunda baforada de ar para acalmar seus nervos e abriu a porta para que passassem os agentes.
    ficaram o tempo suficiente para lhe informar de que no podiam fazer nada para manter ao Rodney afastado dela. o melhor que podia fazer era conseguir uma ordem 
de afastamento, mas posto que era ela a que devia encarregar do tratamento do Rodney at que Luanne retornasse, era algo totalmente intil. 
    - Sinto-o -se desculpou o policial na porta, enquanto os acompanhava-, mas no h incumplido nenhuma lei que nos permita lhe ajudar a livrar-se dele. Poderia 
solicitar uma ordem de deteno por aplainamento, mas a menos que tenha antecedentes no servir de nada. 
    O agente, um homem jovem, olhou-a compassivo.
    - Sei que no lhe vai servir de muito consolo, mas podemos tentar patrulhar a zona com mais freqncia. Embora o vero  uma poca especialmente ocupada para 
ns. A modo pessoal, aconselho-lhe que parta a casa de um amigo durante um tempo.
    - De acordo, muito obrigado -logo que partiram, correu por toda a casa, assegurando portas e janelas com os ferrolhos e fechos. 
    Intranqila, lanava olhadas em torno de seu prprio lar, esperando ver o Rodney entrar atravs de um buraco na parede, como se se tratasse de uma barata. 
    Se to somente soubesse realmente se o tipo era ou no perigoso... Seu relatrio do hospital psiquitrico mencionava um comportamento desviado e persecutorio 
para mulheres, s que acossava mas jamais feria fisicamente. limitava-se a aterrorizar a suas vtimas lhes impondo sua presena continuamente, pelo qual tinha sido 
enviado ao hospital para comear a trat-lo. 
    Como psicloga, Grace sabia que no havia nada especialmente perigoso no Rodney, mas como mulher estava assustada.
    Quo ltimo queria era acabar como uma estatstica mais.
    No, no podia ficar ali esperando que o tipo retornasse e a encontrasse sozinha.
    apressou-se a subir as escadas para fazer a bagagem.
    
    
    Captulo 11
    
    Selena observava como Julin se passeava nervoso, por diante de seu posto, enquanto fazia uma tiragem para um turista. Deus santo!, poderia passar-se todo o 
dia observando-o caminhar. Esse modo de andar fazia saltar os olhos das rbitas, e lhe entravam uns desejos terrveis de sair correndo a casa, agarrar ao Bill e 
lhe fazer umas quantas coisas pecaminosas. 
    Uma e outra vez, as mulheres se aproximavam dele, mas Julin no demorava para tirar-se as de no meio. Era certamente divertido ver todas essas garotas pavoneando-se 
a seu redor enquanto ele permanecia alheio a seus estratagemas. Nunca lhe tinha parecido possvel que um homem atuasse assim.
    Mas claro, at ela podia chegar a aborrecer o chocolate se se dava um atracn.
    E pelo modo em que as mulheres respondiam  presena do Julin, deduziu que ele j tinha sofrido mais de uma dor de tripa causado por uma indigesto. A verdade 
 que parecia muito preocupado.
    E Selena se sentia fatal pelo que lhes tinha feito a ambos, a ele e ao Grace. Sua idia parecia bastante singela em um princpio. Se tivesse refletido um pouco 
mais...
    Mas como ia ou seja quem era Julin? Claro, que seu nome podia ter feito sonar algum timbre em sua mente; de todos os modos, sua especialidade era a Idade de 
Bronze grega que, at para a poca do Julin, era a Pr-histria. 
    E tampouco tinha acreditado que o tipo do livro fosse realmente humano. Pensava que era alguma classe de gnio ou criatura mgica, sem passado nem sentimentos.
    Senhor!, quando colocava a pata o fazia at o fundo.
    Meneando a cabea, observou como Julin rechaava outra oferta, esta vez procedente de uma atrativa ruiva. O homem era um verdadeiro m de estrognios.
    Acabou a leitura.
    Julin esperou uns minutos e se aproximou da mesa.
    - me leve com o Grace.
    No era uma petio, no. Estava segura de que era o mesmo tom de voz que empregava para dirigir a seu exrcito em metade de uma batalha.
    - Disse que...
    - No me importa o que dissesse. Preciso v-la.
    Selena envolveu o baralho no leno negro de seda. Que demnios? Tampouco  que necessitasse que seu melhor amiga voltasse a lhe falar. 
    - Vai direto a seu funeral.
    - Oxal -disse em voz to baixa que ela no pde estar segura de ter escutado corretamente.
    Ajudou-a a recolher seus trastes para coloc-los no carrinho, e lev-lo tudo at o pequeno barraco que tinha alugada para guard-lo. 
    Sem perda de tempo, chegaram a casa do Grace.
    Estacionaram no caminho do jardim justo quando Grace estava guardando suas malas.
    - Ol, Gracie! -saudou Selena-. Onde vai?
    Ela olhou furiosa ao Julin.
    - Parto-me por uns dias.
    - Onde? -perguntou-lhe seu amiga.
    Grace no respondeu.
    Julin saiu do carro e se aproximou dela. ia arrumar as coisas, custasse o que custasse.
    Grace arrojou uma bolsa ao porta-malas e se afastou do Julin.
    Ele a agarrou por um brao.
    - No respondeste  pergunta.
    Ela escapou de sua mo.
    - E o que vais fazer, me pegar se no o fizer? -disse-lhe, olhando-o com os olhos entrecerrados.
    Julin se encolheu ante o evidente rancor.
    - E sente saudades de que queira partir ? -Ento se deu conta. Ao Grace estava custando horrores conter as lgrimas. Tinha os olhos midos e brilhantes. A culpa 
o assaltou-. O sinto, Grace -murmurou enquanto cobria sua bochecha com a mo-. No pretendia te fazer danifico.
    Grace observou a batalha que mantinham o arrependimento e o desejo no rosto do Julin. Sua carcia era to tenra e to suave... Por um instante, esteve a ponto 
de acreditar que, em realidade, ele se preocupava com ela.
    - Eu tambm o sinto -sussurrou-. J sei que no tem a culpa.
    Ele soltou uma brusca e amarga gargalhada.
    - Em realidade, tudo o que acontece  minha culpa. 
    - N! Posso-me confiar em vs? -perguntou Selena. 
    Julin olhou ao Grace com ardente intensidade, apanhando seu olhar e fazendo-a tremer.
    - Quer que v? -perguntou-lhe.
    No, no queria. Essa era a base de todo o problema. Que no queria que voltasse a abandon-la. Jamais.
    Grace agarrou as mos do Julin entre as suas e as separou de seu rosto.
    - Tudo est solucionado, Selena.
    - Nesse caso, vou a casa. Vemo-nos. 
    Grace apenas se foi consciente de que seu amiga punha em marcha o carro e se afastava. Toda sua ateno estava posta no Julin.
    - Agora me vais dizer onde vai? -perguntou-lhe. 
    Pela primeira vez, desde que a polcia partiu, Grace sentiu que podia respirar. Com a presena do Julin, o medo se desvaneceu como a nvoa sob o sol.
    sentia-se segura.
    - Recorda o que te contei sobre o Rodney Carmichael? 
    Ele assentiu.
    - Esteve aqui faz um momento. Ele... ele me inquieta.
    A expresso glida e severo que adotou o rosto do Julin a deixou atnita. 
    - Onde est agora?
    - No sei. esfumou-se ao chegar a polcia. Por isso me partia. ia ficar me em um hotel.
    - Ainda quer partir ?
    Grace negou com a cabea. Com ele ali, sentia-se completamente a salvo.
    - Agarrarei sua bolsa -lhe disse. Tirou-a e fechou o porta-malas.
    Grace se encaminhou para a casa.
    Passaram o resto do dia em uma aprazvel solido. Ao chegar a noite, tombaram-se diante do sof, reclinados sobre as almofadas.
    Grace apoiou a cabea no duro ventre do Julin enquanto acaba de lhe ler Peter Po e fazia todo o possvel para no distrair-se com o maravilhoso aroma que desprendia 
seu corpo. E com o maravilhosamente bem que estava, apoiada sobre seus abdominais. 
    Tinha que jogar mo de toda sua fora de vontade para no d-la volta e explorar os firmes msculos de seu torso com a boca. 
    Julin lhe acariciava lentamente o cabelo enquanto a observava. Senhor, suas mos faziam que lhe ardesse a pele. Faziam-lhe desejar lhe arrancar a roupa e saborear 
cada centmetro de seu corpo. 
    - Fim -disse ela, fechando o livro. 
    O abrasador olhar do Julin lhe tirou o flego.
    estirou-se e arqueou levemente as costas, apoiando-se com mais fora sobre ele.
    - Quer que te leia algo mais?
    - Sim, por favor. Sua voz me relaxa.
    Ela o olhou fixamente por um instante e, depois, sorriu. No recordava que nenhum outro completo tivesse significado tanto para ela como aquele.
    - Tenho a maioria dos livros em minha habitao -lhe disse enquanto ficava em p-. Vamos, ensinarei-te meu tesouro escondido e encontraremos algo que ns gostemos. 
    Seguiu-a escada acima. 
    Grace notou que Julin observava a cama com desejo e depois a olhava a ela. 
    Fingiu no dar-se conta e abriu a porta do enorme vestidor. Acendeu a luz e passou uma mo com carinho pelas estanteras que seu pai tinha colocado tantos anos 
atrs.
    Seu pai e seu melhor amigo o tinham passado em grande enquanto colocavam as estanteras. Os dois eram professores, e tinham a habitao feita um desastre. Seu 
pai acabou com duas unhas negras antes de que tudo estivesse terminado. Sua me no tinha deixado de rir e de chamar a seu marido "carpinteiro profissional", mas 
a ele no parecia lhe importar. A expresso de orgulho em seu rosto quando tudo esteve terminado, e os livros do Grace colocados nas estanteras, ficou impressa 
para sempre no corao de sua filha.
    Como adorava essa estadia. Aqui era onde realmente sentia o amor de seus pais. Aqui se refugiava e fugia dos problemas e sofrimentos que a perseguiam.
    Cada livro guardado ali era uma lembrana especial, e todos eles formavam parte de seu mundo. Olhou a sua esquerda e viu Shanna, com a que tinha comeado sua 
afeio  novela romntica. The Wolfling, tinha-a introduzido na fico cientfica. E seu adorado Bimbos do Sol Morto, sua primeira novela de mistrio.
    Tambm estavam ali as velhas novelas de seus pais, e as trs cpias dos livros de texto que seu pai tinha escrito antes de que ela nascesse.
    Este era seu santurio e Julin era, sem contar a seus pais, a primeira pessoa que punha um p nele.
    - Leva tempo colecionando livros -comentou ele enquanto jogava uma olhada s estanteras.
    Ela assentiu.
    - Foram meus melhores amigos enquanto crescia. Acredito que o amor pela leitura  o melhor presente que meus pais me deram -elevou o livro do Peter Po-. Este 
era de meu pai, de quando era menino.  minha posse mais apreciada.
    Devolveu-o a uma das estanteras e agarrou um exemplar de Beleza Negra. 
    - Minha me me lia este uma e outra vez.
    Fez um pequeno percurso, lhe mostrando seus livros.
    - Rebeldes -sussurrou com adorao-. Era meu livro favorito no instituto. Ah!, junto com este, Pode demandar a seus pais por abuso de autoridade?
    Julin riu.
    - J vejo que significam muito para ti. Te ilumina o rosto quando falas deles. 
    Algo em seu olhar disse ao Grace que ele estava pensando em outro modo de fazer que se iluminasse...
    Tragando saliva ante a idia, deu-se a volta e rebuscou na estantera da direita, onde guardava os clssicos, enquanto Julin seguia olhando os da esquerda.
    - O que te parece este? -perguntou-lhe ele, com uma de suas novelas romnticas na mo. 
    Grace soltou uma risita nervosa ao ver o casal que se abraava mdio nua na capa.
    - Senhor!, parece-me que no.
    Ele olhou a capa e elevou uma sobrancelha.
    - Vale -disse Grace lhe tirando o livro da mo-. Tem descoberto meu mais profundo secreto. Sou uma viciada nas novelas romnticas, mas o ltimo que precisa  
que te leia uma apaixonada cena de amor em voz alta. Muitssimas obrigado, mas no. 
    Julin lhe olhou fixamente os lbios.
    - Preferiria recrear uma apaixonada cena de amor contigo -disse em voz baixa, aproximando-se dela. 
    Grace comeou a tremer. Tinha as costas pega a estantera e no podia retroceder mais. Julin colocou um brao sobre sua cabea e aproximou seu corpo ao dele, 
at deix-los unidos. Ento, baixou a cabea e se aproximou de sua boca.
    Grace fechou os olhos. A presena do Julin alagava todos seus sentidos. Rodeava-a de uma forma extremamente perturbadora.
    Por uma vez, ele manteve as mos quietas e se limitou a toc-la to somente com os lbios. Dava igual. A cabea do Grace comeou a girar de todos os modos.
    Como tinha podido sua esposa escolher a outro homem tendo-o a ele? Como podia recha-lo uma mulher em seu so julgamento? Este homem era o paraso.
    Julin aprofundou o beijo, explorando sua boca com a lngua. Grace sentia os batimentos do corao de seu corao enquanto ele se aproximava ainda mais e seus 
msculos a envolviam.
    Jamais tinha sido to consciente da presena de outro ser humano. Ele a punha ao limite, o fazia experimentar sensaes que no sabia que pudessem existir.
    Julin se retirou um pouco e apoiou a bochecha sobre a do Grace. Seu flego caa sobre seu cabelo e lhe arrepiava a pele. 
    - Tenho uns desejos horrveis de estar dentro de ti, Grace -murmurou-. Quero sentir suas pernas ao redor de meu corpo, sentir seus peitos debaixo de mim, te 
escutar gemer enquanto te fao o amor lentamente. Quero que seu aroma fique impresso em meu corpo e que seu flego me queime a pele. 
    Todo seu corpo se esticou antes de separar-se dela.
    - Mas j estou acostumado a desejar coisas que no posso ter -sussurrou.
    Lhe tocou o brao. Julin agarrou sua mo, a levou aos lbios e depositou um rastro de pequenos beijos sobre os ndulos.
    O desejo que se refletia em seu arrumado rosto fazia que ao Grace doesse todo o corpo.
    - Busca um livro e me comportarei.
    Tragou saliva enquanto ele se afastava. Ento, fixou-se em seu velho exemplar de La Ilada. Sorriu. Lhe ia encantar, estava segura. 
    Agarrou-o e baixou as escadas.
    Julin estava sentado diante do sof.
    - Adivinha o que encontrei! -exclamou Grace excitada.
    - No tenho a mais remota idia.
    Ela o sustentou em alto e sorriu.
    - A Ilada!
    Julin se animou imediatamente e as covinhas relampejaram em seu rosto.
    - me cante, OH Deusa!
    - Muito bem -respondeu ela, sentando-se a seu lado-. E isto te vai gostar ainda mais:  uma verso bilnge; com o original grego e a traduo inglesa.
    E o deixou para que o visse.
    A expresso do Julin foi quo mesma teria posto se lhe tivessem entregue o tesouro de um rei. Abriu o livro e, imediatamente, seus olhos voaram sobre as pginas 
enquanto passava a mo reverentemente pelas folhas, cobertas com a antiga escritura grega.
    Era incapaz de acreditar que estivesse vendo de novo seu idioma escrito, depois de tanto tempo. Fazia uma eternidade que no o lia em outro lugar que no fosse 
seu brao.
    Sempre lhe tinham encantado A Ilada e A Odissia. De menino, tinha passado horas oculto depois dos barraces, lendo pergaminhos uma e outra vez; ou escabullndose 
para escutar aos bardos na praa da cidade. 
    Entendia muito bem o que sentia Grace por seus livros. Ele tinha sentido o mesmo em sua juventude. A mais mnima oportunidade, escapava a seu mundo de fantasia, 
onde os heris sempre triunfavam, os demnios e vilos eram aniquilados, e os pais e as mes amavam a seus filhos. 
    Nas histrias no havia fome nem dor, a no ser liberdade e esperana. Foi atravs dessas histrias como aprendeu o que eram a compaixo e a ternura. A honra 
e a integridade.
    Grace se ajoelhou junto a ele.
    - Sente falta de seu lar, verdade?
    Julin apartou o olhar. S sentia falta da seus filhos.
    Ao contrrio que ao Kyrian, a luta nunca lhe tinha atrado. O fedor da morte e o sangue, os gemidos dos moribundos. S tinha lutado porque era o que se esperava 
dele. E tinha liderado um exrcito porque, como bem disse Platn, cada ser humano est capacitado por natureza para realizar uma atividade a qual se entrega. Por 
sua natureza, Julin sempre tinha sido um lder e no podia seguir as ordens de ningum.
    No, no o sentia falta de, mas...
    - Foi o nico que conheci.
    Grace lhe roou o ombro, mas foi a preocupao que refletiam seus olhos cinzas o que lhe desarmou.
    - Queria que seu filho fosse um soldado?
    Ele negou com a cabea.
    - Jamais quis que truncassem sua juventude como ocorreu a tantos de meus homens -respondeu com a voz rouca-. Bastante irnico, no  certo? Nem sequer lhe teria
permitido que jogasse com a espada de madeira que Kyrian lhe deu de presente para seu aniversrio; nem lhe tivesse deixado tocar a minha enquanto estivesse em casa.
    Grace enlaou as mos em seu pescoo e atirou dele para aproxim-lo. Suas carcias eram to incrivelmente relaxantes... Faziam que a solido doesse ainda mais. 
    - Como se chamava?
    Julin tragou saliva. No tinha pronunciado os nomes de seus filhos desde dia de sua morte. No se tinha atrevido mas, no obstante, queria compartilh-los com 
o Grace.
    - Atolycus. Minha filha se chamava Calista.
    Grace o olhou com um sorriso triste, como se compartilhasse sua dor pela perda.
    - Tinham uns nomes preciosos.
    - Eram uns meninos preciosos.
    - Se se pareciam em algo a ti, me acredito.
    Isso tinha sido o mais formoso que ningum lhe havia dito jamais.
    Julin lhe aconteceu a mo pelo cabelo, deixando que as mechas se escorressem sobre sua palma. Fechou os olhos e desejou poder ficar assim para sempre.
    O medo a ter que abandon-la-o estava destroando. Nunca lhe tinha gostado da idia de ser engolido por aquele desolado inferno que era o livro; mas agora, ao 
pensar que jamais voltaria a v-la, que jamais voltaria a cheirar o doce aroma de sua pele, que suas mos jamais voltariam a roar o suave rubor de suas bochechas...
    No podia suport-lo. Era muito.
    Pelos deuses!, e tinha acreditado at ento que estava maldito...
    Grace se afastou um pouco, beijou-o brandamente nos lbios e agarrou o livro. 
    Julin tragou. Ela queria resgat-lo e, pela primeira vez durante todos aqueles sculos, queria ser resgatado. 
    tendeu-se no cho para que Grace pudesse apoiar a cabea nele. adorava senti-la assim. Sentir seu cabelo estendendo-se sobre os braos e o torso. 
    Estiveram tendidos no cho at as primeiras horas da madrugada; Julin a escutava enquanto lia a Odissia e narrava as histrias do Aquiles. 
    Observava como o cansao ia fazendo racho nela, mas continuava lendo. Finalmente, fechou os olhos e ficou dormida. 
    Julin sorriu e lhe tirou o livro das mos para deix-lo a um lado. Acariciou-lhe a bochecha com a palma da mo durante um instante.
    No tinha sonho. No queria desperdiar nem um segundo solo do tempo que tinha para estar a seu lado. Queria contempl-la, toc-la. Absorv-la. Porque entesouraria 
essas lembranas durante toda a eternidade. 
    Nunca tinha passado uma noite assim: convexo tranqilamente no cho junto a uma mulher, sem que ela montasse seu corpo e lhe exigisse que a tocasse e a possusse. 
    Em sua poca, os homens e as mulheres no estavam acostumadas acontecer muito tempo juntos. Durante as temporadas que passou em seu lar, Penlope lhe falava 
em estranhas ocasies. De fato, no tinha demonstrado muito interesse nele. 
    Pelas noites, quando a buscava, no o rechaava. Mas, no obstante, no estava ansiosa por suas carcias. Sempre tinha conseguido enrol-la para que seu corpo 
lhe respondesse apaixonadamente, mas no assim seu corao.
    Deslizou as mos pelo cabelo negro do Grace, extasiado pela sensao do ter entre os dedos. Seu olhar se deteve sobre seu anel. Brilhava tenuemente, captando 
a escassa luz da estadia.
    Em sua mente, via-o talher de sangue. Recordava como lhe cravava no dedo enquanto blanda a espada em metade de uma batalha. Esse anel o tinha significado tudo 
para ele, e no lhe tinha resultado fcil consegui-lo. O tinha ganho com o suor de sua frente e com numerosas feridas que sofreu seu corpo. Havia-lhe flanco muito, 
mas tinha merecido a pena. 
    Durante um tempo foi respeitado, embora no o amassem. Em sua vida como mortal, isso tinha sido essencial. 
    Suspirando, jogou a cabea para trs para apoiar-se na almofada do sof que tinha posto sobre o cho e fechou os olhos. 
    Quando por fim se deslizou entre as neblinas do sonho, no foram os rostos do passado os que povoaram sua mente, foi a imagem de uns claros olhos cinzas que 
riam com ele, de uma negra juba que se esparramava por seu peito e de uma voz suave que lia palavras que lhe resultavam familiares embora, de algum modo, estranhas.
    
    Grace se desperez lnguidamente ao despertar. Abriu os olhos e se surpreendeu ao dar-se conta de que tinha a cabea sobre o abdmen do Julin. Ele tinha a mo 
enterrada em seu cabelo e, pela respirao relaxada e profunda, soube que ainda estava dormido.
    Elevou o olhar para seu rosto. Tinha uma expresso tranqila, quase infantil.
    E ento foi consciente de algo: no tinha tido o pesadelo. Tinha dormido toda a noite. 
    Sonriendo, tentou levantar-se muito devagar para no despert-lo.
    No funcionou. logo que levantou a cabea, Julin abriu os olhos e a abrasou com um intenso olhar. 
    - Grace -disse em voz baixa.
    - No queria despertar.
    Ela assinalou as escadas com o polegar. 
    - Ia acima a me dar uma ducha. Deveria fechar a porta?
    Percorreu-a com olhos ardentes.
    - No, acredito que posso me comportar.
    Ela sorriu.
    - Parece-me que j ouvi isso antes.
    Julin no respondeu. 
    Grace subiu e se deu uma ducha rpida.
    Uma vez acabou, foi a sua habitao e se encontrou ao Julin convexo na cama, folheando sua exemplar de La Ilada.
    Olhou-a com expresso absorta ao dar-se conta de s levava posta uma toalha. Um lascivo sorriso fez que suas covinhas aparecessem em todo seu esplendor, e a 
temperatura do corpo do Grace ascendeu vrios graus. 
    - Ponho-me a roupa e...
    - No -lhe disse com tom autoritrio.
    - Que no o que? -perguntou incrdula.
    A expresso do Julin se suavizou.
    - Preferiria que te vestisse aqui. 
    - Julin...
    - Por favor.
    Grace ficou muito nervosa ante a petio. Jamais tinha feito algo assim em sua vida. E se sentia envergonhada.
    - Por favor, por favor... -voltou a lhe rogar com um leve sorriso.
    Que mulher lhe diria que no a uma expresso como essa?
    Olhou-o com receio.
    - No te atreva a rir  -lhe disse enquanto abria vacilante a toalha. 
    Julin olhou seus peitos com olhos famintos. 
    - Pode estar completamente segura de que a risada  o ltimo que me passa pela mente nestes momentos. 
    E ento, levantou-se da cama e se aproximou da cmoda, onde Grace guardava a roupa interior, com os movimentos grcis de um depredador. Um estranho calafrio 
percorreu as costas do Grace enquanto observava como a mo do Julin rebuscava entre seus braguitas at encontrar as de seda negra que Selena lhe tinha agradvel 
de brincadeira.
    Julin as tirou e se ajoelhou no cho diante dela, com toda a inteno de ajud-la a ficar as Sem flego e totalmente entregue  seduo, Grace olhou seus cachos 
loiros enquanto elevava uma perna para deixar que lhe acontecesse as braguitas pelo p. 
    Depois de suas mos, que deslizavam a seda subindo por sua perna, seus lbios deixavam um reguero de beijos que a fizeram estremecer-se. Para maior devastao 
de todos seus sentidos, abriu as mos e as colocou sobre suas coxas com os dedos totalmente estendidos. E o que foi ainda pior, uma vez as braguitas estiveram colocadas 
em seu stio, acariciou-a levemente entre as pernas antes de apartar-se.
    Continuando, tirou o prendedor negro a jogo.
    Como uma boneca sem vontade prpria, deixou que o pusesse. As mos do Julin roaram os mamilos, enquanto grampeava o gancho dianteiro; uma vez fechado, deslizou-as 
sob o cetim e a acariciou com deleite, lhe arrepiando a pele. 
    Julin inclinou a cabea e capturou seus lbios. Podia sentir o fogo consumindo-o, lhe exigindo que a possusse. lhe exigindo que aliviasse a dor de seu entrepierna 
embora fosse por um instante.
    Grace gemeu quando ele aprofundou o beijo e se deixou levar por completo. Julin a elevou em braos para tend-la sobre a cama. De forma instintiva, lhe rodeou 
a cintura com as pernas e vaiou ao sentir os duros abdominais pressionando sobre seu sexo. 
    Julin lhe aconteceu as mos pelas costas. A viso de seu corpo mido e nu estava gravada a fogo em sua mente. Tinha chegado a um ponto sem retorno quando um 
brilho de luz cegadora iluminou a habitao.
    Com os olhos doloridos pelo resplendor, Julin se separou dela. 
    - foste voc? -perguntou-lhe ela sem flego, olhando-o entusiasmada. 
    Risonho, Julin negou com a cabea. 
    - Oxal me pudesse atribuir isso mas estou bastante seguro de que tem outra origem.
    Jogou uma olhada  habitao e seus olhos se detiveram sobre a cama. Piscou.
    No podia ser...
    - O que  isso? -perguntou Grace, girando-se para olhar a cama.
    -  meu escudo -respondeu Julin, incapaz de acredit-lo.
    Fazia sculos que no via seu escudo. Atnito, contemplou-o fixamente. Estava no mesmo centro da cama e emitia dbeis brilhos sob a luz.
    Conhecia cada entalhe e arranho que havia nele; recordava cada um dos golpes que os tinham produzido. 
    Temeroso de estar sonhando, alargou o brao para tocar o relevo em bronze de Ateneu e seu mocho. 
    - E sua espada tambm?
    Julin lhe agarrou a mo antes de que pudesse toc-la.
    - Essa  a Espada do Cronos. No a toques jamais. Se algum que no levar seu sangue a touca, sua pele ficar marcada para sempre com uma terrvel queimadura.
    - Srio? -perguntou, baixando-se da cama para afastar-se da espada. 
    - Srio. 
    Grace olhou  cama com o cenho franzido.
    - O que fazem aqui? 
    - No sei.
    - E quem os envia?
    - No sei.
    - Pois no me est ajudando muito. 
    Julin no pareceu captar seu sarcasmo. Em lugar de dar-se por aludido, Grace o observou contemplar seu escudo. Passava a mo sobre ele como um pai que olhe 
com adorao a um filho comprido tempo perdido. 
    Agarrou sua espada e a depositou no cho, debaixo da cama.
    - No esquea que est aqui -lhe disse muito srio-. Tenha muito cuidado de no toc-la.
    Sua expresso se voltou mais carrancuda ao incorporar-se. Olhou de novo o escudo.
    - Deve ser obra de minha me. S ela ou um de seus filhos me poderiam enviar isso - Claro.
    - E por que ia fazer o?
    Julin entrecerr os olhos enquanto recordava o resto da lenda que rodeava a sua espada. 
    - Estou seguro de que enviou minha espada se por acaso tenho que me enfrentar com o Prapo. A Espada do Cronos tambm  conhecida como a Espada da Justia. No 
acabar com sua vida, mas far que ocupe meu lugar no livro.
    - Est falando a srio?
    Julin assentiu.
    - Posso tocar o escudo?
    - Claro.
    Grace passou a mo sobre as incrustaes douradas e negras que formavam a imagem de Ateneu e o mocho.
    -  muito bonito -disse, maravilhada.
    - Kyrian o mandou fazer quando me nomearam General Supremo.
    Grace acariciou a inscrio gravada sob a figura de Ateneu.
    - O que diz aqui?
    - "A morte antes que a desonra" -disse com um n na garganta.
    Julin sorriu com melancolia ao recordar ao Kyrian junto a ele durante as batalhas. 
    - O escudo do Kyrian dizia: "O bota de cano longo para o vencedor". Estava acostumado a me olhar antes da luta, e dizer: "Voc te leva a honra, adelfos, e eu 
fico com o bota de cano longo".
    Grace permaneceu em silencio ao escutar o estranho tom de sua voz. Tentando imaginar sua aparncia com o escudo em alto, aproximou-se um pouco mais.
    - Kyrian? O homem que foi crucificado?
    - Sim.
    - Apreciava-o muito, verdade?
    Ele sorriu com tristeza.
    - Levou-lhe um tempo acostumar-se a mim. Eu tinha vinte e trs anos quando seu tio o atribuiu a minha tropa, depois de me advertir concienzudamente do que me 
aconteceria se deixava que Sua Alteza fosse ferido.
    - Era um prncipe?
    Julin assentiu.
    - E no tinha medo a nada. Apenas se chegava aos vinte anos e lutava ou se metia em brigas sem estar preparado, sem acreditar que pudessem lhe fazer danifico. 
Dava-me a sensao de que cada vez que me dava a volta, tinha que tir-lo rastros de algum estranho contratempo. Mas resultava muito difcil no apreci-lo. Apesar 
de seu carter exaltado, tinha um grande senso de humor e era completamente leal. -Passou a mo pelo escudo-. Oxal tivesse estado ali para poder salvar o dos romanos.
    Grace lhe acariciou o brao em um gesto pormenorizado.
    - Estou segura de que os dois juntos teriam sido capazes de sair de qualquer atoleiro. 
    Os olhos do Julin se iluminaram ao escut-la.
    - Quando nossos exrcitos partiam juntos, fomos invencveis. -Esticou a mandbula ao olh-la-. Tivesse sido questo de tempo que Roma fosse nossa. 
    - por que depreciavam tanto ao Imprio Romano?
    - Jurei que destruiria Roma o mesmo dia que conquistaram Primria. Kyrian e eu fomos enviados para ajud-los na luta, mas quando chegamos era muito tarde. Os 
romanos tinham rodeado a cidade e tinham assassinado grosseiramente a todas as mulheres e aos meninos. Jamais tinha visto um aougue semelhante. -Seu olhar se obscureceu-. 
Estvamos tentando enterrar aos mortos quando os romanos tenderam uma emboscada.
    Grace ficou geada ao escut-lo.
    - O que ocorreu?
    - Derrotei ao Livio e estava a ponto de mat-lo no momento em que interveio Prapo. Lanou um raio a meu cavalo e ca em metade das tropas romanas. Estava seguro 
de ia morrer quando Kyrian apareceu de um nada. Fez retroceder ao Livio at que pude me pr em p de novo. Livio chamou a seus homens a retirada e desapareceu antes 
de que pudssemos acabar com ele.
    Grace foi consciente da proximidade do Julin. Estava detrs dela, to perto que podia sentir o calor que emanava dele. Colocou os braos a ambos os lados de 
seu corpo, apanhando-a entre ele e a cama, e se apoiou sobre suas costas. 
    Ela apertou os dentes ante a ferocidade do desejo que a invadiu. Julin no a estava tocando, mas seus sentidos estavam to desbocados como se suas mos a acariciassem. 
Ele inclinou a cabea e lhe mordiscou o pescoo.
    A sensao de sua lngua sobre a pele conseguiu que tudo seus hormnios cobrassem vida. Arqueou as costas enquanto um estremecimento lhe percorria os peitos. 
Se no o detinha...
    - Julin -balbuciou; sua voz no conseguiu transmitir a advertncia que pretendia. 
    - Sei -sussurrou ele-. Vou de caminho a me dar uma ducha fria. 
    Enquanto saa da habitao, Grace o escutou grunhir uma palavra em voz baixa:
    - Sozinho. 
    
    depois de tomar o caf da manh, Grace decidiu lhe ensinar a conduzir.
    - Isto  ridculo -protestou Julin enquanto Grace estacionava no estacionamento do instituto.
    - Venha j! -burlou-se ela-. No sente curiosidade?
    - No.
    - Que no?
    Julin suspirou.
    - Esta bem, um pouco.
    - Bom, ento imagina as histrias sobre a grande besta de ao que conduziu ao redor de um estacionamento que poder lhes contar a seus homens quando retornar 
a Macednia.
    Julin a olhou perplexo.
    - Isso significa que est de acordo com que me parta?
    No, quis lhe gritar. Mas em lugar disso, suspirou. No fundo, sabia que jamais poderia lhe pedir que abandonasse tudo o que tinha sido para ficar com ela.
    Julin da Macednia era um heri. Uma lenda.
    Jamais poderia ser um homem de carter tranqilo do sculo vinte e um. 
    - Sei que no posso fazer que fique comigo. No  um cachorrito abandonado que seguiu a casa. 
    Julin se esticou ao escut-la. Tinha razo. Por isso lhe resultava to difcil abandon-la. Como podia separar-se da nica pessoa que o via como a um homem?
    No sabia por que queria ensin-lo a conduzir mas, de todas formas, notava que se sentia feliz compartilhando seu mundo com ele. E, por alguma razo que no 
queria analisar muito a fundo, gostava de faz-la feliz.
    - Muito bem. Insgnia me a dominar a esta besta.
    Grace saiu do carro para que Julin pudesse sentar-se no assento do condutor.
    logo que Julin se sentou, ela fez uma careta ao ver um homem, de quase um metro noventa, encolhido para poder acomodar-se em um assento disposto para uma mulher 
de um e cinqenta e cinco. 
    - Sinto muito, me esqueceu mover o assento.
    - No posso me mover nem respirar, mas no se preocupe, estou bem.
    Ela riu.
    - H uma alavanca sob o assento. Tira dela e poder mov-lo para trs.
    Julin o tentou, mas o espao era to estreito, que no a alcanava.
    - Espera, eu o farei.
    Jogou a cabea para trs quando Grace se inclinou por cima de sua coxa e apertou os peitos sobre sua perna para lhe passar o brao entre os joelhos. Seu corpo 
reagiu imediatamente, endurecendo-se e comeando a arder.
    Quando ela apoiou a bochecha sobre seu entrepierna ao atirar da alavanca, Julin pensou que estava a ponto de morrer.
    - Deste-te conta de que est na posio perfeita para...?
    - Julin! -exclamou ela, retrocedendo para ver o abultamiento de seu jeans. Seu rosto adquiriu um brilhante tom vermelho-. O sinto.
    - Eu tambm -respondeu ele em voz baixa.
    Infelizmente, ainda tinha que mover o assento, assim Julin se viu forado a suportar a postura uma vez mais.
    Apertando os dentes, elevou um brao e se agarrou ao reposacabezas com fora. Era o nico que podia fazer para no ceder a selvagem luxria.
    - Est bem? -perguntou-lhe ela, uma vez colocou o assento em seu stio e voltou para dele.
    - Claro! -respondeu ele com tom sarcstico-. Tendo em conta que caminhei sobre brasas que resultaram menos dolorosas que o que est suportando neste momento 
meu entrepierna, estou fenomenal. 
    - J te pedi perdo.
    Ele a olhou fixamente.
    Grace lhe deu uns tapinhas no brao.
    - Venha, chega bem aos pedais?
    - eu adoraria chegar at os teus...
    - Julin! -exclamou de novo Grace. Era um homem verdadeiramente libidinoso-. Quer te concentrar?
    - De acordo, j me estou concentrando.
    - Em meus peitos, no.
    Julin baixou o olhar para o regao do Grace.
    - Nem a tampouco.
    Para sua surpresa, fez uma panela semelhante ao de um menino zangado. A expresso era to estranha nele que Grace no teve mais remedeio que rir de novo.
    - Vale -lhe disse ela-. O pedal que est a sua esquerda,  a embreagem; o do meio  o freio e o da direita, o acelerador. Lembra-te do que te explicado sobre 
eles?
    - Sim.
    - Bem. Agora, o primeiro que tem que fazer  apertar a embreagem e colocar a marcha. -E dizendo isto, colocou a mo sobre a alavanca de mudanas, situada entre 
os dois assentos, e lhe ensinou como devia mov-la. 
    - Srio, Grace. No deveria acariciar isso dessa forma diante de mim.  uma crueldade por sua parte.
    - Julin! Importaria-te emprestar ateno? Estou tentando te ensinar a trocar de marcha.
    Ele soprou.
    - Oxal me trocasse as marchas do mesmo modo. 
    Com um brilho malicioso nos olhos, soltou a embreagem antes da conta e o carro se impregnou. 
    - supe-se que isto no deveria passar, verdade? -perguntou.
    - No, a menos que queira ter um acidente.
    Ele suspirou e o tentou de novo.
    Uma hora mais tarde, depois que as tivesse arrumado para dar uma volta ao redor do estacionamento sem golpear os postes e sem que o carro lhe impregnasse, Grace 
se deu por vencida. 
    - Menos mal que foi melhor general que condutor.
    - Ja, ja -exclamou ele sarcsticamente, mas com um brilho no olhar que indicou ao Grace que no estava ofendido-. Quo nico alegarei em minha defesa  que o 
primeiro veculo que conduzi foi um carro de guerra. 
    Grace lhe sorriu.
    - Bom, nestas ruas no estamos em guerra.
    Com um olhar ctico, lhe respondeu:
    - Eu no diria isso depois de ter visto as notcias da noite. -Apagou o motor-. Acredito que deixarei que conduza um momento.
    - Muito inteligente por sua parte. No posso me permitir comprar um carro novo de nenhuma forma.
    Saiu do carro para trocar de assento; mas ao cruzar-se  altura do porta-malas, Julin a sustentou para lhe dar um beijo to trrido que ela acabou enjoada. 
Lhe agarrou as mos e as sustentou sobre seus estreitos quadris enquanto mordiscava seus lbios.
    Santo Deus! Uma mulher podia acostumar-se a isso com muita facilidade. Muita, muita facilidade.
    Julin se separou.
    - Quer me levar a casa para que te mordisque outras coisas?
    Sim, isso era o que queria. E por isso no se atrevia. De fato, o beijo a tinha deixado to transtornada que no podia nem pensar.
    Julin sorriu ante o olhar extraviado e faminta do Grace. Estava observando seus lbios como se ainda pudesse sabore-los. Nesse momento, desejou-a mais que 
nunca. Desejou poder lhe arrancar a borracha do cabelo e deixar que sua juba se esparramasse sobre seu peito, uma vez estivesse tendida sobre ele.
    Como desejava estar de retorno em sua casa onde pudesse lhe tirar as calas curtas e escutar seus doces murmrios de prazer enquanto o...
    - O carro -disse ela, piscando como se despertasse de um sonho-. amos entrar no carro.
    Julin lhe deu um pequeno beijo na bochecha.
    Uma vez dentro do carro e com os cintos de segurana grampeados, Grace o olhou de soslaio.
    - Sabe uma coisa? Acredito que h duas coisas em Nova Orlens que deveria experimentar. 
    - Em primeiro lugar, tenho que te possuir em um...
    -  que no vais parar?
    Julin se esclareceu garganta.
    - Est bem. Qual  sua lista?
    - Bourbon Street e a msica moderna. E de uma delas nos podemos encarregar agora mesmo. -E ps a rdio.
    riu ao reconhecer Hot Blooded do Foreigner. O que apropriado, dado seu passageiro. 
    Julin o escutou, mas no pareceu muito impressionado.
    Grace trocou a emissora.
    Ele franziu o cenho.
    - O que tem feito?
    - troquei que emissora. Quo nico ter que fazer  apertar os botes.
    Ele brincou e trocou de emissora um momento, at que encontrou Love Hurts do Nazareth.
    - Sua msica  interessante.
    - Faz-te ter saudades a tua? 
    - Dado que a maioria da msica que escutava procedia das trompetistas e os tambores que nos acompanhavam  batalha, no. Acredito que sou capaz de apreciar isto.
    - O que? -perguntou ela brincalhona-. A msica ou o fato de que o amor faz mal?
    O rosto do Julin adquiriu uma expresso sria, deixando de lado o humor.
    - Posto que no conheci nunca o que  o amor, no saberia te dizer se fizer mal ou no. Mas imagino que ser amado no deve fazer tanto dano como o no s-lo. 
    O peito do Grace se encolheu ante suas palavras. 
    - Ento -disse ela trocando de tema-, o que quer fazer quando retornar a sua casa?
    - No sei.
    - Provavelmente ir lhe dar uma boa patada no culo ao Escipin, verdade?
    Ele riu ante a idia.
    - J eu gostaria.
    - por que? O que te fez?
    - cruzou-se em meu caminho.
    Vale, no era isso o que ela esperava escutar.
    - E voc no gosta que ningum se cruze em seu caminho, certo?
    - Gosta a ti?
    Ela sopesou a pergunta antes de responder.
    - Suponho que no.
    Para quando chegaram ao Bourbon Street, a rua tinha sido invadida pela multido tpica de um domingo pela tarde. Grace se abanic o rosto, lutando contra o intenso 
calor.
    Olhou ao Julin, que apenas se suava; as gotitas de suor lhe conferiam um novo atrativo. O cabelo mido lhe frisava ao redor da cara e com esses culos obscuros... 
Ooooh, Senhor!
 obvio que seu atrativo ficava ainda mais enfatizada graas  camiseta branca, de mangas curtas, que aderia aos ombros e ao tablete de chocolate que tinha por 
abdominais. Enquanto deixava que seu olhar vagasse at o boto de seu jeans, desejou lhe haver comprado uns mais largos.
    Mas dado seu sedutor modo de andar, que dizia muito a respeito de sua confiana em si mesmo, Grace duvidava muito de que uns jeans mais largos pudessem ocultar 
to tremenda sensualidade. 
    Julin se deteve o passar junto a um clube de striptease. A seu favor Grace teve que admitir que nem sequer ofegou ao olhar s mulheres to escandalosamente 
vestidas, que rebolavam depois do cristal, mas sua surpresa foi bastante evidente. 
    lhe olhando como se queria devor-lo, uma extica bailarina se mordeu o lbio inferior e se passou a lngua por ele de forma lhe sugiram, enquanto se tocava 
os peitos. Fez-lhe um gesto com um dedo para que entrasse em local.
    Julin se deu a volta.
    - Alguma vez tinha visto algo assim, verdade? -perguntou Grace, tentando dissimular o mal-estar que sentia ante os gestos da mulher, e o alvio que a invadiu 
ao ver a reao do Julin.
    - Roma -respondeu simplesmente.
    Ela riu.
    - No eram to decadentes, ou sim?
    - Surpreenderia-te saber quanto. Pelo menos aqui ningum faz uma orgia em... -e sua voz se perdeu ao passar junto a um casal que o estava montando em uma esquina-. 
Deixa-o.
    Grace riu a gargalhadas.
    - Ooooh Senhor! -exclamou uma prostituta, ao passar junto a outro clube, fazendo um gesto ao Julin-. Entra e lhe fao isso grtis.
    Ele meneou a cabea sem deter-se. Grace o agarrou da mo e o deteve.
    - comportavam-se assim as mulheres antes da maldio?
    Ele assentiu.
    - Por isso o nico amigo que tive foi Kyrian. Os homens que conhecia no podiam agentar a ateno que me emprestavam; as mulheres me perseguiam ali onde estivssemos, 
tentando me arrancar a armadura.
    Grace se deteve pensar por um momento.
    - E voc no est seguro de que todas essas mulheres lhe amassem, verdade?
    Olhou-a com uma fasca de diverso.
    - O amor e a luxria no so o mesmo. Como pode amar a algum a quem no conhece?
    - Suponho que tem razo.
    Seguiram caminhando pela rua.
    - me conte coisas sobre seu amigo. por que no lhe importava que as mulheres ficassem com a boca aberta ao verte?
    Julin sorriu, mostrando suas covinhas.
    - Kyrian estava profundamente apaixonado por sua esposa, e no lhe importava nenhuma outra mulher. Jamais me viu como um competidor.
    - Conheceu sua esposa?
    Julin negou com a cabea.
    - Embora nunca o falamos, acredito que os dois intuamos que seria uma m idia.
    Grace percebeu a mudana em seu rosto. Estava recordando ao Kyrian, seguro.
    - Culpa-te pelo que lhe aconteceu, verdade?
    Ele apertou os dentes enquanto imaginava o que devia haver sentido seu amigo ao ser capturado pelos romanos. Considerando as vontades que tinham tido de apanh-los 
a ambos, no havia dvida do que o tinham feito sofrer antes de mat-lo.
    - Sim -respondeu em voz baixa-. Sei que tenho a culpa. Se no tivesse despertado a ira do Prapo, teria estado ali para ajudar ao Kyrian a lutar contra eles.
    E sabia com absoluta certeza que a desgraa do Kyrian provinha do fato de ter sido to estpido para ser seu amigo. 
    Lanou um suspiro.
    - Uma vida brilhante que no deveria ter acabado assim. Se to somente tivesse aprendido a controlar sua ousadia, teria chegado a ser um magnfico governador 
-disse, agarrando a mo do Grace e lhe dando um ligeiro aperto. 
    Caminharam em silncio, enquanto Grace tentava pensar no modo de anim-lo.
    Ao passar pela Casa do Vodu de Enjoe Laveau, ela se deteve e o arrastou ao interior.
    Explicou-lhe os orgenes do vodu enquanto percorriam o museu de miniaturas. 
    - Uuuh! -disse agarrando um boneco de vodu de uma estantera-. Quer vesti-lo como Prapo e lhe cravar uns quantos alfinetes?
    Julin riu.
    - por que no imaginar que  Rodney Carmichael?
    Grace suprimiu um sorriso. 
    - Isso seria muito pouco profissional por minha parte, no  certo?... Mas me resulta muito tentador.
    Deixou o boneco em seu stio e se fixou no mostrador de cristal, onde estavam colocados os amuletos e a bijuteria. Justo no centro, havia um colar de contas 
negras, azuis e verdes, trancadas de um modo to intrincado que davam a sensao de ser um magro fio negro. 
    - Traz boa sorte a quem o leva -lhe disse a vendedora ao perceber o interesse do Grace-. Gostaria de ver o de perto?
    Grace assentiu.
    - Funciona?
    - Sim! Est trancado seguindo um poderoso desenho.
    Grace no estava muito segura de que devesse acreditar-lhe mas ento recordou que, fazia apenas uma semana, jamais teria acreditado que duas mulheres bbadas 
pudessem devolver  vida a um general Macedonio.
    Pagou  mulher e se aproximou do Julin.
    - lhe agache -lhe disse.
    Ele a olhou com cepticismo.
    - Vamos! -apressou-lhe ela-. me D o gosto, anda. 
    A vendedora riu ao ver o Grace colocar o amuleto ao Julin no pescoo.
    - Esse menino no necessita nenhum tipo de sorte para aumentar seu encanto. O que precisa  um feitio que disperse a ateno de todas essas mulheres que lhe 
esto olhando o traseiro agora que est agachado.
    Grace olhou por cima do ombro do Julin e observou a trs mulheres que babavam ao lhe olhar o culo. Pela primeira vez, sentiu um horrvel golpe de cimes.
    Mas a sensao se evaporou por completo quando Julin lhe deu um carinhoso beijo na bochecha antes de incorporar-se. Com um olhar diablico, passou-lhe um brao 
ao redor dos ombros em um gesto possessivo.
    Ao passar junto s mulheres, Grace no pde suprimir um travesso impulso. deteve-se junto a elas e as interpelou.
    - Por certo, nu est muitssimo melhor.
    - E voc que no perde oportunidade de comprov-lo, carinho -comentou Julin enquanto ficava os culos de sol e comeava a andar com o brao ainda sobre seus 
ombros.
    Lhe aconteceu a mo pela cintura e a meteu no bolso dianteiro da cala, enquanto ele a atraa mais para seu corpo.
    - Sabe uma coisa? -sussurrou-lhe ao ouvido-. Se baixasse a mo um poquito mais, no me importaria absolutamente.
    Lhe deu um pequeno aperto, mas deixou a mo onde estava.
    Os olhares de inveja das mulheres os perseguiram enquanto se afastavam caminhando pela calada.
    Para jantar, Grace levou ao Julin  a Marisquera do Mike Anderson. Fez uma careta ao ver que depositavam um prato de ostras para o Julin sobre a mesa.
    - Puaj! -exclamou ela quando ele se comeu uma.
    Muito ofendido, Julin soprou.
    - Esto deliciosas.
    - Para nada.
    - Isso  porque no sabe como tem que as comer.
    - Claro que sei. Abre a boca e deixa que esse inseto viscoso se deslize por sua garganta. 
    Julin bebeu um gole de sua cerveja.
    - Essa  uma forma das comer.
    - Assim acaba de faz-lo voc.
    - Certo, mas voc no gostaria de provar outro modo?
    Ela se mordeu o lbio, indecisa. Algo no comportamento do Julin lhe indicava que podia ser perigoso aceitar seu desafio.
    - No sei.
    - Confia em mim?
    - No muito -soprou ela.
    Ele se encolheu de ombros e deu outro gole  cerveja.
    - Voc lhe perde isso.
    - Vale, est bem! -rendeu-se ela, muito curiosa para continuar negando-se-. Mas se me derem arcadas, recorda que lhe adverti isso.
    Julin atirou da cadeira do Grace com os tales at coloc-la a seu lado, to perto que suas coxas se roavam. secou-se as mos nos jeans, e agarrou a ostra 
mais pequena.
    - Muito bem ento -lhe sussurrou ao ouvido e lhe aconteceu o outro brao pelos ombros-. Joga a cabea para trs.
    Grace obedeceu. Ele deslizou os dedos por sua garganta, lhe causando uma quebra de onda de calafrios. Ela tragou, surpreendida pela ternura de suas carcias. 
Surpreendida pelo bem que se sentia com ele a seu lado.
    - Abre a boca -lhe disse em voz baixa, enquanto lhe roava o pescoo com o nariz. 
    Ela voltou a obedecer.
    Julin deixou que a ostra escorregasse at sua boca. Quando Grace a tragou e comeou a descer por sua garganta, Julin passou a lngua por seu pescoo em direo 
contrria. 
    Grace se estremeceu ante a inesperada sensao. Os mamilos lhe endureceram e um milho de calafrios percorreram sua pele. Era incrvel! E pela primeira vez, 
no lhe importou para nada o sabor da ostra.
    - Gostou-te? -perguntou-lhe, brincalho.
    Ela no pde evitar sorrir. 
    -  incorrigvel.
    - Isso intento. 
    - E o consegue s mil maravilhas.
    antes de que Julin pudesse responder, soou seu telefone mvel.
    - Puf! -soprou enquanto o tirava da bolsa. Quem quer que fosse, j podia ter algo importante que lhe dizer.
    Respondeu.
    - Grace?
    Ela se encolheu ao escutar a voz do Rodney.
    - Senhor Carmichael, como conseguiu este nmero de telefone?
    - Estava pontudo em seu Rodolex. Vim a sua casa a verte, mas no est -e suspirou-. Estava desejando acontecer o dia contigo. Temos uma conversao pendente. 
Mas no passa nada. Posso me reunir contigo, est no Bairro Francs com seu amiga a vidente?
    O medo a paralisou.
    - Como conhece meu amiga?
    - Sei muitas coisas de ti, Grace. Mmm! -resmungou em voz baixa-. Perfuma as gavetas de sua roupa interior com composio de rosas. 
    O terror a possuiu por completo e no pde mover-se. Comearam a lhe tremer as mos.
    - Est em minha casa?
    Podia ouvir como abria e fechava as gavetas de sua cmoda, atravs do telefone. De repente, o tipo soltou uma maldio.
    - Zorra! -espetou Rodney-. Quem  ele? Com quem coo te estiveste deitando?
    - Isso... 
    A comunicao se cortou.
    Grace estava tremendo, tanto que apenas se podia respirar quando pendurou o telefone. 
    - O que acontece? -perguntou-lhe Julin, com o cenho franzido pela preocupao. 
    - Rodney est em minha casa -lhe disse com voz tremente. Marcou imediatamente o nmero da polcia para notific-lo.
    - Encontraremo-nos ali -lhe informou o agente-. No entre em seu domiclio at que cheguemos. 
    - No se preocupe, no o farei.
    Julin lhe agarrou as mos.
    - Est tremendo.
    - No me diga! Resulta que tenho a um psicopata metido em minha casa, farejando minha lingerie e me insultando. por que ia tremer?
    Seus olhos de azul profundo a tranqilizaram com um olhar protetor. Apertou-lhe as mos brandamente.
    - Sabe que no vou permitir que te faa mal.
    - Agradeo-lhe isso muito, Julin. Mas este homem est...
    - Morto se se aproxima de ti. Sabe que no te abandonarei. 
    - Pelo menos no at a prxima lua enche.
    Julin apartou o olhar e ela assimilou a verdade. 
    - No passa nada -disse ela com valentia-. Posso me fazer carrego disto, de verdade. estive sozinha durante anos. Esta no  a primeira vez que um cliente me 
acossa. E duvido muito que v ser o ltimo.
    Os olhos do Julin lanaram labaredas azuis quando a olhou.
    - Quantos de seus pacientes lhe acossaram?
    - No  seu problema, a no ser o meu.
    Julin seguiu olhando-a como se estivesse a ponto de estrangul-la.
    
    
    Captulo 12
    
    Chegaram a casa ao mesmo tempo que a polcia.
    O jovem e musculoso agente olhou com suspicacia ao Julin.
    - Quem ?
    - Um amigo -lhe respondeu Grace.
    O policial alargou a mo para ela.
    - De acordo, me d as chaves e nos deixe jogar uma olhada. O agente Reynolds ficar com vocs aqui fora at que o revisemos tudo.
    Grace entregou obedientemente o jogo de chaves.
    Comeou a mordisc-las unhas enquanto observava como o policial entrava em seu lar. 
    Por favor, que Rodney Carmichael esteja dentro ainda.
    Mas no estava. O policial saiu pouco depois meneando a cabea.
    - Joder! -exclamou Grace em voz baixa.
    O agente Reynolds a acompanhou at a casa e Julin os seguiu um pouco atrasado.
    - Necessitamos que entre e jogue uma olhada para ver se falta algo.
    - Fez algum desastre? -perguntou ela.
    - S nos dormitrios.
    Com o corao em um punho, Grace entrou em sua casa e subiu as escadas para ir a sua habitao. 
    Julin a seguiu e observou como se mantinha rgida e distante. Tinha o rosto to plido que as sardas resultavam muito mais evidentes. Poderia matar ao tipo 
que lhe tinha feito isto. Nenhuma mulher deveria passar tanto medo, especialmente em seu prprio lar.
    Quando chegaram ao piso superior, Julin viu que a porta da habitao do final do corredor estava entreabierta. Grace correu para ali.
    - No! -ofegou.
    apressou-se a segui-la.
    Julin comeou a v-lo tudo vermelho ao contemplar o sofrimento que refletia o rosto do Grace. Podia sentir sua dor no corao como se fosse o seu prprio. 
    As lgrimas se deslizavam por suas bochechas enquanto observava a desordem. O colcho estava atirado no cho, os lenis rasgados, as gavetas abertas e seu contedo 
esparso, como se Zfiro tivesse passado por ali em metade de um arranque de mau humor. 
    Julin lhe colocou as mos sobre os ombros para reconfort-la.
    - Como pde lhe fazer isto a sua habitao? -perguntou Grace.
    - De quem  esta habitao? -perguntou o agente Reynolds-. Acreditava que vivia sozinha.
    - E o fao. Esta era a habitao de meus pais. Morreram faz tempo -olhou a um e outro lado, incrdula. Uma coisa era que fosse atrs dela, mas por que tinha 
feito isto?
    Contemplou a roupa pulverizada pelo cho; roupa que lhe trazia para a memria tantas lembranas maravilhosas... As camisas que seu pai levava a trabalho; o pulver 
favorito de sua me e que sempre lhe pedia emprestado; quo pendentes seu pai tinha agradvel a sua me em seu ltimo aniversrio de bodas. Tudo estava esparramado 
pela habitao, como se no tivesse valor algum.
    Mas para ela eram objetos muito valiosos. Era o nico que ficava deles. A dor lhe rasgava o corao. 
    - Como pde faz-lo? -perguntou, enquanto a raiva se abria passo em seu interior.
    Julin a atraiu para seus braos e a sustentou com fora.
    - No passa nada, Grace -murmurou sobre seu cabelo.
    Mas sim que acontecia. Grace duvidava poder superar aquilo alguma vez. No podia deixar de pensar nas mos desse animal tocando a roupa de sua me ou rasgando 
os lenis. Como se tinha atrevido!
    Julin olhou ao agente de polcia.
    - No se preocupe -disse o homem-, encontraremos ao tipo.
    - E depois o que? -perguntou Julin.
    - Isso ter que decidi-lo um tribunal.
    Julin o olhou de cima abaixo e soltou um grunhido, enojado. Tribunais. No entendia como um tribunal moderno podia permitir que um animal assim estivesse solto. 
    - Sei que tudo isto  duro -comentou o agente-. Mas necessitamos que comprove se se levou algo, doutora Alexander.
    Ela assentiu.
    Ao Julin surpreendeu a coragem que demonstrou ao se desprender de seu abrao e limp-las lgrimas. Comeou a inspecionar todo aquele desastre. Ele se ajoelhou 
a seu lado; queria estar perto se por acaso o necessitava de novo.
    depois de comprov-lo todo concienzudamente, Grace cruzou os braos sobre o peito e lanou um rpido olhar ao agente. 
    - No falta nada -lhe disse, e saiu da habitao para ir  sua.
    Entrou nela com muita apreenso. Uma rpida olhada lhe indicou que seu dormitrio tinha sofrido os mesmos danos que o de seus pais. Tinha registrado meticulosamente 
tanto a roupa do Julin como a sua. Toda a lingerie estava tiragem pelo cho, tinha esmigalhado os lenis e o colcho estava inclinado. 
    Oxal Rodney tivesse encontrado a espada do Julin sob a cama e tivesse cometido o engano de toc-la. Isso sim que teria sido uma justa recompensa. 
    Mas no a tinha visto. De fato, o escudo ainda seguia apoiado sobre a parede, junto  cama, onde ele o deixou. 
    Grace se sentia quase violada ao contemplar toda sua roupa pulverizada pela habitao; como se as mos do Rodney houvessem meio doido seu corpo. 
    Nesse momento, viu a porta do vestidor ligeiramente aberta. Estava morto de medo enquanto se aproximava para abri-la e olhar no interior. Ento se sentiu como 
se o tipo lhe tivesse arrancado o corao e o tivesse esmagado.
    - Meus livros -murmurou.
    Julin cruzou a habitao para ver o que Grace estava olhando. ficou sem respirao ao chegar junto a ela.
    Todos os livros tinham sido destroados.
    - Meus livros no -balbuciou, caindo de joelhos.
    Tremia-lhe a mo ao pass-la sobre as folhas dos livros que seu pai tinha escrito. Eram insubstituveis. Jamais poderia abri-los de novo e escutar sua voz lhe 
falando do passado. No poderia abrir Beleza Negra e ouvir sua me enquanto o lia. 
    Tudo tinha desaparecido.
    Rodney Carmichael acabava de matar de novo a seus pais.
    Grace se fixou ento no que ficava de sua exemplar de La Ilada. Os olhos lhe encheram de lgrimas ao recordar a expresso do Julin enquanto passava suas pginas. 
As horas que tinham acontecido juntos enquanto ela o lia. Tinham sido uns momentos muito especiais, mgicos; os duas tombados frente ao sof, perdidos na histria, 
como se tivessem estado em um reino privado, s deles dois. Seu prprio paraso. 
    - Destroou-os todos -murmurou-. Deus! deveu acontecer horas aqui.
    - Senhora, s so...
    Julin agarrou ao agente Reynolds pelo brao e o tirou da habitao.
    - Para ela so muito mais que simples livros -lhe disse entre dentes-. No se atreva a burlar-se de sua dor.
    - V! -exclamou o homem envergonhado-. O sinto.
    Julin voltou junto ao Grace.
    Soluava incontrolablemente enquanto passava as mos sobre as folhas soltas.
    - por que o tem feito?
    Ele a levantou, tirou-a do vestidor e a deitou na cama. Ela no o soltou. aferrava-se a ele com tanta fora que ao Julin custava trabalho respirar, e chorava 
como se o corao estivesse rompendo-se o a pedaos. 
    Nesse momento, Julin quis matar ao homem que lhe tinha feito isto.
    Soou o telefone.
    Grace gritou e lutou para incorporar-se.
    - Shh -lhe disse Julin, enquanto lhe limpava as lgrimas e a sustentava, impedindo que se movesse-. No passa nada. Estou aqui, contigo.
    O agente Reynolds lhe aconteceu o telefone.
    - Responda, se por acaso  ele.
    Julin olhou com fria ao homem. Como podia ser to insensvel? Como podia lhe pedir que falasse com esse co raivoso?
    - Ol, Selena -saudou Grace, e voltou a estalar em lgrimas enquanto contava a seu amiga o que tinha acontecido.
    A mente do Julin bulia ao pensar no homem que tinha invadido a casa do Grace e a tinha ferido to profundamente. O que mais lhe preocupava era que o tipo sabia
onde golpear. Conhecia o Grace. Sabia o que era importante para ela.
    E isso o fazia muito mais perigoso do que a polcia suspeitava.
    Ela pendurou o telefone.
    - Sinto muito ter perdido o controle -disse, limpando-as lgrimas-. foi um dia muito comprido.
    - Sim, senhora, entendemo-lo.
    Julin observou como se recompunha; Grace tinha uma fora de vontade que muito poucos homens possuam.
    Acompanhou  polcia pelo resto da casa.
    - No deve ter visto este livro -disse um dos agentes com o livro do Julin na mo, oferecendo-lhe a ela.
    Julin o agarrou das mos do Grace. Ao contrrio que o agente, ele no estava to seguro. Se o bastardo tinha tentado romp-lo, teria se levado uma desagradvel 
surpresa.
    No podia ser destrudo. Ele mesmo tinha tentado faz-lo em incontveis ocasione ao longo dos sculos. Mas nem sequer o fogo fazia trinca nele. O livro lhe fez 
recordar as palavras do Grace.
    Ele se iria em uns quantos dias e ela ficaria sozinha, sem ningum que a protegesse. E essa idia o adoecia.
    
    Os agentes partiram no mesmo instante que Selena chegava em seu carro. Saiu do Jipe acompanhada de um homem alto e moreno que levava o brao em um tipia. Selena 
virtualmente correu at a porta.
    - Est bem? -perguntou ao Grace enquanto a abraava com fora.
    - Sim -lhe respondeu ela. Olhou sobre seu ombro e ento saudou o homem-. Ol Bill.
    - Ol Grace. viemos a te dar uma mo.
    Apresentou ao Julin e os quatro entraram na casa.
    Julin deteve a Selena logo que estiveram dentro, e a levou  parte.
    - Pode mant-la um momento aqui embaixo?
    - por que?
    - Tenho que me ocupar de algo.
    Selena franziu o cenho.
    - Claro, no h problema.
    Esperou at que Selena e seu marido sentaram ao Grace no sof. Ento, foi  cozinha, agarrou um par de bolsas de lixo e se encaminhou ao vestidor.
    To rpido como pde, comeou a ordenar todo aquele desastre para que Grace no tivesse que v-lo de novo. Mas com cada parte de papel que tocava, sua ira crescia.
    Uma e outra vez ia a sua mente a tenra expresso do Grace enquanto procurava um livro entre toda sua coleo. Se fechava os olhos podia ver seu cabelo esparramado 
sobre seu peito enquanto lia. 
    Nesse momento, quis o sangue deste tipo.
    - Joder! -exclamou Bill da porta-. Isto o tem feito ele?
    - Sim.
    - Tio, mido psicopata.
    Julin no disse nada e continuou arrojando os papis  bolsa. Sua alma gritava, clamando vingana. O que sentia para o Prapo era uma leve sombra do que nesses 
momentos passava por sua mente. 
    Uma coisa era fazer machuco a ele. Mas ferir o Grace...
    J podiam ter as Parcas compaixo desse tipo, porque ele no pensava ter nenhuma.
    - Leva muito saindo com o Grace?
    - No.
    - Isso me parecia. Selena no te mencionou, mas pensando-o bem, tampouco se mostrou to preocupada porque Grace ficasse sozinha desde seu aniversrio. Suponho 
que lhes conheceram ento.
    - Sim.
    - Sim, no, sim. No  muito falador, verdade?
    - No.
    - Vale, agarrei-o. At mais tarde.
    Julin se deteve quando encontrou a coberta do Peter Po. Agarrou-a e apertou os dentes. A dor o assaltou de novo. Esse livro era o preferido do Grace.
    Apertou-o com fora um instante e depois o jogou na bolsa com o resto.
    
    Grace no foi consciente do tempo que passou sentada no sof, sem mover-se. S sabia que se encontrava muito mal. O golpe do Rodney tinha sido muito forte. 
    Selena lhe trouxe uma taa de chocolate quente.
    Ela tentou beber, mas lhe tremiam tanto as mos que teve medo de derram-lo e o deixou a um lado.
    - Suponho que preciso limp-lo tudo.
    - J o est fazendo Julin -lhe disse Bill, que estava sentado na poltrona fazendo zapping.
    Grace franziu o cenho.
    - O que?, desde quando?
    - Recentemente estava acima, recolhendo-o tudo no vestidor.
    Boquiaberta pela surpresa, Grace subiu em sua busca.
    Julin estava na habitao de seus pais. Da porta, observou como acaba de pr ordem e se endireitava. Dobrou as calas de seu pai de um modo que faria que Martha 
Stewart fizesse uma careta de dor, colocou-os na gaveta e o fechou.
    A ternura a invadiu ante a imagem do que fora um legendrio general ordenando sua casa para evitar que ela sofresse. Sua delicadeza lhe chegou ao corao.
    Julin elevou os olhos e descobriu ao Grace. A funda preocupao que refletiam seus olhos azuis a reconfortou.
    - Obrigado -disse ela.
    Ele se encolheu de ombros.
    - No tinha outra coisa que fazer. -Embora o disse com um tom despreocupado, algo em sua atitude traa sua pretendida indiferena.
    - Ainda assim, agradeo-lhe isso muito -lhe disse ela enquanto entrava e olhava todo o trabalho que tinha feito. Com o corao na garganta, colocou as mos sobre 
a cama desta mogno era a cama de minha av -lhe disse-. Ainda escuto a voz de minha me quando me contava como meu av a fez para ela. Era carpinteiro.
    Com a mandbula tensa, Julin contemplou a mo do Grace.
    -  duro, verdade?
    - O que?
    - Deixar que os seres amados se vo.
    Grace sabia que Julin falava do fundo de seu corao. O corao de um pai que tinha saudades a seus filhos.
    Embora o pesadelo j no lhe perseguisse pelas noites, lhe ouvia sussurrar seus nomes, e se perguntava se era consciente da freqncia com a que sonhava com 
eles. perguntava-se quantas vezes ao dia pensava neles e sofria por sua morte.
    - Sim -lhe respondeu em voz baixa-, mas voc sabe melhor que eu, no  certo?
    Julin no respondeu.
    Grace deixou que seu olhar vagasse pela habitao.
    - Suponho que j vai sendo hora de seguir adiante, mas te juro que ainda posso escut-los, senti-los.
    -  seu amor o que percebe. Ainda est dentro de ti.
    - Sabe? acredito que tem razo.
    - N! -gritou Selena da porta, interrompendo-os-. Bill est encarregando uma pizza, gosta de comer algo?
    - Sim -respondeu Grace.
    - E voc? -perguntou- Selena ao Julin.
    Julin sorriu ao Grace.
    - eu adoraria comer pizza.
    Grace soltou uma gargalhada ao recordar como Julin lhe tinha pedido pizza a noite que o invocaram. 
    - Vale -disse Selena-, pizza para todos.
    Julin deu ao Grace os anis de sua me.
    - Encontrei-os no cho.
    aproximou-se da cmoda para guard-los, mas se deteve. Em lugar disso, os colocou na mo direita e, pela primeira vez depois de uns quantos anos, sentiu-se reconfortada 
ao v-los.
    Ao sair da habitao, Julin fechou a porta.
    - No -lhe disse Grace-, deixa-a aberta.
    - Est segura?
    Ela assentiu.
    Quando entraram em seu dormitrio, viu que Julin tambm o tinha ordenado. Mas ao contemplar as estanteras que tinham guardado seus livros, agora vazias, lhe 
rompeu de novo o corao. 
    Nesta ocasio no protestou quando Julin fechou a porta.
    
    Horas mais tarde e depois de ter comido, Grace pde convencer a Selena e ao Bill de que se fossem.
    - Estou bem, de verdade -lhes assegurou por ensima vez na porta. Agradecida pela presena do Julin, colocou a mo sobre seu brao-. Alm disso, tenho ao Julin.
    Selena a olhou com severidade.
    - Se necessitar algo, chama-me.
    - Farei-o.
    Sem sentir-se segura de tudo, Grace fechou a porta principal e subiu  habitao. Julin a seguiu.
    tombaram-se na cama, um junto ao outro.
    - Sinto-me to vulnervel... -sussurrou.
    Lhe acariciou o cabelo.
    - Sei. Fecha os olhos e dorme tranqila. Estou aqui. Eu te manterei a salvo.
    Rodeou-a com seus braos e ela suspirou, reconfortada. Ningum a tinha consolado nunca como ele o fazia.
    Demorou horas em dormir. Quando o fez, estava rendida.
    
    despertou com um silencioso grito.
    - Estou aqui, Grace.
    Escutou a voz do Julin a seu lado e se acalmou imediatamente.
    - Graas a Deus que  voc -murmurou-. Tinha um pesadelo.
    Julin depositou um ligeiro beijo em seu ombro.
    - Sei.
    Lhe deu um aperto na mo antes de sair da cama e preparar-se para ir ao trabalho.
    Quando tentou vestir-se, tremiam-lhe tanto as mos que no foi capaz de aboto-la camisa.
    - me deixe -se ofereceu Julin, lhe apartando as mos para poder faz-lo ele-. No tem por que estar assustada, Grace. No deixarei que esse tipo te faa nada.
    - Sei. Sei que a polcia o apanhar e, ento, tudo ter acabado.
    Ele no respondeu, e seguiu ajudando-a a coloc-la roupa.
    Uma vez estiveram preparados, Grace conduziu at a consulta, situada no centro da cidade. Tinha um n to grande no estmago que lhe custava respirar. Mas no 
podia encerrar-se. No ia deixar que Rodney controlasse sua vida. Ela era a que levava as rdeas e ningum ia trocar isso. No sem lutar. 
    No obstante, estava muito agradecida pela presena do Julin. Reconfortava-a de tal modo que no queria pensar muito a fundo no porqu. 
    - Como se chama isto? -perguntou Julin quando entraram em antigo elevador do edifcio de finais de sculo. 
    Lhe ensinou como atirar para fechar a porta e, imediatamente, percebeu o desconforto do Julin ao ficar encerrados.
    -  um elevador -lhe explicou Grace-. Aperta estes botes e sobe  planta que quer. Eu trabalho no ltimo piso, que  o oitavo. -E apertou o boto de desenho 
antigo.
    Julin ficou ainda mais nervoso quando comearam a ascender.
    -  seguro?
    Ela elevou uma sobrancelha e o olhou com curiosidade.
    - No me posso acreditar que o homem que se enfrentava sem medo aos exrcitos romanos esteja agora assustado de um simples elevador.
    Julin lhe dedicou um olhar irritado.
    - Sei o que so os romanos, mas isto me resulta desconhecido
    Grace lhe rodeou o brao com o seu.
    - No  muito complicado. -Assinalou a trampilla do teto-. Sobre essa puertecilla h uns cabos que sobem e baixam a cabine, e tambm h um telefone -disse, assinalando 
o intercomunicador situado sob os botes-. Se o elevador fica entupido, quo nico ter que fazer  apertar o boto do telefone e, a equipe de emergncia acudir 
imediatamente.
    Os olhos do Julin se obscureceram.
    - E est acostumado a ficar entupido com muita freqncia?
    - A verdade, no. Levo trabalhando neste edifcio quatro anos e no aconteceu nenhuma s vez.
    - E se no estava dentro, como sabe? 
    - Os elevadores tm um alarme que se ativa se ficam entupidos. Confia em mim, se ficamos encerrados aqui dentro algum nos ouvir.
    Julin deixou vagar seu olhar ao redor do reduzido espao e, pela luz que havia em seus olhos Grace soube as malvadas idias que lhe passavam pela cabea.
    - Pode fazer que se detenha a propsito?
    Ela riu a gargalhadas.
    - Sim, mas no quero que me pilhem em flagrante delicto no trabalho.
    Ele inclinou a cabea e depositou um leve beijo em sua bochecha.
    - Mas ser pilhado em flagrante delicto no trabalho pode ser muito divertido.
    Grace o abraou com fora. O que havia nele que o fazia sentir-se feliz? Sem importar o que ocorresse, Julin sempre conseguia que as coisas fossem muito mais 
divertidas. Mais brilhantes.
    -  mau -lhe disse, e se separou dele a contra gosto.
    - Certo, mas voc adora.
    Ela voltou a rir.
    - Tem toda a razo. eu adoro que seja mau.
    Comporta-as se abriram e Grace se encaminhou para sua consulta, situada muito perto do elevador. Julin a seguiu.
    Lisa os olhou quando entraram e abriu os olhos de par em par. Seus lbios desenharam um amplo sorriso ao contemplar ao Julin.
    - Doutora Grace -disse, brincando com uma mecha loira de seus cabelos-, seu noivo  uma bomba.
    Meneando a cabea, Grace os apresentou e, depois, ensino ao Julin sua consulta. Ele ficou de p, observando atravs dos ventanales enquanto Grace acendia o 
ordenador e deixava a bolsa na gaveta de seu escritrio.
    Ela se deteve o perceber que Julin a olhava fixamente.
    - De verdade vais passar te todo o dia aqui?
    Ele se encolheu de ombros.
    - No tenho nada melhor que fazer.
    - Te vais aborrecer.
    - Asseguro-te que estou mais que acostumado ao aborrecimento.
    O mau era que Grace sabia. Colocou uma mo sobre sua bochecha ao imaginar-lhe dentro do livro, sozinho, encerrado na mais completa escurido.
    ficou nas pontas dos ps e o beijou com ternura.
    - Obrigado por me acompanhar hoje. No acredito que tivesse podido estar aqui de no ser por ti.
    Ele mordiscou seus lbios.
    -  um prazer.
    Lisa a chamou pelo intercomunicador.
    - Doutora Grace, sua entrevista das oito est aqui.
    - Esperarei fora -lhe disse Julin.
    Grace lhe deu um aperto na mo antes de deixar que partisse.
    Durante a seguinte hora, no foi capaz de concentrar-se em seu paciente. Seus pensamentos voavam ao homem que a aguardava fora, e no paravam de dar voltas ao 
muito que significava para ela.
    E a quo aborrecvel encontrava o fato de que partisse.
    logo que acabou a sesso, acompanhou a seu paciente  porta.
    Lisa estava ensinando ao Julin a fazer solitrios no ordenador.
    - Doutora Grace -lhe disse-, sabe que Julin no tinha jogado antes ao solitrio?
    Grace intercambiou um sorriso faiscante com o Julin.
    - Srio?
    Lisa se separou do Julin para jogar uma olhada  agenda.
    - Por certo, sua entrevista das trs foi cancelada. E a das nove chamou para dizer que chegar uns minutos tarde.
    - De acordo. -Grace assinalou  porta com o polegar-. Enquanto jogam, vou um momento ao carro. Esqueci meu Palm Pilot.
    Julin elevou o olhar.
    - Eu irei.
    Grace negou com a cabea.
    - Eu posso faz-lo.
    Sem lhe responder, ele rodeou o escritrio da Lisa e estendeu a mo para que Grace lhe desse as chaves.
    - Eu irei -disse com um tom que no admitia rplicas.
    Como no tinha vontades de discutir, deu-lhe as chaves.
    - Est sob meu assento.
    - Vale, no demorarei nada.
    Grace lhe fez uma saudao militar.
    Com gesto de poucos amigos, saiu do escritrio e se encaminhou para o elevador, ao final do corredor.
    ia apertar o boto quando se deteve. Pelos deuses!, como odiava essa coisa estreita e quadrada.
    E a idia de estar ali dentro, sozinho...
    Jogou uma olhada a seu redor e viu as escadas. Sem duvid-lo nem um instante, dirigiu-se para elas.
    Grace estava tentando encontrar o relatrio do Rachel em sua maleta, mas caiu na conta de que tinha deixado um par de arquivos no assento traseiro do carro.
    - Onde tenho hoje a cabea? -repreendeu-se. Mas no fez falta que pensasse muito a resposta. Seus pensamentos estavam divididos entre dois homens que tinham 
alterado sua vida por completo.
    Zangada consigo mesma por no ser capaz de concentrar-se, agarrou a maleta e saiu da consulta, detrs do Julin.
    - Onde vai, Doutora? -perguntou-lhe Lisa.
    - Deixei-me uns quantos informe no carro. No demoro.
    Lisa assentiu.
    Grace se aproximou do elevador. Ainda estava rebuscando na maleta em busca dos arquivos quando se abriram as portas.
    Sem emprestar muita ateno, entrou em ao elevador e, de forma automtica, apertou o boto da planta baixa.
    Justo quando as comporta se fecharam, precaveu-se de que no estava sozinha.
    Rodney Carmichael estava justo em frente, olhando-a fixamente.
    - Me vais dizer quem  ele?
    Grace ficou geada enquanto a invadiam o terror e a fria. Sentia desejos de despeda-lo! Mas embora sua altura fosse escassa para ser um homem, ainda lhe tirava 
uma cabea. 
    E era muito instvel.
    Ocultando o pnico, lhe falou com calma
    - O que faz voc aqui?
    Ele fez uma careta.
    - No me respondeste. Quero saber de quem era a roupa que havia em sua casa.
    - Isso no  de sua incumbncia.
    - No diga tolices! -chiou.
    balanava-se ao bordo da loucura e quo ltimo Grace precisava era que ele se afundasse no abismo enquanto estivessem encerrados no elevador.
    - Tudo o que te rodeia  meu assunto.
    Grace tentou fazer-se com o controle da situao.
    - me escute, senhor Carmichael. No lhe conheo de nada, e voc no me conhece . No entendo por que se obcecou comigo, mas quero que esta situao chegue a 
seu fim.
    Ele apertou o boto que detinha o elevador.
    - Agora, me vais escutar, Grace. Parecemos o um para o outro. Sabe igual a eu. 
    - Muito bem -lhe respondeu ela, tentando apazigu-lo-. vamos discutir isto em minha consulta. -E apertou o boto para que o elevador comeasse a mover-se de 
novo.
    Ele voltou a det-lo.
    - Falaremos aqui.
    Grace tomou uma profunda baforada de ar; as mos comeavam a lhe tremer. Tinha que sair dali sem zang-lo ainda mais.
    - Estaramos muito mais cmodos em minha consulta.
    Nesta ocasio, quando ela foi apertar o boto lhe agarrou a mo.
    - por que no fala comigo? -perguntou-lhe ele.
    - Estamos falando -respondeu Grace enquanto se aproximava lentamente ao intercomunicador.
    - Arrumado a que falas com ele, verdade? Arrumado a que passas horas rendo e fazendo Deus sabe que coisas com ele. me diga quem .
    - Senhor Carmichael...
    - Rodney! -gritou-. Maldita seja! Meu nome  Rodney.
    - Vale, Rodney. Vamos a...
    - Arrumado a que te ps suas sujas mos em cima, verdade? -perguntou-lhe enquanto a aprisionava no rinco, de costas ao telefone-. Quantas vezes te deitaste 
com ele desde que me conheceu, n?
    Grace se estremeceu ante o selvagem olhar daqueles olhos, pequenos e brilhantes. Estava perdendo o controle de sua mente. 
    Grace tentou agarrar o auricular mas, antes de poder aproximar-lhe  orelha, ele o agarrou.
    - Que coo est fazendo? -perguntou-lhe ele.
    - Necessita ajuda.
    Rodney estrelou o auricular contra o painel de botes.
    - No necessito nenhuma ajuda. S necessito que fale comigo.  que no me ouve? S necessito que fale comigo! -gritou, enquanto estrelava o telefone contra o 
painel, enfatizando cada palavra com um golpe. 
    Aterrorizada, Grace contemplou como o auricular se fazia pedaos. Rodney comeou a atirar do cabelo.
    - Beijou-te, sei. -Repetia uma e outra vez a mesma frase, enquanto se arrancava o cabelo a puxes.
    Santo Deus! Estava apanhada com um louco.
    E no havia sada.
    
    Julin retornou  consulta do Grace com o Palm Pilot.
    - Onde est Grace? -perguntou a Lisa ao no encontr-la em seu escritrio.
    - No se encontrou com ela? Saiu uns minutos depois que voc. Ia a seu carro. 
    Julin franziu o cenho.
    - Est segura?
    - Claro. Disse que se deixou uns informe ou algo.
    antes de poder lhe perguntar qualquer outra coisa, uma atrativa mulher afroamericana vestida com um conservador traje negro e com uma maleta na mo, entrou no 
escritrio.
    deteve-se na porta e se tirou um sapato com um chute, para esfregar o talo.
    - Definitivamente, hoje  segunda-feira -disse a Lisa-. S faltava ter que subir oito pisos pela escada porque o elevador se ficou entupido. E agora, que maravilhosas 
notcias tem para mim?
    - Ol, doutora Beth -a saudou Lisa alegremente, enquanto passava a mo sobre o livro de entrevistas-. Sua entrevista das nove  Rodney Carmichael.
    Julin ficou paralisado.
    - OH, no. Espere -disse Lisa-. Essa entrevista  da doutora Grace. A sua...
    - H dito Rodney Carmichael? -perguntou-lhe  secretria.
    - Sim. Chamou para trocar a entrevista.
    Julin no esperou a que Lisa terminasse de falar. Arrojou o Palm Pilot sobre o escritrio e saiu correndo do escritrio para o elevador. Com o corao pulsando 
desbocado, s podia pensar em chegar at o Grace o mais rpido possvel.
    Foi ento quando compreendeu que o rudo que tinha estado escutando era um alarme.
    Um calafrio de terror lhe percorreu as costas ao compreender o que tinha acontecido. Rodney tinha detido o elevador com o Grace dentro. Estava seguro.
    De repente, escutou-se um grito sufocado depois das portas fechadas do elevador.
    Com a viso nublada pela fria e o medo, atirou das portas at as abrir. 
    E ficou gelado.
    No se via o elevador. S um abismo negro, muito parecido ao livro. Pior ainda, baixar por ali seria como descender para seu inferno. Um inferno escuro, asfixiante 
e estreito. 
    Lutou para poder respirar e superar o medo.
    Em seu corao, sabia que Grace estava ali abaixo. S com um louco e sem ningum que a ajudasse.
    Apertando os dentes, deu um passo para trs e tomou impulsionou para alcanar de um salto os cabos.
    
    
     Grace apartou ao Rodney com um violento empurro.
    - No vou compartilhar te com ningum! -grunhiu ele, agarrando-a de novo pelo brao-.  minha.
    - No perteno a ningum -respondeu ela, propinndole um joelhada na entrepierna.
    O homem caiu de joelhos ao cho.
    Desesperada-se, Grace tentou subir pelas barras laterais para poder alcanar a trampilla do teto. Se pudesse chegar at ali...
    Rodney a agarrou pela cintura e a estrelou de costas contra o rinco.
    Com o rosto contrado pela fria, colocou os braos a ambos os lados do Grace.
    - me diga como se chama o homem que esteve dentro de ti, Grace! diga-me isso para que saiba a quem tenho que matar.
    Com um arrepiante olhar em seus olhos vazios, comeou a arranhar o rosto e o pescoo at fazer-se sangrar.
    - No sabe que  minha mulher? vamos estar juntos. Sei como cuidar de ti. Sei o que necessita. Sou muito melhor que ele!
    Grace se agachou, para afastar-se um pouco dele, tirou-se os sapatos de salto e os agarrou. No  que fossem as melhores arma, mas eram melhor que nada.
    - Quero saber com quem estiveste! -chiou ele.
    No mesmo instante em que Rodney dava um passo para trs, a trampilla se abriu. Grace olhou para cima.
    Julin se atirou do oco e caiu agachado como um sigiloso depredador. Rodeava-o um aura de perigosa tranqilidade, mas a expresso de seus olhos era ainda mais 
terrorfica. Iluminados pela ira do inferno, estavam cravados no Rodney com mortal determinao, e lanavam fogo.
    ficou em p lentamente, at endireitar de tudo.
    Rodney ficou paralisado ao ser consciente da altura do Julin.
    - Quem coo  voc?
    - O homem com o que ela esteve.
    Rodney abriu a boca pela surpresa.
    Julin olhou escuetamente ao Grace para assegurar-se de que se encontrava s e salva, e voltou sua ateno de novo ao Rodney, lanando um rugido.
    Esmagou ao tipo contra a parede com tanta fora que Grace pensou que tinham deixado um sinal nos painis de madeira.
    Julin o agarrou pela camisa e voltou a golpe-lo contra a parede.
    Quando falou, a frieza de sua voz fez que Grace se estremecesse.
    -  uma pena que no seja o suficientemente grande para poder te matar, porque quero verte morto -lhe disse apertando os punhos-. Mas pequeno ou no, se voltar 
a te encontrar perto do Grace outra vez ou faz que derrame uma s lgrima mais, no haver fora neste mundo nem no mais  frente que me impea de te fazer migalhas. 
Entendeste-o?
    Rodney lutou inutilmente para escapar dos punhos do Julin.
    -  minha! Matarei-te antes de que te interponha entre ns.
    Julin inclinou a cabea como se no pudesse acreditar o que acabava de ouvir.
    - Est louco?
    Rodney lanou uma patada ao ventre do Julin.
    Lhe deu um murro na mandbula com os olhos escurecidos. Rodney caiu enfraquecido ao cho.
    Enquanto Julin se agachava junto ao tipo, Grace suspirou aliviada. Tudo tinha acabado.
    -  melhor que te mantenha inconsciente -o ameaou Julin. 
    endireitou-se e abraou ao Grace at quase esmag-la.
    - Est bem, Grace?
    Ela no podia respirar mas, nesse momento, no lhe importava.
    - Sim, e voc?
    - Melhor, agora que sei que est bem.
    Uns minutos depois, a polcia conseguiu abrir as portas do elevador e Grace viu que tinham ficado apanhados entre dois pisos.
    Julin a elevou pela cintura e ela agarrou a mo que lhe tendia um policial para ajud-la a chegar at o cho.
    Uma vez esteve fora do elevador, franziu o cenho enquanto observava aos trs agentes que estavam ajudando ao Julin a tirar o corpo inconsciente do Rodney.
    - Como souberam que estvamos a?
    O agente de mais idade retrocedeu um passo e deixou que os outros dois homens elevassem ao Rodney para tir-lo.
    - A operadora do servio de emergncias nos chamou. Disse que parecia haver uma guerra no elevador.
    - E foi -respondeu ela, nervosa.
    - A quem algemamos?
    - Ao que est inconsciente.
    Enquanto Grace esperava que Julin chegasse a seu lado, observou a escurido que reinava no oco do elevador, por onde ele tinha baixado para chegar at ela. 
Era um espao muito reduzido.
    Recordou o olhar no rosto do Julin, a noite que apagou a luz. E a expresso alterada que tinha pouco antes, quando subiram a sua consulta.
    Ainda assim, tinha vindo a resgat-la.
    Afligida, sentiu que os olhos lhe enchiam de lgrimas.
    foi capaz de passar por isso para me proteger.
    logo que saiu do elevador, Grace o abraou com fora.
    Julin tremia por causa da fora das emoes que sentia. Estava to aliviado ao v-la s e salva... A agarrou pela cintura e a beijou.
    - No!
    Julin a soltou no mesmo instante que Rodney escapava de uma patada do policial. As algemas lhe penduravam de uma das bonecas enquanto se fazia com a pistola 
do agente e apontava. 
    Acostumado a reagir em metade de uma batalha, Julin agarrou ao Grace e a empurrou para a esquerda no instante em que Rodney disparava.
    O disparo passou roando-os, e foi seguido por outros dois mais. Outro dos agentes, o de mais idade, tinha disparado ao Rodney.
    Grace tentou aproximar-se, mas Julin o impediu.
    Manteve-a pega a ele, com o rosto enterrado em seu peito, enquanto observava como Rodney morria.
    - No olhe, Grace -sussurrou-. H certas lembranas que no precisa conservar. 
    
    
    Captulo 13
    
    - Sim, Selena -lhe respondeu Grace por telefone enquanto se vestia para ir trabalhar-. J aconteceu uma semana. Estou bem.
    - Pois no o parece -replicou Selena, incrdula-. Tem a voz tremente.
    E realmente ainda no o tinha superado de tudo. Mas estava bem, graas ao Julin e ao feito de no ter visto morrer ao pobre Rodney Carmichael.
    Uma vez a polcia teve acabado com os interrogatrios, Julin a levou a casa e ela tinha procurado no pensar muito no acontecido.
    - De verdade. Estou bem.
    Julin entrou na habitao.
    - vais chegar tarde. -Tirou-lhe o auricular da mo e lhe ofereceu uma bolacha-. Acaba de lhe vestir -lhe disse, e comeou a falar com a Selena.
    Grace franziu o cenho quando Julin saiu da habitao; j no podia escutar a conversao. 
    Enquanto se vestia, caiu na conta do cmoda que se sentia junto ao Julin. adorava o ter a seu redor, cuid-lo e que ele a cuidasse. A reciprocidade de sua relao 
era maravilhosa.
    - Grace -lhe disse, aparecendo a cabea pela porta-. vais chegar tarde.
    Ela riu e ficou os sapatos de salto.
    - J vou, j vou.
    Quando atravessaram a porta principal Grace viu que ele no se ps os sapatos.
    - No vais vir hoje comigo?
    - Necessita-me?
    Ela duvidou. No fundo adorava almoar junto a ele e brincar entre paciente e paciente. Mas claro, seguro que para ele sentar-se horas seguidas esperando-a era 
muito aborrecido. 
    - No.
    Lhe deu um beijo faminto.
    - At a noite.
    A contra gosto, apressou-se para o carro.
    Foi um dos dias mais compridos da histria. Grace o passou sentada depois do escritrio, contando os segundos que faltavam para acompanhar a seus pacientes at 
a porta.
s cinco em ponto, jogou a pobre Rachel do escritrio, recolheu rapidamente todas suas coisas e partiu a casa.
    No demorou muito em chegar. Franziu o cenho quando viu a Selena, que a esperava no alpendre dianteiro.
    - passou algo? -perguntou-lhe Grace ao aproximar-se.
    - Nada de importncia. Mas te darei um conselho: rompe a maldio. Julin  um tesouro. 
    Grace a olhou ainda mais carrancuda enquanto Selena se afastava para seu Jipe. Confundida, abriu a porta para entrar em casa.
    - Julin? -chamou-o.
    - Estou na habitao.
    Grace subiu as escadas. Encontrou-o convexo sobre a cama em uma postura muito mais que deliciosa, com a cabea apoiada em uma mo. Havia uma rosa vermelha diante 
dele. Estava incrivelmente sedutor e maravilhoso com aquelas covinhas e essa luz em seus celestiales olhos azuis, que nesses momentos eram decididamente perversos. 
    - Tem toda a aparncia do gato que se comeu ao canrio -lhe disse em voz baixa-. O que estivestes fazendo Selena e voc hoje?
    - Nada.
    - Nada -repetiu ela, ctica. E por que no acreditava? Porque Julin tinha a aparncia de um menino que acaba de fazer uma travessura.
    Seu olhar baixo at a rosa.
    -  para mim?
    - Sim.
    Ela sorriu ante sua direta e cortante resposta. Deixou cair seus sapatos ao lado da cama e se tirou as mdias.
    Ao elevar a vista, captou o olhar do Julin que tinha estirado o pescoo para no perder-se nada. Ele voltou a sorrir. 
    Grace agarrou a rosa e aspirou seu doce aroma.
    -  uma surpresa encantadora -disse, beijando-o na bochecha-. Obrigado.
    - Alegra-me que voc goste de -sussurrou, lhe acariciando o queixo.
    Grace se afastou com relutncia e cruzou a habitao para depositar a rosa sobre a cmoda, e abrir a gaveta superiora.
    ficou paralisada. Sobre a roupa havia um pequeno exemplar do Peter Po, adornado com um grande lao vermelho. 
    Boquiaberta, agarrou-o e desatou o lao. Ao passar a primeira pgina, seu corao deixou de pulsar um instante.
    - OH meu Deus!  uma primeira edio, e assinada!
    - Voc gosta?
    - Que se eu gosto? -respondeu-lhe com os olhos umedecidos-. Julin!
    jogou-se sobre ele e depositou uma chuva de beijos sobre seu rosto.
    -  to maravilhoso! Obrigado!
    E pela primeira vez, Grace o viu envergonhado.
    - Isto ... -sua voz se desvaneceu ao olhar para o vestidor. A porta estava entreabierta e a luz do interior acesa.
    No podia haver...
    Muito lentamente, Grace se aproximou. Abriu a porta e olhou dentro.
    Os olhos lhe encheram de lgrimas de alegria e a invadiu uma quebra de onda de calidez. As estanteras estavam de novo cheias de livros. A mo lhe tremia enquanto 
acariciava os lombos de sua nova coleo. 
    - Isto  um sonho? -sussurrou.
    Sentiu ao Julin atrs dela. No a estava tocando, mas podia perceb-lo com cada poro, com cada sentido de seu corpo. No era nada fsico mas conseguia que a 
terra tremesse sob seus ps. E a deixava sem flego.
    - No pudemos encontr-los todos, especialmente as edies de bolso, mas Selena me assegurou que conseguimos os mais importantes.
    Uma nica lgrima descendeu pela bochecha do Grace ao ver as cpias dos livros de seu pai. Como os tinham podido consegui-los?
    O corao lhe pulsava com fora enquanto via seu ttulos favoritos: Os trs Mosqueteiros, Beowulf, A Letra Escarlate, O Lobo e a Pomba, Armas de Cavalheiro, 
Faltam, Amores em Perigo... e seguiam e seguiam at deix-la aturdida.
    Afligida e com uma sensao de enjo, deixou que as lgrimas corressem por seu rosto.
    deu-se a volta e se lanou aos braos do Julin.
    - Obrigado -soluou-. Como...? Como o tem feito?
    Ele se encolheu de ombros, e elevou uma mo para lhe enxugar as lgrimas. Nesse momento, Grace se deu conta de que algo faltava em sua mo.
    - Seu anel no -murmurou enquanto contemplava o sinal esbranquiado no dedo de sua mo direita, onde tinha levado o anel-. me Diga que no o tem feito. 
    - S era um anel, Grace.
    No, no o era. Ela recordava a expresso de seu rosto quando o doutor Lewis quis comprar o Julin not cmo, poco a poco, perda el control. La locura lo asaltaba 
dolorosamente, le atravesaba la cabeza al mismo tiempo que la entrepierna. 
    "Jamais" -havia dito ele- "No sabe pelo que aconteceu consegui-lo"
    Mas Grace sim sabia depois de ter escutado as histrias de seu passado. E o tinha vendido por ela.
    Tremendo, ficou nas pontas dos ps e o beijou com ferocidade.
    Julin ficou gelado ao sentir seus lbios. Jamais se tinha entregue a ele daquele modo. Fechou os olhos, afundou as mos em seu cabelo para deixar que lhe acariciasse 
os braos, e gemeu ante o assalto do Grace. 
    A cabea do Julin comeou a dar voltas ao saborear sua boca, ao sentir o corpo do Grace pego ao dele, ao ser consciente da ferocidade de seu beijo, que nunca 
antes tinha experiente; jamais lhe tinham beijado assim...
    At sua alma maldita se estremeceu.
    Nesse momento, desejou poder permanecer sereno durante mais tempo. No queria viver outro segundo mais separado do Grace. No podia imaginar-se um s dia sem 
que ela estivesse a seu lado. 
    Julin notou como, pouco a pouco, perdia o controle. A loucura o assaltava dolorosamente, atravessava-lhe a cabea ao mesmo tempo que a entrepierna. 
    Ainda no! Gritou sua mente. No queria que esse momento terminasse. Agora no. No quando ela estava to perto.
    To perto... mas no tinha opo
    Separou-a da m vontade.
    - J vejo que te gostou do presente, no?
    Ela riu.
    -  obvio que me gostou. Julin, est louco. -Passou-lhe os braos ao redor da cintura e apoiou a cabea sobre seu peito.
    Julin se estremeceu enquanto umas desconhecidas emoes faziam vibrar seu corpo. Envolveu-a entre seus braos e sentiu como seus coraes pulsavam ao unssono.
    Se pudesse, ficaria assim, abraando-a para toda a eternidade. Mas no podia. Retrocedeu um passo. Ela o olhou com uma sobrancelha elevada. Julin apagou com 
uma carcia as rugas de preocupao que se formaram na frente do Grace.
    - No te estou rechaando, carinho -lhe sussurrou-. O que ocorre  que no me sinto muito bem neste momento.
    -  a maldio?
    Ele assentiu.
    - Posso te ajudar?
    - me d um minuto para control-lo.
    Grace se mordeu o lbio enquanto o observava aproximar-se da cama. Era a nica vez que Julin no parecia mover-se com sua habitual elegncia e fluidez. Dava 
a impresso de que logo que podia respirar, como se tivesse uma terrvel dor de estmago. Agarrou com tanta fora o poste da cama que os ndulos lhe puseram brancos. 
    A dor se apoderou do Grace ante aquela imagem e quis reconfort-lo. Queria ajud-lo mais que nunca. De fato queria... O queria a ele. E ponto. 
    Abriu a boca ante o repentino impacto de seus pensamentos. Amava-o.
    Profunda, verdadeira e totalmente. Amava-o. Como no ia amar o?
    Com o corao enlouquecido, Grace deslizou o olhar sobre os livros do vestidor. As lembranas a assaltaram: Julin a noite que apareceu e lhe ofereceu; Julin 
lhe fazendo o amor na ducha; Julin tranqilizando-a, fazendo-a rir; Julin descendo pela trampilla do elevador para resgat-la; Julin convexo na cama com a rosa, 
observando-a enquanto ela descobria seus presentes. 
    Selena tinha razo. Era o major dos tesouros e no queria deix-lo partir. 
    Esteve a ponto de dizer-lhe mas se conteve. No era o momento. No quando estava suportando uma tremenda agonia. No quando era to vulnervel.
    Ele quereria sab-lo.
    Ou no?
    Grace considerou as conseqncias de sua possvel confisso. Ao Julin no gostava desta poca, estava claro. Queria ir-se a casa. Se lhe confessava quais eram 
seus sentimentos, ele ficaria por essa razo; mas no seria justo, porque quase o faria por obrigao. Possivelmente algum dia acabasse ressentido com ela por lhe 
haver negado a possibilidade de retornar ao mundo que uma vez conheceu. Ao que tinha sido. 
    Ou pior ainda, e se sua relao no funcionava?
    Como psicloga, sabia melhor que ningum os problemas que podiam ocasionar-se em um casal, e como podiam acabar destruindo-a.
    Uma das causas mais freqentes de ruptura era a falta de interesses comuns; casais que se mantinham unidas pela simples atrao fsica e que acabam separando-se. 
    Julin e ela eram completamente diferentes. Ela era uma psicloga do sculo XXI e ele era um maravilhoso geral macedonio do sigo II a.C. Era como falar de emparelhar 
a um peixe e um pssaro!
    Jamais tinham existido duas pessoas mais diferentes no mundo que tivessem sido obrigadas a permanecer juntas. 
    Nesse momento estavam desfrutando da novidade da relao. Mas no se conheciam absolutamente. E se dentro de um ano descobriam que no estavam apaixonados?
    E se ele trocava uma vez acabassem com a maldio?
    Julin lhe havia dito que na Macednia era um homem totalmente distinto. O que ocorreria se parte de seu encanto ou da atrao que sentia por ela se deviam  
maldio? Segundo Cupido, a maldio fazia que Julin se sentisse irremediavelmente atrado para ela.
    E se rompiam a maldio e ele se convertia em uma pessoa diferente? Em algum que no queria estar com ela?
    O que passaria ento?
    Uma vez rechaasse a oportunidade de retornar a seu lar, Grace sabia que no teria outra ocasio de voltar. 
    esforou-se por respirar quando caiu na conta de que jamais poderia lhe dizer: "Tentemo-lo e vejamos se funcionar". Porque uma vez tomassem a deciso, no haveria 
volta atrs. 
    Grace tragou e desejou ser capaz de ver o futuro, como Selena. Mas at ela se equivocava s vezes. No podia permitir um equvoco; Julin no o merecia.
    No, teria que haver outra razo de peso para que ele ficasse. Ele teria que am-la tanto como ela o amava.
    E isso era to provvel quanto o cu se derrubasse sobre a terra nos prximos dez minutos. 
    Fechou os olhos e se encolheu ante a verdade. Julin jamais seria dele. De uma forma ou outra, teria que deix-lo partir.
    E isso acabaria com ela.
    Julin soltou um suspiro entrecortado e soltou o poste da cama. Olhou ao Grace com um leve sorriso.
    - Isso doeu -lhe disse.
    - Dei-me conta -lhe respondeu Grace aproximando-se dele, mas Julin se afastou como se acabasse de tocar a uma serpente. 
    Ela deixou cair a mo.
    - vou preparar o jantar.
    Julin a observou enquanto saa da habitao. Desejava tanto ir atrs dela que apenas se podia conter-se. Mas no se atrevia.
    Necessitava um pouco mais de tempo para serenar-se. Mais tempo para aplacar o fogo maldito que ameaava devorando-o. 
    Meneou a cabea. Como podiam as carcias do Grace lhe insuflar tanta fora e ao mesmo tempo deix-lo to dbil?
    
    Grace acabava de preparar uma sopa de sobre e uns sndwiches quando Julin entrou na cozinha.
    - Sente-se melhor?
    - Sim -lhe respondeu enquanto se sentava  mesa.
    Grace removeu sua sopa com a colher e o observou comer. Seu cabelo refletia a luz do sol do entardecer e o fazia parecer ainda mais claro. sentava-se com uma 
postura muito erguida, e o mais leve de seus movimentos despertava uma quebra de onda de desejo nela. Poderia passar-se todo o dia contemplando o desse modo e no 
se cansaria.
    No. O que em realidade desejava era levantar-se da cadeira, aproximar-se dele, sentar-se em seu regao e lhe passar as mos por essas maravilhosas ondas douradas 
enquanto o beijava ardorosamente. 
    Deixa-o j! Se no se controlava, sucumbiria  tentao!
    - Sabe? -disse-lhe, insegura-. estive pensando... E se ficasse aqui? To mau seria viver em minha poca?
    O olhar que lhe dedicou fez que se sufocasse.
    - J falamos que isto. Este  no  meu mundo; no o compreendo, no entendo seus costumes. Sinto-me estranho, e dio essa sensao. 
    Grace se esclareceu garganta. De acordo, no voltaria a mencionar o tema. 
    Suspirando, agarrou o sndwich e comeou a comer-lhe embora o nico que gostava de era discutir.
    Uma vez acabada o jantar, Julin a ajudou a limpar a cozinha. 
    - Quer que te leia? -perguntou-lhe.
    - Claro -lhe respondeu.
    Mas Grace sabia que algo ia mau. Estava-lhe ocultando algo; mostrava-se quase frio.
    No o tinha visto assim desde que o conheceu.
    Grace subiu, agarrou seu livro novo do Peter Po e voltou a baixar. Julin j estava convexo no cho, empilhando as almofadas.
    Ela se acomodou no cho, perpendicular a ele e recostou a cabea sobre seu estmago. Passou a primeira pgina e comeou a ler.
    Julin escutou a voz suave e melodiosa do Grace, e no deixou de olh-la um s instante. Observava como seus olhos danavam sobre as pginas enquanto lia. 
    prometeu-se no toc-la mas, contra sua vontade, alargou um brao e comeou a lhe acariciar o cabelo. O contato de seu cabelo sobre a pele o inflamou e fez que 
seu entrepierna se endurecesse ainda mais, desejando dolorosamente possui-la. 
    Enquanto os escuros e sedosos fios acariciavam seus dedos, deixou que a voz do Grace o afastasse dali e o levasse a um lugar acolhedor. sentia-se nesse lar esquivo 
que tinha aoitado durante toda a eternidade. 
    Um lugar aonde s existiam eles dois. Sem deuses nem maldies.
    Maravilhoso.
    Grace arqueou uma sobrancelha quando notou que a mo do Julin se separava de seu cabelo e lhe desabotoava o boto superior da camisa. Conteve a respirao e 
aguardou espectador, mas ainda assim no estava muito segura de suas intenes. 
    - O que est...?
    - Segue lendo -lhe disse enquanto acabava de desabotoar o boto.
    Com o corpo cada vez mais acalorado, Grace leu o seguinte pargrafo. Julin lhe desabotoou o seguinte boto.
    - Julin...
    - L.
    Ela leu outro pargrafo enquanto sua mo descendia at o seguinte boto. Suas aes lhe faziam perder o controle e respirava entrecortadamente com o corao 
pulsando a um ritmo cada vez mais frentico.
    Elevou o olhar e se encontrou com os olhos famintos do Julin.
    - O que  isto? Uma sesso de leitura com striptease includo? Eu leio um pargrafo e voc desabotoa um boto?
    Como resposta, Julin deslizou uma clida emano por cima do prendedor at cobrir com ternura um de seus peitos. Grace gemeu de prazer quando ele comeou a acarici-la 
por cima do cetim e a pele de seus braos se arrepiou ante o calor que emanava dele. 
    - L -lhe ordenou de novo.        
    - Sim, claro. Como se pudesse ler enquanto voc...
    Nesse momento, Julin lhe desabotoou o fechamento dianteiro do prendedor e cobriu seu peito nu com uma mo.
    - Julin!
    - me leia, Grace. Por favor.
    Como se fosse possvel!
    Mas a splica que tingia sua voz lhe chegou ao corao. Obrigando-se, concentrou-se no livro e Julin seguiu acontecendo as mos sobre sua pele.
    Suas carcias eram relaxantes e doces. Sublime. No se pareciam em nada s que usava para inflam-la e seduzi-la, eram algo muito diferente. alm dos limites 
da carne. Envolviam diretamente ao corao.
    depois de um tempo, acostumou-se aos crculos que Julin riscava ao redor de seus peitos, de seus mamilos e de seu umbigo. perdeu-se no instante, na estranha 
intimidade que estavam compartilhando. 
    Acabou o livro perto das dez. Julin passou os ndulos sobre um endurecido mamilo enquanto ela deixava o livro a um lado.
    - Seus peitos so preciosos.
    - Alegra-me que diga isso. -Escutou que o estmago do Julin rugia sob sua orelha-. Me d a sensao de que tem fome.
    - A fome que tenho no pode ser saciada com comida.
    O rosto do Grace adquiriu um tom escarlate.
    Ele deslizou as mos desde seu umbigo at a garganta, uma vez ali riscou a linha da mandbula e subiu at o cabelo. Com os polegares, desenhou o contorno de 
seus lbios.
    - Que estranho -disse-. S quando me beija chego ao bordo do abismo. 
    - Como?
    Baixou as mos de novo at seu ventre.
    - Adoro a sensao de sua pele contra a minha. A suavidade de seu corpo sob minha mo -lhe confessou em voz baixa-. Mas s quando seus lbios roam meus sinto 
que perco o controle. A que crie que se dever?
    - No sei.
    Nesse momento soou o telefone.
    Julin lanou uma maldio.
    - dio essas intrigas.
    - Eu estou comeando a odi-los tambm.
    Julin retirou a mo para que Grace pudesse levantar-se.
    Ela a agarrou e a voltou a pr sobre seu peito.
    - Deixa-o que soe.
    Ele sorriu ante sua atitude e inclinou a cabea, aproximando a  sua. Seus lbios estavam to perto que Grace podia sentir seu flego no rosto. De repente, Julin 
retrocedeu bruscamente.
    Ela viu a agonia, o desejo em seus olhos um instante antes de que os fechasse e apertasse os dentes como se lutasse para conter-se.
    - v responder o telefone -sussurrou, liberando-a. Grace ficou em p; tremiam-lhe tanto as pernas que apenas se a sustentavam. Cruzou a habitao e agarrou o 
sem fio enquanto se tampava os peitos com a camisa. 
    - Ol, Selena.
    Julin a escutou falar com o corao pesado como o chumbo, lutando contra o fogo que o arrasava. 
    Quo ltimo queria era deixar este refgio. Jamais tinha desfrutado tanto em sua vida como desde que conheceu o Grace. E agora estava ansioso por passar com 
ela cada segundo do tempo que dispunham para estar juntos. 
    - Espera e lhe pergunto. -Grace voltou para seu lado-. Selena e Bill querem saber se gostaria de sair com eles na sbado. 
    - Voc decide -lhe respondeu Julin, esperando que declinasse o convite.
    Ela sorriu e se colocou de novo o telefone na orelha.
    - Isso sonha genial, Selena. Ser muito divertido... Vale. Vemo-nos ento. -Deixou o telefone em seu stio-. Vou me dar uma ducha rpida antes de ir  cama. 
Vale?
    Julin assentiu. Observou-a subir as escadas. Desejava mais que nunca voltar a ser mortal.
    Daria algo por poder segui-la nesse momento, tombar-se junto a ela na cama e enterrar-se profundamente em seu corpo. 
    Fechando os olhos poderia jurar que era capaz de sentir a umidade do Grace rodeando-o. 
    Se mes o cabelo. Quantos dias mais poderia suportar esta tortura?
    Mas queria lutar contra ela. negava-se a render-se, a entregar sua prudncia um segundo antes do prazo que as Parcas tinham decretado.
    
    Grace sentiu a presena do Julin. girou-se e o viu de p junto  banheira, completamente nu.
    Grace deixou que seu olhar se recreasse com avidez em cada centmetro daquele corpo bronzeado, mas foi seu sorriso, clida e fascinante, a que lhe roubou o corao 
e a deixou sem flego. 
    Sem dizer uma s palavra, ele se meteu na ducha.
    - Sabe? -comentou com uma naturalidade que a deixou pasmada-. Esta manh encontrei algo interessante.
    Ela observou como a gua escorregava sobre ele, lhe molhando o cabelo at convert-lo em uma massa de cachos midos que caam sobre seu rosto. 
    - Sim? -respondeu ela, resistindo ao impulso de elevar o brao e agarrar um de seus cachos. Ou melhor ainda, mordisc-lo. 
    - Mmm -murmurou Julin, deslizando a mo pelo cordo da ducha at tirar a de seu suporte na parede. Girou at encontrar a posio de uma ligeira massagem-. Date 
a volta.
    Grace duvidou antes de lhe obedecer.
    Julin deslizou seu olhar por suas costas nua e mida. Jamais tinha visto uma mulher mais tentadora em todos os dias de sua vida.
    Era tudo o que tinha sonhado, mas que no podia nem sequer desejar. No se atrevia. Era um sonho longnquo. 
    Baixou os olhos at suas voluptuosas curvas. Tinha as pernas ligeiramente abertas. Uma imagem dele separando-lhe e inundando-se nela se abriu passo em sua mente. 
    Esforando-se por manter a respirao, aproximou o travesseiro da ducha at os ombros do Grace. 
     - Isso  estupendo -murmurou ela.
    Julin no podia falar. Mantinha a mandbula fortemente apertada para controlar as vorazes exigncias de seu corpo. Sua necessidade de toc-la era to funda 
que fazia que a fome e a sede que padecia enquanto permanecia no livro fossem uma brincadeira. 
    Grace se deu a volta para olh-lo; seu rosto resplandecia. Alargou o brao para agarrar a manopla que se encontrava no suporte, detrs do Julin. Ele no se 
moveu enquanto o lavava, passando as mos por seu peito e seu abdmen, avivando a fogueira do desejo que sentia por ela.
    Conteve a respirao, antecipando o momento em que sua mo baixasse mais e mais. 
    Grace se mordeu o lbio ao tocar os duros abdominais. Olhou para cima e viu que Julin a observava. Tinha os olhos mdio fechados e parecia estar saboreando 
cada carcia que suas mos deixavam sobre seu corpo. 
    Desejando agrad-lo, passou a manopla sobre os cachos escuros de seu entrepierna. Julin ofegou quando tomou entre suas mos com suavidade. Ela sorriu ao sentir 
o repentino estremecimento que agitou seu corpo. 
    A expresso de supremo prazer que se via em seu rosto fez que Grace se sentisse deslumbrada. Com o corao acelerado, deslizou a mo para cima, para poder acariciar 
seu membro inchado. 
    Escutou como a ducha golpeava a banheira um segundo antes de que ele a envolvesse entre seus braos e enterrasse os lbios em seu pescoo. 
    Grace tremeu ante a sensao de seus corpos midos, nus e entrelaados. O amor que sentia por ele fluiu por suas veias, rogando que acontecesse um milagre que 
lhes permitisse passar a vida juntos.
    Nesse instante, desejou poder senti-lo em seu interior. Sentir como o tomava posse de seu corpo da mesma forma que se deu procurao de seu corao.
    Enquanto a torturava com os lbios deliciosamente, enterrou uma coxa entre suas pernas e a sensao do plo sobre sua carne fez que o sentido comum do Grace 
acabasse por derreter-se. 
    Enfebrecida, Grace se esfregou contra sua coxa e se deleitou ao mover-se contra os duros msculos que se contraam sob suas pernas enquanto seguia lambendo seu 
pescoo. Quanto amava a este homem. Como desejava lhe escutar dizer que significava para ele tanto como ele para ela. 
    Julin passou as mos ao longo das costas do Grace e logo as moveu para o fronte. 
    Seu olhar a abrasava enquanto a ajudava a sentar-se na banheira.
    - O que est h...? -sua pergunta acabou com um ofego ao sentir a lngua do Julin na orelha.
    Grace percebeu a tenso nos msculos de seu brao dele quando agarrou o travesseiro da ducha e voltou a atormentar seu corpo com seu lhe pulsem calor. Moveu-o 
lentamente, riscando crculos sensuais sobre seus peitos e seu ventre. Avivada pela estimulao da gua e o corpo do Julin, Grace lutava por respirar. 
    Julin tremia pela necessidade. Queria agradar ao Grace como jamais tinha querido faz-lo com ningum. Desejava v-la retorcer-se baixo ele. Escut-la gritar 
quando chegasse ao clmax.
    Julin lhe separou as coxas com o cotovelo e deixou que a gua da ducha casse diretamente entre suas pernas.
    Grace emitiu um entrecortado gemido ao ser assaltada por uma indescritvel quebra de onda de prazer.
    - Julin? -ofegou, enquanto seu corpo se estremecia. Os dedos do Julin a penetraram e comearam a mover-se em seu interior de uma vez que os jorros de gua 
intensificavam suas carcias.
    Jamais, jamais tinha experiente um pouco parecido. Julin girava a boneca fazendo que a gua casse sobre ela em pequenos movimentos circulares, at que j no 
pde mais. 
    Quando alcanou o orgasmo um segundo depois, gritou aliviada.
    Julin sorriu e manteve seu corpo completamente imvel para no possui-la. Ainda no tinha acabado com ela. Jamais poderia acabar com ela.
    Com as mos, a lngua e o travesseiro da ducha fez que Grace desfrutasse de cinco orgasmos mais.
    - Por favor -lhe rogou ela depois do ltimo-. Tenha compaixo. No posso mais.
    Decidindo que j tinham tido os dois suficiente tortura, Julin se girou e cortou a gua.
    Grace era incapaz de mover-se. Qualquer sensao, por pequena que fora, a fazia estremecer-se. Observou como Julin ficava de p entre suas pernas e a olhava 
com um leve sorriso. 
    - Acaba de me matar -balbuciou-. Agora tem que enterrar o cadver.
    Ele riu ante a ocorrncia. Saiu da banheira, alargou os braos e a elevou.
    Grace ficou encantada ao sentir sua pele nua enquanto a levava at a cama e a secava com a toalha.
    Muito lentamente e com muito cuidado, utilizou o penhoar de um modo que Grace juraria que a ningum lhe tinha ocorrido antes. Passou-o sensualmente por seus 
ombros, seus braos e seus peitos, e depois descendeu at o estmago riscando sensuais espirais.
    - Abre suas pernas para mim, Grace.
    Sem fora de vontade alguma, ela obedeceu.
    Grace gemeu ao sentir a felpa sobre a trmula carne de seu sexo. Sbitamente o penhoar foi substitudo pelos dedos do Julin.
    - Julin, por favor. No acredito que possa suport-lo de novo.
    Ele no fez conta. Nem sequer seu prprio corpo teve em conta sua opinio. E para sua surpresa, um novo orgasmo a assaltou.
    Julin se inclinou e lhe sussurrou ao ouvido:
    - Poderamos seguir assim toda a noite.
    Ela o olhou aos olhos e ento se deu conta do alcance da maldio: seu membro estava ainda completamente ereto e tinha a frente coberta de suor.
    Como podia suportar v-la correr uma e outra vez sabendo que ele no poderia faz-lo?
    Pensando to somente no amor que sentia por ele, incorporou-se at ficar sentada e o beijou.
    Julin se tornou atrs com um movimento violento. Caiu ao estou acostumado a agitando-se como se lhe golpeassem.
    Aterrorizada pelo que tinha feito, Grace desceu da cama.
    - Sinto-o -disse ao chegar junto a ele-. O esqueci.
    Julin se girou nesse instante para olh-la. Tinha os olhos daquela espantosa cor escura.
    Tremia como se estivesse lutando por afastar-se da loucura. Foi o medo no rosto do Grace o que finalmente o ajudou a acalmar-se.
    afastou-se dela como se fora venenosa.
    Grace o observou enquanto utilizava os degraus de sua cama como apoio para ficar em p.
    - Cada vez  pior -disse com voz afogada.
    Grace no podia falar. No podia suportar v-lo sofrer daquela maneira. E se odiava a si mesmo por hav-lo levado at o bordo do abismo.
    Sem olh-la sequer, Julin recolheu sua roupa e saiu da habitao.
    Passaram vrios segundos antes de que Grace pudesse mover-se. Quando finalmente conseguiu ficar de p, abriu a cmoda para tirar um pouco de roupa e seus olhos 
ficaram cravados sobre a caixa que continha os grilhes.
    Quantos dias mais teriam antes de que o perdesse para sempre?
    
    
    Captulo 14
    
    Os dias seguintes foram os melhores da vida do Grace. Uma vez se acostumou  regra que Julin imps, que proibia os beijos e as carcias ntimas e incitantes, 
desenvolveram uma relao agradvel que foi quase uma surpresa para ela. 
    Passava os dias no trabalho, almoava freqentemente com o Julin e Selena, e dedicava as noites a tombar-se entre seus maravilhosos braos.
    Entretanto, com cada dia que passava, saber que ia abandonar a final do ms a deixava destroada.
    Como ia suportar o?
    Embora a idia no abandonava nunca sua mente, negou-se a pensar nisso constantemente. Viveria o momento e se preocuparia do manh quando chegasse.
    na sbado de noite ficaram com a Selena e Bill no Tip's, no Bairro Francs. Embora com bastante mais afluncia de turistas que o original Tippitinas's, era a 
noite do Zydeco e ela queria que Julin escutasse a msica que Nova Orlens fazia famosa.
    - N! -Disse-lhes Selena enquanto se aproximavam da mesa, no fundo do local-. Comeava a me perguntar se eis deixar nos pendurados.
    Grace se sentiu avermelhar ao recordar o motivo de seu atraso. Algum dia destes aprenderia a fechar a porta do banho enquanto tomava banho...
    - Ol Julin, Grace -lhes saudou Bill.
    Grace sorriu ao ver o estuque do brao do Bill que Selena tinha decorado com pintura fluorescente.
    Julin inclinou a cabea a modo de saudao enquanto retirava uma cadeira para que Grace se sentasse e, depois, fez o prprio a seu lado. Assim que apareceu 
o garom pediram cervejas e nachos, e Selena comeou a seguir o ritmo da msica golpeando a mesa com a mo.
    - Vamos, Lane -disse Bill, mal-humorado-. Ser melhor que dancemos antes de que tenha que te matar por esse ruidito insuportvel.
    Com uma ligeira pontada de inveja, Grace observou como se afastavam.
    - Voc gostaria de danar? -perguntou-lhe Julin.
    lhe encantava danar, mas no queria que Julin passasse um mau momento. Em sua mente no havia dvidas de que ele no sabia danar msica moderna. Mas, ainda 
assim, foi um convite muito tenro por sua parte.
    - No, no passa nada.
    Mas ele no a escutou. ficou em p e lhe tendeu a mo.
    - Sim, claro que vais danar.
    logo que chegaram  pista de baile, Grace compreendeu que aquele homem danava to bem como beijava.
    Julin conhecia cada passo e dava a sensao de que tinha nascido danando. De fato, seus movimentos eram elegantes sem perder o toque masculino e fascinante. 
Grace nunca tinha visto ningum danar assim. E pelos invejosos olhares femininos que sentia cravadas nela, podia imaginar-se que todas aquelas mulheres tampouco 
tinham presenciado antes nada semelhante.  
    Quando o grupo terminou de tocar se sentia excitada e estava sem flego.
    - Como...?
    - Foi o presente do Terpscore -lhe respondeu Julin enquanto lhe acontecia o brao pelos ombros e a mantinha fortemente pega a seu corpo.
    - De quem?
    - Da musa da dana. 
    Grace sorriu. 
    - me recorde que lhe envie uma nota de agradecimento.
    Ao comear a seguinte cano, Julin olhou fixamente a sua esquerda e franziu o cenho.
    - Passa algo? -perguntou ela, enquanto seguia a direo de seu olhar.
    Ele meneou a cabea e se esfregou os olhos.
    - Devo estar vendo vises.
    - O que viu?
    Julin voltou a olhar entre a multido, procurando o homem loiro e alto que acabava de ver pela extremidade do olho. Embora logo que tinha captado sua imagem, 
juraria que se tratava do Kyrian da Tracia.
    Com algo mais de um e noventa de estatura, ao Kyrian sempre tinha resultado difcil perder-se entre a multido e, alm disso, seu modo de andar era bastante 
distintivo, j que tinha um aura letal. 
    Mas pensar que Kyrian estivesse nessa poca era algo impossvel. Devia ser a loucura que voltava a fazer racho nele; agora comeava a ver vises.
    - Nada -respondeu.
    Apartou o tema de sua mente e a olhou com um sorriso. A seguinte cano era lenta e a atraiu para seus braos, mantendo-a muito perto de seu corpo, ao tempo 
que se moviam brandamente ao ritmo da msica. Grace lhe rodeou o pescoo e apoiou a cabea em seu peito; podia inalar o quente aroma a sndalo que desprendia Julin. 
No sabia como, mas aquele aroma conseguia que perdesse a cabea por completo e que a boca lhe fizesse gua.
    Com a bochecha apoiada sobre a cabea do Grace, Julin comeou a lhe acariciar o cabelo enquanto ela escutava os batimentos do corao de seu corao. Grace 
poderia ficar assim para sempre.
    Mas a pea terminou muito logo. E depois de duas canes rpidas, Grace teve que retornar a seu assento. Simplesmente, no tinha a resistncia do Julin.
    Ao encaminhar-se para a mesa, deu-se conta de que Julin nem sequer tinha a respirao alterada; mas isso sim, sua frente estava coberta de suor.
    Lhe apartou a cadeira. sentou-se muito perto dela e agarrou sua jarra de cerveja para tomar um grande gole.
    - Julin! -disse Selena com uma gargalhada-. No tinha nem idia de que podia te mover assim.
    Bill ps os olhos em branco.
    - Pensamentos luxuriosos de novo, Lane?
    Selena lhe deu um murro a seu marido no estmago.
    - Sabe que no  isso. Voc  o nico brinquedo com o que gosta de jogar. 
    Bill olhou ao Julin com cepticismo.
    - Sim, claro.
    Grace viu como o rosto do Julin se escurecia.
    - Est bem? -perguntou-lhe.
    Lhe respondeu com seu sorriso infestado de covinhas e a ela lhe esqueceu a pergunta.
    Permaneceram sentados em silncio escutando ao grupo, enquanto Julin e Grace se ofereciam nachos o um ao outro.
    Quando Grace apartou a mo dos lbios dele, Julin a capturou e a levou de novo  boca para chupar um pouco de queijo que lhe tinha ficado pego na gema de um 
dedo. Passou a lngua sobre sua pele e Grace sentiu que o corpo lhe estalava em chamas.
    No pde mais que rir ao notar como o desejo a consumia. Como desejava haver ficado em casa. adoraria tirar a roupa ao Julin e lamber queijo fundido sobre seu 
corpo toda a noite!
    Definitivamente, ia acrescentar Cheez Whiz  lista da compra.
    Com os olhos brilhantes, Julin levou a mo do Grace at seu regao e comeou a lhe mordiscar o pescoo antes de apartar-se e tomar outro gole de cerveja. 
    - Selena -lhe disse Bill chamando a ateno de sua esposa, que estava olhando ao Grace e Julin. Ofereceu-lhe um guardanapo-. Seguro que quer te limpar a baba 
que te goteja pelo queixo. 
    Selena ps os olhos em branco.
    - Gracie, preciso ir ao banho. Vamos.
    Julin se tornou para trs para deix-la passar. Observou como Grace se perdia entre a multido e, quase imediatamente, as mulheres comearam a aproximar-se 
o - Nada -ronrone la rubia, mirndolo por ltima vez antes de darse la vuelta y marcharse.
    O estmago lhe contraiu. por que sempre tinham que revoar a seu redor? Nesse momento, desejou que por uma vez em sua vida pudesse sentar-se tranqilo sem ter 
que manter a raia a um punhado de mulheres, das quais nem sequer conhecia seus nomes, antes de que comeassem a sov-lo. 
    - Ol nen -paquerou uma atrativa loira, que foi primeira em chegar a seu lado-. Gosta de como dana. Que tal se...?
    - No estou sozinho -lhe respondeu ele, entrecerrando os olhos a modo de advertncia.
    - Com ela? -riu a mulher enquanto assinalava com um dedo para o lugar por onde Grace havia desparecido-. Venha j. Pensava que tinha perdido uma aposta ou algo 
assim.
    - Eu pensei que o fazia por pena -comentou outra mulher que se aproximou junto a uma moria.
    Dois homens surgiram nesse momento de entre a multido.
    - O que fazem aqui vocs trs? -perguntaram os tipos a suas companheiras.
    As mulheres contemplaram contritas ao Julin.
    - Nada -ronronou a loira, olhando-o por ltima vez antes de d-la volta e partir.
    Os homens o olharam furiosos.
    Ele elevou uma sobrancelha com um gesto zombador e tomou outro gole de cerveja com total normalidade. Os tipos deveram dar-se conta de que a idia de brigar 
com ele era bastante estpida, porque se reuniram com suas garotas e partiram. 
    Julin suspirou, aborrecido. Dava igual a poca em que se encontrasse, algumas costure no trocavam. 
    - Oua -lhe repreendeu Bill elevando-se um pouco por cima da mesa-. Sei que ultimamente aconteceste muito tempo com minha mulher. Por seu bem, espero que no 
te esteja metendo em meu territrio. Entendeste-me?
    Julin tomou uma funda baforada de ar. Bill no; ele no.
    - Se por acaso no o notaste, s estou interessado no Grace.
    - Sim, claro -resmungou Bill-. No tente me confundir; Grace me cai muito bem, mas no sou idiota. No posso acreditar que seja o tipo de homem que se conforma 
com um hambrguer quando tem um monto de suculentos lombos de vitela esperando-o.
    - Sinceramente, importa-me uma mierda o que cria. 
    Grace vacilou quando Selena e ela retornaram junto ao Julin e Bill. A tenso do Julin era evidente. Sustentava a cerveja com tanta fora que se surpreendia 
de que a garrafa no tivesse estalado, feita pedacinhos. 
    - Bill -lhe disse Selena enquanto lhe acontecia os braos ao redor do pescoo-. Te importaria muito se danar com o Julin?
    - Joder, claro que me importa.
    Imediatamente, Julin se desculpou e se aproximou da barra.
    Grace o seguiu com rapidez.
    Pediu outra cerveja justo quando ela chegou a seu lado.
    - Est bem? -perguntou-lhe.
    - Estupendamente.
    Mas no o parecia. Definitivamente, no parecia estar bem.
    - Sabe uma coisa? Sei quando no est sendo sincero comigo. E agora confessa, Julin. O que acontece?
    - Deveramos partir.
    - por que?
    Julin lanou um rpido olhar a Selena e Bill.
    - Acredito que seria o mais sensato.
    - por que?
    Julin grunhiu.
    antes de que pudesse lhe responder, trs homens apareceram atrs dele e, por suas expresses, Grace intuiu que no estavam muito contentes.
    Pior ainda, parecia que Julin era a fonte de todos seus problemas.
    O maior era um monstruoso culturista, sete centmetros mais baixo que Julin, mas bastante mais musculoso e volumoso. Fez uma espcie de careta ao olhar as costas 
do Julin de cima abaixo. E, nesse instante, Grace o reconheceu. 
    Paul.
    O corao comeou a lhe pulsar com rapidez. Fisicamente, tinha trocado muitssimo com os anos. Tinha a cara mais redonda, com rugas prematuras ao redor dos olhos, 
e tinha perdido muito cabelo. Mas ainda conservava o mesmo sorriso zombador.
    - Este era o que estava com o Amber -lhe disse um de seus coroinhas.
    Uma calma mortal rodeou ao Julin, fazendo que Grace se estremecesse de medo. Ela no sabia do que era capaz e, por isso estava vendo, Paul no tinha trocado 
por dentro tanto como por fora. Um niato de anncio, rodeado de seguidores, que sempre se movia com seu squito. Tudo o que fazia tinha que ser notrio para deixar 
claro seu poder. Com esse ego de fanfarro de praia, estava claro que no se iria at que conseguisse enredar ao Julin em uma briga.
    Quo nico esperava era que seu general tivesse mais sentido comum e no casse na armadilha.
    - Necessitam algo? -perguntou, sem olhar ao Paul nem a seus amigos. 
    Paul riu e aplaudiu a um dos seu no peito. 
    - Que acento  esse? Tem voz de apito. Pensava que o menino bonito ia detrs de minha garota, mas por sua pinta e por sua voz, acredito que ia detrs de um de 
vs. 
    Julin se girou e olhou furioso ao Paul. A qualquer outra pessoa com mais entendederas, esse olhar a teria feito retirar-se.
    Paul,  obvio, carecia de entendederas. No tinha tido nunca nenhuma pingo de sentido comum. 
    - O que passa contigo, menino bonito? -burlou-se Paul-. Te ofendi? -Olhou a seus amigos e meneou a cabea-. O que pensava;  uma joaninha covarde com voz de 
apito.
    Julin soltou uma gargalhada sinistra.
    - Venha Julin -lhe repreendeu Grace, agarrando-o do brao antes de que as coisas ficassem pior-. Vamos.
    Paul a olhou com aquela risita zombadora e ento a reconheceu.
    - V, v, v. Grace Alexander. Faz muito que no nos vemos. -Deu-lhe uma palmada nas costas ao tipo moreno que estava a seu lado-. Oua, Tom, lembra-te do Grace, 
a da faculdade? Seus braguitas brancas me fizeram ganhar nossa aposta.
    Julin ficou paralisado ante suas palavras.
    Grace sentia que a velha dor voltava, mas se negou a demonstr-lo. Jamais lhe daria esse gosto ao Paul de novo.
    - No sente saudades que fora detrs do Amber -seguiu Paul-. Provavelmente queria provar a uma mulher que no estivesse todo o momento chorando enquanto a atira. 
    Julin girou para o Paul com tal rapidez que Grace apenas se foi capaz de perceber o movimento. Paul se moveu um pouco mas Julin se agachou e lhe lanou um 
murro s costelas que o enviou at a multido, que se amontoava uns metros detrs deles. Com uma maldio, jogou-se em plena carreira para o Julin. Ele se inclinou 
um pouco, p-lhe a rasteira e o empurrou fazendo-o voar pelos ares. 
    Paul aterrissou sobre as costas.
    antes de que pudesse mover-se, Julin colocou o p sobre sua garganta e lhe sorriu com tal frieza que Grace comeou a tremer da cabea aos ps. 
    Paul agarrou o p do Julin com as duas mos e tentou apart-lo. Comeou a agitar-se pelo esforo, mas Julin no se apartou. 
    - Sabia...-lhe perguntou Julin com um tom de voz to pragmtico que era realmente lhe atemorizem-...que s so necessrios pouco mais de dois quilogramas para 
te esmagar o esfago por completo?
    Os olhos e os braos do Paul comearam a inchar-se quando Julin exerceu mais presso sobre seu pescoo. 
    - Tio, por favor -suplicou Paul enquanto tentava tirar o p do Julin de cima-. Por favor, no me faa mal, vale?
    Grace conteve o flego, aterrada, ao ver que Julin lhe pisava ainda com mais fora.
    Tom se aproximou deles.
    - lhe faa advertiu Julin- e te tiro o corao para que seu amigo o coma. 
    Grace ficou geada ao ver o olhar dos olhos do Julin. Este no era o homem tenro que o fazia o amor pelas noites. Este era o rosto do general que uma vez tinha 
mandado ao inferno aos romanos mais valentes. 
    No duvidava nem por um s instante que Julin podia levar a cabo a ameaa. E por quo rpido o sangue abandonou o rosto do Tom, Grace soube que o homem tambm 
acreditou. 
    - Por favor -voltou a implorar Paul, comeando a chorar-. Por favor, no me faa mal.
    Grace tragou saliva enquanto essas palavras a assaltavam; quo mesmas ela pronunciou chorando na cama do Paul. 
    Foi ento quando Julin a olhou aos olhos. Ela viu a fria e o desejo de acabar com o Paul. Por ela.
    - Deixa-o, Julin -lhe disse em voz baixa-. No merece a pena. A seu lado no vale nada.
    Julin olhou ao Paul com os olhos entrecerrados.
    - Os covardes inteis como voc so esquartejados como treinamento ali de onde venho. 
    Quando Grace pensava que ia matar o, Julin apartou o p.
    - te levante.
    Esfregando o pescoo, Paul ficou em p lentamente.
    O olhar glido e letal do Julin fez que Paul se encolhesse.
    - Deve-lhe uma desculpa a minha mulher.
    Paul se limpou o nariz com o dorso da mo.
    - Sinto muito.
    - Diga-o como se o sentisse de verdade -o ameaou Julin em voz baixa.
    - Sinto muito, Grace. De verdade. Sinto-o muitssimo.
    antes de que ela pudesse responder, Julin passou um brao por seus braos em um gesto possessivo e saram a passo tranqilo do local.
    Nenhum deles falou at que chegaram ao carro. Grace notava que algo ia muito mal com o Julin. Estava totalmente tenso, como a corda de um arco.
    - Oxal me tivesse deixado lhe mat-lo disse Julin, enquanto ela procurava as chaves do carro no bolso dos jeans.
    - Julin...
    - No tem nem idia do que me custa deix-lo partir. No sou o tipo de homem que est acostumado a deixar de lado uma situao como esta -confessou enquanto 
golpeava com fora o teto do carro com a palma da mo para depois girar-se rapidamente e lanar um grunhido-. Maldita seja, Grace! houve uma poca em que me alimentava 
das vsceras de tipos como esse. E passei que isso a...
    Julin duvidou um instante quando dois mil anos de lembranas reprimidas afluram a sua mente. Voltou a ver-se como o respeitado lder que foi. O heri da Macednia. 
O homem que uma vez conseguiu que legies completas de romanos se rendessem ante a simples apario de seu estandarte. 
    E depois viu no que se converteu. Em uma casca vazia. Em um cobiada mascote, submetida  vontade daquela que o invocasse.
    Durante dois mil anos tinha vivido sem emoes e sem pronunciar mais que um punhado de palavras.
    Tinha encontrado o ponto exato que lhe permitia sobreviver. E se tinha deixado arrastar.
    At que Grace chegou e descobriu sua faceta humana...
    Ela observou a mirade de emoes que cruzaram pelo rosto do Julin. Ira, confuso, horror e, finalmente, uma terrvel agonia. aproximou-se at o outro lado
do carro, onde ele estava, mas no deixou que o tocasse.
    -  que no o v? -perguntou-lhe com um tom brusco por causa das intensas emoes-. J no sei quem sou. Na Macednia sabia quem era; depois me converti nisto
-disse, enquanto elevava o brao para que Grace pudesse ver as palavras que Prapo gravou a fogo-. E voc o trocaste tudo -acabou, olhando-a fixamente.
    A angstia que refletiam seus olhos rasgava ao Grace.
    - por que tiveste que me trocar, Grace? por que no me deixou como estava? Tinha aprendido,  fora de vontade, a no sentir nada. Simplesmente vinha a este
mundo, fazia o que me ordenavam e me partia. No desejava nada. E agora... -olhou a seu redor, como um homem imerso em um pesadelo da que no pode escapar. 
    Ela alargou o brao.
    - Julin...
    Negando com a cabea, ele se afastou de sua mo.
    - No! -exclamou, mesndose o cabelo-. No sei aonde perteno. No o entende.
    - Ento, explique-me isso lhe suplicou Grace.
    - Como vou explicar te o que  caminhar entre dois mundos e ser desprezado por ambos? No sou humano, nem tampouco um deus; sou um hbrido abominvel. No tem 
idia de como cresci: minha me entregou a meu pai, que entregou a sua esposa, que entregava a qualquer que estivesse perto para me afastar de sua vista. E durante 
os ltimos vinte sculos no fui mais que uma moeda de mudana, algo que se podia comprar e vender. passei toda minha vida procurando um lugar ao que poder chamar 
lar. Procurando a algum que me quisesse pelo que sou, no por meu rosto nem por meu corpo. -O tortura que refletiam seus olhos feria o Grace como uma queimadura. 
    - Eu te quero, Julin.
    - No, no  certo. Como foste querer me?
    Ela ficou boquiaberta ante sua pergunta.
    - Melhor dava que como no ia fazer o. meu deus, jamais em minha vida desejei estar junto a algum como agora desejo estar contigo. 
    -  luxria, nada mais.
    Isso sim conseguiu zang-la. Como se atrevia a desprezar seus sentimentos como se fossem algo corriqueiro! O que sentia para ele era muito mais profundo que 
a mera luxria, era algo que lhe chegava at a alma.
    - No me diga o que sinto ou o que no. No sou uma menina.
    Julin meneou a cabea, incapaz de acreditar suas palavras. tratava-se da maldio. Tinha que ser isso. Ningum podia am-lo. Ningum o tinha feito nunca, desde 
dia em que nasceu.
    Mas que Grace o amasse...
    Seria um milagre. Seria...
    A glria. E ele no tinha nascido para sabore-la.
    "Sofrer como nenhum outro homem o tem feito."
    S se tratava de outra estratagema dos deuses. Outro cruel engano concebido para castig-lo.
    E j estava cansado. Exausto e esgotado pela luta. S queria escapar ao sofrimento. Procurava um porto onde refugiar-se daqueles aterradores sentimentos que
o assaltavam cada vez que a olhava.
    Grace apertou os dentes ao ver a negativa nos olhos do Julin. Mas, quem podia culp-lo?
    Tinham-no ferido em incontveis ocasione. Mas de algum modo, de alguma forma, conseguiria lhe provar o muito que significava para ela.
    Tinha que faz-lo. Porque perd-lo significaria a morte para ela.
    
    
    Captulo 15
            
    Julin manteve a distncia entre eles o que ficava do fim de semana. Por muito que Grace tentava derrubar a barreira que o rodeava, ele a apartava sem duvid-lo. 
    Nem sequer queria que lhe lesse.
    Totalmente descorazonada, foi ao trabalho na segunda-feira pela manh, mas nem sequer deveria haver-se incomodado em ir  consulta. No podia concentrar-se em 
outra coisa que no fossem seus celestiales olhos azuis, carregados de confuso. 
    - Grace Alexander?
    Grace elevou o olhar do escritrio e viu uma mulher loira, incrivelmente formosa, de pouco mais de vinte anos que estava parada no oco da porta. Parecia que 
acabava de sair de um desfile de modas na Europa, com aquele traje de seda vermelha do Armani e as meias e os sapatos a jogo. 
    - Sinto-o -lhe disse Grace-. Minha hora de visitas acabou. Se quer voltar amanh...
    - Tenho aspecto de necessitar a uma sexloga? 
    A primeira vista, no. Mas claro, Grace tinha aprendido fazia j muito tempo a no fazer julgamentos apressados sobre os problemas da gente.
    Sem que a convidasse, a mulher entrou tranqilamente a sua consulta com um andar presunoso e elegante que lhe resultava extraamente familiar. Caminhou para
a parede onde estavam pendurados os ttulos e certificados do Grace.
    - Impressionante -lhe disse. Mas seu tom expressava justamente o contrrio.
    voltou-se para observar concienzudamente ao Grace e, pela careta zombadora em seu rosto, esta soube que a mulher a encontrava seriamente deficiente.
    - No  o bastante formosa para ele, sabe? muito baixa e muito rechoncha. E onde encontraste esse vestido?
    Completamente ofendida, Grace adotou uma postura rgida.
    - Como diz?
    A mulher ignorou sua pergunta.
    - me diga, no te incomoda estar perto de um homem como Julin, sabendo que se tivesse oportunidade, jamais quereria estar contigo? Tem um corpo to bem formado,
 to elegante... To forte e cruel... Sei que nunca antes tiveste detrs de ti a um homem como ele, e jamais voltar ao ter.
    Atnita, Grace no era capaz de falar.
    E tampouco teve que faz-lo; a mulher seguiu sem deter-se.
    - Seu pai era como ele. Imagine ao Julin com o cabelo escuro, um pouco mais baixo e de aparncia mais vulgar, no to refinado. Mas ainda assim, esse homem
tinha umas mos que... Mmm... -Sorriu pensativamente, com o olhar perdido-.  obvio Diocles tinha todo o corpo marcado por horrveis cicatrize das batalhas; tinha
uma espantosa que lhe atravessava a bochecha esquerda. -Entrecerr os olhos com ira-. Jamais esquecerei o dia que tentou marcar ao Julin com uma adaga, para lhe
fazer essa mesma cicatriz. Nesse momento tivesse desejado que vivesse o suficiente para arrepender-se dessa infrao, mas me assegurei de que no o fizesse. Julin
 fisicamente perfeito, e jamais permitirei que ningum danifique a beleza que eu lhe dava. -A fria e calculadora olhar que Afrodita dedicou ao Grace fez que esta
se estremecesse.
    - No compartilharei a meu filho contigo.
    A posesividad das palavras da deusa despertou a ira do Grace. Como se atrevia a aparecer agora e a dizer tal coisa?
    - Se Julin significar tanto para ti, por que o abandonou?
    Afrodita a olhou, furiosa.
    - Crie que me deixaram outra opo? Zeus se negou a lhe dar a ambrsia; nenhum mortal pode viver no Olimpo. antes de que pudesse sequer protestar, Hermes me 
tirou isso dos braos e o entregou a seu pai.
    Grace viu o horror no rosto da Afrodita ao recordar aquele momento.
    - Minha dor por sua perda ia alm dos limites humanos. Inconsolvel, encerrei-me para me afastar de tudo. Quando fui capaz de me enfrentar a todos eles de novo, 
tinham passado quatorze anos na terra. Apenas se reconheci ao beb que eu tinha amamentado. E ele me odiava. -Seus olhos brilharam como se estivesse lutando por 
conter as lgrimas.
    " No tem idia do que  ser me, e que esse filho que levaste em seu ventre amaldioe at seu prprio nome. 
    Grace compreendia sua dor, mas era ao Julin a quem amava; e seu sofrimento era o que mais lhe preocupava.
    - Alguma vez tentou lhe dizer como se sentia?
    -  obvio que o fiz -espetou a deusa-. Enviei ao Eros com meus presentes. Devolveu-me isso, com uma mensagem que um filho no deveria lhe dizer a sua me jamais. 
    - Estava ferido.
    - E eu tambm -gritou Afrodita. Todo seu corpo tremia de fria.
    Desconfiada e bastante assustada pelo que uma deusa zangada pudesse fazer com ela, Grace observou como Afrodita fechava os olhos e respirava fundo para acalmar-se.
    Quando voltou a falar, fez-o com voz dura e o corpo tenso.
    - Ainda assim, enviei de novo ao Eros com mais presentes para o Julin. Rechaou-os todos. Vi-me obrigada a presenciar como jurava lealdade e servio a Ateneu 
em vingana. -Resmungou o nome da deusa como se a desprezasse. 
    " Foi em seu nome que conquistou cidades com os dons que eu lhe outorguei quando nasceu: a fora de Are, a moderao do Apolo e as bnes das Musas e as Obrigado. 
Inclusive o inundei no rio Estigio para me assegurar de que nenhuma arma humana pudesse mat-lo ou deix-lo marcado e, a diferena do que fez Tetis com o Aquiles, 
inundei tambm seus tornozelos para que no tivesse nem um s ponto vulnervel. -Meneou a cabea como se ainda no pudesse acreditar o que Julin fez.
    " Fiz tudo o que esteve em minhas mos por esse menino, e ele no me demonstrou a mais mnima gratido. Nem o respeito que merecia. Finalmente, deixei de tent-lo. 
Posto que rechaava meu amor, assegurei-me de que ningum o amasse jamais. 
    O corao do Grace se deteve o escutar o egosmo da deusa.
    - Que fez o que?
    Afrodita elevou o queixo, altiva, como uma rainha orgulhosa de seus frite e sangrentas faanhas.
    - Amaldioei-lhe do mesmo modo que ele o fez comigo. Assegurei-me de que nenhuma mulher humana pudesse olh-lo sem desejar seu corpo, e de que todo homem que 
estivesse a seu redor o invejasse profundamente.
    Grace no podia acreditar o que estava ouvindo. Como podia uma me ser to cruel?
    E logo que esse pensamento se afastou de sua mente, assaltou-a outro ainda mais horrvel:
    - Voc foi a culpado de que Penlope morrera, verdade?
    - No, isso foi obra do Julin.  obvio que eu estava enfurecida quando Eros me contou o que tinha feito por seu irmo, e tambm porque Julin tinha ido a ele 
e no a mim.
    " Posto que no podia desfazer o que a flecha do Eros tinha conseguido, decidi diminuir seus efeitos. O que Julin teve com o Penlope foi algo inspido, e ele 
sabe. -Afrodita se aproximou at a janela e contemplou a cidade.
    " Se Julin tivesse ido a mim alguma vez, teria deixado que Penlope o amasse. Mas no o fez. Observei-o aproximar-se dela, noite detrs noite, tomando-a uma 
e outra vez, e percebi seu mal-estar, sua angstia porque sabia que sua esposa no o amava. E ainda seguia me rechaando e me amaldioando. 
    " Foram as lgrimas que derramei por ele ao longo dos anos o que ps ao Prapo em seu contrrio. Sempre foi o mais leal de meus filhos. Devi det-lo logo que 
soube que queria o sangue do Julin, mas no o fiz. Ansiava que a ira do Prapo conseguisse que Julin me buscasse e implorasse minha ajuda. -Apertou os dentes.
    " Mas no o fez. 
    Grace compreendia sua dor, mas isso no trocava o que lhe tinha feito a seu filho.
    - Como  que Julin acabou sendo amaldioado?
    A deusa tragou saliva.
    - Tudo comeou a noite que Ateneu contou ao Prapo que no existia outro homem mais valente e forte que Julin. Ela o desafiou a enfrentar a seu melhor general 
com o Julin. Dois dias mais tarde, contemplei como Julin cavalgava para a batalha e soube que no perderia. Quando venceu ao exrcito romano, Prapo se enfureceu. 
    " Eros se foi da lngua e lhe contou o que tinha feito. Imediatamente, Prapo foi em busca do Jasn e Penlope. Eu no sabia as repercusses que ia ter. -envolveu-se 
a cintura com os braos.
    " Nunca tive inteno de que os meninos morreram. No imagina as vezes que me pergunto ao cabo do dia por que deixei que ocorresse aquilo. 
    - No houve nenhum modo de evit-lo?
    Afrodita negou tristemente com a cabea.
    - Inclusive meus poderes esto limitados pelas Parcas. Quando Julin se dirigiu a meu templo, depois de v-los todos mortos, contive o flego pensando que por 
fim ia em busca de minha ajuda. E ento viu essa porca com a tnica do Prapo que se jogou em seus braos e lhe pediu que tomasse sua virgindade antes de que tivesse 
lugar a cerimnia em que seria reclamada por meu outro filho. Se Julin tivesse pensado com claridade, sei que a teria rechaado. -O rosto da deusa se escureceu 
pela fria.
    " Se no tivesse sido pela Alexandria, esse dia meu filho tivesse vindo a mim. Sei que me teria pedido ajuda. Mas era muito tarde. Tudo acabou no mesmo momento 
em que se derramou nela. 
    - E ainda assim te negou a ajud-lo?
    - Como podia escolher entre dois de meus filhos?
    Grace se horrorizou ante a pergunta.
    - E no foi isso o que fez quando permitiu que encerrassem ao Julin em um pergaminho?
    Os olhos da Afrodita brilharam com tal malcia que Grace deu um passo atrs.
    - Julin foi quem me rechaou. Tudo o que tinha que fazer era me pedir ajuda e eu a teria dado.
    Grace no podia acreditar o que estava ouvindo. Para ser uma deusa, Afrodita era bastante egosta e curta de entendederas. 
    - Toda esta tragdia porque nenhum dos dois quis rebaixar-se a suplicar ao outro. No posso acreditar que concedesse ao Julin a fora de Are e logo o amaldioara 
por essa fora que voc mesma lhe outorgou. Em lugar de esper-lo ou de enviar a outros em seu nome, no te ocorreu alguma vez ir em pessoa?
    Afrodita a olhou furiosa e indignada.
    - Eu sou a Deusa do Amor, como quer que me arraste? Tem a mais ligeira idia de quo embaraoso  para mim que meu prprio filho me odeie?
    - Embaraoso? Tem ao resto do mundo para te amar. Julin no tem a ningum.
    Afrodita se aproximou dela, furiosa.
    - te afaste dele. Advirto-lhe isso.
    - por que? por que me ameaa quando no o fez com o Penlope?
    - Porque ele no a amava.
    Grace ficou paralisada.
    - Est me dizendo...?
    A deusa se esfumou.
    - Venha j! -gritou Grace olhando ao teto-. No pode te esfumar em metade de uma conversao!
    - Grace?
    A voz do Beth fez que desse um coice. Girando-se imediatamente, viu-a aparecendo pela porta.
    - Com quem est falando? -perguntou-lhe Beth. 
    Grace fez um gesto abrangendo a consulta e depois pensou que no seria muito inteligente lhe dizer a sua companheira a verdade.
    - Comigo mesma.
    Beth a olhou sem acabar de acreditar-lhe Grace dej las llaves y el correo sobre la mesa, y subi los escalones de dos en dos.
    - Tem o costume de te gritar a ti mesma?
    - s vezes.
    Beth elevou uma de suas escuras sobrancelhas.
    - Parece-me que necessita uma sesso -comentou enquanto se afastava.
    Fazendo caso omisso de sua companheira, Grace no perdeu tempo em recolher suas coisas. Estava desejando chegar a casa para ver o Julin.
    
    logo que abriu a porta soube que algo ia mau. Julin no saiu a receb-la.
    - Julin? -chamou-o.
    - Vamos.
    Grace deixou as chaves e o correio sobre a mesa, e subiu os degraus de dois em dois.
    - No vais acreditar te quem passou hoje pela... -sua voz se desvaneceu ao chegar  porta de seu dormitrio e ver o Julin com uma mo encadeada aos barrotes 
da cama, tendido no centro do colcho, sem camisa e com a frente coberta de suor.
    - O que est fazendo? -perguntou-lhe morto de medo.
    - No posso lutar mais, Grace -lhe respondeu respirando entrecortadamente.
    - Tem que tent-lo.
    Ele meneou a cabea.
    - Necessito que me encadeie a outra mo. No chego.
    - Julin...
    Ele a interrompeu com uma amarga e brusca gargalhada.
    - No  irnico? Tenho que te pedir que me encadeie quando todas as demais o faziam livremente s poucas horas de me apresentar ante elas. -Olhou-a diretamente 
aos olhos-. Faz-o, Grace. No poderia seguir vivendo se te fizesse mal. 
    Com o corao em um punho, ela cruzou a habitao at chegar junto  cama.
    Quando esteve bastante perto, Julin alargou o brao e acariciou sua bochecha. Aproximou-a at ele e a beijou, to profundamente que Grace pensou que ia deprimir 
se.
    Foi um beijo feroz e exigente. Um beijo que falava de desejo. E de promessas.
    Julin mordiscou seus lbios e a afastou.
    - Faz-o.
    Grace passou o grilho de prata pelos barrotes do cabecero. 
    O alvio do Julin foi evidente. At esse momento, Grace no se deu conta de quo tenso tinha estado durante na semana anterior. Apoiou a cabea no travesseiro 
e, com dificuldade, respirou fundo.
    Grace se aproximou e lhe aconteceu uma mo pela frente.
    - Deus santo! -ofegou. Estava to quente que quase lhe fez uma queimadura-. O que posso fazer?
    - Nada, mas obrigado por perguntar.
    Grace foi para o vestidor em busca de sua roupa. Quando comeou a desaboto-la blusa, Julin a deteve.
    - Por favor, no o faa diante de mim. Se vir seus peitos... -Jogou a cabea para trs como se algum lhe tivesse aplicado um ferro candente.
    Grace foi consciente nesse momento de quo acostumada estava a sua presena; no tinha pensado em despir-se em outro lado.
    - Sinto-o -se desculpou.
    trocou-se no quarto de banho e molhou umas toalhas para colocar-lhe na frente.
    Voltou para a habitao para refresc-lo.
    Acariciou-lhe o cabelo, empapado de suor.
    - Est ardendo.
    - Sei. Sinto-me como se estivesse em um leito de brasas.
    Vaiou quando Grace lhe aproximou a toalha fria.
    - No me contaste que tal te foi o dia -lhe disse sem flego.
    Grace ofegou ao sentir que o amor e a felicidade a invadiam. Todos os dias Julin o fazia essa pergunta. Todos os dias contava as horas para retornar a casa 
junto a ele.
    No sabia o que ia fazer quando partisse.
    Obrigando-se a no pensar nisso, concentrou-se em cuid-lo.
    - No h muito que contar -sussurrou. No queria curv-lo com o que sua me lhe tinha confessado. No enquanto estivesse assim. J o tinham ferido o bastante, 
e no seria ela a que aumentasse sua dor-. Tem fome? -perguntou-lhe.
    - No.
    Grace se sentou a seu lado. Passou toda a noite lhe lendo e refrescando-o. 
    Julin no dormiu. No pde. S era consciente da pele do Grace quando o tocava e de seu doce perfume floral. Invadia seus sentidos e fazia que a cabea lhe 
desse voltas. Todas as fibras de seu corpo lhe exigiam que a possusse.
    Com os dentes apertados, atirou das cadeias de prata que capturavam suas bonecas e lutou contra a escurido que ameaava devorando. No queria render-se.
    No queria fechar os olhos e desperdiar o pouco tempo que ficava para estar junto ao Grace enquanto ainda estivesse cordato. Se deixava que a escurido o consumisse 
no despertaria at estar de volta no livro. Sozinho.
    - No posso perd-la -murmurou. A simples ideia de perd-la fazia pedaos o pouco que ficava de corao. 
    O relgio de parede deu as trs. Grace se tinha ficado dormida fazia muito pouco momento. Tinha a cabea e a mo apoiadas sobre seu abdmen e seu flego lhe 
acariciava o estmago.
    Podia sentir seu cabelo lhe roando a pele, a calidez de seu corpo filtrando-se por seus poros at lhe chegar  alma. 
    O que daria de poder toc-la...
    Fechou os olhos, jogou a cabea para trs e se permitiu sonhar pela primeira vez desde fazia sculos. Sonhou passando noites inteiras junto ao Grace. 
    Sonhou que chegava o dia em que podia am-la como se merecia. Um dia em que ele seria livre para poder entregar-se a ela. Sonhou em ter um lar junto ao Grace.
    E sonhou com meninos de alegres olhos cinzas, e doces e travessos sorrisos. 
    Ainda estava sonhando quando a luz do amanhecer comeou a filtrar-se pelas janelas e o relgio deu as seis. Grace despertou. 
    Esfregou a bochecha sobre seu peito, acariciando o de tal modo que para o Julin sups uma tortura.
    - bom dia -o saudou sorridente.
    - bom dia.
    Grace se mordeu o lbio ao passear o olhar sobre seu corpo e enrugou a frente pela preocupao. 
    - Est seguro que temos que fazer isto? No te posso liberar um ratito?
    - No! -exclamou com nfase. 
    Grace agarrou o telefone e marcou o nmero da consulta para falar com o Beth.
    - No irei em um par de dias, pode te fazer carrego de alguns de meus pacientes?
    Julin franziu o cenho ao escut-la.
    -  que no vai trabalhar? -perguntou-lhe assim que pendurou. 
    Grace no podia acreditar que lhe fizesse essa pergunta.
    - E te deixar aqui tal e como est?
    - Estarei bem.
    Ela o olhou como se se tornou completamente louco.
    - E se passasse algo?
    - Como o que?
    - Pode haver um incndio ou algum pode entrar e te fazer qualquer coisas enquanto est a indefeso. 
    Julin no discutiu. Entusiasmou-lhe o fato de v-la to disposta a ficar junto a ele.
    No meio da tarde, Grace foi testemunha de que a maldio piorava. Cada centmetro do corpo do Julin estava talher de suor. Os msculos dos braos estavam totalmente 
tensos e logo que falava; quando o fazia, apertava os dentes. 
    Mas seguia olhando-a com um sorriso, e seus olhos eram quentes e alentadores enquanto seus msculos se contraam com contnuos espasmos e suportava o sofrimento 
que ameaava devorando-o. 
    Grace seguiu refrescando-o, mas logo que aproximava a toalha a sua pele se esquentava tanto que logo que era capaz de toc-la depois.
    Para quando chegou a meia-noite Julin delirava.
    Observou impotente como se agitava e amaldioava como se um ser invisvel estivesse lhe arrancando a pele a tiras. Grace nunca tinha visto algo assim. Estava 
lutando tanto que quase temia que derrubasse a cama.
    - No posso suportar isto -sussurrou. Baixou correndo as escadas e chamou a Selena.
    
    Uma hora depois, Grace abriu a porta a Selena e a sua irm Tiyana. Com o cabelo negro e os olhos azuis, Tiyana no se parecia em nada a Selena. Era uma das poucas 
sacerdotisas brancas de vodu; regentaba uma loja de artigos mgicos e fazia de guia turstica pelo cemitrio as sextas-feiras de noite. 
    - No sabem quanto lhes agradeo que tenham vindo -lhes disse Grace ao fechar a porta, uma vez passaram ao saguo.
    - No  nada -lhe respondeu Selena.
    Tiyana levava um timbal sob o brao e ia vestida com um singelo vestido marrom.
    - Onde est?
    Grace as levou a piso superior.
    Tiyana ps um p na habitao e ficou paralisada ao ver o Julin sobre a cama presa de contnuas convulses e amaldioando a todo o panteo grego.
    A cor abandonou seu rosto.
    - No posso fazer nada por ele.
    - Tiyana -a repreendeu Selena-. Tem que tent-lo.
    Com os olhos abertos como pratos pelo medo, Tiyana meneou a cabea. 
    - Quer um conselho? Sela esta habitao e deixa-o at que retorne de onde veio. H algo to maligno e poderoso observando-o que no me atrevo a lhe fazer frente. 
-Olhou a Selena-. No percebe o dio? 
    Grace comeou a tremer ao escutar a Tiyana, e seu corao comeou a pulsar cada vez mais rpido. 
    - Selena? -chamou a seu amiga. Necessitava desesperadamente que algum aliviasse o sofrimento do Julin de algum modo. Tinha que haver algo que elas pudessem 
fazer.
    - Sabe que no posso lhe ajud-lo disse Selena-. Meus feitios nunca funcionam.
    No!, gritou sua mente. No podiam abandonar o daquele modo.
    Olhou ao Julin enquanto este lutava por liberar-se dos grilhes.
    - H algum a quem pode ir em busca de ajuda?
    - No -respondeu Tiyana-. De fato, nem sequer posso permanecer aqui. No te ofenda, mas tudo isto me pe os cabelos de ponta. -Lanou um olhar categrico a sua 
irm-. E voc sabe muito bem a que tipo de atrocidades me enfrento diariamente. 
    - Sinto muito, Grace -se desculpou Selena, lhe acariciando o brao-. Investigarei e verei o que posso descobrir, de acordo?
    Com o corao em um punho, Grace no teve mais remedeio que as acompanhar  porta.
    Quando a fechou, deixo-se cair sobre ela com cansao.
    O que ia fazer?
    No podia limitar-se a aceitar que no havia ajuda possvel para o Julin. Tinha que haver algo que pudesse aliviar sua dor. Algo no que ela ainda no tivesse 
pensado.
    Subiu as escadas e voltou junto a ele.
    - Grace? -Julin a chamou com um gemido to agnico que seu corao acabou de fazer-se pedaos. 
    - Estou a seu lado, carinho -lhe disse, lhe acariciando a frente.
    Ele deixou escapar um grunhido selvagem, como o de um animal apanhado em uma armadilha, e se lanou sobre ela.
    Aterrorizada, Grace se afastou da cama.
    dirigiu-se ao vestidor, com as pernas trementes, e agarrou o exemplar de La Odissia.
    Aproximou a cadeira de balano  cama e comeou a ler.
    Pareceu relax-lo. Ao menos no se revolvia com tanta fora.
    Com o passo dos dias, a esperana do Grace se murchava. Julin estava no certo ao afirmar que no havia modo algum de romper a maldio se no conseguia superar 
a loucura. 
    No podia suportar v-lo sofrer, horas detrs hora, sem nenhum momento de alvio. No era de sentir saudades que odiasse a sua me. Como podia Afrodita deix-lo 
passar por isso sem mover um s dedo para ajud-lo?
    E tinha sofrido daquele modo durante sculos...
    Grace estava totalmente fora de si.
    - Como podem permiti-lo! -gritou zangada, olhando ao teto.
    - Eros! -chamou-lhe-. Me ouve? Ateneu? H algum? Como permitem que sofra assim? Se o amarem um pouco, por favor, ajudem.
    Tal e como esperava, ningum respondeu. 
    Deixou descansar a cabea sobre a mo e tentou pensar em algo que pudesse ajud-lo. Certamente haveria algo que...
    Uma luz cegadora atravessou a habitao.
    Perplexa, elevou a vista e se encontrou com a Afrodita que acabava de materializar-se junto  cama. Se se tivesse encontrado com um burro na cozinha no se surpreendeu 
tanto. 
    A deusa perdeu a cor do rosto ao contemplar como seu filho se revolvia, agitado pelos espasmos, sofrendo uma horrvel agonia. Alargou uma mo para ele e a retirou 
com brutalidade, deixando-a cair enquanto apertava o punho. 
    Nesse momento olhou ao Grace.
    - Quero-lhe -disse em voz baixa.
    - Eu tambm. 
    Afrodita cravou o olhar no cho, mas Grace foi testemunha de sua luta interior. 
    - Se o Libero, separar-o de mim para sempre. Se no o fizer, as duas o perderemos. -Afrodita a olhou aos olhos-. estive pensando a respeito do que me disse 
e acredito que tem razo. Fiz-o forte e jamais devi castig-lo por isso. Quo nico desejava  que me chamasse me. -Olhou a seu filho.
    -  S queria que me quisesse, Julin. Um poquito nada mais.
    Grace tragou saliva ao ver a dor no rosto da Afrodita quando acariciou a mo do Julin. 
    Ele vaiou, como se o roce lhe tivesse queimado a pele.
    Afrodita retirou a mo.
    - me prometa que o cuidar muito, Grace.
    - Tanto como ele me permita isso; prometo-o. 
    
    Afrodita assentiu e colocou a mo sobre a frente do Julin. Ele jogou a cabea para trs, como se acabasse de ser alcanado por um raio. A deusa inclinou a cabea 
e o beijou com ternura nos lbios. 
    Imediatamente, Julin se relaxou e seu corpo ficou imvel.
    Os grilhes se abriram e ainda assim no se moveu. O corao do Grace deixou de pulsar ao dar-se conta de que Julin no respirava. Aterrorizada, alargou uma 
tremente mo para toc-lo.
    Ele inspirou com brutalidade.
    Enquanto Afrodita tendia a mo para o Julin, Grace percebeu em seus olhos a necessidade de sentir o amor de um filho que nem sequer sabia que estava ali. Era 
o mesmo olhar ofegante que freqentemente captava nos olhos do Julin quando ele no era consciente de que o estava observando. 
    Como era possvel que duas pessoas que se necessitavam to desesperadamente no fossem capazes de arrumar as coisas?
    Afrodita desapareceu no mesmo instante que Julin abriu os olhos.
    Grace se aproximou dele. Tremia tanto que lhe tocavam castanholas os dentes. A febre tinha desaparecido e sua pele estava to fria como o gelo.
    Recolheu o edredom do cho e o cobriu com ele.
    - O que passou? -perguntou Julin com voz insegura. 
    - Sua me te liberou.
    Julin pareceu emudecer pela surpresa.
    - Minha me? esteve aqui?
    Grace assentiu com a cabea.
    - Estava preocupada com ti.
    Julin no podia acreditar o que estava escutando. Seria certo?
    Mas, por que ia ajudar o sua me agora se sempre havia lhe tornado as costas quando mais a tinha necessitado? No tinha sentido.
    Com o cenho franzido, tentou baixar-se da cama.
    - No, nem pensar -disse Grace com brutalidade-. Acabo de fazer que ponha bem e no vou a...
    - Preciso ir ao banho urgentemente -a interrompeu ele.
    - Ah! 
    Grace o ajudou a descer da cama. Estava to fraco que no se agentava em p e ela o sustentou at atravessar o corredor. Julin fechou os olhos e inalou o doce 
aroma do Grace. Temeroso de lhe fazer danifico, tentou no apoiar-se muito nela.
    Seu corao se enterneceu ao ver a forma em que ela o cuidava, ao perceber a sensao de seus braos lhe envolvendo a cintura enquanto o ajudava a caminhar.
    Seu Grace. Como ia suportar separar-se dela?
    Uma vez atendeu suas necessidades, lhe preparou um banho quente e o ajudou a meter-se na banheira.
    Julin a contemplou enquanto o lavava. Parecia-lhe impossvel que tivesse permanecido a seu lado todo aquele tempo. No recordava quase nada dos ltimos dias, 
mas se lembrava do som de sua voz atravessando a escurido para reconfort-lo.
    Tinha-a ouvido pronunciar seu nome a gritos e, em ocasies, estava seguro de haver sentido sua mo sobre a pele, ancorando-o  prudncia. 
    Suas carcias tinham sido sua salvao.
    Fechando os olhos, desfrutou da sensao das mos do Grace deslizando-se sobre sua pele enquanto o lavava. Percorriam-lhe o peito, os braos e o abdmen. E quando 
roaram acidentalmente sua ereo, no pde evitar dar um coice ante a intensidade com a que percebeu a carcia. 
    Como a desejava...
    - me beije -balbuciou Julin.
    - No ser perigoso?
    Lhe sorriu.
    - Se pudesse me mover j estaria comigo na banheira. Asseguro-te que neste momento estou to indefeso como um beb.
    Vacilante, ela se umedeceu os lbios e lhe acariciou uma mo; seu roce foi suave e tenro. Olhou-o fixamente aos lbios como se pudesse devor-lo, e Julin sentiu 
que o frio desaparecia ao contemplar seus olhos. 
    Grace se inclinou e o beijou com nsia. Ele gemeu ao sentir seus lbios; desejava muito mais. Necessitava suas carcias.
    Para sua surpresa, obteve o que desejava.
    Grace se apartou um instante de seus lbios, o suficiente para tir-la roupa e ficar nua ante ele. Lentamente e com movimentos sedutores, meteu-se na banheira 
e se sentou escarranchado sobre sua cintura. 
    Julin voltou a gemer ao sentir seu plo pbico sobre o estmago. Grace o beijou de novo, to ardentemente que ele acreditou que se abrasava. 
    Maldio, nem sequer podia abra-la! No podia mover os braos. E necessitava com desespero rode-la com fora. 
    Ela deveu perceber sua frustrao porque se incorporou com um sorriso.
    - Agora me toca te mimar -sussurrou antes de enterrar os lbios em seu pescoo.
    Fechou os olhos enquanto Grace deixava um rastro de beijos sobre seu peito. Quando chegou ao mamilo todo comeou a lhe dar voltas ao sentir a lngua do Grace 
brincando e sugando-o. Nada tinha conseguido estremec-lo do modo que o faziam suas carcias. No recordava nenhuma ocasio em que algum tivesse feito o amor a 
ele. 
    E nenhuma mulher se entregou daquele modo. Nem lhe tinha dado tanto. 
    Conteve a respirao no momento que ela introduziu a mo entre seus corpos.
    - Oxal pudesse te fazer o amor -sussurrou Julin.
    Ela elevou a cabea para olh-lo aos olhos.
    - Faz-o cada vez que me toca.
    Sem saber como, conseguiu abra-la, embora os braos no deixavam de lhe tremer, e a atraiu para seu peito para reclamar seus lbios. 
    Escutou-a tirar o plugue com o p enquanto aprofundava o beijo ainda mais e atormentava com leves carcias seu membro inchado. 
    Julin sentiu vertigem ao notar a mo dela sobre seu verga. Ansiava suas carcias; desejava-as de um modo que no era capaz de definir. 
    Uma vez a banheira se esvaziou de gua, Grace abandonou seus lbios para lhe abrasar a pele com diminutos beijos, descendendo pelo peito. Julin jogou a cabea 
para trs e a apoiou no bordo enquanto lhe acontecia a lngua pelo estmago e o quadril.
    E ento, para sua surpresa, levou-se seu membro  boca. Ele grunhiu e lhe sujeitou a cabea com ambas as mos, deleitando-se nas sensaes que provocavam a lngua 
e a boca do Grace, lambendo e rodeando seu membro. Nenhuma outra mulher tinha feito isso antes. limitaram-se a tomar o que podiam dele, sem lhe oferecer jamais nada 
em troca. 
    At que Grace chegou.
    Sua boca arrasou com as frestas de seu sentido comum e venceu o pouco que ficava de sua resistncia. Tremia-lhe todo o corpo pela ternura que ela estava demonstrando.
    - Sinto-o -se desculpou Grace, afastando-se dele-. Outra vez est tremendo de frio.
    - No  pelo frio -lhe respondeu com voz rouca-.  por ti.
    O sorriso do Grace lhe atravessou o corao. Voltou a inclinar-se e prosseguiu com seu implacvel assalto. 
    Quando terminou, Julin acreditou ter sofrido uma intensa sesso de tortura. No poderia sentir-se mais satisfeito embora tivesse chegado ao clmax. 
    Grace o ajudou a sair da banheira. Ainda lhe tremiam as pernas e teve que apoiar-se nela para chegar  habitao. 
    Ela o sustentou at que esteve deitado e, depois, tampou-o com todas as mantas que encontrou. Depositou um beijo tenro sobre sua frente e acomodou a roupa da 
cama.
    - Tem fome?
    Julin s foi capaz de assentir com a cabea.
    Ela se separou de seu lado o tempo justo para esquentar um tigela de sopa. Quando retornou, ele estava profundamente dormido. 
    Deixou o tigela na mesita de noite e se deitou junto a ele. Abraou-o e ficou dormida.
    
    Julin demorou trs dias em recuperar toda sua fora. Durante todo esse tempo, Grace esteve a seu lado. Ajudando-o.
    No acabava de compreender o motivo da devoo que lhe professava. E sua fora. Era a mulher que tinha estado esperando toda sua vida. E com cada dia que passava, 
era consciente de que o amor que sentia por ela crescia um pouco mais. Necessitava-a a seu lado. 
    - Tenho que dizer-lhe se disse a si mesmo enquanto se secava com uma toalha. No podia permitir que passasse um dia mais sem que ela soubesse o que significava 
para ele.
    Deixou o quarto de banho e atravessou o corredor at chegar ao dormitrio do Grace. Estava falando com a Selena.
    -  obvio que no lhe contei o que sua me me disse. Jesus!
    Julin retrocedeu um passo e se apoiou contra a parede enquanto escutava ao Grace.
    - O que se supe que devo lhe dizer? "Por certo, Julin, sua me me ameaou"?
    Ele sentiu que acabavam de lhe dar um golpe no peito e comeou a v-lo todo negro. Entrou na habitao.
    - Quando falaste com minha me? -inquiriu.
    Grace elevou a vista, surpreendida.
    - Isto... Lanie, tenho que pendurar. Adeus. -Deixou o auricular em seu stio.
    - Quando falaste com ela? -insistiu.
    Grace encolheu os ombros descuidadamente.
    - O dia que comeou a te sentir mau.
    - O que te disse?
    Ela voltou a encolher os ombros, esta vez com acanhamento. 
    - No foi uma verdadeira ameaa, s me disse que no te compartilharia comigo. 
    A ira o atravessou. Como se tinha atrevido! Quem demnios se acreditava sua me que era para exigir que Grace ou ele mesmo a obedecessem?
    Que imbecil tinha sido ao pensar que o corao da Afrodita se abrandou. 
    Quando ia aprender?
    - Julin -o repreendeu Grace, ficando em p e aproximando-se dele, ao p da cama-, ela trocou. Quando veio a te liberar...
    - No, Grace -a interrompeu-. A conheo muito melhor que voc.
    E sabia do que sua me era capaz. Sua crueldade fazia que as aes de seu pai parecessem meras travessuras. 
    Com o corao abatido, compreendeu que jamais poderia lhe confessar ao Grace o que sentia por ela.
    E o que era ainda pior, no podia ficar com ela. Se algo tinha aprendido a respeito dos deuses era que jamais o deixariam viver em paz. 
    Quanto tempo demorariam para fazer mal ao Grace? Quanto tempo lhe levaria ao Prapo p-la em seu contrrio? Ou quando se vingaria sua me de ambos?
    cedo ou tarde, passariam-lhe fatura por ser feliz. No lhe cabia a menor duvida. E a simples ideia de que Grace pudesse sofrer...
    No. Jamais poderia arriscar-se.
    
    
    Os dias passaram voando enquanto eles permaneciam tanto tempo juntos como lhes resultava possvel.
    Julin ensinou ao Grace cultura clssica grega e algumas forma muito interessantes de desfrutar de do Reddi-wip e a nata de chocolate. Grace lhe ensinou a despejar 
ao contrrio no Monopoly e a ler em ingls. 
    depois de umas quantas classes mais de conduo, e de uma nova embreagem, Grace reconheceu que Julin no tinha futuro  frente de um volante. 
    Ao Grace parecia que logo que tinha passado o tempo e, entretanto, o ltimo dia do prazo do Julin chegou to rpido que a deixou aterrorizada.
    A noite prvia a esse fatdico dia, fez o mais surpreendente dos descobrimentos: no podia viver sem o Julin. 
    Cada vez que pensava em retomar sua antiga vida, sem ele, acreditava morrer de dor. 
    Mas finalmente compreendeu que a deciso era do Julin, e s dele.
    - Por favor, Julin -lhe sussurrou enquanto ele dormia a seu lado-. No abandone.
    
    
    Captulo 16
    
    Nenhum dos dois falou muito em todo o dia. De fato, Julin a evitou constantemente.
    Isso, mais que nenhum outro detalhe, fez-lhe imaginar-se qual era a deciso que tinha tomado. 
    Grace tinha o corao destroado. Como podia abandon-la depois de tudo o que tinham acontecido juntos? depois de tudo o que tinham compartilhado?
    No podia suportar a idia de perd-lo. A vida sem ele seria intolervel. 
    Ao entardecer, encontrou-o sentado na cadeira de balano do alpendre, contemplando o sol por ltima vez. Seu rosto tinha uma expresso to dura que apenas se 
podia reconhecer ao homem alegre que tinha chegado a amar tanto. 
    Quando o silncio se fez muito insuportvel, falou-lhe:
    - No quero que me abandone. Quero que fique aqui, em minha poca. Posso cuidar de ti, Julin. Tenho muito dinheiro e te ensinarei tudo o que deseje saber. 
    - No posso ficar  -lhe respondeu entre dentes-.  que no o entende? Todos os que estiveram perto de mim alguma vez foram castigados pelos deuses: Jasn, Penlope, 
Calista, Atolycus. -Olhou-a como se estivesse aturdido-. Pelo Zeus! Kyrian acabou crucificado.
    - Esta vez ser diferente.
    ficou em p e a olhou com dureza. 
    - Tem razo. Ser diferente. No vou ficar me aqui para ver como morre por minha culpa.
    Passou por seu lado e entrou na casa.
    Grace apertou os punhos, desejando estrangul-lo.
    -  um... teimoso!
    Como podia ser to insuportvel?
    Nesse momento notou que o diamante do aliana de casamento de sua me lhe cravava na palma da mo. Abriu-a e o olhou durante um bom momento. Estava a ponto de 
conseguir que o passado deixasse de atorment-la. Pela primeira vez em sua vida tinha um futuro no que pensar. Um futuro que a enchia de felicidade.
    E no estava disposta a permitir que Julin o jogasse tudo pela amurada.
    Mais decidida que nunca, abriu a porta da casa e sorriu maliciosamente.
    - No vais liberar te de mim, Julin da Macednia. Pode que tenha vencido aos romanos, mas te asseguro que a meu lado so uns adoentados. 
    Julin estava sentado na salita, com seu livro no regao. Passava a palma da mo sobre a antiga inscrio, desprezando-a mais que nunca.
    Fechou os olhos e recordou a noite que Grace o convocou. Recordou o que se sentia quando no tinha conscincia de sua prpria identidade. Quando no era mais 
que um simples escravo sexual grego.
    Fazia muito, muito tempo que se achava perdido em um lugar escuro e temvel, e Grace o tinha encontrado. 
    Com sua fortaleza e sua bondade tinha conseguido desafiar quo pior havia nele e lhe havia devolvido a humanidade. S ela tinha percebido seu corao e tinha 
decidido que merecia a pena lutar por ele.
    Fica com ela.
    Pelos deuses!, que fcil parecia. Que singelo. Mas no se atrevia. J tinha perdido a seus filhos. Grace era a proprietria do que ficava de corao, e perd-la 
por culpa de seu irmo...
    Seria o mais doloroso ao que jamais se enfrentou.
    At ele tinha um ponto dbil. Agora conhecia o rosto e o nome da pessoa que poderia lhe fazer cair de joelhos.
    Grace.
    Tinha que apartar-se dela para que estivesse a salvo.
    Sentiu-a entrar na estadia. Abriu os olhos e a viu de p, no oco da porta, olhando-o fixamente.
    - Oxal pudesse destruir esta coisa -grunhiu ao devolver o livro a mesita.
    - depois de esta noite no ter necessidade de faz-lo.
    Suas palavras lhe doeram. Como podia fazer isto por ele? No suportava a idia de que algum a utilizasse e aqui estava ele, usando-a do mesmo modo que o tinham 
usado a ele tantas e tantas vezes. 
    - Ainda est disposta a me deixar utilizar seu corpo para que possa partir ?
    A sinceridade de seu olhar o deixou paralisado.
    - Se desse modo conseguimos que seja livre, sim. 
    A seguinte pergunte lhe atravessava na garganta, mas tinha que saber a resposta.
    - Chorar quando me tiver partido?
    Grace apartou o olhar e ele viu a verdade em seus olhos. No era muito melhor que Paul. Era exatamente igual a aquele egosta.
    Mas, depois de tudo, era filho de seu pai. cedo ou tarde, o mau sangue sempre fazia ato de presena. 
    Grace se deu a volta e partiu, deixando-o solo com seus pensamentos. Deixou que seus olhos vagassem pela salita. Quando olhou em frente do sof, o corao lhe 
encolheu.
    Como ia sentir falta das noites passadas ali junto ao Grace, escutando sua voz. Sua risada.
    Mas sobre tudo, sentiria falta de suas carcias.
    Era muito tentador ficar, mas no podia faz-lo. No tinha sido capaz de proteger a seus filhos, como ia proteger ao Grace?
    - Julin?
    sobressaltou-se ao escutar a voz do Grace que o chamava do piso de acima.
    - O que?
    - So onze e meia. No deveria subir?
    Julin olhou o vulto que se apreciava sob os jeans. Tinha chegado a hora de lhe dar utilidade. 
    Deveria estar encantado. Era o que tinha querido do primeiro instante em que a viu. 
    Mas, por alguma razo, doa-lhe o fato de tom-la assim.
    Pelo menos no lhe far mal.
    No?
    De fato, duvidava muito que Paul a tivesse feito sofrer tanto como ele estava a ponto de fazer.
    - Julin?
    - Vou -respondeu, obrigando-se a abandonar o sof.
    Na porta, voltou a cabea para olh-lo tudo por ltima vez.
    Inclusive agora podia ver a imagem do Grace tombada no sof, com os peitos talheres de nata enquanto ele, muito lentamente, lambia-os at no deixar nem rastro 
da nata. Podia escutar sua risada e ver o brilho de seus olhos cada vez que a levava a clmax. 
    "No me abandone, Julin", tinha-lhe sussurrado a noite anterior enquanto ele supostamente dormia, e suas palavras lhe tinham abrasado. Agora lhe estavam partindo 
em dois o corao.
    - Julin?
    Dando-a volta, encaminhou-se para as escadas e se apoiou no passamanes. Seria a ltima vez que subiria estes degraus. A ltima vez que cruzaria o corredor para 
chegar ao dormitrio do Grace.
    E a ltima vez que a veria em sua cama...
    Com o corao na garganta, deu-se conta de que logo que podia respirar.
    por que tinha que ser assim?
    Soltou uma amarga gargalhada. Quantas vezes se teria feito essa mesma pergunta?
    deteve-se o chegar  porta. A habitao estava iluminada pela tnue luz das velas, mas o que mais lhe impressionou foi ver o Grace com a neglig vermelha que 
ele tinha eleito. 
    Estava arrebatadora.
    De repente, sentiu que a lngua acabava de cair at o cho e que era imperante enrol-la de novo para coloc-la na boca. 
    - No me vais pr isso fcil, verdade? -perguntou-lhe com voz rouca.
    Lhe dedicou um sorriso travesso.
    - Deveria faz-lo?
    Totalmente embevecido por ela, Julin era incapaz de mover um msculo enquanto observava como se aproximava.
    - No tem muita roupa?
    antes de que pudesse responder, ela agarrou o bordo inferior de sua camisa e a levantou at pass-la por sua cabea. Uma vez a jogou no cho, alargou um brao 
e colocou a mo em seu peito, justo sobre o corao. Nesse instante, para o Julin era a mulher mais formosa do mundo. Nem sequer a beleza de sua me podia competir 
com a do Grace.
    Permaneceu imvel como uma esttua enquanto ela deslizava as mos sobre sua pele, lhe provocando calafrios.  
    No, no ia ficar o nada fcil.
    Julin notou que ela tentava lhe desabotoar o boto da cala.
    - Grace -lhe advertiu, e lhe apartou as mos.
    - Mmm? -murmurou ela, com os olhos obscurecidos pela paixo.
    - No importa.
    Ela se apartou e subiu  cama. Julin conteve o flego ao vislumbrar seu traseiro nu atravs da difana gaze da neglig. 
    tombou-se de lado e o olhou fixamente.
    Depois de despojar-se dos jeans, uniu-se a ela. Fez que se tendesse de costas e, nessa posio, o profundo decote deixou  vista um de seus peitos. Julin se 
aproveitou da situao.
    - OH, Julin! -gemeu Grace.
    Sentiu-a estremecer-se baixo ele quando passou a lngua ao redor do endurecido mamilo. Seu corpo era fogo lquido e gritava lhe exigindo que a possusse. Mas 
no s desejava sua carne. Queria-a a ela. 
    E abandon-la-o destroaria.
    Julin tragou e se apartou. Tinha estado esperando esta noite durante uma eternidade. Tinha passado a eternidade esperando a esta mulher.
    Com muita ternura acariciou seu rosto, guardando na memria cada pequeno detalhe.
    Seu preciosa Grace.
    Jamais a esqueceria.
    Sua alma chorava a gritos pelo que estava a ponto de lhe fazer. Separou-lhe as coxas com os joelhos.
    estremeceu-se involuntariamente ao sentir sua pele nua sob a sua. E, nesse momento, cometeu o engano de olh-la aos olhos.
    O sofrimento que viu neles o deixou sem flego.
    "Jamais teve nada que no roubasse antes". Se esticou ao escutar as palavras do Jasn em sua cabea. Quo ltimo queria era lhe roubar algo  mulher que lhe 
tinha entregue tanto. 
    Como vou fazer lhe isto?
    - A que est esperando? -perguntou-lhe ela.
    Julin no sabia. Quo nico tinha claro era que no podia apartar o olhar de seus tristes olhos cinzas. Uns olhos que chorariam se a utilizava para depois abandon-la. 
Uns olhos que chorariam de felicidade se ficava.
    Mas se ficava, sua famlia a destruiria.
    E, nesse instante, soube o que devia fazer.
    Grace lhe envolveu a cintura com as pernas.
    - Julin, date pressa. O tempo se acaba.
    Ele no falou. No podia faz-lo. Em realidade, no confiava em si mesmo, e podia dizer algo que o fizesse trocar de opinio.
    Ao longo dos sculos tinha sido muitas coisas: rfo, ladro, marido, pai, heri, lenda e, finalmente, escravo.
    Mas jamais tinha sido um covarde.
    No. Julin da Macednia jamais tinha sido um covarde. Era o general que tinha contemplado vitorioso a legies inteiras de romanos, e lhes tinha desafiado entre 
gargalhadas a que lhe matassem e lhe cortassem a cabea se podiam. 
    Esse era o homem que Grace tinha encontrado, e esse era o homem que a amava. E esse homem se negava a lhe fazer danifico. 
    Grace tentou mover os quadris para que o membro do Julin se afundasse nela, mas ele no a deixou.
    - Sabe o que mais sentirei falta de? -perguntou-lhe, enquanto deslizava uma mo entre seus corpos e lhe acariciava o clitris.
    - No -murmurou Grace.
    - O aroma de seu cabelo cada vez que enterro meu rosto nele. O modo em que te agarra para mim e gritas quando te corre. O som de sua risada. E sobre tudo, sua 
imagem ao despertar cada manh, com o sol te banhando o rosto. Jamais poderei esquec-lo.
    Apartou a mo e moveu os quadris para encontrar as do Grace. Mas, em lugar de penetr-la, tudo ficou em uma prazenteira carcia que os fez gemer a ambos.
    Baixou a cabea at a orelha do Grace e lhe mordiscou o pescoo.
    - Sempre te amarei -lhe sussurrou.
    Grace o ouviu respirar fundo no mesmo momento em que o relgio dava a meia-noite. 
    Com um brilhante brilho, Julin desapareceu.
    Horrorizada, Grace permaneceu imvel esperando despertar. Mas seguiu escutando as badaladas do relgio e se deu conta de que no era um sonho.
    Julin se tinha ido.
    foi-se de verdade.
    - No! -gritou enquanto se sentava na cama. No podia ser! -. No!
    Desceu da cama com o corao martillendole com fora no peito e correu at o salo. O livro estava ainda sobre a mesita de caf. Passou as pginas e viu que 
Julin estava justo no mesmo stio que antes, s que agora no sorria diablicamente e levava o cabelo curto.
    No, no e no!, repetia sua mente uma e outra vez. por que tinha feito isso? por que? 
    - Como pudeste? -Perguntou-lhe enquanto abraava o livro contra seu peito-. Eu te teria dado a liberdade, Julin. No me teria importado. Deus!, Julin por que 
te tem feito isto? -soluou-. por que?
    Mas no fundo sabia. A ternura que tinha visto em seus olhos falava por si mesmo. Tinha-o feito para no feri-la como Paul.
    Julin a amava. E, do momento que chegou a sua vida, no tinha feito outra coisa que proteg-la. Cuid-la.
    At o final. Mesmo que desse modo se negasse a possibilidade de ficar livre de um tortura eterno, ela tinha sido mais importante. 
    Grace no suportava pensar no sacrifcio que Julin acabava de fazer. Via-o condenado a passar a eternidade na escurido. S e sofrendo uma agonia. 
    Lhe tinha contado que passava fome enquanto estava apanhada no livro, e sede. E em sua mente o via sofrer do mesmo modo que o tinha visto em sua cama. Recordou 
as palavras que disse depois. 
    "Isto no  nada comparado com o que se sente dentro do livro"
    E agora estava ali. Sofrendo.
    - No! -gritou-. No permitirei que te faa isto, Julin. Ouve-me?
    Abraou com fora o livro e se dirigiu a toda pressa  parte traseira da casa. Abriu as cristaleiras que davam ao jardim e correu para um claro iluminado pela 
lua enche. 
    - Retorna para mim, Julin da Macednia, Julin da Macednia, Julin da Macednia! -repetiu-o uma e outra vez, rogando por que aparecesse.
    No ocorreu nada. Nada de nada.
    - No!, por favor, no!
    Com o corao destroado, voltou para a salita.
    - por que?, por que? -soluava, ajoelhada no cho sem deixar de balanar-se para diante e para trs. 
    - Julin! -sussurrou com a voz rota enquanto as lembranas a assaltavam. Julin rendo-se com ela, abraando-a. Julin sentado tranqilamente, pensando. Seu corao 
pulsando desenfreado ao mesmo ritmo que o seu. 
    Queria-o de volta.
    Necessitava-o de volta. 
    - No quero viver sem ti -balbuciou dirigindo-se ao livro-. O entende, Julin? No posso viver sem ti.
    De repente, uma luz cegadora iluminou a estadia.
    Com a boca aberta, Grace elevou o olhar esperando encontrar-se com o Julin.
    Mas no era ele. tratava-se da Afrodita.
    - me d o livro -lhe ordenou com o brao estendido.
    Grace o abraou com mais fora.
    - por que lhe faz isto? -inquiriu Grace-.  que no sofreu j bastante? Eu no o teria afastado de ti. Preferiria que estivesse contigo antes de que retornasse 
ao livro. -limpou-se as lgrimas-. Est sozinho a dentro. Solo na escurido -sussurrou-. Por favor, no deixe que permanea a. me envie ao livro com ele, por favor. 
Por favor!
    Afrodita baixou a mo.
    - Faria isso por ele?
    - Faria algo por ele.
    A deusa a observou com os olhos entrecerrados.
    - me d o livro.
    Cegada pelas lgrimas, Grace o deu enquanto rezava para que Afrodita a ajudasse a reunir-se com ele.
    Ela suspirou com fora e abriu o livro.
    - Vo a joder bem por isso.
    Sbitamente, outro cintilo cegador iluminou a sala e Grace teve que fechar os olhos. A cabea comeou a lhe dar voltas e tudo pareceu girar a seu redor, fazendo 
que seu estmago protestasse. 
    Por isso passava Julin cada vez que algum o invocava? No sabia com certeza, mas j era bastante terrorfico e por si s supunha uma tortura. 
    E, ento, a luz desapareceu. 
    Grace caiu a um profundo fosso onde a escurido era um ente com vida que a afogava, lhe impedindo de respirar e fazendo que lhe ardessem os olhos.
    Tentou incorporar-se para frear a queda e sentiu baixo ela uma superfcie amaciada que lhe resultava familiar. 
    A luz voltou e se encontrou em sua cama, com o Julin sobre ela.
    Ele olhou ao redor, perplexo.
    - Como...?
    - Ser melhor que esta vez no a chateiem -lhes disse Afrodita da porta-. No quero nem pensar no que me faro os de acima se intento isto de novo. 
    E se esfumou.
    Julin deixou de olhar o oco da porta e cravou os olhos no Grace.
    - Grace, eu...
    - te cale, Julin -lhe ordenou; no queria perder mais tempo- e insgnia me como querem os deuses que um homem ame a uma mulher. 
    Dizendo isto, agarrou-o pela cabea e o aproximou para lhe dar um beijo apaixonado e profundo. 
    Ele o devolveu com ferocidade, e com um capitalista e magistral aposta se introduziu nela.
    Jogou a cabea para trs e grunhiu quando o mido corpo do Grace lhe deu a bem-vinda, envolvendo-o com seu calidez. O impacto que sofreram seus sentidos foi 
to capitalista que se estremeceu da cabea aos ps. Pelos deuses, era muito melhor do que tinha imaginado. 
    Recordava as palavras que lhe tinha dirigido.
    "No quero viver sem ti, Julin. Entende-o? No posso viver sem ti."
    Com a respirao entrecortada, olhou-a  cara e ficou subjugado ao sentir ao Grace, clida e estreita, ao redor de seu verga. Deslizou a mo por seu brao, at 
capturar sua mo e aferr-la com fora.
    - Estou-te fazendo mal?
    - No -lhe respondeu com um olhar tenro e sincero. levou-se a mo do Julin aos lbios e a beijou-. Jamais me far mal estando comigo.
    - Se o fizer, diga-me isso e me deterei.
    Ela o rodeou com os braos e as pernas. 
    - Se te ocorre tir-la antes do amanhecer te perseguirei durante toda a eternidade para te dar uma surra. 
    Julin riu; no lhe cabia a menor duvida.
    Grace lhe aconteceu a lngua pelo pescoo e se deleitou ao sentir como vibrava entre seus braos. 
    Ele elevou os quadris, muito lentamente, torturando-a com o movimento e, sem prvio aviso, afundou-se nela com tanta fora que Grace acreditou morrer de prazer.
    Conteve o flego ao senti-lo por completo dentro dela. Era uma sensao incrvel. Era maravilhoso sentir as investidas desse corpo gil e forte.
    Fechou os olhos e desfrutou de do movimento dos msculos do Julin, que se contraam e se relaxavam sobre seu corpo. Entrelaou as pernas com as suas e a enfeitiou 
o comicho que produzia o plo masculino. 
    Jamais havia sentido um pouco parecido. limitava-se a respirar e a expressar com seu corpo o amor que sentia por ele. Era dele. Embora logo a abandonasse, desfrutaria 
deste momento de glria junto a ele.
    Extasiada pelo peso de seu corpo sobre ela, passou-lhe as mos pelas costas at chegar aos quadris e o empurrou, incitando-o a ir mais rpido. 
    Julin se mordeu os lbios quando sentiu que Grace lhe cravava as unhas nas costas. Como era possvel que umas mos to pequenas tivessem o poder de venc-lo?
    Jamais o entenderia; como tampouco entenderia por que o amava. 
    O agradecia na alma.
    - me olhe, Grace -lhe disse, afundando-se profundamente nela de novo-. Quero ver seus olhos.
    Grace obedeceu. Julin tinha os olhos entrecerrados e, por seu modo de respirar e a expresso de seu rosto, soube que estava desfrutando de cada certeira investida. 
Ela sentia como lhe contraam os abdominais cada vez que se movia.
    Elevou os quadris para sair ao encontro das furiosas apostas. Nada podia ser melhor que ter ao Julin sobre ela, beijando-a com paixo e deslizando-se dentro 
e fora de seu entrepierna. 
    Quando acreditou que j no poderia resisti-lo mais, seu corpo estalou em milhares de estremecimentos de prazer.
    - Julin! -gritou, arqueando mais seu corpo para ele-. Sim, OH, sim!
    Ele se afundou nela at o fundo e permaneceu imvel, observando-a enquanto os msculos de sua vagina se contraam a seu redor. 
    Quando ela abriu os olhos, encontrou-se com seu diablico sorriso. 
    - Te gostou disso, verdade? -perguntou-lhe, mostrando suas covinhas e rodando seus quadris para que ela o sentisse dentro.
    Ao Grace custou um enorme esforo no gemer de prazer.
    - esteve bem.
    - Bem? -perguntou-lhe com um sorriso-. Acredito que terei que seguir tentando-o.
    deu-se a volta e a arrastou consigo, com cuidado de que seu membro no a abandonasse.
    Gemeu ao encontrar-se sobre ele. Julin alargou um brao e desfez o lao que fechava o decote da neglig. A diminuta parte de tecido se abriu.
    O olhar de puro gozo que transmitiam seus olhos foi muito mais prazenteira para o Grace que senti-lo em seu interior. Sonriendo, elevou os quadris e as baixou 
para absorv-lo por inteiro. 
    Ela o sentiu estremecer-se.
    - Te gostou disso, verdade?
    - esteve bem. -Mas a voz estrangulada traa seu tom despreocupado. 
    Ela soltou uma gargalhada. 
    Julin elevou os quadris nesse momento e se introduziu ainda mais nela.
    Grace vaiou de agradar ao sentir que a enchia por inteiro. Ao sentir a dureza de seu corpo e a fora que ostentava. E ela ainda queria mais. Queria ver o rosto 
do Julin quando chegasse ao clmax. Queria ser ela a que lhe desse o que fazia sculos que no experimentava. 
    - Se seguirmos a este ritmo vamos estar extenuados quando chegar o amanhecer, sabia? -disse-lhe ele.
    - No me importa.
    - Mas te vais sentir dolorida.
    Ela contraiu os msculos da vagina para rode-lo com mais fora.
    - Ah, sim?
    - Nesse caso... -ele deslizou a mo muito lentamente pelo corpo do Grace at chegar a seu umbigo, e baixou ainda mais separando os midos cachos de seu entrepierna 
para lhe acariciar o clitris.
    mordeu-se os lbios enquanto os dedos do Julin brincavam com ela, acoplando-se ao ritmo que impunham seus quadris. cada vez mais rpido, mais fundo e com mais 
fora. 
    Agarrou-a pela cintura e a ajudou a seguir o frentico ritmo. Como desejava poder abandonar o corpo do Grace o tempo suficiente para lhe ensinar umas quantas 
posturas mais. Mas no lhes estava permitido.
    por agora.
    Mas quando chegasse o amanhecer...
    Sorriu ante a perspectiva. Assim que amanhecesse tinha toda a inteno de lhe mostrar uma nova forma de utilizar o Reddi-wip. 
    Grace perdeu a noo do tempo enquanto seus corpos se acariciavam e se deleitavam em sua mtua companhia. Sentiu que a habitao comeava a girar sob suas peritas 
carcias, e se deixou levar pela maravilhosa sensao de expressar o amor que sentia por ele. 
    Os dois estavam talheres de suor, mas no deixaram de saborear-se; seguiam desfrutando da paixo que ao fim compartilhavam. 
    Esta vez, quando Grace se correu, desabou-se sobre ele. 
    A profunda risada do Julin reverberou por seu corpo enquanto passava suas mos por suas costas, seus quadris e por suas pernas.
    Grace se estremeceu.
    Estava extasiado pelo fato de ter ao Grace nua e tombada sobre ele. Sentia seus peitos esmagados sobre seu torso. Seu amor por ela brotava do mais fundo de sua 
alma. 
    - Poderia ficar assim convexo para sempre -disse em voz baixa.
    - Eu tambm.
    Rodeou-a com os braos e a atraiu ainda mais para ele. Notou como suas carcias se ralentizaban e sua respirao se fazia mais relaxada e uniforme. 
    Em uns minutos esteve completamente dormida.
    Beijou-a na cabea e sorriu enquanto se assegurava de que seu membro no abandonasse o lugar onde devia estar. 
    - Dorme preciosa -sussurrou-. Ainda falta muito para o amanhecer.
    
    Grace despertou com a sensao de ter algo quente que a enchia por completo. Quando comeou a mover-se, foi consciente de uns braos fortes como o ao que a 
imobilizavam. 
    - Com cuidado -lhe advertiu Julin-. No a saques. 
    - Fiquei dormida? -balbuciou, surpreendida de ter feito tal coisa. 
    - No importa. No te perdeu grande coisa.
    - De verdade? -perguntou-lhe ela meneando os quadris e acariciando-o com todo o corpo. 
    Ele soltou uma gargalhada.
    - Vale, de acordo. Perdeu-te um par de cosillas.
    incorporou-se e o olhou ao olhos. Riscou a linha da mandbula, levemente spera pela barba incipiente, com um dedo que Julin capturou e mordiscou assim que 
chegou aos lbios. 
    Sbitamente, ele se incorporou e ficou sentado com ela em seu regao.
    - Mmm, eu gosto de -disse enquanto lhe acontecia as pernas ao redor da cintura.
    - Mmm, sim -conveio ele e comeou a mover brandamente os quadris.
    Baixando a cabea, capturou um de seus peitos e lambeu o duro mamilo. Brincou com ela e a torturou docemente antes de soprar sobre a umedecida pele, que se arrepiou 
sob seu quente flego. 
    Deixou esse peito e se dirigiu ao outro. Grace embalou sua cabea, aproximando-o ainda mais a ela, completamente extasiada por suas carcias. Nesse momento se 
deu conta de que o cu comeava a clarear. 
    - Julin! -exclamou-. Est amanhecendo.
    - Sei -lhe respondeu, tombando-a de costas sobre a cama.
    Olhou-o aos olhos enquanto se acomodava sobre ela sem deixar de mover os quadris.
    Contemplava-a totalmente enfeitiado. Percebia sua ternura e seu amor. Ningum o tinha conhecido como ela e jamais teria acreditado possvel que algum pudesse 
obt-lo. Tinha-o acariciado em um lugar que ningum havia meio doido antes. 
    No corao. 
    E ento desejou muito mais. Desesperado por t-la por completo, seguiu movendo-se dentro dela.
    Necessitava mais.
    Grace o envolveu com seus braos e enterrou o rosto em seu ombro ao sentir que acelerava o ritmo de suas apostas. Mais e mais rpido, mais e mais forte; at 
que ela ficou sem flego pelo frentico ritmo. 
    De novo, o suor os cobria. Grace lambeu o pescoo do Julin, embriagada por seus gemidos. Ele vaiou de prazer.
    E ainda seguia afundando-se nela, uma e outra vez, at que Grace pensou que no poderia suport-lo mais. 
    Cravou-lhe os dentes no ombro enquanto alcanava o orgasmo rpida e grosseiramente. Julin no diminuiu seus ataques quando Grace se tombou sobre o colcho. 
    mordeu-se o lbio com fora e se moveu ainda mais rpido, fazendo que ela se corresse de novo, e esta vez com mais intensidade que a anterior. 
    Justo quando o primeiro raio de sol atravessava os ventanales da habitao, escutou que Julin grunhia e o viu fechar os olhos. 
    Com uma aposta profunda e certeira, derramou-se nela e todo seu corpo se convulsionou entre os braos do Grace. 
    Julin era incapaz de respirar e a cabea lhe dava voltas a causa do xtase que acaba de sentir; a intensidade de seu orgasmo tinha sido incrvel. Doa-lhe todo 
o corpo, mas ainda assim, no recordava ter experiente com antecedncia semelhante prazer. A noite passada o tinha deixado exausto, e estava esgotado pelas carcias 
do Grace. 
    Tinham quebrado a maldio.
    Elevou a cabea e viu que Grace lhe sorria.
    - J est? -perguntou-lhe ela.
    antes de que pudesse responder, o brao comeou a lhe doer como se lhe estivessem marcando com um ferro candente. Vaiando, separou-se dela e o cobriu com a mo.
    - O que acontece? -perguntou-lhe ela ao ver que se afastava. 
    Perplexa, observou como um resplendor alaranjado lhe cobria todo o brao. Quando apartou a mo, a inscrio grega tinha desaparecido.
    - J est -balbuciou Grace-. O conseguimos.
    O sorriso se apagou do rosto do Julin. 
    - No -disse ele, lhe roando a bochecha com os dedos-. Voc o fez. 
    Renda-se, Grace se jogou em seus braos. Ele a abraou com fora enquanto se beijavam em um catico frenesi. 
    J tinha acabado!
    Era livre. Por fim, depois de tantos sculos, voltava a ser um homem mortal. 
    E era Grace a que o tinha conseguido. Sua f e sua fortaleza tinham revelado o melhor de si mesmo. 
    Ela o tinha salvado.
    Grace voltou a rir e girou na cama at ficar em cima dele.
    Mas a alegria lhe durou pouco j que outro brilho, ainda mais brilhante que os anteriores, atravessou a habitao.
    Sua risada morreu imediatamente. Percebeu a malvola presena antes de que Julin se esticasse entre seus braos.
    Sentando-se na cama, obrigou ao Grace a ficar atrs dele e se colocou entre ela e o arrumado homem que os observava dos ps da cama. 
    Ela tragou saliva quando viu o homem alto e moreno que os olhava furioso. Estava claro que tinha todas as intenes de mat-los ali mesmo. 
    - Bastardo presunoso! -gritou o homem-. Como te atreveste a pensar que pode ser livre! 
    Imediatamente, Grace soube que estava ante o muito mesmo Prapo.
    - Deixa-o, Prapo -lhe respondeu Julin com uma nota de advertncia na voz-. J acabou tudo. 
    Prapo soprou.
    - Crie que pode me dar ordens? Quem te crie que , mortal?
    Julin sorriu com malcia. 
    - Sou Julin da Macednia, da Casa do Diocles da Esparta, filho da deusa Afrodita. Sou o Libertador da Grcia, Macednia, Tebas, Punjab e Conjara. Meus inimigos 
me conheciam como Augustus Julius Punitor e tremiam ante meu simples presencia. E voc, irmo,  um deus menor e pouco conhecido, que no significava nada para os 
gregos e ao que os romanos apenas se tomaram em conta. 
    A ira do inferno transfigurou o rosto do Prapo. 
    -  hora de que aprenda qual  seu lugar, hermanito. Tirou-me  mulher que ia dar a luz a meus filhos e que asseguraria a imortalidade de meu nome. Agora eu 
te tirarei  tua.
    Julin se jogou sobre o Prapo, mas j era muito tarde. Tinha desaparecido levando-se ao Grace.
    
    
    Captulo 17
    
    Em um abrir e fechar de olhos, Grace passou de estar sentada nua em sua habitao a encontrar-se tombada em um leito circular, situado em uma estadia que tinha
todo o aspecto de ser a loja de um harm em metade de um deserto. Estava coberta por uma pea de seda de cor vermelha intensa, to liviana e suave que se escorria
sobre sua pele como se se tratasse de gua. 
    Tentou mover-se mas no pde. Aterrorizada, abriu a boca para chiar.
    - No te incomode -lhe recomendou Prapo, aproximando-se do leito. Deslizou os olhos sobre seu corpo com um faminto olhar, justo antes de subir  cama e colocar-se 
de joelhos ao lado do Grace-. No pode fazer nada a menos que eu o deseje. -Passou-lhe um dedo, ossudo e frio, pela bochecha, como se queria comprovar a textura 
e a calidez de sua pele-. Entendo por que te deseja Julin. Tem fogo no olhar. Inteligncia. Valor.  uma pena que no tenha nascido na poca do Imprio Romano. 
Poderia me haver proporcionado inumerveis campees que liderassem meus exrcitos. 
    Prapo suspirou enquanto sua mo descendia at o oco da garganta do Grace.
    - Mas assim  a vida e assim so os caprichos das Parcas. Suponho que terei que me conformar te utilizando at que me canse de ti. Se me agradar at que chegue 
esse momento, pode que depois permita que Julin fique contigo. No caso de que te siga querendo depois de que meus filhos tenham quebrado seu corpo. 
    Seus olhos ardiam de desejo, e Grace no podia deixar de tremer sob seu escrutnio.
    O egosmo do Prapo lhe resultava incrvel. Ao igual a sua vaidade. Aterrorizada, quis falar, mas ele o impediu.
    Cu santo! Tinha poder absoluto sobre ela!
    Uma fora invisvel a elevou para coloc-la de costas sobre os almofades enquanto Prapo se tirava a tnica. 
    Os olhos do Grace se abriram como pratos ao lhe ver nu e com uma ereo completa. O terror a assaltou de novo.
    - Agora pode falar -lhe disse enquanto se aproximava para recostar-se junto a ela.
    - por que quer fazer isto ao Julin?
    A ira obscureceu os olhos do deus. 
    - Que por que? J o escutou. Seu nome era reverenciado por tudo aquele que o escutava, enquanto que o meu apenas se se pronunciava at nos templos de minha me. 
Inclusive agora se burlam de mim. Meu nome se perdeu na antigidade, ao contrrio que sua lenda, que se conta uma e outra vez ao longo e largo do mundo. Mas eu sou 
um deus e ele no  outra coisa que um bastardo a quem nem sequer lhe est permitido habitar no Olimpo. 
    - Aparta as mos dela. Sempre foste to intil que acabaste relegado no esquecimento. Nem sequer merece lhe limpar os sapatos. 
    O corao do Grace comeou a pulsar mais rpido ao escutar a voz do Julin. Elevou a cabea de entre os almofades e o viu justo ao p do estrado onde estavam 
eles. S levava postos os jeans e ia armado com o escudo e a espada. 
    - Como...? -perguntou Prapo enquanto descia da cama.
    Julin lhe dedicou um perverso sorriso.
    - A maldio desapareceu e estou recuperando meus poderes. Agora posso lhes localizar e lhes invocar. A qualquer de vs. 
    - No! -gritou Prapo, e imediatamente, apareceu talher por sua armadura. 
    Grace lutou por livrar-se daquela fora que a mantinha imobilizada enquanto Prapo agarrava sua espada e seu escudo, situados na parede em que se apoiava o leito, 
e atacava ao Julin. 
    Hipnotizada pelo espetculo, observou como lutavam os dois irmos.
    Jamais tinha visto nada semelhante. Julin girava agilmente, como se estivesse executando uma macabra dana que devolvesse os golpes do Prapo, um por um. O 
cho e a cama tremiam pela intensidade da luta. 
    No era de sentir saudades que Julin tivesse chegado a ser um personagem legendrio.
    Mas depois de uns minutos, viu como se cambaleava e baixava o escudo.
    - O que te passa? -burlou-se seu irmo, utilizando o escudo para empurr-lo-. Ah, esquecia-o! Pode que a maldio tenha desaparecido, mas ainda est debilitado. 
Demorar dias em recuperar toda sua fora.
    Julin meneou a cabea e elevou o escudo. 
    - No necessito toda minha fora para acabar contigo.
    Prapo riu.
    - Valentes palavras, hermanito. -E baixou a espada, que se estrelou diretamente sobre o escudo do Julin. 
    Grace conteve o flego enquanto observava como os golpes comeavam de novo. 
    Justo quando pensava que Julin ia ganhar, Prapo utilizou uma ttica para desestabiliz-lo: deixou que ganhasse terreno. logo que Julin perdeu o amparo da 
parede em um de seus flancos, Prapo blandi a espada e a afundou no ventre de seu irmo. Julin deixou cair sua espada. 
    - No! -chiou Grace, aterrada.
    Com o rosto transfigurado pela incredulidade, Julin se cambaleou para trs, mas no pde ir muito longe com a espada do Prapo afundada em seu corpo e seu irmo 
ainda sustentando-a. 
    - Volta para ser humano -lhe espetou enquanto afundava a espada um pouco mais e retorcia a folha. Levantou um p para apoi-lo no quadril do Julin e lhe deu 
uma patada.
    Livre da espada, Julin trastabill e caiu. Seu escudo ressonou com fora ao golpear o cho, justo a seu lado. 
    Prapo no deixou de rir enquanto se aproximava do Julin.
    -  possvel que nenhuma arma humana possa acabar contigo, hermanito, mas no  imune a uma arma imortal. 
    A fora que imobilizava ao Grace despareci nesse instante, liberando-a. To rpido como pde, cruzou a habitao at chegar junto ao Julin, que jazia em um 
atoleiro de sangue. Respirava de forma laboriosa e no deixava de tremer.
    - No! -soluou Grace enquanto sustentava sua cabea no regao. Contemplava, horrorizada, a ferida aberta em seu flanco.
    - Meu preciosa Grace -disse Julin, enquanto elevava uma mo ensangentada para lhe roar a bochecha.
    Ela limpou o sangue que emanava de seus lbios.
    - No me abandone, Julin -rogou.
    Ele fez uma careta de dor, deixou cair a mo e lutou por respirar.
    - No chore por mim, Grace. No o mereo.
    - Sim o merece!
    Ele negou com a cabea e entrelaou seus dedos com os dela.
    - foste minha salvao, Grace. Sem ti, jamais teria conhecido o que  o amor. -Tragou e se levou a mo ao corao-. E nunca teria tornado a ser quem fui. 
    Grace observou como a luz desaparecia de seus olhos.
    - No! -voltou a gritar, embalando sua cabea sobre o peito-. No, no, no! No pode morrer. Assim no. Ouve-me Julin?! Por favor... No v! Por favor!
    Abraou-o com fora enquanto a agonia que invadia seu corao e sua alma brotava em forma de lgrimas. 
    - No! -ressonou com ferocidade atravs da estadia, fazendo que as paredes tremessem. 
    Grace viu que a cor abandonava o rosto do Prapo ao escutar o chiado. escutou-se um trovo e, em metade de um brilhante brilho de luz, apareceu Afrodita diante 
dela. Seu rosto estava contrado como reflexo da indescritvel agonia que sofria ao contemplar o corpo exangue e frio do Julin.
    Incapaz de assimilar o que tinha diante, olhou furiosa ao Prapo.
    - O que tem feito? -perguntou-lhe.
    - Foi uma briga justa, me. Ou ele ou eu. No tinha outra opo. 
    Afrodita deixou escapar um grito agnico diretamente desde seu corao. 
    - Invoquei a ira do Zeus e a das Parcas para conseguir sua liberdade. Quem demnios crie que  para fazer isto? -Olhou ao Prapo como se sua mera presena lhe 
provocasse nuseas-. Era seu irmo!
    - Era seu bastardo, mas nunca foi meu irmo.
    Afrodita gritou de fria.
    - Como te atreve!
    Quando a deusa olhou de novo ao Julin, Grace viu a dor que refletiam seus olhos.
    - Meu precioso Julin -soluou a deusa-.  Jamais devi lhes permitir que lhe fizessem mal. Doce Citera! aonde me levou meu egosmo? -Caiu de joelhos a seu lado-. 
Deixei sozinho quando devia ter estado contigo para te proteger. 
    - Vamos, me, deixa-o j! -disse Prapo, como se a aflio de sua me tivesse conseguido aborrec-lo-. Julin te conhecia, igual a lhe conhecemos ns do comeo 
dos tempos; no pensa mais que em ti mesma e no que outros devem fazer por ti.  sua natureza. E, ao contrrio que Julin, todos a aceitamos faz eones. 
    Afrodita no se tomou muito bem essas palavras. De fato, seu rosto se converteu em uma mscara de granito e ficou em p com toda a dignidade e a elegncia que 
se espera de uma deusa.
    Arqueou uma sobrancelha e olhou ao Prapo.
    - H dito que foi uma luta justa? Bem, tenhamos uma luta justa. Est de acordo? Tnatos ainda no reclamou sua alma. Ainda no  muito tarde. Quo nico necessitamos 
para devolv-lo  vida  que seu corao comece a pulsar de novo.
    Grace sentiu uma repentina quebra de onda de calor atravessando o corpo inerte do Julin.
    tornou-se para trs e observou como um aura dourada o rodeava enquanto a ferida de seu flanco se fechava por si s e os jeans se desintegravam, sendo substitudos 
por umas grebas de ouro e umas sandlias. O resplendor dourado subiu at cobrir seu peito que, imediatamente, ficou oculto  vista por uma antiga armadura dourada, 
esculpida com couro vermelho, e uma tnica. Sobre os braos apareceram umas largas tiras de couro marrom. 
    O tintura azulado desapareceu de seu rosto.
    De repente, tomou uma profunda baforada de ar que fez que todo seu corpo se estremecesse, e abriu os olhos, olhando ao Grace com aquele sorriso que conseguia 
lhe derreter at a alma. 
    Ela se mordeu os lbios enquanto a felicidade a transpassava. Estava vivo!
    - Que diabos passa aqui? -rugiu Prapo.
    Sobre eles apareceu uma mulher, flutuando plcidamente. Seu cabelo negro lanava brilhos enquanto olhava com fria ao Prapo. 
    - Como muito bem h dito sua me, j  hora de que contemplemos uma luta justa, Prapo. Levamos atrasando-a muito tempo e, esta vez, no haver nenhuma Alexandria 
que distraia ao Julin e lmpida que leve a cabo sua vingana.
    - O que? -perguntou Afrodita-. Ateneu, o que est dizendo?
    - Estou dizendo que foi ele quem a enviou intencionadamente para distrai-lo, enquanto ia a refugiar-se a seu templo por temor  fria do Julin. 
    Pela cara do Prapo, Grace soube que era verdade. O deus curvou os lbios em um rictus furioso.
    - Ateneu, puta traioeira! Sempre o mimou.
    Ateneu riu enquanto se desvanecia no ar para voltar a aparecer junto  Afrodita. 
    - Ningum o mimou nunca. Isso o converteu no melhor guerreiro que jamais saiu das filas espartanas; e isso  o que vai ajudar lhe a te dar uma boa patada no 
culo neste momento. 
    Julin ficou em p. O carrancudo olhar com a que enfrentava ao Prapo conseguiu que Grace sentisse um sbito calafrio.
    Afrodita se moveu at ficar entre seus dois filhos e, quando elevou o olhar para o Julin, Grace viu que seus olhos estavam cheios de orgulho.
    - Esta  a segunda vez que te dou a vida, Julin. Arrependo-me de no ter sido a me que necessitou a primeira vez. No tem nem idia do muito que desejaria 
poder trocar o passado. Quo nico posso fazer agora  te dar meu amor e minhas bnes. -Afrodita olhou por cima do ombro, procurando os olhos do Prapo-. E agora 
lhe d uma boa patada no culo a este malcriado. 
    - Me! -choramingou Prapo.
    Julin olhou a seu irmo e balanou a espada ao redor de seu corpo enquanto se aproximava dele.
    - Est preparado?
    Prapo atacou sem avisar. Mas tampouco  que importasse muito. 
    Grace ficou boquiaberta ao v-los lutar. Se antes tinha pensado que Julin era um bom guerreiro, agora sua destreza era imensamente superior. 
    movia-se com uma agilidade e uma velocidade que jamais teria acreditado possveis.
    Ateneu ficou a seu lado. Elevou um brao e roou ligeiramente a seda com a que se envolvia.
    - Bonito vestido.
    Grace a olhou com o cenho franzido pela incredulidade.
    - Esto lutando a morte e voc te dedica a estudar como vou vestida?
    Ateneu riu.
    - Confia em mim; sempre escolho com muito cuidado de meus generais. Prapo no tem nenhuma possibilidade frente a Julin.
    Grace voltou a dirigir sua ateno aos homens no mesmo instante que Julin golpeava ao Prapo com seu escudo. O deus perdeu o equilbrio, cambaleou-se e Julin 
aproveitou para lhe afundar a espada no flanco.
    - te apodrea no Trtaro, bastardo -disse Julin com desdm enquanto o corpo do Prapo se desintegrava entre brilhos multicoloridos.
    Grace correu para ele.
    Julin jogou em um lado a espada e o escudo, e a elevou em braos para girar com ela ao redor da estadia. 
    - Est vivo! Verdade que sim? -perguntou-lhe.
    - Sim, estou-o.
    Grace se deixou cair sobre ele. Julin a baixou, deslizando-a muito lentamente sobre sua armadura centmetro a centmetro, at que seus ps se apoiaram sobre 
o cho e reclamou seus lbios com um beijo. 
    Grace escutou que algum se esclarecia garganta.
    - me desculpe, Julin -disse Ateneu, ao ver que no soltava ao Grace-. Deve tomar uma deciso. Quer que envie a casa ou no?
    Grace se ps-se a tremer.
    Julin a olhou de forma abrasadora e acariciou com muita suavidade sua bochecha como se estivesse saboreando o tato de sua pele.
    - S conheci um lar em todos os sculos de minha existncia.
    Grace se mordeu o lbio enquanto os olhos lhe enchiam de lgrimas. ia abandonar a nesse mesmo momento. Deus santo, s rogava ter a fora necessria para suportar 
a dor. 
    Julin se inclinou e lhe beijou a frente.
    - E  com o Grace -sussurrou sobre seu cabelo-. Se ela me aceitar. 
    Grace ps os olhos em branco; sentia-se to aliviada que tinha vontades de gritar e rir de uma vez, mas sobre tudo queria abra-lo e ret-lo junto a ela para 
sempre.
    - Jesus, Julin! -exclamou com uma apatia totalmente falsa-. No sei... Ocupa toda a cama, e leva uns boxers espantosos... Crie que vou poder suport-lo? Se 
voltar comigo teremos que fazer que desapaream. E nada de voltar a deitar-se com os jeans postos de noite; raspam-me as pernas. 
    Ele soltou uma gargalhada.
    - No se preocupe. Para o que tenho em mente, o nudismo vem muito melhor.
    A risada do Grace se uniu  sua enquanto Julin tomava a cara entre as mos.
    Ao tentar beij-la, ela se afastou de forma brincalhona.
    - Ah, por certo! Esta  sua armadura?
    Ele a olhou carrancudo.
    - A mesma; ou ao menos o era.
    - Podemos ficar a Jams permitira que volviese a marcharse.
    - Se voc quiser... por que?
    - Porque... Mmm carinho -ronronou Grace lanando um olhar lascivo sobre seu fantstico corpo-, fica de morte. Se lhe puser isso, prometo-te que passar um bom 
momento na cama cinco ou seis vezes ao dia. 
    Ateneu e Afrodita riram ao unssono.
    
    Apareceram na habitao do Grace com outro daqueles brilhos cegadores; exatamente na mesma posio que se encontravam quando Prapo apareceu.
    - N! -exclamou Grace zangada-. Onde est a armadura?
    Apareceu sbitamente junto com o elmo, a espada e o escudo, em um rinco do dormitrio.
    - J est contente? -perguntou-lhe Julin enquanto a acomodava sobre seu peito.
    - Delirante de felicidade.
    Elevou a cabea e a beijou de tal forma que Grace se estremeceu da cabea aos ps e gemeu ao sentir a calidez de sua boca sobre a sua. Ao sentir seu corpo baixo 
ela.
    Jamais permitiria que voltasse a partir.
    - Por certo...
    Julin se separou dos lbios do Grace com um grunhido e elevou o lenol com rapidez para tamp-los a ambos com ela.
    Grace a apertou com fora  altura do queixo.
    - Ateneu -disse Julin-, pensa seguir nos interrompendo?
    A deusa no parecia envergonhada no mais mnimo enquanto se aproximava da cama. Levava uma caixa dourada nas mos.
    - Bom,  que me esqueceu lhes dar uma coisa.
    - O que? -perguntaram ao unssono com soma irritao.
    antes de que Ateneu pudesse responder, apareceu Afrodita.
    - J o tenho -disse a Ateneu antes de lhe tirar a caixa das mos.
    Ateneu se desvaneceu.
    Afrodita se aproximou da cama, deixou a caixa ao lado do Julin e a abriu.
    - Se for ficar nesta poca, necessitar vrias coisas: um certido de nascimento, um passaporte, uma permisso de residncia... -Afrodita olhou o carto verde 
e franziu o cenho- No, espera, isto no o necessita. -E ento olhou ao Grace-. Ou sim?
    - No, senhora. 
    Afrodita sorriu enquanto o carto se evaporava.
    - Tambm h um carn de conduzir mas, se aceitar um conselho maternal, deixa que seja Grace quem se encarregue do carro. No lhe leve a mal, mas  um completo 
desastre ao volante. -E suspirou-.  uma pena que no tenhamos um deus para essas questes. Mas o que lhe vai fazer. -Fechou a caixa e a ofereceu a seu filho-. Aqui 
tem; pode lhe jogar uma olhada logo.
    Quando Afrodita comeava a afastar-se, Julin se incorporou na cama e a agarrou da mo.
    - Obrigado por tudo, me.
    A deusa o olhou com os olhos cheios de lgrimas e lhe deu uns tapinhas na mo.
    - Sinto muitssimo no me haver informado do que ocorreu a seus filhos at que foi muito tarde. No tem idia do muito que me arrependo de no hav-lo descoberto 
at depois de que Tnatos reclamasse suas almas. 
    Julin lhe deu um aperto carinhoso. 
    - Chamar-me se necessitar algo? -perguntou a deusa.
    - Chamarei-te embora no necessite nada.
    Afrodita se levou a mo do Julin aos lbios e a beijou enquanto seus olhos se cravavam no Grace para, imediatamente, voltar de novo para seu filho. 
    - Quero seis netos. Como mnimo.
    - N! -exclamou Grace tirando da caixa um ttulo universitrio-. Lhe deste um ttulo de Licenciado em Histria Antiga? E do Harvard?
    Afrodita assentiu com a cabea.
    - Tambm h um de Lngua e Cultura Clssicas. -Olhou ao Julin-. No estava segura do que quereria fazer, por isso deixei que voc seja quem escolhe.
    - Podemos us-los de verdade? -perguntou Grace.
    - claro que sim. Se miras um pouco mais abaixo encontrar seu certificado de notas. 
    Grace o fez e ao olh-lo ofegou.
    - No  justo, s h matrculas de honra!
    -  obvio -resmungou Afrodita, um pouco indignada-. Meu filho jamais ser um segundn. -Sorriu-. No me incomodei em fazer um certificado de matrimnio. Supus 
que quereriam lhes encarregar disso pessoalmente. E logo que Julin dita qual ser seu sobrenome, aparecer em todos os documentos. -A deusa rebuscou sob os papis 
e tirou uma caderneta bancria-. Por certo, converti o dinheiro que tinha na Macednia em dlares para que possa us-lo aqui. 
    Grace abriu a caderneta e ficou com a boca aberta.
    - Jesus, Mara e Jos!  asquerosamente rico! 
    Julin riu a gargalhadas.
    - J lhe disse isso, me dava muito bem o de conquistar.
    Afrodita alargou uma mo e o livro onde Julin tinha estado apanhado apareceu entre seus braos.
    - Tambm pensei que voc gostaria de procurar um lugar seguro onde guardar isto.
    Julin ficou boquiaberto enquanto agarrava o livro das mos de sua me. 
    - Est-me encarregando a custdia do Prapo?
    Afrodita se encolheu de ombros. 
    - Matou-te. No podia deixar que partisse sem castig-lo de algum modo. Acabar saindo se for um bom menino. 
    Grace quase se sentia causar pena pelo pobre Prapo.
    Quase.
    Afrodita se inclinou e beijou ao Julin na bochecha.
    - Sempre te quis. Mas no soube como demonstr-lo.
    Ele assentiu com a cabea.
    - Suponho que isso est acostumado a acontecer quando sua me  uma deusa. No pode esperar festas de aniversrio e comidas caseiras. 
    - Isso  certo, mas te dei muitos outros presentes que a sua noiva parecem lhe gostar de muitssimo. 
    - Falando disso -a interrompeu Grace, repentinamente assaltada por um pensamento-, no podemos nos desfazer de esse que faz que as mulheres se sintam atradas 
por ele como por um m?
    A deusa a olhou com uma expresso divertida.
    - Menina, olhe bem a este homem. Que mulher em seu so julgamento no o quereria em sua cama? Teria que as deixar cegas a todas ou fazer que Julin engordasse 
e ficasse calvo.
    - Deixa-o, no importa. Acabarei me acostumando.
    - Isso acredito eu. 
    Afrodita desapareceu depois do comentrio.
    Julin envolveu ao Grace entre seus braos e a aproximou dele de novo.
    - Est dolorida?
    - No, por que?
    - Porque tenho a inteno de me passar o dia inteiro te fazendo o amor.
    Lhe mordiscou o queixo.
    - Mmm, eu gosto dessa idia...
    Julin a beijou.
    - Ah, espera! -exclamou afastando-se de seus lbios.
    Grace franziu o cenho enquanto Julin saa da cama para agarrar livro, jog-lo no corredor e fechar a porta depois. 
    - O que est fazendo? -perguntou-lhe ela.
    Julin voltou para a cama com seu caracterstico andar lento e gil que a deixava sem flego e conseguia acend-la. Subiu ao leito com a mesma graa que um animal 
selvagem, nu e sigiloso, e percorreu seu corpo com um olhar luxurioso e ardente. 
    - Pode escutar tudo o que dizemos. E, pessoalmente, no quero o ter ao lado enquanto fao isto.
    Grace ofegou quando Julin a ps de flanco, aproximando-a a ele. 
    - Ou isto -seguiu ele, deslizando uma mo entre suas coxas e acariciando-a com mos peritas.
    Se acurruc contra as costas do Grace.
    - E sobre tudo, no quero que escute isto.
    Enterrou seus lbios no pescoo do Grace enquanto deslizava a mo pelo interior de suas coxas para lhe separar as pernas e introduzir-se nela at o fundo.
    Grace gemeu de satisfao.
    - estive te esperando dois mil anos, Grace Alexander -lhe sussurrou ao ouvido-, e cada segundo de espera mereceu a pena. 
    
    
    Eplogo
    
    Um ano depois
    
    Julin abriu a porta da habitao do hospital. junto a sua me e a Selena, entrou sem fazer rudo, j que no queria incomodar ao Grace se estava descansando. 
    O medo o atendeu ao v-la tombada na cama. Seu aspecto o aterrorizava, estava muito plida e parecia indefesa. No podia suportar v-la a si.
    Ela era sua fora. Seu corao. Sua alma. Tudo o que era bom na vida.
    A idia de lhe perd-la resultava insuportvel.
    Grace abriu os olhos e lhes sorriu.
    - Ol -disse em um sussurro.
    - Ol bonita! -respondeu-lhe Selena-. Que tal est?
    - Exausta, mas muito bem.
    Julin se inclinou e a beijou.
    - Necessita algo?
    - Tenho tudo o que sempre desejei -lhe respondeu ela com o rosto radiante.
    Lhe sorriu.
    - Bom, onde esto meus netos? -perguntou Afrodita.
    - Os levaram para pes-los -respondeu Grace.
    E, como se as tivessem chamado, as enfermeiras entraram nesse instante empurrando os beros. Comprovaram os braceletes do Grace e os dos bebs e saram em silncio. 
    Julin se apartou do lado do Grace o justo para agarrar em braos a seu filho com muito cuidado. A alegria o alagou ao embalar ao diminuto beb. Grace lhe tinha 
dado muito mais do que jamais imaginou que teria. E muito mais do que se merecia.
    - Este  Niklos James Alexander -disse enquanto o depositava em braos da Afrodita para agarrar a sua filha-. E esta  Vanessa Anne Alexander -e a colocou sobre 
o outro brao de sua me. 
    Os lbios da Afrodita comearam a tremer quando olhou a sua neta. 
    - Puseste-lhe meu nome?
    - Os dois quisemos lhe faz-lo disse Grace.
    As lgrimas brotaram dos olhos da deusa enquanto contemplava a seus dois netos.
    - a de presentes que tenho para vs!
    - Mame! -interrompeu-a Julin com brutalidade-. Por favor, nada de presentes. Seu amor ser suficiente. 
    A deusa se limpou as lgrimas e soltou uma gargalhada.
    - De acordo. Mas se trocarem de opinio, digam-me isso - Qu? -pregunt ella con fingida inocencia-. No me digas que quieres que lo libere! Ya te lo dije, 
lo har cuando aprenda la leccin...
    Grace observou ao Julin enquanto este acariciava a cabea pelada do Niklos. No o teria acreditado possvel mas, nesse momento, amava-o ainda mais que antes.
    Cada dia passado junto a ele tinha sido uma bno. 
    - Ah, por certo! -exclamou Selena enquanto agarrava a Vanessa dos braos da Afrodita-. Fui ontem  livraria e Prapo no estava. Faz uns dias que houve lua enche. 
Algum quer apostar a que nestes momentos est praticando sexo selvagem e desenfreado com algum?
    Todos riram.
    Exceto Julin.
    - Passa-te algo? -perguntou-lhe Grace.
    - Suponho que me sinto um pouco culpado. 
    - Culpado?! -exclamou Selena com incredulidade-. Pelo Prapo?
    Julin assinalou com um gesto ao Grace e aos meninos.
    - Como poderia lhe guardar rancor? Sem sua maldio jamais lhes teria a nenhum de vs. Foi uma pesadez mas devo admitir que mereceu a pena. 
    Todas as olhadas se cravaram, espectadores, na Afrodita.
    - O que? -perguntou ela com fingida inocncia-. No me diga que quer que o libere! J lhe disse isso, farei-o quando aprender a lio...
    Selena meneou a cabea.
    - Pobre tio Prapo -disse dirigindo-se a Vanessa-. Mas foi um menino muito, muito mau.
    A porta se abriu nesse instante e uma enfermeira apareceu, indecisa.
    - Doutor Alexander? -dirigiu-se ao Julin-, h um casal aqui fora que dizem ser familiares deles. Eles... mmm... -baixou a voz at falar em um murmrio- so 
moteros. 
    - N, Julin! -chamou-o Eros desde detrs da enfermeira-. lhe Diga a Atila o Huno que somos de confiar para que possamos entrar em babar sobre os bebs. 
    Julin soltou uma gargalhada.
    - Est bem, Trish -lhe disse  enfermeira-.  meu irmo.
    Eros fez uma careta zombadora ao Trish enquanto entrava na habitao junto a Psique.
    - Que algum me recorde que tenho que lhe disparar uma flecha da m sorte ao sair -comentou enquanto a enfermeira fechava a porta.
    Julin o olhou com uma sobrancelha arqueada.
    - Tenho que te confiscar de novo o arco?
    Eros lhe respondeu com um gesto grosseiro e se aproximou da Selena para tomar em braos a Vanessa. 
    - Ooooh! Mida rompecorazones que vais ser. Arrumado a que vais ter a montes de meninos correndo detrs de ti. 
    Julin perdeu a cor do rosto e olhou a sua me.
    - Mame, h um presente que eu gostaria de te pedir.
    Afrodita o observou, esperanada.
    - Importaria-te falar com o Hefesto para que fizesse um cinturo de castidade apropriado para a Vanessa?
    - Julin! -balbuciou Grace com uma gargalhada.
    - No teria que lev-lo durante muito tempo; s trinta ou quarenta anos.
    Grace ps os olhos em branco. 
    - Menos mal que tem a sua mame -disse ao beb que Eros sustentava-, porque seu papai no  nada divertido.
    Julin elevou uma sobrancelha com um gesto arrogante.
    - Que no sou divertido? -repetiu-. Divertido... isso no  o que disse o dia que concebeu a estes dois...
    - Julin! -exclamou Grace com o rosto avermelhado. Mas j fazia tempo que sabia que era incorrigvel.
    E o amava tal e como era. 
    
    Fim
    
     Doutora Ruth: Conhecida sexloga americana, famosa por seus programas de conselhos em rdio e televiso. (N. da T.)
      Hee Haw: Comdia de humor protagonizada por um burro feito por animao, chamado Hee Haw, e ambientada em uma granja. (N. da T.)
      Tulane: Universidade situada em Nova Orlens. (N. da T.)
     Beca Rhodes: Beca outorgada a um estudante sobressalente para estudar na Universidade de Oxford, Inglaterra. (N. da T.)
     Mary Todd Lincoln: Esposa do Abraham Lincoln, declarada louca em 1872 por seu estranho comportamento. (N. da T.)
     Cajun Jumbo: Prato tpico de Nova Orlens, muito picante. (N. da T.)

     Alpo: Marca de comida enlatada para ces. (N. da T.)
      Diamante Marquise: Diamante esculpido em forma romboidal. (N. da T.)
     Agapimeni: Querida, meu amor em grego clssico. (N. da T.)
     Jackson Brewery: Centro Comercial de Nova Orlens, situado no Bairro Francs, muito freqentado pelos turistas. (N. da T.)
     Hubris: arrogncia, orgulho excessivo. (N. da T.)
     Praline: doce tpico de Nova Orlens em forma de barrita ou bolacha. (N. da T.)
     Trtaro: Na mitologia grega o Inferno, o inferno. (N. da T.)
     Hard Rock significa rocha dura. (N. da T)
     Hoplita: Soldado grego de infantaria. (N. da T.)
     Adelfos: Irmano em grego. (N. da T.)
     Hot Blooded: de sangue quente em ingls. (N. da T.)
     Love Hurts: o amor faz mal. (N. da T.)
     Martha Stewart: Conhecida decoradora, diretora de vrias publicaes de conselhos para o lar. (N. da T.)
     Zydeco: Estilo musical prprio de Nova Orlens. (N. da T.)
     Cheez Whiz: Conhecida marca de queijo para lubrificar nachos. (N. da T.)
     Reddi-wip: Conhecida marca de nata montada. (N. da T.)
    
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